Crônica de minuto #61

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“Mentalize”, Itaiana Battoni

Vi no jornal da TV, a moça do tempo está grávida. Pensei: hoje está bom para escrever um pouquinho. Temperatura mínima de duas palavras, máxima de duas mil. Pancadas de café ao longo do dia.

A moça do tempo está grávida. Ela espera el niño. A espera, invariavelmente, é feita de tempo. Tempo bom, tempo nublado, tempestade, furacão. Todas as condições cabem numa barriga de mulher.

A moça do tempo está grávida. Ela mostra onde vai fazer frio. Dentro dela, no entanto, é sempre verão. Seu corpo é um mapa múndi e ela está grávida de sol, encoberto por nuvens de curiosidade, “Como será o rostinho?”. O tempo, eterno gestante, vai parindo a todo instante. Seus filhos se chamam acontecimentos.

A moça do tempo não sabe a hora que seu bebê vai nascer. Quando sentir que chegou a vez, irá ventando para a maternidade. Nesse dia, será que vai chover nos olhos dela? Não sei. Mas a previsão é que ele seja muito amado.

O coco

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O Fiat prata acabara de deixar o estacionamento do parque, bem à minha frente. O tráfego, não lá muito veloz, fez com que eu reparasse: um coco sobre o teto do carro. Coco verde, canudinho e tudo. Pendia para lá e para cá conforme as curvas da avenida. E continuava, sabe-se lá como, firme e forte.

Eu poderia ter mudado de pista, distraído-me com o noticiário na rádio ou com o escandaloso ipê amarelo, mas escolhi ficar atrás do carro-coco. Segui-o ao longo do quarteirão, afinal, era meu caminho. Torcendo pelo coco, claro. Ôooa!

Emparelhar e avisar? Pensa, Silmara, pensa.

E se se tratasse de um novo adereço veicular? Não botam bonequinho de Minie nas antenas? Cílios postiços nos faróis? Sei de carro com aquela almofadinha numerada de drive-thru, destinada aos condenados à espera, usada como enfeite. Par de pernas falsas, conectadas à tampa do porta-mala. Que dizer do antológico frango de borracha, depenado, atado ao escapamento? A indústria do bom humor não tem limite. Para inventarem um coco de polietileno com base imantada, canudinho e tudo, é um pulo.

Um tipo de câmera, talvez. Por que não a do Google, disfarçada, mapeando as vias da região? Por via das dúvidas, estando perto, não é recomendável enfiar o dedo no nariz e, sim, manter uma atitude normal de quem sabe que está sendo clicado mas não quer dar na vista que sabe que está.

Quem sabe fosse um experimento social, para aferir níveis de solidariedade e empatia nos grandes centros urbanos? Bolado por sociólogos e psicólogos, a experiência simularia uma situação de rua a fim de verificar até que ponto, no mundo globalizado, as pessoas se importam umas com as outras (e com os cocos abandonados). Babado sério. O resultado sairia num documentário que viralizaria no You Tube e quem resolvesse buzinar e acenar, avisando que há um coco sobre o teto do carro, ficaria mundialmente conhecido por participar do projeto. Observei ao redor: apesar de vistoso e balouçante, nenhum motorista ou pedestre parecia tê-lo notado. O documentário, aliás, iria além, abordando a invisibilidade conceitual das coisas e pessoas no caos concreto das cidades. Babado seríssimo.

Ou, ainda, apenas mais uma pegadinha da TV. O cidadão, bem intencionado, corre tirar o coco antes que ele caia e provoque algum acidente; surge o Sérgio Mallandro vestido de arlequim, “Glu glu, yeah yeah”, acompanhado de garotas trajadas com folhas de coqueiro.

Na rotatória, tive a oportunidade única de ficar ao lado do Fiat. Ele seguiria em frente; eu, à direita. Nunca mais eu saberia do coco. As janelas estavam abertas, quatro rapazes conversavam. Não resisti, desci o vidro e inquiri: “É pra ter um coco aí em cima, mesmo?”. Os quatro se entreolharam com expressão de quem esqueceu o feijão no fogo. Gargalharam. Um deles abriu a porta e, ali mesmo, resgatou o coco abandonado. O trânsito seguiu. Arranquei e pude ouvir, ao longe, uma espécie de apuração interna sobre quem fora o responsável.

