Férias. 

Caros e caras

O blog vai tirar umas feriazinhas e volta em breve.

Feliz ano novo!

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Reveiôn

foto: Simone Huck

Contabilizo, com o que inicia nas próximas horas, meu 51º ano novo. Sou dona, portanto, de cinco décadas de anos velhos.

Anos passados merecem respeito. Lembra? “Respeite os mais velhos”. Apesar disso, nem sempre cuidamos bem dos nossos velhos. E eles têm muito a ensinar. Ano velho também dá no couro, tem gás, pode ser útil. Não precisa se aposentar e ficar o dia inteiro de pijama (embora ficar o dia inteiro de pijama seja a quinta-essência). O fato é que ano velho não merece o adeus da velha canção, em contraponto à (incerta) felicidade do que está por vir.

O reveiôn a gente passava em casa, tinha comida especial e roupa bonita. Alguém estourava o champanhe barato e o ano novo estava oficialmente inaugurado. Depois da meia noite, os amigos da minha irmã, mais velha que eu, passavam em casa, para de lá irem às casas de outros amigos, formando uma comitiva em homenagem ao ano estreante. Se o Natal era em família, Ano-Novo deveria ser entre amigos. Eu não via a hora de ser grande para fazer o mesmo. Cresci e isso não aconteceu. As vontades mudaram, os amigos envelheceram. Alguns morreram novos, permanecendo assim nas lembranças. A morte congela a idade. Quem morre jovem se divorcia do tempo e não envelhece nunca.

Confundia-me ao escrever Réveillon. Errava o lugar do acento, dobra o L ou não? Certeza, só a de que mais cinco meses e seria meu aniversário. Aniversário é o ano novo da gente.

Aprendi depois que réveillon é uma palavra francesa, derivada do verbo réveiller, que significa despertar, acordar, no sentido simbólico. O que não deixa de ser interessante; no réveillon a gente não tem hora para dormir.

Tem gente que desfila, com pompa e orgulho, sua galeria de anos velhos pelas fotografias da estante. Há quem os coloque no asilo da memória. E só os visite – que ironia – uma vez por ano. Ou nem isso.

O reveiôn da minha infância não se parece em nada com o Réveillon da minha adultice, exceto pela similaridade calendárica. Aquele, sem L e sem sotaque estrangeiro, perdeu-se em algum ano velho e eu não consigo mais encontrar.

A gente tem saudade de ano velho, não de ano novo. Ano velho é porto seguro. É colo familiar, cheiro sabido, música conhecida. Ano novo é incógnita, palpite, candidato a ser feliz.

Com quantos anos velhos se faz um ano novo?

Qual?

interrogação

Qual lugar? – a moça da bilheteria pergunta e mostra a tela com o diagrama. Fico aflita. Ela continua: Tudo em azul está livre. Pode escolher. Há um oceano de assentos vagos na sessão das cinco, e eu afogo-me nas possibilidades. Mais fácil se houvesse apenas meia dúzia de lugares disponíveis. Fartura de opção sempre me chateia.

Estacionamento, por exemplo. Quando estou em um lotado, bufo, embora me saia bem. Radar atento, detecto a vaga e zás! Mas é aportar em um vaziozão e a crise se instala. Onde é melhor, aqui ou lá? Perto do elevador ou ao lado da pilastra, para não correr o risco de ter a porta do carro ralada? Escolho, manobro. Mudo de ideia, dou ré. Vou para outra. Ensaio mudar de novo. Desço, tranco o carro e sigo na dúvida se antes não estava melhor. Como se fizesse alguma diferença.

Na Era da Opção o cardápio de pizza tem oitenta e três sabores. Esmaltes? Dezoito tons só de vermelho. TV com trezentos canais. Planos de celular e suas infinitas combinações de minutos e internet. Por que a simplicidade saiu de moda?

A bilheteira parece tranquilona. No fundo, ela me odeia. Aguarda minha decisão para fechar a venda. Sala de cinema, repare, é um estacionamento de gente.

Fileira D! – disparo. Quero é romper o silêncio constrangedor. Ela posiciona o cursor do mouse na fileira escolhida e agora eu lhe devo um complemento: a poltrona. A vida tinha que ser alfa-numérica?

Quatro! Dê-quatro! – atiro. Lembrei, feito filme, de quando era criança e jogava batalha naval com meus irmãos. No papel quadriculado eu espalhava (sem estratégia alguma, mas com desenho caprichado) minha esquadra. Sob tiros certeiros, ou n’água, derrotas e vitórias nas tardes de sábado. Entro sozinha na sessão. No diagrama dos assentos, represento um quadradinho. Sou, portanto, um submarino. Na ponta da fileira há um casal. É um destroyer. Cinco amigas lá atrás: um encouraçado. Nenhum hidro-avião por perto. Nunca mais jogamos, nós três.

