Fiado

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Na minha rua tinha uma lojinha. Lojinha de bugigangas, bijuterias, tranqueiras em geral. Ficava entre minha casa e a escola, que era na esquina. A vendedora se chamava Jane. Moça de cabelos castanhos, lisos e compridos. Uma simpatia.

Quase sempre, na volta da escola, eu parava na lojinha da Jane para flertar com os anéis, as pulseiras, os colares, as presilhas. Universo colorido e cheio de charme para uma garota de seus oito ou nove anos. Ficamos amiguinhas. Trocávamos meia dúzia de palavras, eu me despedia e ia para casa com meus cadernos e livros e lancheira.

Um dia, Jane sugeriu que eu levasse o anel de pedrinha vermelha. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Respondi que não podia, não levara dinheiro. A Jane, que além de simpática era esperta, ali, naquele dia e naquela hora, apresentou-me ao maravilhoso mundo do cartão de crédito. “Pode levar, depois você paga”.

Desci a rua feliz da vida, o acessório novo reluzindo no dedo. Praticamente um rubi raro.

A alegria não durou nada. Ao me ver radiante, dedo enfeitado, Sílvio, meu irmão mais velho, fazendo as vezes de pai, quis saber a origem. Contei.

Se a Jane me introduzira ao universo do fiado, agora o Sílvio pregava o sermão da educação financeira. Eu não podia sair por aí comprando as coisas, quem havia deixado? No “pendura”, ainda por cima.

Menos de cinco minutos depois eu estava na lojinha da Jane. “Vim devolver.”

“O Sílvio bem podia namorar a Jane, que é gatinha. Tudo ficaria bem e o anel, garantido” – pensei, enquanto assistia a Jane devolver o anel à vitrine. Voltei tristonha. Os cem metros que separavam a lojinha de casa foram os mais longos da minha infância. Acho que, quando abri o portão, eu já era dois anos mais velha.

Se você pensa que conto esta história para mostrar a importância de ensinar às crianças como lidar com o dinheiro, eu lamento. Errou de texto. Nem todo ensinamento dado a uma criança será, necessariamente, carregado pela vida. Uns sim, outros não; a linha que os separa é fina e frágil como as correntinhas ordinárias que a Jane vendia.

Conto porque comprei um anel, dia desses, e paguei no cartão de crédito. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Compra por impulso, sem necessidade, facilitada pelo fiado moderno. Enquanto lia “processando” na maquininha, o espectro da Jane, com seus cabelos castanhos, lisos e compridos, surgiu do outro lado do balcão. Vi minha rua, a lojinha que deu lugar, depois, à tinturaria dos japoneses. Vi os meus cadernos e a velha escola. Saudade é uma fatura eternamente a ser paga.

Só não vi o anel de pedrinha vermelha, meu por breves minutos; perdeu-se no sumidouro da memória. Era bonito, ao menos? Talvez. Bonito mesmo era o cabelo da Jane.

Inquebrável

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Tem criança que sonha ser super herói. Tem a que quer ir à Disney. A que deseja ter um macaco de estimação. Eu não queria nada disso. Queria quebrar o braço.

Era dessas quimeras infantis, coisa besta de almejar. Posto que fratura pode ser grave e até fatal. Mas criança, em seu mundo simples, desconhece “grave” e “fatal”. Achava lindo quebrar alguma parte do corpo, andar por aí de gesso, usar agulha de tricô para driblar a coceira, os amigos assinando naquela coisa que ia encardindo.

Quis o destino, no entanto, que eu nunca quebrasse nada. Nem braço, nem perna, nem pé. Dedinho, que fosse. Nada. Fui uma criança inquebrável.

Inconformada com a minha resistência óssea, tratei de dar um jeito. “Você é do tamanho dos seus sonhos”, cunharia um guru da autoajuda, décadas depois.

Assim que terminou a aula, fui sozinha até o Depósito São Pedro, uma loja de material de construção que havia na Mooca, e declarei: “Preciso de gesso”.

