Férias.

Caros e caras

Juro que tentei postar hoje a última crônica deste ano. Mas não deu. Declaro, portanto, aberta a temporada de férias do blog.

Vejo vocês em janeiro, digo, fevereiro, quer dizer, volto no dia 6 de março. Prometo, sem falta, com certeza, pode crer.

Beijos e paz para todos!


Enriquecida com ferro e ácido fólico

Não se lê mais nos ingredientes das coisas: farinha de trigo. Dois substantivos com uma preposição no meio e só. Agora é farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Adjetivaram, mineralizaram e vitaminaram a farinha. Aquela com que minha mãe fez os bolos da nossa infância, aquela que tinha na vendinha, aquela que a gente fazia cola? Não tem mais. Acabou.

O pão nosso de cada dia está irremediavelmente impregnado. E o macarrão e o biscoito. Panetone? Também. De janeiro a janeiro, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a onipresença do ferro e do ácido fólico na vida. Estamos todos mais saudáveis.

Até a hóstia consagrada foi enriquecida de ferro e ácido fólico. Ninguém mais comungou do mesmo jeito.

O binômio alimentar iniciático transformou-se em uma entidade sofisticada. Rebatizada de “farinhadetrigoenriquecidacomferroeacidofolico”, a matéria-prima dos nossos mingaus virou um termo imenso, indissociável, nos dizeres dos rótulos. Um palavrão de comer.

Algumas marcas ainda acrescentam “especial”, para tornar tudo mais belo – e maior. Não se enganem, porém: é tudo farinha enriquecida com ferro e ácido fólico do mesmo saco.

No mercado:

– Moço, onde fica a farinha de trigo?

– Não tem.

– Como não tem?

– Só farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Terceiro corredor.

Ferro é importante para a saúde, evita anemia. Ácido fólico idem, evita má-formação. Mas não há nada que evite a saudade dos bolos da minha mãe, que nunca mais comi.


Mas eu me mordo de ciúme

arte: Mr. Onz

E o gato estabeleceu que eu sou só dele. Até que a morte nos separe, sou dele e ponto final. Ciumento, na falta de palavras para fazer valer seu unilateral juramento de fidelidade, ele se vira como pode: faz xixi no meu lado da cama, na porta do meu armário e, eventualmente, em mim.

Especialistas em comportamento animal limitam-se, nesses casos, à reza aprendida nas enciclopédias de medicina veterinária: é marcação de território.

Eles não conhecem o Beto.

Beto é o mais velho da casa. Embora já tivéssemos gatos quando ele veio, trazido pela vizinha que não sabia o que fazer com aquele filhote de siamês que perambulava pelo condomínio. Dá-se bem com todos, humanos ou não, é o amigão geral da nação. Não à toa, seu sobrenome ficou sendo Boa-Pessoa. Beto Boa-Pessoa. Divide a casa com outros três felinos, dois machos e uma fêmea. Todos zanzam pela casa sem restrições, tudo é deles também. Dormem em nossas camas, descansam nas cadeiras sob a mesa de jantar e outros locais menos convencionais, tiram longas sonecas no sofá, instalam-se sobre a máquina de lavar roupa independente se é dia de lavanderia, não pagam aluguel, têm aposentadoria garantida, sombra e água fresca. São amados, felizes e nos fazem felizes.

Com regalias, Beto é o único autorizado a passear comigo na rua. Diferente dos outros, ele não se escafede assim que abro a porta. Ao contrário, fica serenamente rolando na grama, cheirando as flores, observando os passarinhos; não sai do meu campo de visão e atende meu chamado para voltar. Os outros, se encontram brecha, se pirulitam e só retornam horas depois. Aqui somos adeptos da meritocracia.

Ele é meu gato-celebridade no Instagram, inspiração e personagem de crônicas. Recito-lhe poesias, tiro-o para dançar. Será que a fama lhe subiu à cabeça? Sou sua dona, sua luz, raio, estrela e luar, seu iaiá, seu ioiô. Natural que ele confundisse as coisas. Sim, eu o amo. Mas, como diriam, para evitar confusão, “como amigo”.

Que mais, ó Bastet, deusa protetora dos gatos e das mulheres, devo fazer? Se até já lhe dei florais e, que não me ouçam, ofereci passar a escritura da casa para seu nome (a fim de sensibilizá-lo no lance do território), desde que ele parasse de regar os móveis. Não adiantou.

Como a separação está fora de questão, o jeito é caprichar no desinfetante e orar para que Beto se convença que não sou dele. Porque não sou de ninguém. Nem de mim.


O céu é o limite

arte: Tang Yau Hoong

arte: Tang Yau Hoong

Em avião, gosto de espiar o que as pessoas fazem. É mania de onisciência aérea e, garanto, imperceptível para o sujeito. Sabedora de meus podres, desenvolvi técnicas avançadíssimas com ajuda dos óculos escuros para manter o rosto voltado para o horizonte enquanto, secretamente e sem incomodar ninguém, inspeciono o passageiro da esquerda, direita e até o da frente, na fileira oposta. O de trás, no entanto, me escapa. Preciso aperfeiçoar, talvez com idas programadas ao banheiro dos fundos. No universo das manias, o céu é o limite.

