Não tem.

Caros e caras

Hoje vou ficar devendo.

Até semana que vem.

Beijos,

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O amolador

foto: arquivo pessoal

Ontem vi o amolador de facas. Daqueles que andam com suas bicicletinhas pelas ruas.

Poderia jurar que eles não existiam mais. Que estavam extintos, feito o rinoceronte negro. Que haviam sucumbido à obsolescência programada, “Compre facas novas!”. Que tinham, enfim, ficado na Mooca da minha infância.

Como o que de tempos em tempos adentrava a vila pedalando sua bicicleta mágica, tocando a inconfundível melodia na flauta pan, avisando as freguesas que ele estava no pedaço. Meu avô, às vezes minha avó, atentos às mensagens sonoras do bairro, desciam as escadas trazendo os utensílios que precisavam de um trato. Uma faca embotada, alguma tesoura cega, um alicate de unha. Então a bicicleta, tal um Transformer, virava a geringonça de afiar. As rodas ficavam suspensas numa espécie de cavalete e, ao pedalar em falso, o esmeril girava. O ritmo era importantíssimo: nada de corrida, que aquilo não era aula de spinning. Devagar, ele ia pedalando e afiando, afiando e pedalando, parando de vez em quando para conferir se já estava bom. Eu achava engraçado o nome da profissão, “amolador”. Amolar, para mim, era incomodar. Tinha um garoto na escola que me amolava. Puxava meu cabelo, inventava apelido. Ninguém sabia onde o amolador das facas morava, nem mesmo seu nome. A gente só sabia que ele aparecia de vez em quando. Um senhorzinho acima de qualquer suspeita. Deveria ser o avô querido de alguém, um tio zeloso, um pai de família. Pode ser também que não tivesse ninguém e vivesse sozinho. Sabia que o rinoceronte é um dos animais mais solitários do mundo?

A freguesa apareceu no portão. Ela traz a faca de cortar bife. Ele examina o fio, faz muxoxo. É, não está boa, não. Hora de o Transformer entrar em ação. Pena, cheguei tarde; não sei se ele anunciou sua chegada no quarteirão, como fazia o amolador do meu passado. Que não incomodava ninguém.

Na minha rua não passa afiador. Nem de faca, nem de alicate, nem de tesoura. Nunca mandei, aliás, afiar minhas facas. Existe amolador de alegria? A minha bem que anda precisando. Às vezes, sinto-me como o amolador: pedalo, pedalo, e não saio do lugar.

A freguesa avalia o resultado, faz sinal de aprovação com a cabeça. De longe, ela se parece com minha avó. Minha avó tinha facas bem afiadas. Língua também.

E eu pensando que os amoladores ambulantes haviam ficado na Mooca da minha infância. Vai ver, o de ontem é um deles. Veio pedalando, no tempo e no espaço. Levou quarenta anos. Finalmente chegou.

Lição de empatia

cesto lixo

Depois da aula, eu e uns amigos tivemos a brilhante, a estupenda, a fabulosa – só que não – ideia de virar o cesto de lixo que ficava na sala de aula, dentro da sala. Por que, nunca soube. Quando se tem nove anos, nem tudo carece fazer sentido.

Só que a mãe da Gislaine era faxineira na nossa escola.

Ela, claro, não participou da brincadeira sem graça. Quando viu aquilo, sentiu um misto de tristeza e raiva: “Poxa, gente. É a minha mãe que vai ter que limpar isso, vocês sabiam?”.

Gislaine usava óculos grossos, meio “fundo de garrafa”, como se dizia. Gostava dela. Quando chamou nossa atenção, fiquei desenxabida. A ideia não era chatear a sua mãe. Então, pensei grande: uma coisa era ela recolher o lixo naturalmente produzido nas salas, aquele que se acumula no final do período, papéis amassados, rascunhos de lição, restos de lápis apontados. Era o trabalho dela. Outra coisa, completamente diferente, era recolher um lixo intencional, jogado ali de propósito, quase na maldade (ainda que não fôssemos maus).

Mais tarde, pensei maior: a gente não deveria ter feito aquilo. Não porque se tratava de alguém com uma espécie de vínculo conosco que limparia a sujeirada. Uma pessoa teria que fazê-lo. E eu não gostaria de estar no lugar da mãe da minha amiga, ou de quem quer que fosse encarregado da tarefa.

Empatia também se aprende na escola. E nem precisa de livro.

Saudade da Gislaine.

Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

A aula

telefone 3

Gostava de ouvi-lo ensinar como funcionava o telefone. Eu sentadinha à mesa da cozinha, maravilhada com meu pai explicando coisas sobre voz, eletricidade e cabos. Suas mãos iam simulando, sobre a toalha estendida (a xadrezinha?), o caminho que a chamada percorria para ir de uma ponta à outra. Eu ficava maravilhada com a tecnologia e com meu pai, que sabia tanta coisa (ainda que não soubesse tanto assim). Cheguei a pedir-lhe várias vezes para repetir a “aula”.

