Diário de uma aparelhada

Segunda-feira

Enfim, botei aparelho nos dentes! Não sei por que não fiz isso antes. Há tempos que isso deixou de ser tão caro. E não tem mais aquele preconceito de que é coisa para adolescente. Um sorriso bonito está ao alcance de todos. Assim que cheguei do dentista, tive um bom presságio para inaugurar minha nova fase de vida: um passarinho veio cantar na varanda. O dentista falou que talvez eu tenha que usá-lo por uns três anos. Não há pressa. Três anos passam tão rápido.

Terça-feira

Hoje o aparelho está incomodando. Nada demais, mas dói na hora de mastigar. A boa notícia é que ando menos gulosa. O aparelho vai me ajudar a entrar num 38, escreve aí. Também não dá para roer o esmalte, como eu fazia. Tudo tem um lado bom. Gastei uma fortuna, adquirindo o arsenal ortodôntico: escova especial, refil para escova especial, escovinha para limpar entre os dentes, refil para escovinha, passador de fio dental, cera para os braquetes não machucarem a boca por dentro. Nunca tinha reparado nessa seção nas farmácias. Só despesa. E dor.

Quarta-feira

Descobri que não posso mais comer maçã como sempre fiz, às bocadas. Preciso cortá-la em pedacinhos, senão arrebento o aparelho. Parece que tem sempre uma maçã protagonizando a história da humanidade. Se Eva usasse aparelho, pode crer, não estaríamos aqui. O passarinho voltou. Fez um monte de cocô na minha varanda, o infeliz.

Quinta-feira

Os braquetes já fizeram um bom estrago. Vou mudar meu nome para Silmarafta Franco. Ou Silmara das Dores. Meu status agora é: em um relacionamento complicado com o fio dental. Se tenho compromisso depois do almoço, já ligo avisando que vou atrasar. Quando assumi os cabelos brancos, as pessoas falavam comigo olhando para a minha testa. Agora, de aparelho, as pessoas falam comigo olhando para a minha boca. Estou pensando em vender espaço publicitário na minha cabeça.

Sexta-feira

Passo os dias na base de sopa e mingau, tenho calafrios só de pensar em morder pão Pullman. Aquele passarinho idiota voltou a cantar na varanda. Ele canta, claro, porque não tem dentes. Da próxima vez, solto os gatos. Semana que vem tem consulta. Preciso ver com o dentista quando é que tiro esta porcaria.

Não vou de bike

Bicicletas de Parati/RJ, arquivo pessoal
Bicicletas de Parati/RJ, arquivo pessoal

Não tenho relação de amor com as bicicletas.

Elas não povoam minhas memórias com recordações do tipo “a primeira vez que andei sem rodinhas”. Nunca escrevi bilhetinho “Cadê minha Caloi?” para meus pais. Reajo com indiferença às campanhas que pedem ao cidadão para deixar o carro em casa e ir de bicicleta; não estão falando comigo.

Sei que, por conta disso, falta à minha formação humana um componente essencial. Não pedalo, logo, não existo.

Se até ETs andam de bicicleta e emocionam gerações, deve mesmo ser uma coisa muito legal. Pena que não descobrirei isso nesta vida. (Embora tenha chorado – e chore sempre – naquela cena do filme.)

Quando criança, tive um triciclo. Apesar de substantivo masculino, cismei que era menina e batizei-a de Crondiana, por razões que minha própria razão desconhece. Brinquei bastante com ela pela vila onde morávamos, grande o bastante (aos meus olhos infantis) para minhas supostas manobras radicais. Eu gostava, mas não amava. Não sei que fim levou Crondiana.

A paixão humana (quase uma obsessão) pelo icônico meio de transporte rende. É música (repare o tanto de letra falando de bicicleta), museu próprio, plataforma de governo em metrópoles mundo afora, estilo de gol. Estampa de camiseta nem se fala. Tem doido que viaja por uma dúzia de países só em cima da magrela. Tem doido que mata (ou morre) por causa de uma.

Depois da Crondiana, tive poucas bicicletas. Duas ou três. Nem nome ganharam, pereceram encostadas nos quintais. E, contrariando o dito popular, eu esqueci, sim, como se anda.

A verdade é: nunca aprendi a andar direito. Se Deus escreve certo por linhas tortas, quando o assunto é bicicleta eu ando torto até por linhas certas. Intermináveis aclives, aterrorizantes declives, trechos acidentados? Oh suplício. Nem vinte e uma marchas ajudam um corpo preguiçoso e, por natureza, sem talento para equilíbrio.