Cotidianices numa cidade qualquer, esquecimento comum, inocências urbanas.

Mas se uma fotografia ou vídeo da cena fosse postada na rede social, a patrulha viajandona não tardaria. Porque toda pauta, hoje em dia, requer análise e julgamento. Que irresponsabilidade, a dos rapazes. Comércio informal dos cocos, certeza que há sonegação de impostos. Cocos provenientes de manejo não-sustentável, cadê o Ibama? Vagabundagem (em plena tarde de quarta-feira?). Coco: o aliado das dietas. Coco: o vilão das dietas.

Tempos estranhos, estes, onde tudo pode ser tanta coisa. Menos o óbvio.

E eu nem gosto de água de coco.

Piolho

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A aula mal havia começado e a diretora entrou na sala, anunciando: a professora iria olhar a cabeça de todo mundo. Piolho. A turma se remexeu nas carteiras, o burburinho começou. Congelei, a cabeça começou a coçar. E se eu estivesse com piolho? Seria denunciada, ali, na frente de trinta crianças?

A professora chamou um por um à sua mesa. Os minutos se transformando em horas. O sofrimento da espera era maior do que qualquer véspera de prova de matemática. Em pé, ela vistoriava as cabeças com ajuda de dois lápis, separando as melenas. E o nojo de colocar as mãos naquelas cabecinhas, sabe-se lá como eram cuidadas em casa?

Chamou a Angélica. Menina estudiosa, obediente, sempre tirava notas boas. Não tinha perfil de piolhenta. Naquele dia ela estava de banho recém-tomado, os cabelos ainda úmidos, cheirando a xampu. A professora, baseada no asseio evidente, nem prosseguiu com a inspeção e a liberou.

Minha vez. O coração pulsava forte no peito e reverberava na garganta, seca por completo; eu deveria estar vermelha como um tomate. Não era estudiosa feito a Angélica. A professora cutucou-me o couro cabeludo por completo. Mandou-me sentar. “Próximo!” – chamou. Salva, enfim.

Alguns anos depois, reclamei que a cabeça estava coçando. Mostrei à minha mãe: bingo.

Com os meninos a solução era simples: raspavam o cabelo e pronto. Mas eu tinha cabelos até a cintura, e eles eram inegociáveis. Livrar-me dos piolhos foi tarefa excruciante. Passei o dia sentada em uma cadeira no quintal, toalha nos ombros, os cabelos lambrecados de veneno fedido. Foi minha avó que, armada de pente-fino e paciência, deu início à catação, só concluída ao entardecer. A piolhada, zonza, caía sobre a toalha. Problema mesmo eram as lêndeas. Resistentes até a uma hecatombe. Era preciso puxá-las uma a uma dos fios, com as pontas dos dedos. A posterior dor de cabeça era inevitável. E eu fedi a veneno por um bom tempo.

Meus filhos pegaram piolho, uma vez. Como minha avó, bisavó deles, armei-me de pente-fino, paciência, amor e uma TV, e dispus-me à faxina capilar. Nada como três décadas de avanços tecnológicos: bastou usar neles um xampu, nem tão fedido. As lêndeas, no entanto, permanecem indestrutíveis e demandaram o método artesanal. Mas em vez da cadeira-castigo no quintal, eles assistiram desenho durante a operação. Tudo evolui.

A cada lêndea aniquilada eu lembrei dos meus piolhos do passado, e me senti primitivamente humana. Então a vida é isso. Somos os mesmos, desde sempre. Podemos ficar modernos, inventar a internet e carros que dirigem sozinhos. Cuidar uns dos outros – em ordem descendente – ainda é o ato mais ancestral de todos, justamente o que nos garante no planeta. Toda espécie bem sucedida passa pelo pente-fino do bom zelo. E não importa para onde o mundo caminhe. Sempre haverá uma mãe catando piolho nos seus filhos.