Enxerimento não é mau-caratismo. Pode ser feio, deselegante e invasivo, mas só quando escancarado ou mal-intencionado. Abelhudice silenciosa, despretensiosa e confessa como a minha, mal não faz. O que os olhos dos outros não veem…

Começa na sala de embarque. Esforço-me para saber o que tanto conversa no WhatsApp o homem de moletom azul e Havaianas brancas – só visualizo emoticons coloridinhos e concluo que o papo está animado. Distraio-me com o painel de embarque, confiro o Instagram, busco um café. Logo retorno ao meu passatempo favorito de aeroporto, imaginando o tema da escrevinhação da moça com sete (sete, eu contei) piercings, em seu tablet com capa de borboleta. Toda informação relevante coletada em meu voyeurismo aeroportuário segue para o caderninho.

Na aeronave, aboletada em meu assento, flagro à frente um senhor barbudo lendo Jorge Amado. Nosso destino: Salvador. É coincidência em modo avião.

Enquanto a aeromoça passa checando o cinto de segurança de todos, a moça dos piercings passa de fase no Candy Crush. Cada um com o que lhe é importante.

Fecham as portas, vamos decolar. O moço da poltrona ao meu lado apanha o celular e, antes de desligá-lo, contempla demoradamente as duas meninas que lhe sorriem na tela de fundo. Suas filhas, eu sei. Assim como sei dos seus pensamentos. Amor e medo sempre andam – ou voam – juntos.


Você recebeu uma nova mensagem

arte: Pierpaolo Limongelli

arte: Pierpaolo Limongelli

Dei para enviar mensagens para mim mesma. Pelo e-mail, Messenger, Voxer ou o aplicativo que estiver à mão. Pequenos lembretes, escritos ou orais, para quando a agenda (de papel; sim, eu uso agenda de papel) não está por perto, ideias para textos, links de coisas interessantes para ver depois, não esquecer de fazer isto, aquilo e mais aquilo outro. Entupo minha própria caixa postal. Tenho mais mensagens de mim para mim que dos amigos. Qualquer hora, endoideço de vez e me respondo.

“Olá! Tudo bom? Recebi a mensagem. OK, buscar o resultado da mamografia na sexta”.

“Gostei do tema da próxima crônica, sobre o hábito inconfesso e incontrolável de espiar o que os outros passageiros estão lendo ou assistindo no avião”.

“E aí, o marceneiro foi?”.

Tem gente que fala sozinha com um interlocutor imaginário. Tem gente que fala consigo sozinha. E tem gente que registra o diálogo. Ou seria monólogo?

No mundo caetano – “Quem lê tanta notícia?” – eu me pego doente, padecendo de um não-dar-conta de absorver tanto conteúdo e lembrar do que precisa ser lembrado, ainda que sejam tarefas básicas do dia-a-dia. A escrita, desta vez não por motivos literários, vem para me salvar. Recorro à tecnologia que, nesse caso, assim como a fé, não costuma falhar.

Dou enter na automensagem e logo vejo a notificação: “visualizada”. Posso dormir sossegada. No dia seguinte, checo as mensagens-missões. Se as cumpro, são outros quinhentos.

Por outro lado, mando tantas mensagens para mim, que vou acabar me ignorando, me apagando sem me ler, me bloqueando, tal faço com os spams. “Ih, lá venho eu de novo”.

Triste fim!


Crônica de minuto #57

Quero sair de casa todos os dias pela manhã e pendurar na maçaneta, do lado de fora, uma plaquinha escrito “Favor arrumar”, dessas de hotel.

Assim, quando eu retornar, por obra da mesma espécie das fadas-camareiras dos hotéis, as camas estarão impecavelmente feitas, as roupas dobradas e alinhadas sobre o pufe, o chão varrido e os banheiros tão limpos como se nunca houvesse passado gente por ali. Da mesma forma, todas as ideias, projetos e vontades que ficaram largadas pelo meio irão para seus devidos lugares.

Eu virarei, então, a plaquinha para “Não perturbe”. E não só ninguém baterá à porta, como nada de ruim, triste ou chato entrará.

No dia seguinte e a vida inteira, a mesma coisa.

O problema – ou solução – é que, na vida, não sou hóspede. Sou dona.


Esqueci minha senha

"The key", Andrea Joseph

“The key”, Andrea Joseph

Fui fazer compras na internet e o site pediu login e senha. Eu, que um dia cadastrei-me ali e inventei um acesso, não me lembrava qual era. Mas são bondosos os sites, dando-me a chance de recuperá-los. Bastou clicar em “Esqueci minha senha” para, plim!, o código secreto surgir na minha caixa postal. É bom contar com a memória alheia, ainda que de uma máquina.

Quem dera fosse assim fácil restaurar as coisas deslembradas ao longo dos tempos, já que venho esquecendo não só senhas.

Esqueci, por exemplo, como fico de vestido curto.

Esqueci também como é não me preocupar com a barriga e usar tudo, tudinho que der na telha.

