Eles, passarinhos

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foto: FBarella

Primeiro chegou um. Dia seguinte, outro. Filhotes de sanhaço, caídos do ninho durante uma tempestade. A vizinha os trouxe numa caixinha de papelão, sabe que costumo cuidar. Não sou passarinheira profissional, mas dou minhas voadinhas.

Com alguma ajuda especializada e um bocado de amor, dá para salvar muitos. Mantenho um kit pronto no armário para essas horas, com gaiola, papinha, vitaminas. E o WhatsApp da veterinária nos favoritos. O marido já se acostumou a dividir o banheiro com os piupius. O esquema antigatos – em casa são três – é eficaz, e ninguém fica sem seu banho de sol.

Às vezes, mesmo com todo zelo, alguns filhotes se vão logo no primeiro dia. Longe dos cuidados dos pais, se ressentem. Retornam ao Grande Ninho. Alguns, no entanto, “vingam”, como diria minha avó. Ficam em casa até aprenderem a comer sozinhos (a natureza é um baita self-service) e a voar; a fagulha do voo já está neles, basta despertá-la. Então, eu os solto. Pois manter pássaro em gaiola está catalogado entre as maiores maldades do mundo. Sei que, salvando-os, interfere-se no destino. Talvez isso cause algum desequilíbrio ambiental. Fazer o quê? Meu instinto materno gosta de arrumar treta com a seleção natural.

Foi assim desta vez. Ontem devolvemos Bob e Lola à natureza, após vinte e dois dias de cuidados e chamegos. Estavam mais que prontos. Despedi-me deles na mata que tem aqui perto de casa, oficialmente a salvo da especulação imobiliária. Antes, porém, os recados de mãe: “Protejam-se. Vão com Deus”. Os dois bateram asas, sem prestar muita atenção às recomendações. Feito os filhos. Fiquei um tempo lá, tirando foto de dois pontinhos escuros. E torcendo para as outras aves não fazerem bullying com eles.

À noite choveu bastante. E eu, mesmo sabedora de que aves são praticamente à prova d’água, me acabei na angústia. Passarinho não é gente, que se começa a garoar vai correndo abrir o guarda-chuva ou se esconder sob a marquise. Não fica resfriado como nós. Eu sei, eu sei, eu sei. Tiro dez na prova teórica. Mas meu coração queria ir voando até o lugar onde os deixei (tem uma pedra pintada de azul no caminho, anotei isso mentalmente), só para certificar-me de que estão bem, providenciar-lhes um abrigo seco e quentinho, quem sabe levar um mamão fresquinho? Vinte e dois dias é tempo mais que suficiente para amar um passarinho. Ou dois. Principalmente se você, que os conheceu recém-nascidos, do tamanho de uma ameixa, feios e pelados, acompanhou e comemorou cada uma das suas conquistas e agora sabe que suas penas são de um azulado lindo.

Se cuidar de pequenos órfãos alados é parecido com cuidar de filhos – que a gente conhece antes mesmo de nascerem pelados e, às vezes, um pouquinho feios também, menores que uma ameixa (graças ao ultrassom), acompanha e comemora cada conquista e sabe que um dia também deixarão o ninho –, a pergunta é: será que tenho feito um bom trabalho? Nutrir, aquecer, proteger: qual a medida, o que é exagero? Se ser mãe é dar asas, tenho ensinado meus próprios passarinhos a voar? Quantas asas já cortei e continuo cortando, sem saber? Quantos piados tenho ignorado? Nossa casa é gaiola ou mata aberta?

Vai ver, eu me preocupo à toa. Vai ver, eu sou é boa de bico.

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3 comentários sobre “Eles, passarinhos

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