Ontem liguei para ele. Seu Tonico não é, mas estava especialmente surdo. Pediu notícias das crianças, dei, não sei se ele ouviu; só soltou um Aaah. Contou-me que havia varrido todas as folhas secas pela manhã. Perguntei-lhe se havia almoçado direitinho. Ele continuou falando da varrição. Lembrei-me da velhinha surda d’A Praça é Nossa, aquele programa de TV. E ri. O script agora é outro.

Enquanto ele discorria sobre a trabalheira que as folhas lhe deram, lembrei-me da aula do passado. Meu pai ensinou-me sobre algo que, hoje, tem dificuldade para usar. Na nossa breve conversa, o meio era a mensagem.

E agora, quando o visito, sou eu que ensino a ele como funciona uma ligação pela internet. Apanho o celular na bolsa e ligamos para minha irmã, sua filha do meio, que mora em outro país. Ele tem telefone, mas não acerta ligar para ela, muitos números. E não adianta colocar o numerão na memória do aparelho. A memória que não funciona bem é a dele. Vou demonstrando a mágica da chamada. Mas não tem mais a mesa da cozinha, nem a cozinha. Nem as toalhas. Mas tem ele, feito criança, maravilhado com a tecnologia e comigo, que sei tanta coisa (ainda que não saiba tanto assim). E, assim que minha irmã atende, ele passa a falar muito alto no aparelho, como se fazia antigamente. Eu que não vou ensiná-lo que não precisa mais.

Engano

telefone 2

Quando o telefone toca de madrugada, boa coisa não é.

Ninguém liga no meio da noite para pedir a receita daquele biscoitinho de nata, convidar para o aniversário da caçula, contar que foi promovido na firma. Tampouco que foi despedido – salvo, neste caso, se a pessoa resolveu afogar as mágoas num cabernet e perdeu a noção da hora.

Telefonema na madruga é notícia ruim. Ou engano. De qualquer forma, é prejuízo.

Semana passada, eram três e vinte quando acordamos com o triiim. E no fixo, para piorar: em casa só há um, e ele fica na sala. Telefone fixo é o fio que nos prende ao passado.

Entre achar os chinelos e descer as escadas, a visão de todos os entes queridos, exceto os que dormem placidamente nos outros quartos, passa pela tela mental. Meu Deus, o que será que aconteceu? Delegacia, hospital e velório lideram a imaginação. Quinze segundos tateando até o aparelho são suficientes para o desenrolar do roteiro completo da tragédia. O “boa noite” dito antes de deitar não valeu.

Chego tarde, no entanto. Desligaram antes que eu atendesse. Engano? Não, era um desengano.

Apanho o celular, tiro do modo avião. Se for importante, tornarão a ligar, concluo. Aliás, devem ter tentado – da delegacia, hospital ou velório – primeiro nele, caiu na caixa postal, recorreram ao fixo. Já tracei toda a história. O 4G entra, aguardo a notificação.

Nenhuma chamada não atendida. Nenhum recado. Verifico o WhatsApp. Messenger. SMS. Voxer. Skype. Gmail. Direct. Nada. O mundo dorme em paz, sonhando. Só eu, às três e vinte e cinco, estou acordada.

Olho no aparelho o número da chamada. Não reconheço. Volto ao celular, pesquiso na agenda. Sem resultado. Reparo no DDD. Ligo de volta? Jogo o número no Google? Três e meia.

Antigamente, quando alguém nos telefonava, não se sabia quem era. Era preciso aguardar o alô do outro lado da linha para poder saudar, “Oi, tia!”. Ter identificador de chamadas no fixo era coisa de gente rica. Um aparelhinho acoplado ao aparelho, disputando espaço na mesinha. Os primeiros celulares também não vinham com a facilidade. Era “call” e só. Só fomos saber quem é que nos chamava no final dos anos 90.

Vinte e cinco para as quatro. Notícia ruim, dizem, chega rápido. Não mora aqui, portanto, o destinatário daquela ligação. Voltei à cama, fechei os olhos, custei a dormir.

A tecnologia evoluiu. A curiosidade, não. E quem liga?

Extra! Indicação ao Prêmio Jabuti

Caros e caras

A primeira indicação ao Prêmio Jabuti a gente não esquece.

Meu livro “Você precisa de quê? A diferença entre consumo e consumismo” está entre os dez finalistas que concorrem à premiação, na categoria Didático/Paradidático. Para quem quiser saber mais, é só ver aí na coluna ao lado.

Agora é torcer, minha gente!

Beijos,

http://premiojabuti.com.br/apuracao/f1/#1