Saber andar de bicicleta – e fazê-lo regularmente – é o passe para a socialização em algumas tribos urbanas, que sequer aceitam analfabetos ciclísticos. Apenas ser a favor das ciclovias não basta. O não-adepto acaba excluído das conversas, dos passeios, sofre bullying.

É confessar que não pedalo, que não tenho “bike”, e logo se forma uma rodinha em torno de mim, a estranha. Determinados a investigar desde como foi minha infância até minha orientação política os algozes podem, em casos extremos, obrigar-me a demonstrar minhas inabilidades ali mesmo. Fugir – a pé, de carro ou ônibus – é a única solução.

Não vou de bike e zéfini.

Os Crocs novos do meu pai

Meu pai só anda de Crocs.

Depois que descobriu o calçado que não o deixa escorregar nem em chão de ladrilho ensaboado, Seu Tonico nunca mais quis saber de outra coisa. Dia e noite, noite e dia. Primavera, verão, outono e inverno. Casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos? Crocs. E, apesar de ter outros exemplares, há o eleito.

Teoricamente indestrutíveis, os Crocs do velho Tonico contrariaram as previsões e ficaram mais gastos que pneu careca. Andou levando uns tombos, nada bom para quem tem oitenta e três anos. “Vamos comprar outro, pai?”. Declinou o convite o quanto pode; não era necessário, os deles estavam “tão novos”.

Foi difícil convencê-lo. Aliás, anda difícil convencê-lo de muitas coisas, ultimamente. De atualizar a dentadura, de afrouxar o cinto (um medo inexplicável de que as calças desabem). Na velhice, ou se convence de tudo, ou se convence de nada. Nada importa, tudo importa ou importa de um jeito diferente do senso comum.

Meu pai foi sapateiro na juventude. Primeiro emprego quando chegou a São Paulo, anos cinquenta. Alguém lhe arrumara trabalho em uma fábrica – Calçados São José, ele nunca esqueceu. Assim como ainda se lembra dos termos que envolvem seu feitio: cabedal, balancim, cambrê. Ganhasse hoje um pedaço de couro e solados de borracha, talvez confeccionasse os próprios chinelos. (Que seriam inúteis, ele não usa chinelos. Só Crocs.)

Por conta da antiga profissão, meu pai não é freguês comum e costuma dar uma aula de sapataria aos vendedores. No dia de ganhar os Crocs novos, ele pôs a vendedora doida. Não deixou a mocinha ajudá-lo a calçar, pois ela não estava fazendo aquilo direito.  Explicou a engenharia da peça, discorreu sobre como se escolhe um calçado novo, a distância correta entre o fim do dedão e o limite do sapato. Experimentou vários modelos, deu voltinha na loja, analisou e deu o veredito: “Gostei deste”. A equipe da loja, compadecida, respirou aliviada.

“Já vai com ele, pai!”. E, para não correr o risco de ele voltar a usar os Crocs gastos, inventamos que a loja dava cinquenta por cento de desconto se ele deixasse o par velho para reciclagem. A vendedora entrou na onda e também tentou persuadi-lo. Não funcionou: ou ele levava seus amados Crocs para casa, ou nada feito.

Como pais rendidos diante da birra de seu rebento (porque toda história se inverte, um dia), cedemos: “Tá bom, pai. Leva.” E lá foi ele, feliz da vida, carregando seus velhos e fiéis companheiros nos braços, os novos companheiros nos pés. Que ninguém chegasse perto da sua sacola; Seu Tonico rosnava.

Desde aquele dia, os Crocs novos estão no armário, ao lado dos velhos. Não saem de lá nem para buscar o jornal. Acabou pegando emprestado de alguém outros Crocs, usados, feiosos. E é com esses que ele agora vai pra cima e pra baixo: casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos. Se lhe perguntam onde os arrumou, ele diz que ganhou. E mostra, orgulhoso, o solado antiderrapante.

Quem derrapa sou eu, na paciência.

Mas meu pai está feliz. Então eu também vou ficar.

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Nota: para quem quiser saber mais de Seu Tonico: https://fiodameada.wordpress.com/2014/04/25/meu-pai/

Crônica de minuto #59

Quando eu era pequena, meu pai nunca mandava a gente colocar o cinto de segurança no carro. Porque ninguém usava cinto de segurança naquela época. Os carros vinham equipados, mas era um acessório inútil, condenado a permanecer intacto, enroladinho, exatamente como saíra da fábrica. O quanto viajamos no Fusquinha, todos tão soltos.