Esqueci o nome da senhora que vendia as cocadas mais gostosas do mundo na porta de casa, quando eu era criança. Em vez de “esqueci minha senha” eu queria, na tela do pensamento, a opção “esqueci o nome da senhora das cocadas”. Salivando, clicaria ali com a esperança de, nas redes sociais, localizar seus netos, quiçá bisnetos, apenas para lhes contar da minha cremosa, pedaçuda e doce lembrança.

Por falar no meu tempo de criança, esqueci como eram as férias escolares no final do ano, quando eu tinha três meses inteirinhos para fazer tudo ou nada, mais nada do que tudo.

Falando em não fazer, esqueci de ir à dentista este ano. Ano passado idem. A esta altura, doutora Fernanda desistiu de mim, arquivando-me, desesperançosa, nos casos de pacientes perdidos.

Por falar em paciente, esqueci, sobretudo, onde foi que perdi minha paciência. E essa, receio, não dá para reaver com um simples e-mail.

Ainda falando em escola, esqueci o que minha mãe mandava na lancheira. Penso nisso quase todo dia, enquanto preparo as dos meus filhos. Não para fazer igual, mas para lembrar como hoje tudo é diferente.

Esqueci também a receita do bolo Nega Maluca que ela fazia e eu cheguei a reproduzir, satisfatoriamente, por muitos anos. Há reminiscências que não podem mais ser acessadas, nem com senha. Certa vez, fiz de um jeito, não funcionou. De outra, mudei aqui, ali, e nem sombra do velho bolo.  Não arrisquei a terceira tentativa. Não quis uma saudade bloqueada.

Falando em saudade, esqueci o dia em que minha gatinha Doris Day morreu, depois de catorze anos conosco. Mas não esqueci o dia que a encontrei, miúda e faminta, no metrô Anhangabaú e a levei para o trabalho, escondida dentro da mochila.

Esqueci outro tanto de coisas: como é ter medo de ir mal numa prova, como é voltar de uma balada com o sol raiando, como é fazer uma entrevista de emprego. São lembranças vencidas. Não é preciso recuperá-las. Estou, a todo momento, criando novas.


Noia

– Crédito, por favor.

Digito a senha e percebo (ou invento) olhares próximos. Na dúvida, faço um balé com os dedos a fim de desorientar o espião imaginário. Tornei-me paranoica digital, crente que todos querem invadir minha conta-corrente, roubar meus tostões, fazer compras no E-bay em meu nome.

Danço os dedos em volta do tecladinho, finjo que digito 2, mas aperto o 5. Faço de conta que é zero, quando na verdade é 9. Fiquei craque no ilusionismo numérico. Divirto-me, confundindo não sei quem. Teclo enter, vitoriosa: “Não contavam com a minha astúcia”.

Se vou na loja de conveniência cheia de gente e o caixa eletrônico fica ao lado dos salgadinhos, a neurose é potencializada. Debruço-me sobre a máquina e praticamente faço amor com o teclado. Ninguém fica sabendo se saquei ou fiz transferência.

Certa vez, ao pagar o café, pude jurar que o moço do caixa observava, de soslaio, o movimento dos meus dedinhos. Não hesitei: inseri a senha errada, crente que o blefe o despistaria. Na nova tentativa, girei a maquineta, desfavorecendo a visão do candidato a meliante. Ainda bem que eu havia pedido um macchiato duplo. Cafeína suaviza qualquer noia. (Ou não.)

Amo quando, ao redor das maquininhas, há aquela pequena barreira, impedindo olhares alheios sobre a combinação numérica secreta. Eu, no entanto, aprimoraria a coisa: aumentaria a altura para dez centímetros. Quinze, talvez. Só eu e Deus, que é de confiança, saberíamos minha sequência de seis dígitos.

É medo urbano, contemporâneo e explicável até certo ponto. Pois sei que não sou seguida e observada em tempo integral quando saio às ruas. Não chamo atenção, principalmente quando uso minha Hering surrada ou estou com uma de minhas bolsas favoritas, já carcomida pelo tempo (não dou, não dou, não dou). É que toda metrópole, não sem razão, é produtora de paranoicos.

E olha que nem contei: jamais deixo a chave de casa dentro do carro nos estacionamentos. Sempre penso que o manobrista vai descobrir, pela placa ou outra pista, o meu endereço e fará cópia da chave enquanto eu não volto.

É grave, doutor?


Cadastro

ImageZoo/Corbis

ImageZoo/Corbis

– Já tem cadastro com a gente?

Se respondo ‘sim’, a vendedora de piercing no nariz corre para o computador e pede meu nome. Sou pilhada na balela; não, não tenho o tal. Sou digna de outro, menos virtuoso: o cadastro dos mentirosos.

Se digo que não, ela tenta me convencer.

– Não quer fazer? É rapidinho.

Penso em recorrer ao ‘talvez’, a possibilidade intermediária universal. Ao menos, me daria alguns instantes para agarrar o que comprei e fugir. Cogito devolver na mesma moeda, pedindo que ela, vendedora, preencha um que venho elaborando há tempos: o cadastro nacional dos inconvenientes. Já tem quinhentos nomes, sabia? – eu lhe diria.