Depois do filme, café. Na hora de pagar, o rapaz do caixa – que eu invento ser platonicamente apaixonado pela bilheteira, que não lhe dá bola porque namora a moça da lojinha – quer saber: Débito ou crédito?

Essa é fácil. Ah, o maravilhoso universo binário.

Fábrica

L’Homme endormi, 1936, H.Matisse

Meio-dia e vinte. Os operários fazem, na calçada, a sesta. Em seus uniformes de brim azul-marinho, deitam-se, sem cerimônia, no chão em frente à fábrica. É ali, rente à rua, que se dá o breve descanso pós-almoço.

É preciso um bocado de coragem para fazer, do solo público, sofá particular.

Um deles se esparrama, como se estivesse em uma king size. Embora o modelo da calçada seja de solteiro. O colega ao lado, em quase posição fetal, repousa alinhado ao muro. Outro, barriga para cima, estica as pernas na transversal do passeio e cruza os pés. As mãos sob a cabeça, feito travesseiro. Há, ainda, outros.

Na construção, operários morrem na contramão atrapalhando o sábado. Na fábrica, dormem na calçada atrapalhando a quinta.

Será que chegam a sonhar quando estão de olhos fechados? Sei que descansam na calçada porque não têm onde mais recostar seus corpos. Dentro da fábrica não há lugar para sonhar.

O que embala seus quase cochilos? O arroz com feijão, quiabo e bife, o zum-zum-zum dos carros ou a primeira parcela do décimo-terceiro?

Onde eles se deitam passam as solas imundas dos sapatos. E também os cães, que vão largando pelo caminho seus cocôs e seus xixis. Não gostaria que, se eu tivesse um filho operário, ele descansasse assim após seu almoço. Se eu fosse dona da fábrica onde aqueles homens trabalham, instalaria hoje mesmo sofás, poltronas, redes para eles. Mas dono de fábrica não pensa nessas coisas. Quem pensa nessas coisas é mãe. Mãe é um tipo de fábrica. Só que de gente.

A promessa

cabelo

Prometi à Nina deixar meus cabelos crescerem.

Logo eu. Que, apesar de ser lembrada como cabeluda pela turma da escola, não uso nem um fio abaixo do queixo desde que ela nasceu, há onze anos. Eu, que sou devota de São Joãozinho. Eu, que tenho quimeras antigas com a máquina dois.

O limite negociado foi o ombro.

Tem gente que promete, em nome de nobre causa, não comer chocolate. Subir de joelhos intermináveis escadarias. Cortar – veja só – os cabelos. Eu não. Eu prometo deixá-los crescer um quarto de metro. Cada um com a sua provação.

De criança, minha avó penteava meus cabelos para eu ir à aula. Contrariada, subia no bidê para facilitar o trabalho dela. Que tinha mão pesada, puxava com força (e algum mau humor) minhas extensas e quase sempre embaraçadas madeixas. Não havia esses condicionadores bons de agora. Nem os ruins a gente tinha, era xampu e olhe lá. Eis que surge, para nossa salvação, o Neutrox. Creme amarelo, inovador e relativamente barato que dissolvia nós como que por encanto. Um dia, hipnotizada pelo seu aroma adocicado, não resisti. Comi.

No caso da minha promessa, a nobre causa não foi motivo de doença, nem de milagre solicitado, tampouco de graça alcançada. “Mãe, deixa o cabelo crescer um pouquinho só?” – foi o (reiterado) pedido da caçula. Lasquei-me. Como negar? Desde então, tenho recorrido às faixas, lenços, tiaras e adereços que me façam enfrentar a (longa) temporada com algum ânimo.

Exibi imensa cabeleira até os vinte e cinco. Cultivada quase por acaso, em um misto de esquecimento de cortar com ideal de beleza. Acreditava que era assim que tinham que ser os cabelos de uma mulher, feito verdade irrefutável (não é). Fui dessas de aterrorizar o cabeleireiro, caso o infeliz cruzasse a fronteira do “só as pontinhas”. Como se minha vida não fosse funcionar de outra forma. Os cabelos eram longos, mas as ideias eram curtas.

Todos os dias me olho no espelho ao acordar, na esperança de que alguma mágica tenha se dado durante a madrugada e meus fios tenham adquirido o DNA do bambu. Cogito negociar com a Nina, quebrar a promessa. Trocá-la por um brinquedo novo, quem sabe? Mas aí lembro de seus desenhos, quando era pequenininha. Neles, sempre fui representada com arquetípico cabelão. Desisto da negociação, respiro fundo e sigo em frente. Tanta coisa que ela me pede e eu, por incompetência ou falta de vontade, deixo de atendê-la. Ser mãe é carregar uma eterna e cabeluda culpa sobre os ombros.