Voltei para casa com um bom punhado no saquinho e refugiei-me no quintal. Só meus avós estavam em casa, cuidando de seus afazeres, e não desconfiaram da arte. Procedi com a mistura de pó e água. Escolhi o braço: esquerdo. Caprichei na modelagem, limpa daqui, ajeita dali. Em quinze minutos o sonho estava realizado: eu tinha um senhor gesso, que ia da mão ao cotovelo.

É certo que, quando me perguntassem, eu não teria uma história empolgante para contar – que caíra da bicicleta (eu nem andava) ou rolara as escadas – e precisaria inventar. Contava, porém, com a significativa vantagem de não ter havido dor. Nem pânico, chororô, corre-corre ao pronto-socorro.

Improvisei a tipoia com uma atadura encontrada no armário do banheiro, ensaiei alguns gemidos e fiquei esperando mais alguém chegar em casa. Já imaginava o dia seguinte, na escola, sucesso total. O braço esquerdo não fora escolhido à toa; assim eu conseguiria fazer as lições.

Foi quando o portão se abriu. Era minha mãe. Plantei-me na porta da sala e encenei o drama. Ela, de longe, levou as mãos à boca. À medida que subia as escadas, querendo saber o que havia acontecido, eu me enrolava na narrativa e deixava escapar uma risadinha, e seu susto se desfazia.

Em menos de um minuto eu fora pilhada na farsa. Mãe é mãe, mas meu trabalho era amador. Rimos. E precisei tirar aquela porcaria antes do banho.

A filha do amigo quebrou o braço esta semana, cirurgia e tudo. Por causa dela, lembrei da história. Não sei se ela, quando criança, também tinha esse desejo bobo. Não sei se ele, quando a viu quebrada, levou as mãos à boca, em procedente susto.

Só sei que pensei no Depósito São Pedro e na minha mãe. Nenhum dos dois existe mais.

Eu continuo inquebrável. Assim como minhas memórias. Meus sonhos, hoje, são outros. E, pensando bem: eu já quis, sim, ter um macaco.

 

Para o Zé.

Ômega 3

 
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Telefone tocou em casa. Era o Moacyr Franco.

Na gravação, meu não-parente anunciava, com forçada animação, um tratamento à base de ômega 3 que, segundo ele, faria milagres pela minha saúde.

Desliguei antes que ele terminasse seu script. Abreviei meu sofrimento. O dele também. Porque há de ser sofrido construir sólida carreira artística por cinquenta anos e acabar no telemarketing.

Era segunda-feira de manhã, e às segundas pela manhã o humor negro está autorizado por Deus. Pensei: felizes os artistas que morrem cedo, no auge de suas carreiras, e eternizam-se. Como Jim Morrison, Marilyn Monroe, os rapazes dos Mamonas Assassinas – cada um no seu quadrado e relevância. O mundo lembrará deles pelos seus legados que, post-mortem, ganham superlativos. As gerações mais novas, agora, talvez saibam de Moacyr Franco não pelos seus seis troféus Roquette Pinto, mas pelo spam que topou assinar aos oitenta anos.

Sou Franco por herança paterna. Era criança quando peguei birra dele. Do sobrenome, não do meu pai. Primeiro, porque as crianças praticavam bullying comigo na escola. “Silmara Frango”. (Um bullying inocente que sequer se chamava bullying. Mas que rendia uma tristeza infinita à criança que já padecia por conta das sardas e virara “banana”.) Segundo, porque nasci na década em que o Moacyr começou a fazer sucesso. Quando perguntavam meu nome e eu respondia, in-va-ri-a-vel-men-te emendavam com outra pergunta: “Você é parente do Moacyr Franco?”. Inquisição que se repetiu, com menos intensidade, à época do Itamar Franco, o vice que virou presidente. (A gente precisa, não de hoje, prestar mais atenção aos vices.)

Estou a uma semana dos meus quarenta e nove, olho meus filhos esparramados no tapete brincando com os gatos. Sou, tirante momentos de cólera e impaciência, boa mãe. Se, aos oitenta, eu resolver implementar minha própria sociedade alternativa e “tomar banho de chapéu, ou esperar Papai Noel, ou discutir Carlos Gardel”, meu legado materno-afetivo será maculado e eu serei reconhecida apenas por ser a mãe velha e doida? Será que, no final das contas, nós somos lembrados pelo que fazemos no final das contas?