Querem meu e-mail e meu telefone em todo lugar onde compro algo, seja uma única caneta. Ou nem isso. Uma vez, rodei, rodei em uma loja, não comprei nada porque detestei tudo e, na saída, a mocinha do caixa – juro – me chamou e fez a proposta indecente. Mas minha filha… – ensaiei. Pior que isso, só quando perguntam se tenho o cartão da loja.

Vi-me obrigada a criar um e-mail alternativo (cuja senha já esqueci), só para deixar os vendedores contentes. Não quero receber as novidades da loja de edredons, nem da de materiais elétricos, tampouco do shopping inteiro. Eu mesma confiro as novidades, onde, se e quando quero. Não dou conta de ver os e-mails importantes que recebo, que dirá aquele com anúncio de cestas de Natal que podem ser adquiridas pelo PagSeguro em três vezes sem juros, uma maravilha. And so this is Christmas.

Cadastros – alguém precisa avisar o varejo –  não conferem, por si só, poder mágico de aumentar as vendas, fidelizar clientes, salvar o mundo. É namoro condenado, onde um dos dois não quer. Casamento forçado. O assédio cadastral é um estupro comercial.

Tem uma loja, no entanto, que só vende com cadastro. Aí eu me rendo, porque é loja de café. Faço o cadastro, digo a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Forneço não só RG e CPF como comprovante de residência, atestado de bons antecedentes, histórico escolar, carteira de vacinação, tudo, tudinho que pedirem. Com dependência de cafeína não se brinca. (E não convém deixar Mr. Clooney chateado.)

Resolvido, enfim: à vendedora com piercing (que não é a do café) eu não respondo sim, nem não, nem talvez. Finjo-me surda. Não falha.

Sou contra cadastros. Tenho preconceito. Sou cadastrofóbica. Prendam-me por isso.


Baila comigo

arte: Shiko

arte: Shiko

Em tempos de desespero hídrico, paulistas, mineiros e fluminenses apelaram aos rituais mágicos para que a água retornasse às torneiras áridas. Entrou em cena a dança da chuva, a performance ancestral que promete eficácia na geração de torós.

Se o elemento água, artigo em falta nos canos do sudeste, pode ser trazido de volta com uma dancinha, por que não promover um grande baile nacional, quiçá mundial, a fim de evocar atitudes escassas, esquecidas, evaporadas com o tempo, levadas com o vento?

Uma dança da gentileza, por exemplo. Com precipitações abundantes de amabilidade para socorrer, entre tantas necessidades, o trânsito das pequenas, médias e grandes cidades. Só não é recomendável realizá-la na hora do rush, no meio da avenida.

Dança da paciência. Solitária, em par ou em grupo, para que escorra sobre cada um o dom da serenidade e da calma, a fim de melhor lidarmos com todos e tudo, de infâncias a velhices, de sofrimentos a injustiças, de chatices a arrogâncias. (Comigo, confesso, nunca funcionou; venho dançando há décadas, e ela ainda não deu o ar da graça por aqui. Talvez eu que não esteja fazendo direito os passos.)

A dança da tolerância, para alumiar mentes obtusas diante do diferente, e a dança da compaixão, até que ela, assim como o amor cantado por George Harrison, venha para cada um.

Sólidas ou líquidas, são muitas as coisas faltantes neste mundo. Invente a sua coreografia, e bote todo mundo na roda. Os deuses responsáveis hão de se sensibilizar. “Dance bem, dance mal, dance sem parar”.

Não custa tentar.


Bom para

adaptação de "Restless Harmony", Philip Kirk

adaptação de “Restless Harmony”, Philip Kirk

Começo do mês. Pagou a mensalidade da academia usando o último cheque do talão. Preencheu-o e cruzou-o com dois traços, paralelos à perfeição, riscados a quarenta e cinco graus no canto superior esquerdo da folha. Destacou-o do canhoto e anotou, em letras maiúsculas: bom para dia 20. Sublinhou o 20, a fim de não deixar dúvida ao pessoal do contas a receber. Guardou o canhoto na carteira, a carteira na bolsa. Então, deu-se conta: ela própria vinha, ampla e geralmente, pré-datando sua vida. Há anos.

Como se tudo que planejasse, almejasse e sonhasse, ficasse sob uma espécie de etiqueta “bom para”, guardado numa pasta imaginária, esperando o dia de ser descontado. Ou vivido.

O namoro de onze anos e o casamento “bom para” depois que comprassem o apartamento. Depois que o reformassem. Depois que o mobiliassem. Depois que tivessem certeza.

O velho hobby como novo ganha-pão, “bom para” o dia em que todas as condições para tanto lhe soassem mais-que-perfeitas.

O tão desejado endereço na praia, “bom para” depois que se aposentasse.

Depois. Depois. Tantos outros depois.

