Espelho

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arte: Claudia Bello Flora

Não há mesa disponível, então ela pede para sentar-se à minha, onde, tranquilamente, cabem quatro. “Claro!”.

Ela agradece, sorri, acomoda-se no banco. Ajeita seus pãezinhos recém comprados sobre a, agora, nossa mesa e aguarda, em silêncio, pelo café que pedira. Sorrio de volta e continuo trabalhando. O limite geográfico de cada uma passa a ser a tampa aberta do meu notebook, como uma espécie de muro entre nós duas.

Do meu ocidente (oriente?), reparo em sua echarpe. Preta e branca, volumosa, diferente. Ela tem cabelos curtos, como os meus. Eu também estou de echarpe; a minha é verde de bolinhas brancas.

O café dela chega. Abaixo de leve a tampa do notebook, derrubando o muro:

— Bonita, sua echarpe.

Ela devolve:

— E eu gostei da sua – diz, lamentando em seguida: Mas não sei usar desse jeito.

— É só ir dando voltas – ensino.

Reparo em seu anel. É branco e preto, grande. Faz mimetismo com a echarpe. Ela repara no meu, também grandalhão. Pergunta o que faço. Respondo. Ela apanha da bolsa um caderno, conta que gosta de desenhar. Eu também ando com caderno na bolsa.

Echarpe, cabelo, anel, caderno. Por um momento, imagino estar em frente a um tipo diferente de espelho.

Ela vai mostrando seus trabalhos, ultracoloridos, contrapondo com o preto e branco dos seus acessórios. A temática é recorrente: moças de certo ar belle époque. E também figuras abstratas onde, se olhar bem, escondem-se rostos humanos. Seu traço é marcante.

Lembrei-me de como eu gostava de desenhar, quando criança. Tinha facilidade, era natural. Pessoas, animais, cenários, casas, coisas. Não sei se de tanto falarem que eu desenhava bem, que eu precisava entrar em uma escola de desenho, que isso, que aquilo, fui pegando birra e perdendo a vontade. Raramente desenho, hoje. Só quando meus filhos pedem. Pode ser que, simplesmente, eu não saiba mais desenhar. Nem todo talento é eterno. Só sei que o caderno da mulher (até então uma desconhecida) trouxe, num átimo, os desenhos e as cores da minha infância. Perdidos, talvez, nas voltas da vida e das minhas echarpes.

Pergunto o que ela faz com seus desenhos. “Nada”, ela responde. E desabafa, dizendo que sua arte tem pouca utilidade.

— Para quê serve a arte? – ela questiona. O mundo anda tão doido – diz.

Eu já penso que o mundo anda tão doído, e resolvo pedir mais um café.

A dúvida dela é universal: nem todo mundo sabe, ao certo, para quê servem seus talentos. Ela acha que perde tempo quando desenha. Sente-se culpada. Rebato: “A arte é uma forma de resistência. A arte salva.”.

E, em segundos, desenvolvo mentalmente um modelo de negócio para ela: cartões, roupas, cadernos personalizados. Visualizo tudo que ela pode fazer com seus desenhos. Ela, em sua amabilidade, vai ouvindo com interesse. Confessa que fica nervosa quando fala de seu trabalho. Rimos.

Ela arranca uma página do caderno, e me dá um de seus desenhos de presente. Um dos que eu mais gostara. Recusa-se a assiná-lo, no entanto. Parece ter escolhido o anonimato como assinatura.

Eu lhe dou um abraço e mostro um jeito de amarrar sua echarpe bicolor. No fundo, ela já sabe. Às vezes, só precisamos de alguém para nos (re)ensinar as coisas.

Ela se vai. Eu ainda fico mais um pouco. Preciso esperar o carro ficar pronto na concessionária, ao lado da padaria. Aproveito e adianto minhas tarefas. Na mesa agora sem fronteiras, cato a caneta e arrisco, em meu caderno, um desenho em preto e branco. Tal a echarpe dela.

 

Para Claudia.

Crônica junina

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Precisei comprar vestido de caipira para a Nina, ela vai dançar quadrilha na festa junina da escola. Lembrei-me de uma loja perto de casa que costuma ter, assim eu escaparia dos shoppings. Poder estacionar em frente, e não na lonjura de um G5, é uma bênção em dias de pressa modo on.