Por via das dúvidas, melhor garantir a saúde. Eu não deveria ter desligado o telefone.

 

 

Tipo exportação

Cresci ouvindo falar em café tipo exportação. Laranja tipo exportação. Castanha de caju. Gasolina. Mulata.

Depois entendi.

Tipo exportação é quando a gente faz uma coisa que é bacana, mas precisa torná-la mais bacana, praticamente excelente, para poder vendê-la para outros países. (Entendi também que a mulata não deveria estar na lista.)

Ou seja: para fora, segue sempre o melhor.

Para dentro, não precisa ser o melhor. O bom já serve. O possível, o que dá.

Tem horas que concluo: eu sou uma pessoa tipo exportação.

Sou bacana, mas sou mais bacana ainda, praticamente excelente, para os outros. Sei dedicar carinho e atenção e gentileza às pessoas da minha família, as “de dentro”, mas acabo fazendo isso melhor para as de fora. As dos outros lares que fazem fronteira com o meu. Um lar é um país.

Tem dias que solto os cachorros em casa. Vocifero, esbravejo, surto por tudo e por nada.

Porém, se no instante de fúria doméstica o interfone toca e eu atendo, a voz recupera a maciez, “Tenho, sim, um ovo para emprestar. Levo aí!”. É a minha gentileza tipo exportação.

Quem nunca cuspiu fogo quando o namorado ou namorada faz um comentariozinho qualquer, questionando, por exemplo, seu empenho para arrumar emprego? Se, no entanto, é o professor da faculdade que lhe cutuca, além de aceitar a observação, agradece pelo toque… É a maturidade tipo exportação.

Nessas horas evoco Cazuza em livre e desesperada adaptação: por que que a gente é assim?

Se para a família e pessoas íntimas deveríamos, em tese, oferecer sempre o nosso melhor, o nosso excelente. Mas não. Estamos muito à vontade para escancarar nosso lado B. Mesmo que o preço seja uma carinha com superávit de tristeza no fim do dia.

Bom mesmo é ser do tipo importação. Do tipo “eu me importo com você”. Faz bem às relações. Até as internacionais.

Feliz aniversário para o blog.

Queridos e queridas

Há sete anos, em 11 de abril de 2009, eu estreava como blogueira.

Naquele sábado, meio tímida e insegura, eu publicava “A.E.I.O.U.W.W.W.”, uma crônica sobre a internet. (Nem imaginava que, três anos depois, eu estrearia como escritora e com um livro justamente sobre ela.)

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O blog foi ensaiado à exaustão, posto que sou touro com ascendente em mula. Eu costumava escrever as crônicas e mostrá-las apenas a duas amigas queridas, Flávia Aidar e Januária Alves, que, pacientemente liam tudo e me incentivavam, mesmo quando o texto era uma porcaria. Amigo também é para essas coisas. Janu, alguns anos depois, viria a ser a pessoa que me apresentaria ao mundo dos livros e me mostraria que eu também era capaz de fazê-los. Não tem como não amá-las, e muito.

Um dia, lá em 2009 ainda, acordei petulante e resolvi mostrar um dos meus textos para a Cris Guerra, do Hoje Vou Assim. Eu não a conhecia. Ela gostou e resolveu publicar o link da minha Brincadeira Séria em seu blog e os leitores dela resolveram vir, em peso, ler. E eu resolvi que a Cris é minha fada madrinha.

Em sete anos meus filhos cresceram, meus cabelos branquearam, avermelharam, eu me tatuei um tanto, publiquei um livro, o segundo está a caminho e eu contei muitas histórias por aqui.

Com vocês, uma geral desses sete anos de blogagem:

  • 380 mil visitas
  • 573 textos, entre crônicas, minicontos, cartas e poesias
  • 4.737 comentários (Eu sempre me espanto com esse número porque, desses, se até hoje recebi uns cinco falando mal do blog, me botando no lixo, foi muito. Juro. Vocês são muito bonzinhos.)