Mensalidade quitada (ainda que não, propriamente), rumou à esteira. Desinfetou-a com a toalhinha umedecida de multiuso e configurou o treino daquela noite. Iniciou a caminhada a três quilômetros por hora, e o cheque pré-datado não lhe saía da cabeça. Aumentou a velocidade para quatro, cinco, seis quilômetros por hora, sem que ela, contudo, saísse do lugar. Era a mentira da esteira; ela não percorrera um metro sequer. Galopava agora a nove mentirosos quilômetros por hora. A transpiração, no entanto, era real. E a fez perceber que aquela corrida de faz-de-conta, embora condicionasse seu corpo, representava suas vontades, sempre programadas para depois. Seus planos pré-datados, assim como a esteira, em verdade não a levavam a lugar algum. Todos os “bom para” emitidos ao longo do tempo, simbolicamente, haviam se transformado em data impossível, inalcançável, com vencimento para um dia depois de nunca. Interrompeu a corrida, sua respiração era ofegante, a testa líquida.

No vestiário, olhou-se no espelho. Então seus sonhos não tinham fundos?

Apanhou suas coisas e já ia cruzando a porta quando a recepcionista a chamou. Esquecera-se de assinar o cheque.


Insulfilm

foto: Rudi Gude

foto: Rudi Gude

Entrou na concessionária e pediu para colocar Insulfilm nos vidros. “O mais escuro que tiver”. O vendedor mostrou os tons e apontou, “Este aqui a polícia pega”.

“É esse que eu quero”.

“Tem certeza?”, estranhou o vendedor. “Se fizerem você tirar, perde a garantia”.

Ela fez sinal de positivo, pediu que tocasse o serviço. Garantias ela já não tinha há tempos.

Em duas horas, saía da concessionária numa espécie de bat-móvel. Testou a invisibilidade ao parar no sinal. Encarou o motorista ao lado e mandou-lhe um beijo. Nada. Para que não restasse dúvida, mostrou-lhe o dedo do meio. Nada. Sorriu e engatou a primeira. Estava protegida.

Entrou no consultório, segunda sessão. Enrodilhava pequenas mechas de cabelos nos dedos, um por um, enquanto o terapeuta anotava coisas num caderno marrom e, de tempos em tempos, a fitava. Fitava mais do que anotava. No décimo dedo, ela anunciou, “Queria por Insulfilm no meu coração. O mais escuro que tivesse”. O terapeuta repousou o caderno no braço da poltrona, também marrom. (“Bom mesmo seria blindá-lo”, ela pensou baixinho.)

Assim como nos vidros do carro, ela queria uma fina e escura película ao redor de seu músculo involuntário. Mais que evitar calor, ela não queria que soubessem o que acontecia ali dentro; as tristezas públicas dão trabalho. Também tinha medo de que lhe roubassem os motivos, as razões, os direitos ao recolhimento. Queria ficar a salvo de assaltos e sobressaltos.

Entrou no consultório, sétima sessão. Cortara os cabelos pela manhã, seus dedos agora ficavam à toa no regaço. O terapeuta quis saber se ainda pensava no Insulfilm cardíaco. Ela sorriu. Ele anotou.

Dois meses depois, foi parada em uma blitz. O policial, cumprindo a previsão do vendedor, encasquetou com os vidros de seu carro. Pediu para ver os documentos. Deu a volta no veículo. Inspecionou o porta-malas. Falou pelo rádio com algum colega, conversaram por consoantes codificadas. Devolveu-lhe os documentos, ela roía as unhas. “Vai ter que tirar”, disse, apontando para as janelas.

Décima nona sessão. Já conseguia enrolar uma nova mecha no dedo indicador, enquanto o terapeuta contava da proltrona nova, vermelho-escuro, adquirida em um brechó. “Só duzentos e cinquenta reais, acredita?”. Em seguida, abriu o caderno, agora vermelho-claro, e quis saber como andavam as coisas. A certa altura, tornou a lhe perguntar se ainda sentia vontade de ter o Insulfilm dentro dela. Ela disse que não, pois sempre haveria alguém lhe pedindo para tirar. Desenrolou a mecha e aproveitou para contar: “Fizeram-me arrancar o Insulfilm do carro duas vezes”.

“Desistiu, então?”.

“Não”.

Vendera o carro.


Crônica de minuto #56

arte: Jairo Souza

arte: Jairo Souza

Alguém morre e logo se conjuga:

– Descansou.

É a secular, esperançosa e bem-aventurada ideia de que, ao morrer, ganha-se de presente o repouso absoluto. Seja porque a pessoa livrou-se do sofrimento da vida nem sempre fácil no planetinha azul, porque se foi sem aviso-prévio ou porque viveu o bastante.

Estão pensando que é assim, é? Que morre-se e entra em férias eternas? Que se muda para um céu de infinita varanda com sofás fofos e macios, poltronas reclináveis, música da boa e suco de frutas vermelhas à vontade? Que o universo celestino é um dolce far niente sem agenda, sem relógio, sem calendário e muita, muita soneca?

Talvez estejamos todos redonda e mortalmente enganados.