Rosa, um miniconto

foto: Sílvia Kalvon

Foi tirando peça por peça da caixa de papelão. Um jeans novinho, com a palavra “flower” bordada atrás, no cós. Ela tentou ler, flô-er. Ergueu-a no ar. Não me serve, murmurou. Engordara bem nas ancas, culpa da comida da avó. Tão gordurenta, ainda não acostumara. Uma camisetinha verde musgo, furada na manga. Um lenço estampado em tom terroso, puído, embora elegante. Uma toalha de banho branca, com aplique de cetim também branco. Toalha grossa, boa, por que será que deram embora? — pensou. Levantou-se, enrolou-a no corpo. Viu o nome bordado no aplique. “Rosa”.

Todo mês, a igreja distribuía coisas para os pobretões do bairro. Ela era pobretona. E agora era do bairro. Requisitos preenchidos, ganhava roupas de vez em quando e aprendera a fazer currículo. O gerente de RH do banco era camarada do padre.

Como é que ia usar toalha com nome de outra pessoa? Ela não se chamava Rosa. Raspou as unhas sobre o bordado, pensou em desfazê-lo com a tesourinha. Estragaria a toalha, desistiu. Colocou-a sobre a cama, conferiu o restante da caixa.

Pôs-se a pensar na Rosa. Bonita? Inventou que a Rosa havia abandonado o marido. Ele, desiludido, resolvera dar tudo que ela deixara para trás, e a toalha foi no meio. Antes isso do que a Rosa ter morrido. Sentiu um arrepio, fechou a caixa. Dobrou a toalha, colocou-a por cima. Roeu a unha do dedinho. Não poderia usar aquilo, certeza. Onde já se viu? Até estava precisando de uma toalha boa, grossa. Mas.

Apanhou a garrafinha sobre o criado-mudo, deu um gole. Foi até a janela, despejou-a cuidadosamente sobre as minirrosas. Dariam flor este ano, afinal? Logo seria primavera. Trouxera-as no ônibus, o tempo todo no colo, maior cuidado do mundo. Dezesseis horas segurando firme o vaso, tinha hora que até dava cãibra. Eram sobreviventes, as minirrosas e ela.

Currículo bom não pode ter mais que duas páginas, aprendera. Retirara, então, a parte de seu emprego na floricultura da madrinha, o moço do RH falou que era bobagem. A escola onde estudara também. “Pra quê? Ninguém vai saber onde fica esse fim de mundo!” — e riu. “Põe só Fundamental II: completo”. Então, coube tudo nas duas páginas. A entrevista é semana que vem. Se o jeans servisse, iria com ele. Flô-er, repetiu. O lenço estava garantido. Se conseguir a vaga, não precisará mais das roupas da igreja. Comprará uma toalha nova, também. E mandará bordar nela seu nome. Bem grande.

Cama de gato

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O gato resolveu querer colo bem na hora em que eu ia levar o prato e o copo para a cozinha. Foi como se ele houvesse pressentido minha preguiça – eu almoçara no sofá, vendo TV – e pensou, “Vou ajudá-la a resolver isso”. Gatos, no geral, são bom resolvedores de coisas. Seja no instinto, na destreza ou na inteligência. É de admirar que ainda não tenham dominado o mundo. Ou: já dominaram, e estão de boas.

Logo agora…

Ele afofa minha barriga, se enrodilha no moletom, me transforma em cama. Os olhos apertadinhos me fitam como quem diz “eu te amo muito mesmo de verdade”. Melhor: “amo teu colo muito mesmo de verdade”. Seria inaceitável, de minha parte, prosseguir na intenção. Não se nega colo a um gato.

Fico imóvel, para não atrapalhar sua soneca. Seguro a louça com uma mão, com a outra lhe faço um afago. Só pauso para zapear a TV, à espera de mais motivos que me façam permanecer no sofá com o gato, o prato, o copo, a preguiça.

Mas justo agora…

Penso em alguma estratégia para que ele, por livre e espontânea vontade, deixe meu colo. Assim, eu me safo de carregar essa responsabilidade. As crianças poderiam chamá-lo, sacudindo a vasilha de ração; não falha. Então lembro: estamos sós em casa, o gato, Deus e eu. Quantos gatos cabem no colo de Deus?