Abro o vidro e, sem descer do carro, pergunto à senhora em pé, na porta: “Tem vestido de caipira?”. Se não tiverem, basta engatar a ré. “Temos, sim!”. Viva São João.

A senhora aponta a seção dos vestidinhos, e em seguida pede a um rapaz que assuma o atendimento. “Pode deixar, vó”. Ela avisa que vai almoçar e desaparece através da porta ao lado de uma arara com calças em promoção.

O rapaz conta que ela gosta de ficar ali, zanzando, ajudando. Na verdade, ela e seu avô começaram o negócio, tanto tempo atrás. Hoje ele toca a loja e eles moram ali, numa casa anexa.

Reúno meia dúzia de vestidos para a Nina experimentar. Enquanto ela desfila, vou duvidando que alguma garota que viva no interior se vista daquele jeito. Toda festa junina, tirando as comidinhas, é uma falácia.

O vermelho ficou bom?, tem um número maior?, crédito ou débito?, CPF na nota? Vendas são feitas de perguntas e respostas que se encaixam.

Reparo: o rapaz tem um sobrenome tatuado no braço. As pessoas costumam tatuar o primeiro nome do filho, da mãe, do pai. Sobrenome, primeira vez que vejo.

Obrigada, eu que agradeço, boa tarde, para vocês também. Na pressa, Nina esquece no provador o casaco que vestia. Só notamos depois, longe dali.

Apanho a bolsa, cadê a nota fiscal?, ufa!, tem o número da loja, pego o celular, ligo, peço para guardar. Reparo: a razão social da loja é o sobrenome no braço do rapaz.

Final do dia, retorno à loja. O casaco esquecido está dobrado à perfeição, dentro de um saco plástico. Em qualquer outro lugar ele estaria amarfanhado sob o balcão, aguardando o resgate. Gentileza extra para a freguesa que tanta pressa tinha. O rapaz está certo em se orgulhar da sua dinastia – que batiza seu ganha-pão – impressa na pele.

Antes de sair, passo ao lado das calças em liquidação e tento ver a porta por onde a avó se transfere para o seu mundo paralelo. Não vejo. E se for uma passagem imaginária, como a que conduz à Nárnia? Faz sentido; em vez de apenas um armário com roupas, uma loja cheinha delas.

Eu bem que gostaria de ir para Nárnia. Mas só se lá tiver canjica.

Crônica de minuto #60

engraxate

Uma vontade da infância: ter meus sapatos lustrados por um engraxate, na Praça d­­­­­­­­a Sé.

Ele me chamaria de chefia e, enquanto fumaria um cigarro, daria um trato nos meus pisantes. Eu folhearia o jornal. Pessoas importantes leem jornais e têm sapatos engraxados, pensava.

Nunca via, sentada nas cadeironas de madeira, uma mulher sendo atendida. Também nunca me perguntei por que. Cresci, ficou sendo uma espécie de vontade não-autorizada. Talvez eu não achasse aquilo adequado para mulheres. E a vontade, perdendo o lustro, feneceu.

Quantas vontades se sepultam, em nome da adequação? Quais, de fato, mereceriam esse fim?

Nunca mais passei pela Praça da Sé. Desconfio que não existam mais engraxates por lá. Sumiram, assim como somem as vontades desautorizadas.

Aperte aqui

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No salão de beleza tem. No cartório também. Na loja de roupas e na sala de espera do consultório médico: máquina de café com os botões de controle improvisadamente cobertos, exceto um; o único autorizado, caso se deseje um cafezinho.

Fazem isso porque o pessoal – fregueses, pacientes – é fogo. Vão se servir, veem uma porção de botões, não sabem para quê é qual, e acabam mexendo onde não devem. Promovem a lambança geral. Para desespero de quem trabalha no lugar, que precisa acudir a velhinha desavisada que mandou ver na água pelando ou o garoto traquina que achou bonito tirar um café longo no copinho pequeno.

Contra a mexeção inadvertida, só papel sulfite e durex salvam.