Estas são as leitoras e o leitor que mais comentaram e comentam por aqui . Não são os únicos comentadores “de carteirinha”, mas o WordPress só listou os Top 7, fazer o quê. A todos, desta micro lista e da lista imensa que mora em meu coração, dedico a minha maior e melhor gratidão. Este blog me deu e continua dando bons amigos, desses de tomar café junto, abraçar, contar causo, rir, chorar.

fdm comentadores

 

O blog também já teve várias carinhas nesses sete anos. Algumas delas:

fdm carinha 1 x

fdm carinha 6 x

fdm carinha 4 x

 

Os posts mais lidos até hoje:

Carta para amiga que foi embora (e eu gosto de fantasiar que é ela, a própria, que vem ler)

Brincadeira Séria

Certinhos

Café com os medos

Chega de cinza

E de onde os leitores vêm?

  • Brasil
  • EUA
  • Portugal
  • Reino Unido
  • França

E de vez em quando aparece alguém perdido do Quênia, Bangladesh, Bahrein…

Tirando os leitores que visitam o blog intencionalmente, algumas pessoas chegam até aqui porque pesquisam, nos sites de busca, palavras-chave ou termos, que listam o FDM dentre os resultados. E isso sempre me diverte. De vez em quando o Google lista coisas assim (transcrevi aqui exatamente como as pessoas digitaram):

Nomes para sapos

voce ja ouviu falar em esminhocar observando a sua formacao que significado voce acha que tem essa palavra

a abelha consegue voar pq é surda

quanto tempo leva para a pessoa te procurar depois de fazer a amarração

greve por melhores mesadas, e se eu não der? eu não tomo mais banho

como ser uma pessoa certinha

como deixar de ser certinha

Nesses sete anos, confesso, já tive vontade de matar o blog várias vezes. Duas coisas não me deixam fazer isso: vocês e eu. (Nós, portanto.) Vocês, porque me leem e gostam e me contam isso e me botam pra cima e pra frente. Eu, porque se não escrevesse ficaria tudo ardendo aqui dentro e provavelmente eu já teria somatizado e sucumbido.

E já estive perto, muito perto de postar a última crônica. Porque é assim, gente: nem sempre escrever é uma delícia. Nem sempre os textos saem facinhos (às vezes, só tenho o fim; ou só o começo; ou só o meio.) Escrever cansa. Mas também salva.

E só sei que hoje a data é muito querida.

E só sei que queria dar um beijo e um abraço demorados em cada um de vocês que estão sempre por aqui – desde 2009, e os que chegaram depois, e os que estão chegando hoje.

Gratidão define.

Com carinho,

Sil

Modo avião

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Se as crianças se estapeiam porque um chamou o outro de “burro” e o outro revidou com um eloquente “idiota” batendo a porta do quarto e quem levou a pior foi o gato que viu seu rabo por um fio, lanço mão da providência divina: entro em modo avião. E encarno os Três Macacos Sábios, em livre adaptação: não ouço, não falo, não vejo.

Se flagro, involuntariamente, o discurso gentefóbico da mocinha atrás de mim na fila do supermercado sobre o penteado diferentão do rapaz do caixa, permaneço serena com minha linhaça e minhas bananas, e entro em modo avião.

Em modo avião, estou presente, pero no mucho. Não recebo chamadas de pai, filho, espírito santo ou espírito danadinho. Não apitam notificações do espertalhão no trânsito, crente que ninguém o vê trafegando pelo acostamento. Não sou acessada por nada e ninguém, não quero saber quem pintou a mula preta e, ao contrário dos versos de Torquato Neto na voz dos Titãs, não quero saber nem do que pode dar certo.

Em modo avião, posiciono-me alheia aos dissabores, mantenho-me à parte de pepinos, abacaxis e enrascadas em geral. Em sincero offline, declaro que não estou. Deixe sua mensagem. Eu respondo depois. Ou não.

É preciso cuidado, porém, para não ativar, por engano, o modo avião de guerra. Aquele que solta bombas, lança torpedos, dá rasantes e toca o terror.

Criado para as máquinas, se bem aplicado à humanidade, o modo avião mental é tão poderoso quanto a meditação. É atalho para o nirvana, um “nem tchum” planejado e consciente. Uma bênção para tempos tão bicudos.

Ative o seu. E boa viagem.