Tento esticar o braço até a mesinha. Ele detecta o movimento, abre levemente os olhos, eu recuo. Interromper o sono de um gato há de configurar maus tratos. É nos sonhos dos gatos que o mundo ronrona.

E bem agora…

Eu invejo o gato que dorme quando quer e onde quer e pelo tempo que quer. Gato não tem dono. Gato é o dono. Não há animal mais cônscio de si do que o gato. Gatos não fazem psicanálise, simplesmente porque não precisam. Não há paradas existenciais peludas a resolver. Em um gato, as vidas passadas estão todas presentes. Gato é o futuro.

Quanto mais nutro esperança de que ele, por si, resolva partir de meu colo, mais ele se aninha. Estou refém de um gato. E estou de acordo. Cogito levantar-me e, numa cuidadosa acrobacia, levá-lo comigo no colo até a cozinha, sem acordá-lo. Quem dera ser capaz de andar flutuando, como os mortos, para que ele não sentisse a trepidação dos meus passos. Que bobagem, gatos sentem até os mortos.

Tinha que ser agora?

Num súbito, ele se põe nas quatro patas e chispa rápido, como se lembrasse de algo urgente que havia se esquecido. Ou como se nunca quisesse ter estado em meu colo um dia. Ou, ainda, como se eu fosse apenas um amontoado de átomos de oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, convenientemente fofo e macio. Simplesmente se mandou. Foi verificar qualquer coisa invisível e inaudível aos meus limitados órgãos humanos, na área de serviço, ao lado da cozinha.

Poderia, ao menos, ter levado o prato e o copo.

Crônicas voadoras #3

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Stewart Ho

[primeira]

Aeroporto cheio, a moça da Polícia Federal está cansada. A pequena mesa apoia-lhe o cotovelo, que apoia-lhe a mão, que apoia-lhe o queixo: não há dúvida, ela está cansada. Queixo e todo resto se reaprumam assim que eu e crianças aportamos no balcão, os passaportes abertos, para adiantar. Ela, sem vontade, confere os três. Ao seu lado, uma garrafinha de Minalba e um livro. “O Milagre”, de Nicholas Sparks. Para os raros minutos ociosos, aqueles em que não aparece ninguém. Ali, agentes da Polícia Federal trabalham solitários em suas cabines. Por eles passam milhares de pessoas todos os dias; o que não faz deles seres menos solitários. Ela fecha nossos documentos, repreende um bocejo atrevido, manda prosseguirmos. Enfio tudo na bolsa. De qual milagre ela estará à espera? Nem paz mundial, nem fim da fome. Tampouco um namorado bacana que compartilhe seu prazer em criar iguanas – ela leva jeito de quem cria iguanas. O que a moça da Polícia Federal aguarda é o milagre de dar vinte e duas horas para ir embora. É seu milagre diário. Em um aeroporto, não é Urano, deus do céu, que manda. É seu filho Chronos, deus do tempo. A divindade camarada que deixa a moça ir para casa no fim do dia, todos os dias.

[segunda]

É 29 de junho, dia de São Pedro. A fila do embarque é enorme. Seria bom, a título de passatempo, que aproveitássemos o mote do santo e fizéssemos, ali, uma festa junina. Tantas pessoas em fila, daria um bom caracol. Damas na frente, cavalheiros atrás. Nos autofalantes, a velha sanfona, todos dançando o passinho caipira. Anunciariam: “E deu overbooking, minha gente!”. E os passageiros, “Aaaaah!”, dariam meia volta. “É mentira!”, e todos retornariam, “Eeeeeh!”. “O avião vai cair!”, “Aaaaah”, “É mentira!”, “Eeeeeh!”. E assim o tempo passaria rapidinho (não sei se daria para fazer o túnel, muitas cadeiras no pedaço). Logo abririam-se os portões e todos embarcariam. Para ficar perfeito, na entrada da aeronave, aeromoças distribuindo fones de ouvido e paçoquinha Amor. É só uma ideia.