Os que zelam pelo bom uso da máquina de café, cortesia da casa, desenvolvem esquemas anticaos de ocultação aos controles proibidos. Recortam papéis, deixando à mostra somente os permitidos. Grudam etiquetas de “aperte aqui” e, para reforçar, acrescentam setas indicativas. Redundância é segurança de informação, reza o módulo I da teoria da comunicação.

Tudo pelo bem do cafezinho e da paz local.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é das coisas.

As coisas que têm botões demais. Opções e possibilidades demais.

Só na maquininha do espresso, são três níveis de café. Botão de autolimpeza. Regulagem de moagem. Um convite ao furdunço.

Eu sou cheia dos botões.

Tenho botõezinhos de me fazer dar risada, querer beijar, abraçar, botãozinho para me compadecer, ter vontade de ajudar o próximo. E tenho também o que, se apertado, ativa na hora a tristeza. Outro, que altera o nível da irritação. Um, que me desperta a raiva. O que bota a impaciência para ferver. O que me faz chorar feito bebê. Todos importantes na completude da minha máquina de ser. O problema é quando as pessoas acabam mexendo nos botões que não deveriam, e promovem a lambança (interna) geral.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é minha.

Eu que tenho botões demais. Opções e possibilidades demais.

Quem me arruma papel sulfite e durex?

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Se a minha mãe tivesse Facebook

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Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

Fiado

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Na minha rua tinha uma lojinha. Lojinha de bugigangas, bijuterias, tranqueiras em geral. Ficava entre minha casa e a escola, que era na esquina. A vendedora se chamava Jane. Moça de cabelos castanhos, lisos e compridos. Uma simpatia.

Quase sempre, na volta da escola, eu parava na lojinha da Jane para flertar com os anéis, as pulseiras, os colares, as presilhas. Universo colorido e cheio de charme para uma garota de seus oito ou nove anos. Ficamos amiguinhas. Trocávamos meia dúzia de palavras, eu me despedia e ia para casa com meus cadernos e livros e lancheira.

Um dia, Jane sugeriu que eu levasse o anel de pedrinha vermelha. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Respondi que não podia, não levara dinheiro. A Jane, que além de simpática era esperta, ali, naquele dia e naquela hora, apresentou-me ao maravilhoso mundo do cartão de crédito. “Pode levar, depois você paga”.

Desci a rua feliz da vida, o acessório novo reluzindo no dedo. Praticamente um rubi raro.

A alegria não durou nada. Ao me ver radiante, dedo enfeitado, Sílvio, meu irmão mais velho, fazendo as vezes de pai, quis saber a origem. Contei.

Se a Jane me introduzira ao universo do fiado, agora o Sílvio pregava o sermão da educação financeira. Eu não podia sair por aí comprando as coisas, quem havia deixado? No “pendura”, ainda por cima.

Menos de cinco minutos depois eu estava na lojinha da Jane. “Vim devolver.”

“O Sílvio bem podia namorar a Jane, que é gatinha. Tudo ficaria bem e o anel, garantido” – pensei, enquanto assistia a Jane devolver o anel à vitrine. Voltei tristonha. Os cem metros que separavam a lojinha de casa foram os mais longos da minha infância. Acho que, quando abri o portão, eu já era dois anos mais velha.

Se você pensa que conto esta história para mostrar a importância de ensinar às crianças como lidar com o dinheiro, eu lamento. Errou de texto. Nem todo ensinamento dado a uma criança será, necessariamente, carregado pela vida. Uns sim, outros não; a linha que os separa é fina e frágil como as correntinhas ordinárias que a Jane vendia.

Conto porque comprei um anel, dia desses, e paguei no cartão de crédito. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Compra por impulso, sem necessidade, facilitada pelo fiado moderno. Enquanto lia “processando” na maquininha, o espectro da Jane, com seus cabelos castanhos, lisos e compridos, surgiu do outro lado do balcão. Vi minha rua, a lojinha que deu lugar, depois, à tinturaria dos japoneses. Vi os meus cadernos e a velha escola. Saudade é uma fatura eternamente a ser paga.

Só não vi o anel de pedrinha vermelha, meu por breves minutos; perdeu-se no sumidouro da memória. Era bonito, ao menos? Talvez. Bonito mesmo era o cabelo da Jane.