Ano que vem faço cinquenta e um, a idade da minha mãe quando morreu. Dona Angelina perdeu todos os cabelos na quimioterapia. Pensei em uma homenagem póstuma, raspando os meus. “Vê? Também estou carequinha da silva”, direi-lhe em pensamento. Estarei três décadas atrasada, é verdade. Mas ela há de entender. Mães são atemporais. Além disso, comprida mesmo é minha saudade. Dá até para fazer trança.

O amolador

foto: arquivo pessoal

Ontem vi o amolador de facas. Daqueles que andam com suas bicicletinhas pelas ruas.

Poderia jurar que eles não existiam mais. Que estavam extintos, feito o rinoceronte negro. Que haviam sucumbido à obsolescência programada, “Compre facas novas!”. Que tinham, enfim, ficado na Mooca da minha infância.

Como o que de tempos em tempos adentrava a vila pedalando sua bicicleta mágica, tocando a inconfundível melodia na flauta pan, avisando as freguesas que ele estava no pedaço. Meu avô, às vezes minha avó, atentos às mensagens sonoras do bairro, desciam as escadas trazendo os utensílios que precisavam de um trato. Uma faca embotada, alguma tesoura cega, um alicate de unha. Então a bicicleta, tal um Transformer, virava a geringonça de afiar. As rodas ficavam suspensas numa espécie de cavalete e, ao pedalar em falso, o esmeril girava. O ritmo era importantíssimo: nada de corrida, que aquilo não era aula de spinning. Devagar, ele ia pedalando e afiando, afiando e pedalando, parando de vez em quando para conferir se já estava bom. Eu achava engraçado o nome da profissão, “amolador”. Amolar, para mim, era incomodar. Tinha um garoto na escola que me amolava. Puxava meu cabelo, inventava apelido. Ninguém sabia onde o amolador das facas morava, nem mesmo seu nome. A gente só sabia que ele aparecia de vez em quando. Um senhorzinho acima de qualquer suspeita. Deveria ser o avô querido de alguém, um tio zeloso, um pai de família. Pode ser também que não tivesse ninguém e vivesse sozinho. Sabia que o rinoceronte é um dos animais mais solitários do mundo?

A freguesa apareceu no portão. Ela traz a faca de cortar bife. Ele examina o fio, faz muxoxo. É, não está boa, não. Hora de o Transformer entrar em ação. Pena, cheguei tarde; não sei se ele anunciou sua chegada no quarteirão, como fazia o amolador do meu passado. Que não incomodava ninguém.

Na minha rua não passa afiador. Nem de faca, nem de alicate, nem de tesoura. Nunca mandei, aliás, afiar minhas facas. Existe amolador de alegria? A minha bem que anda precisando. Às vezes, sinto-me como o amolador: pedalo, pedalo, e não saio do lugar.

A freguesa avalia o resultado, faz sinal de aprovação com a cabeça. De longe, ela se parece com minha avó. Minha avó tinha facas bem afiadas. Língua também.

E eu pensando que os amoladores ambulantes haviam ficado na Mooca da minha infância. Vai ver, o de ontem é um deles. Veio pedalando, no tempo e no espaço. Levou quarenta anos. Finalmente chegou.

Lição de empatia

cesto lixo

Depois da aula, eu e uns amigos tivemos a brilhante, a estupenda, a fabulosa – só que não – ideia de virar o cesto de lixo que ficava na sala de aula, dentro da sala. Por que, nunca soube. Quando se tem nove anos, nem tudo carece fazer sentido.

Só que a mãe da Gislaine era faxineira na nossa escola.

Ela, claro, não participou da brincadeira sem graça. Quando viu aquilo, sentiu um misto de tristeza e raiva: “Poxa, gente. É a minha mãe que vai ter que limpar isso, vocês sabiam?”.

Gislaine usava óculos grossos, meio “fundo de garrafa”, como se dizia. Gostava dela. Quando chamou nossa atenção, fiquei desenxabida. A ideia não era chatear a sua mãe. Então, pensei grande: uma coisa era ela recolher o lixo naturalmente produzido nas salas, aquele que se acumula no final do período, papéis amassados, rascunhos de lição, restos de lápis apontados. Era o trabalho dela. Outra coisa, completamente diferente, era recolher um lixo intencional, jogado ali de propósito, quase na maldade (ainda que não fôssemos maus).

Mais tarde, pensei maior: a gente não deveria ter feito aquilo. Não porque se tratava de alguém com uma espécie de vínculo conosco que limparia a sujeirada. Uma pessoa teria que fazê-lo. E eu não gostaria de estar no lugar da mãe da minha amiga, ou de quem quer que fosse encarregado da tarefa.

Empatia também se aprende na escola. E nem precisa de livro.

Saudade da Gislaine.