[terceira]

Serviram o jantar. Assim que terminamos, fiz um bonito trabalho de arrumação, passageira consciente que sou: separei o lixo reciclável de um lado na bandeja, os restos de comida de outro, empilhando harmoniosamente os pratinhos; finalizei empilhando as três bandejas. As crianças estão orgulhosas da capacidade de organização da mãe. A comissária vem recolher e faz cara feia. Pede que eu separe as bandejas e os dejetos; o vão no carrinho tem exatamente a altura para uma bandeja. Três bandejas juntas não entrarão ali nem por decreto aéreo. Bufo e obedeço. Lição aprendida: antes de ajudar alguém, é recomendável saber qual é a ajuda desejada.

[quarta]

O moço da imigração é pago para inquirir e duvidar. De seu treinamento fazem parte técnicas avançadas de intimidação. O que vou fazer no país dele? Onde vou ficar? Quando volto? Ele não olha nos meus olhos; seu olhar mira qualquer coisa acima da minha cabeça, no horizonte. O moço da imigração é o rei do pedaço, capaz de decidir quem entra em seu reinado. No fundo, é uma criança. Metade da minha idade. Penso em quais são seus medos. Porque todo mundo tem medos, até o moço da imigração. Ele tem medo da namorada que lhe põe na parede ao menos uma vez por mês, “Quando vamos nos casar?”. Ele não sabe que não precisa se casar. Tem medo do pai, militar reformado, que nem sonha que ele, logo o caçula, tatuou uma caveira enorme no braço direito – ele leva jeito de quem tem tatuagem de caveira. No dia em que a fez, entrou em casa escondido, as mangas da camisa abaixadas, sob o olhar cúmplice da mãe. E se, em vez de eu apresentar meu passaporte, eu lhe tomasse a mão direita e a lesse? O que eu descobriria naquelas jovens linhas que o faria tremer? A doença da mãe, que ninguém na família ainda sabe. O pouco tempo que lhe resta. A saudade impiedosa que o acompanhará pelo resto da vida. Ele duvidaria; é o que melhor faz na vida. Mas assim que nos dispensasse, com um seco e protocolar “boa estada”, já acenando para o próximo da fila, seria possível ver em seus olhos castanhos a nascente de um ribeirão feito de água e sal.

Do mesmo tema: Crônicas voadoras #1 e Crônicas voadoras #2

Memórias olímpicas

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E era levemente careca, lembrei disso agora. Dona Yara, a professora de educação física da escola, tinha cabelos ralos. Antiesportista no layout, andava maquiada, os parcos cabelos presos num coque com laquê. Suas aulas eram monótonas e de pedagogia duvidosa: com frequência, sentávamos em círculo e um livro com as regras do vôlei era lido em voz alta pelos alunos, em revezamento. Bocejos eram inevitáveis. Mas o que pegava mesmo era o laquê.

Se vieram dali minha apatia pelos esportes e meu desinteresse nas olimpíadas, não sei. Só sei que fugi o quanto pude das aulas de educação física ao longo da vida escolar.

Usei de meios ilícitos para escapar das quadras ao escrever em minha própria caderneta recomendações expressas para que eu fosse dispensada dos exercícios, assinando i-gual-zi-nho ao meu pai. Às vezes, funcionava.

Assim como quem entra para o mundo do crime através dos delitos leves e logo já está praticando os hediondos, no colegial, atual ensino médio, rendi-me à falsidade ideológica. Comprei um atestado médico. Valia tudo para me livrar das aulas de vôlei, agora 100% práticas.

Eu tinha quinze anos e vi que as coisas não seriam fáceis. Para começar, eram dez voltas correndo ao redor da quadra. Depois da aula, determinada a resolver a parada, tomei o metrô e desci na Praça da Sé. Rumei à ladeira Porto Geral e caminhei até o Parque Dom Pedro II. Sobre a portinhola que levava a uma longa e estreita escadaria, a placa mal feita: “Médico”. Sem nome do doutor, sem CRM, sem especialidade. O cenário ideal para o crime perfeito.