Liberta da carcaça e agora transmutada na luz e energia originais, a alma ainda não chegou ao seu destino. E se a pós-vida terrena exigir de quem se foi, em vez de folga, trabalho dobrado? Tratamentos, estudos, reflexões, revisões de lições que ficaram para trás, atualizações de mundo, planos para um retorno.

Viver dá trabalho, morrer também. A vista, de lá, certamente é bonita. Mas Deus não dever dar mole, não.


Corrija-me

arte: Robin Ator/r8r

arte: Robin Ator/r8r

A vida começa aos quarenta. Ou, no caso da mulher, quando ela conhece o corretivo.

O corretivo é o photoshop natural, não-comedogênico, com textura oil-free e, salve!, FPS 30. É a mágica da maquiagem, sem coelho, nem cartola, mas com ilusionismo garantido. A retificação dermatológica de mentirinha, com validade até o próximo demaquilante. Quem se importa?

Corretivo é item de primeira necessidade, como pasta de dente. Pode faltar tomate na geladeira, bisnaguinha para o lanche das crianças, ração para os gatos, mas não pode faltar corretivo no meu toucador. (Lembrando que quem fala ‘toucador’ tem mais, muito mais de quarenta.) O corretivo não me salva da ação do tempo, mas de mim mesma.

Dei-me conta da minha fascinação pelo creminho quando a maquiadora disse “Vou lhe aplicar um corretivo” e, diferente de uma criança amedrontada que aprontou alguma, e eu fiquei feliz da vida.

O produto é mestre: corrige e ainda dá nota. 7 no disfarce do melasma da gravidez,  surgido dez anos atrás e que ainda está estampado na minha pele, feito a cicatriz da cesárea; 8 para as olheiras, 8,5 para as sardas mais rebeldes e 9 para a espinha. Nada mau para quem tirou zero em cuidados com o sol na juventude.

Melhor que corretivo, só os BB e CC cream, aqueles cremes multifuncionais cujos nomes têm esse jeitão meio tatibitati. Um bom exemplar faz pela sua pele, em cinco minutos, o que você não fez por ela em trinta anos. Resolve aquela aparência de peixe deprimido e repara até mau humor matutino.

Tanto amor pelo corretivo me põe na contramão da nova moda: mulheres inventaram de postar nas redes sociais fotos sem maquiagem. A intenção é nobre: combater a ditadura da beleza perfeita e o excesso dos filtros e retoques nas fotografias.

Mas logo agora, que aprendi a esfumar os olhos?

Bem agora, que dá para se embonecar à vontade com batons, blushes e sombras que não são testados na bicharada? Até pouco tempo atrás, arrancar essa informação dos fabricantes era mais difícil que passar delineador.

Justo agora, que estou de cabelos brancos e a maquiagem é a amiga bacana que não me deixa com ares de fantasminha camarada ou de quem tem hemoglobinas abaixo de 6?

Não. No meu rímel ninguém tasca. Muito menos no meu corretivo.

Porque o movimento #semmaquiagem é mimimi em um tom acima da pele: a moça tira a foto de cara lavada, bota na internet, coleta as curtidas e os comentários de “Continua linda”, “Uau”, “Maravilhosa” e depois vai, leve ou integralmente maquiada, cuidar da vida. É cara lavada da boca e olhos pra fora, para inglês ver. Não vale. Não orna.

Corrija-me se eu estiver enganada.


À flor do pelo

foto: Silvia Kalvon

foto: Silvia Kalvon

Tenho gatos. Gatos têm pelos. Tenho pelos de gato nas minhas roupas e nas minhas coisas. Todas. É uma lógica felina, peluda e universal. Houve época em que, dona de dois gatos brancos, eu evitava as roupas escuras. Depois, veio o siamês com seus cinquenta tons de bege. Em seguida, os pretos. Por fim, a tricolor. Liberei geral no guarda-roupa.

Uma rápida busca no Google, “como tirar pelo de gato das roupas”, e somos abençoados com quase oitocentas mil dicas, produtos, artigos, teses de mestrado, técnicas, tutoriais. Toalha molhada, luva de latex, esponja. Soluções instantâneas e… inúteis. Há mais pelos soltos de gatos entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Antes de sair de casa, recorro aos rolinhos adesivos. Entro no carro e, apesar de os gatos não andarem ali, lá estão eles, os pelos. Grudados, aderidos, incorporados ao tecido dos bancos. Gatos são onipresentes.

Chego à reunião e me dou conta que minha blusa está cheia de pelos. Discretamente, e em vão, tento me livrar deles. Torço para que os presentes também gostem dos bichanos. Se perguntarem, digo que os pelos são meus amuletos. E que carrego vários comigo, só por garantia.

O rolinho da Scotch-Brite e seus genéricos fazem parte das compras rotineiras e essenciais da casa, como arroz e feijão. Ninguém entende por que tenho tantos rolos de fita adesiva, daquelas largas, perfeitas para a missão. Sou das que testam tudo e compram todas as novidades do setor. Gatos, quem diria, movimentam a economia de um país.