Quando meu pai entra no meu carro eu preciso, invariavelmente, pedir para ele colocar o cinto de segurança. Ele, que já foi motorista de táxi, nunca se lembra. Porque nunca usou. E sempre se atrapalha. Eu sempre fico irritada e tenho de ajudá-lo. Ele sempre reclama que o cinto deve estar com problema. Eu sempre peço a Deus que me dê paciência com quem tantas vezes me levou passear de carro.

Hoje eu sei o real significado dos três pontos dos cintos. Pai, filha e Espírito Santo.

Amém.

Cupidagem de supermercado

É desses supermercados que colocam um formulário no caixa, para que as pessoas indiquem produtos que, na opinião delas, estejam faltando. De geleia de pimenta à coleira, os fregueses vão anotando o que gostariam de ver nas prateleiras.

Na hora à toa, quando já coloquei toda minha compra sobre a esteira e aguardo a mocinha passar coisa por coisa, aproveito para me atualizar do que querem as pessoas. O leitor de preços vai cantando, pip, e eu, leitora, vou conferindo a listinha dos clientes. Às vezes o processo é demorado; ela lança a goiaba branca em vez da vermelha. Chama o supervisor (que está ocupado e vem irritadiço), ele passa seu cartão de funcionário, digita a senha, cancela o item e a goiaba branca desaparece da tela.

Na listinha de hoje, dois pedidos especiais. O freguês reclama que não encontrou a catuaba selvagem – prestem atenção: não basta ser o lendário afrodisíaco, tem que ser selvagem (oh furor!) – e a freguesa sinaliza que homem acabou.

Enquanto a mocinha do caixa digita manualmente o código da linhaça dourada, porque o leitor eletrônico resolveu encrencar, penso em sugerir ao supermercado que invista nas novas tecnologias. A listinha de produtos faltantes poderia virar um aplicativo, disponível para Android e iOS. Numa espécie de rede social com algoritmos especialmente programados, seria permitido que, fosse o caso, os fregueses pudessem contatar uns aos outros.

O freguês animadinho que pediu a catuaba poderia conhecer a freguesa solitária que relatou a falta de homem. E todos seriam felizes para sempre. Fim.

Questão de pele

Image from page 166 of “The skin, its care and treatment” (1904)

Se acaso a senhora estiver precisando de um dermatologista, de modo a sanar aquela coceira infernal, dar um jeito na queda das melenas ou exterminar uma verruga inconveniente, convém preparar-se para uma longa e ingrata jornada pelo site ou livrinho do convênio. Doses extras de paciência e compreensão serão requeridas. Nem todos – na feliz hipótese de se encontrar algum com horário livre nos próximos dois meses – irão querer saber de você.

Caspa, micose, espinha? Esqueça. É cada vez mais raro encontrar um médico que faça o arroz com feijão dermatológico.

Mês passado, recorri ao uni-duni-tê e à mentalização indiana e liguei para uma. Mal completei a frase “Gostaria de marcar…” e a recepcionista tratou de investigar qual era o meu caso. Expliquei. Ela: “A doutora não atende mais essas coisas”.

“Essas coisas”, incluindo o herpes que resolve me visitar de tempos em tempos, foram rebaixadas às frugalidades orgânicas, às patologias desprezadas, aos casos desinteressantes. É a tal medicina estética – sequer reconhecida, juridicamente, como especialidade médica – , transformando consultórios médicos em empresas de beleza. Um filão.

Sete ligações e… aleluia! Encontrei uma dermatologista que também fazia a gentileza de atender “essas coisas”. Agendei a consulta e três semanas depois (um recorde) eu, que só queria um comprimidinho bacana para me livrar da pereba semestral no nariz, deixei o consultório levando na bolsa uma folha A4, frente e verso, com uma lista de procedimentos estéticos que eu nem sabia que precisava: tratamentos por radiofrequência, peeling, laser CO2 fracionado, criolipólise e hidratantes de três dígitos (sempre importados, porque os nacionais “não prestam”), num pacote rejuvenescedor que me levaria de volta à década de 80. E uma receita de Zovirax, desanimadamente redigida.

Deprimida com a descoberta de que há mais manchas em meu rosto do que o espelho, espelho meu, mostra diariamente, tive receio de uma súbita crise herpética ali mesmo, no estacionamento, enquanto aguardava o manobrista de terno (terno!) preto e sapatos reluzentes trazer meu carro.

Eu bem que desconfiei quando me ofereceram um Nespresso assim que cheguei. Nada nesta vida é de graça. Nem injeção de Botox na testa.