O médico, um homem esquálido, sacou o receituário. “Vou colocar aqui que você sofre de lombalgia. Não tem erro”. Eu não sabia o que era lombalgia, dei-me por satisfeita. Qualquer coisa que me poupasse do horroroso shortinho azul de helanca do uniforme. Paguei, desci a longa e estreita escadaria e tomei o ônibus para casa. No trajeto, abri o envelope e abri também um sorriso. O médico acrescentara um adjetivo poderoso à minha lombalgia: “crônica”. Aquilo deveria ser suficientemente grave para eu ser mantida longe dos exercícios para sempre.

Dia seguinte entreguei, orgulhosa, o atestado na secretaria da escola. Reforcei junto à mocinha, que apertava os olhos para compreender a letra, “É crônica”. Vinte e quatro horas depois, quando eu já fazia planos para as três aulas vagas que teria na semana, o recado. A coordenadora queria ter um dedo de prosa comigo. Seria a prova de química, que eu havia zerado?

– Você tem algum problema de saúde, Silmara?

Rapidamente, associei o motivo da inquisição:

– Sim, tenho lombalgia. Crônica! – confirmei. Eu continuava sem saber o que aquilo significava (a doença e a falsidade ideológica).

Seguiram-se os piores momentos de minha temporada de Liceu de Artes e Ofícios. Pilhada em flagrante, tive crise aguda de arrependimento. “Se você tivesse esse tipo de lombalgia, Silmara, mal conseguiria andar!” – esbravejava a coordenadora. O agravante “crônica”, portanto, de nada valera. Ao contrário; complicara minha situação. Eu já era suficientemente conhecida da coordenadora, que presenciara minha agilidade pelos pátios. Não adiantaria explicar minha antipatia pelo esforço físico, minha ojeriza ao shortinho azul de helanca, nada.

Foi o fim das minhas idealizadas aulas vagas. Rendi-me ao shortinho. Nem pude ir reclamar no consultório.

Só fui ter sossego na faculdade, onde vi-me com autonomia para decidir sobre minha vida, meu corpo, minhas vontades. Uma injustiça crianças de nove anos não terem esse direito.

De lá para cá, motivada por súbitos desejos de bom condicionamento cardíaco, tonicidade muscular, capacidade aeróbica e barriga sarada, entrei em inúmeras academias de ginástica. Com os mesmos súbitos desejos, abandonei inúmeras academias de ginástica. Possuo um único par de tênis esportivos, adquiridos há doze anos em um de meus devaneios pós-parto, quando acreditei que somente a ginástica impediria que as pessoas perguntassem se eu, parida há seis meses, estava grávida. Recentemente, resolvi substituí-los, começaria nas caminhadas. Fui ao shopping, achei alto o investimento e retornei não com tênis novos, mas com novos óculos de sol – pelo mesmo preço, muito mais bonitos e úteis. Os tênis arqueológicos foram para o sapateiro. Bastou uma colinha, estão novos. Guardados.

Assumi, sem culpa, o sedentarismo como característica de minha personalidade, marca indelével de meu DNA. Não sei jogar nada, nem truco, nem Pokémon Go. Não fez parte dos meus sonhos ser ginasta olímpica, nem quando assistia a Nadia Comaneci voando graciosamente nas barras assimétricas. Não vibrei ao saber que o SporTV está com dezesseis canais em HD à disposição da olimpíada doméstica. Atestei para mim mesma que esporte não é comigo e pronto. De crônica, só minha escrevinhação. De olímpica, só minha nostalgia.

Mas em ano de olimpíada as memórias esportivas – ou nem tanto – vêm à tona. Faz tempo que não visito minhas velhas escolas. Nunca mais fui ao centro de São Paulo, há muito o Parque Dom Pedro II virou uma área feia e decadente. Terá o esquálido doutor se aposentado?

Assistirei a alguns jogos pela TV. Quem sabe, em um dos telões, verei flagrada n’alguma arquibancada dona Yara e seus bisnetos, agitando uma bandeira verde e amarela?

 

Para o Glauco Marques.