Houve tempo em que eu sentia enorme vergonha por exibir pelos acidentais na calça, no vestido. Como se fosse sinal de falta de higiene, de zelo. Hoje, não mais. De vez em quando, noto olhares enviesados. Assim como também rola a maior identificação com quem também convive com gato. Há sempre uma foto dele no Instagram para mostrar aos outros.

Meu filho, segundo exames, tem moderada alergia a pelo de gato, embora não manifeste sintomas. Algumas pessoas acham um absurdo os gatos dormirem na nossa cama. Nós temos moderada paciência com gente assim.

Tem anfitrião que oferece vinho, cerveja e comidinhas às visitas. Aqui em casa a gente oferece Polaramine.

Uma coisa é certa: Deus fez o gato no sábado, enquanto comia Nutella e ouvia Tom Jobim. No dia seguinte, descansou.

Tudo, então, estava pronto.


Do direito à reclamação

arte: Iv

Fato um: o mundo está melhor agora do que antes.

Fato dois: o mérito é dos reclamões.

Não fosse a reclamação, prima da insatisfação, ainda estaríamos assando peixes em fogueirinhas improvisadas nas mal iluminadas cavernas pré-históricas. Não fosse a Rosa Parks reclamar, negros ainda teriam de oferecer seus lugares aos brancos, nos ônibus norte-americanos. Por aqui, permaneceríamos sofrendo com as festas do vizinho até às quatro da manhã, pois não haveria lei do silêncio. Nem Procon. Pior que tudo isso junto: continuaríamos precisando de abridor para a lata do Leite Moça.

Pessoas cordatas não fazem revolução. Gente boazinha não muda a história. São os reclamadores que movem o mundo, meu bem.

Assim como não há guerra sem sangue, não há evolução sem chororô.

Reclamar pode ser verbo transitivo direto, indireto e até intransitivo, dependendo do contexto. No gerúndio ou no subjuntivo.Tanto faz; reclamar é, no fundo, verbo fundamental. Infinitivo e infinito. E, antes de ser verbo, é instinto. O primitivo e rebelde instinto de não querer assim e querer assado – para benefício próprio ou mundial – e verbalizar essa vontade. Porque há algo comum entre a queixa por ter o cabelo enrolado e não liso, e vice-versa, e a reclamação que ponteia os protestos de um povo. É ela, sempre ela: a centelha da inconformidade, embutida no DNA humano.

Toda reclamação é legítima, ainda que não seja.

A coisa mais odiável de se ouvir, quando se está em pleno queixume, é: “Você reclama de barriga cheia”, “Tanta gente sofrendo e você aí, reclamando”. É desvalorização da reclamação alheia. Censura. Repressão. Cerceamento da liberdade. Que, ironicamente, também configura espécie de reclamação por parte do outro.

Não é porque se vive confortavelmente em uma casa com saneamento básico, energia elétrica e geladeira cheia que se está proibido de reclamar por isso ou aquilo, às vezes mais por aquilo que por isso.

Não é porque se tem saúde, filhos lindos e ar-condicionado que se está impedido de lamuriar, entre um café e outro.

Tudo estar relativamente bem na vida não cancela os direitos reclamatórios, individuais ou coletivos, silenciosos ou barulhentos.

E pode-se, sim, reclamar de algo que não se faça nada, absolutamente nada para mudar. Só para exercitar.

Eu sou amplamente grata, mas não abro mão do direito às minhas reclamações e descontentamentos gerais, ainda que rasos e de baixa complexidade. Minhas superficialidades são cheias de profundezas. E, embora a vida não tenha SAC, sigo adepta da lamúria-canção: “Mas Deus não quer que eu fique mudo, e eu te grito esta queixa”. (Ah, Caetano.)

Aceito elogios, sugestões e, por que não?, reclamações.


O que você faz?

arte: Andrea Joseph

arte: Andrea Joseph

– O que você faz?

Por um instante, tento adivinhar que tipo de resposta o perguntante busca. Se pergunta porque deseja, por mera ou suspeita curiosidade, saber a atividade pela qual sou remunerada. Se pergunta genericamente, sem maiores pretensões, aguardando abreviado esclarecimento. Ou se pergunta por perguntar, para puxar assunto, quebrar o gelo. Mais ou menos como quando se está numa festa em que se conhece apenas um convidado, e ele some. Na dúvida, sorrio e elaboro mentalmente a resposta (quase) completa.

– Faço força para acordar cedo. Faço banana amassada com aveia e Toddy em formato de coração para meu filho e bisnaguinha na chapa com ovos mexidos para minha filha, de café da manhã. Faço agendas inviáveis e acordos impossíveis com Cronos. Faço tempestade em copo d’água e, das tripas, coração. Faço o bem e, vez por outra, olho, sim, a quem. Faço o que eu digo e faço o que eu falo – tento fazer sentido. Faço amor. Faço guerra, também. Faço de um limão, limonada; de uma alegria, felicidade, e de uma lembrança sólida, nostalgia líquida. Faço muito. Faço pouco. Faço é nada. Mas faço o que posso. Faço caminhos e laços tortos (fazer o quê!). Faço graça. Faço surpresa. Faço coleção de bolsas, caderninhos e cafeteiras. Faço, aliás, juras de amor ao café (e faz tempo). Faço suco de maracujá com gengibre, kibe de soja, hamburguer de abobrinha, bolo de cenoura, arroz e feijão cheios de alho. Para tudo isso, faço supermercado. Faço livros, blogs, amigos. Faço homenagem e piada. Faço rir, faço chorar e faço dormir. Faço ideia. Faço grandes malas e boas viagens. Faço uma fézinha de vez em quando, e já vou fazendo planos. Faço cara feia. Faço pouco caso. Faço que não é comigo. Faço bobagem, faço vista grossa, faço por merecer. Faço o que eu quero, pois é tudo da lei – da lei! Faço as pazes, as camas, as unhas (faço questão). Faço ligações, conexões e intervenções. Faço minhas orações, minhas doações e minhas proclamações. Faço anos todo ano. Todo ano, faço promessas de ano novo. Faço conta e faço de conta. Faço, enfim, alguém feliz. – E você, me diga: faz o quê?


Corrida

arte: Joachim Robert

arte: Joachim Robert

Quando vou às compras, gosto de apostar corrida com a pessoa do caixa – qualquer caixa – para ver se consigo retirar o cartão antes que ela diga “Pode retirar o cartão”. Tenho me saído bem. Deixo o lugar sorrindo, cantarolando “We are the champions”. É minha desordem mental recorrente, my friends.

E essa é a apoteose.

O tiro de largada é quando saco o cartão para pagar. Nesse momento já estou preparada, alongada, aquecida. A pessoa pergunta “Crédito ou débito?”, eu respondo e calculo mentalmente o tempo que ela leva para digitar os comandos (se é Visa etc.). Então, saio em disparada para inserir o cartão antes que ela termine de dizer “Pode inserir o cartão”.

Na sequência, já dona do ritmo, verifico o visor da maquininha, ganho fôlego e corro para digitar a senha antes que ela pronuncie “Pode digitar a senha”.

Enter.

Foco o olhar na tela da máquina registradora que inicia contagem regressiva, geralmente começando em 35 e, quando o tráfego de dados está bom, no 32 (em média) vislumbro “Transação aprovada”. Apanho o cartão antes que ela anuncie “Pode retirar o cartão”.

Alcanço a linha de chegada com um dedo indicador de vantagem. Não tem pra ninguém. Quase esqueço de pedir o CPF na nota.

Não pago mais nada em dinheiro vivo. E desconfio que tenha comprado mais coisas do que preciso.


Rodinhas

arte: Reuben Whitehouse

arte: Reuben Whitehouse

Quando avistei, ao longe, meu filho andando de bicicleta, notei. Faltavam dois elementos na cena, tão cotidiana: as rodinhas laterais. Ele tinha cinco anos e o pai acabara de removê-las. O pequeno estava pronto para duas rodas.

Depois foi a vez da mais nova, no seu tempo, se despedir das rodinhas.

As rodinhas laterais são o apoio, físico e moral, para quem está aprendendo a pedalar. Têm seu valor. São temporárias, com dia certo para sair de cena. Uns as dispensam mais cedo, outros mais tarde, não importa. A independência e sua irmã mais velha, a confiança, virão.

Ou não.

Há quem prefira manter imaginárias rodinhas laterais a vida toda. Com medo de, sem elas, cair. Medo de não saber viver sem. Medo de levar tombo, de se machucar, do Merthiolate. De se ferrar, enfim.

Desfazer, por exemplo, uma sociedade de anos, cujos sinais de desgaste são evidentes, para inaugurar seu próprio escritório, é tirar as rodinhas e ir.

Anunciar carreira solo, depois de sair da banda que lhe acolheu um dia, mas que não funciona mais, é tirar as rodinhas.

Terminar o velho namoro ou casamento, preso por um fiapo de amor e alguns nós afetivos, é tirar as rodinhas.

Pedir demissão do trabalho entediante, dizer adeus às férias, ao 13º salário e ao tíquete-restaurante, juntar as economias, se enfiar em planilhas e abrir o negócio dos sonhos, é tirar as rodinhas.

Aposentar a escova ou a chapinha diária a lhe torturar as melenas, saber-se livre da ordem estética e andar em perfeito equilíbrio sobre as ondas dos cachos que Deus lhe deu, é tirar as rodinhas.

Para quem cresceu, a casa dos pais e tudo que há nela – segurança, proteção, facilidade – é uma espécie de rodinha lateral. Sair dela é deixá-la para trás. É acreditar que dá para ser dono ou dona do seu nariz e das suas contas. É viver o inenarrável prazer de ter seu canto e, dia sim, dia não, dar uma passadinha ali, só para tomar o café fresquinho da sua mãe. (Às vezes, a dependência não é das rodinhas invisíveis, mas das visíveis roupas lavadas e passadas, do visível almoço sempre pronto, da visível e farta geladeira.)

Dizem que quem aprende a andar de bicicleta não esquece mais.

Sabe-se que quem anda sem as rodinhas não volta mais a usá-las.

Então, experimenta dar uma voltinha sem as suas.


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