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Crônica de viagem #3 ou O cortejo

Arte: Craig Walkowicz

Deve ser, ao menos, romântico morrer nos alpes franceses. Passar desta para melhor só há de valer a pena se na outra vida existir uma cadeia de montanhas tão estonteante quanto a que sou condenada a ver por dez dias seguidos; meus olhos quase recusam o piscar.

Elas são três e é preciso decorar seus nomes, dizem que faz parte da iniciação local: Chartreuse, Vercors, Belledonne. Quem vive em Grenoble, cidade abraçada por elas, compulsoriamente vê, ao final de cada rua ou canto, uma delas. É como morar na folhinha. Aquelas, penduradas na porta da cozinha ou no paneleiro de antigamente, a marcar os dias e os meses com paisagens tão paradisíacas quanto impossíveis. Tínhamos em casa. Era brinde da quitanda, do mercadinho, da loja de material de construção. Eu, criança, era desesperançosamente fascinada pelas paisagens. Não as supunha reais; era tudo ficção. As fotografias nem legendas tinham; pertenciam a alguma longínqua terra de faz-de-conta. Há alguns anos, minha irmã , cunhado e sobrinhos atravessaram alguma porta ou paneleiro perdido e foram parar no mundo da folhinha. Agora eles têm um pays des merveilles só deles. Ao visitá-los, mergulho também num calendário onde o passo do tempo é mais breve que o da infância. Não se usa mais pendurar folhinha. O mimo do mercadinho é uma empobrecida versão magnetizada da folhinha, de tamanho e encanto reduzidos, onde ninguém quer morar.

Do outro lado da rua, vejo um cortejo. É a morte pedindo passagem. A cidade, nessa época, é fria como as mãos do morto, falsamente entrelaçadas sobre o peito mudo. Lilás-sujo como sua retorcida boca que, em vida, talvez não tivesse palavras para puxar uma procissão assim. A cidade está vestida de inverno para acompanhá-lo no derradeiro passeio. O que separa vida e morte é apenas um punhado de neve – derretível neve. E, no caminho entre uma coisa e outra, as montanhas, danadas de bonitas.

Quem seria ele, ela? Não importa, é belo morrer no inverno. A não-vida orna com o coração gelado de quem arde em tristeza e saudade.

Tento contar os carros que vão atrás. A morte também tem seus seguidores. É a grande e pesada rede social da ausência, se expressando em cento e quarenta carros, lutuosos e sombrios.

Ninguém desconfia: é no inverno que a vida, secreta e organizadamente, pulsa e se prepara.

Há flores, muitas e coloridas flores a fecundar o féretro.

Ninguém desconfia: é primavera.

Pronta para o verão?

Ilustração: Pin-up with sun hat, Freeman Elliot

Começou. Nos outdoors, anúncios de revista, comerciais de TV, alguém ordena: preciso me preparar para o verão. Por aqui, ele só dará o ar da graça em três meses. É como se a primavera, que acaba de tocar a campainha no hemisfério sul, com sua inabalável força renovadora, fosse coadjuvante em um espetáculo onde a única celebridade é o verão.

Em doze semanas eu não consigo definir nem o que quero da vida, quanto mais glúteos, bíceps, tríceps, abdome. Até parece que o que levou um ano (ou mais) para se instalar no meu corpo, sob minha permissão, estará disposto a ir embora assim, em noventa dias.

Eu me preparei para o vestibular. Para a primeira entrevista de emprego. Para encarar uma demissão. Para ter filhos (e me preparo para isso dia após dia). Para perder minha mãe. Eu me preparo para viajar, jantar fora, tomar injeção. Mas preparação para estação vindoura, sinceramente. Isso é lá com os ursos, formigas, cigarras. Eu que não vou dar trela.

Sou obra em progresso, nunca estarei pronta. Na melhor das hipóteses, equipada para dançar conforme a música: câmera fotográfica nas mãos para primavera e outono, ar-condicionado para o verão, botas de cano longo para o curto inverno tropical. No mais, permaneço em construção, desde que nasci até o último dos meus dias. Que cairá, quem sabe, num solstício de verão ou equinócio de outono.

Vida não tem colação de grau, nem formatura. É a coleção de estações vividas, uma após a outra, em seu eterno compasso de brotar, florir, morrer, que deixa a gente razoavelmente preparada para o ato de viver. Ainda assim, é bom que se diga: não há garantias.

Ao contrário do que deveria ser, não é a brisa da primavera que nos acaricia agora. O que nos derruba, daqui até o Natal, é o vendaval de apelos para ficar bonitona, gostosona, tudo ona. Inclusive bobona. É o externo premiado. No entanto, não é só disso que se faz um verão. Até andorinha sabe.

Chegará o dia em que outdoors, anúncios e comerciais noticiarão cada estação do ano com a mesma pompa e devida circunstância, pedindo de nós só o que é possível lhes dar.

Os que viverem, verão.

As estações

Ilustração: Rafael Assis/Flickr.com

O rapaz bem que tentou. Mas não conseguiu alcançar o ônibus. Correu o mais que pôde, segurando com uma das mãos o bolso da camisa e com a outra, a mochila. De nada adiantou. O motorista não o viu. Se o visse, talvez sua vida, em plena primavera, mudasse de itinerário.

Se alcançasse o ônibus, talvez visse a moça com camiseta de flor sentada no penúltimo banco. Ela é linda, e talvez eles se apaixonassem.

Se eles se apaixonassem, talvez fossem morar juntos no próximo verão.

Se eles fossem morar juntos, provavelmente já teriam montado um apartamento do jeitinho deles, com varanda para a montanha e tudo, até o outono.

Se eles montassem um apartamento do jeitinho deles, é certo que pensariam, no inverno, como seria bom ter um filho.

Que nasceria na primavera, junto com os primeiros botões de rosa da varanda.

Daria seus primeiros passos num verão.

Balbuciaria as primeiras palavras num outono.

E seria batizado num inverno.

Muitas primaveras depois, os dois voltariam ao ponto de partida: não se (re)conheceriam. E, num verão, estariam prontos para seguir novos itinerários. Cada um, o seu. Se renovariam a cada estação, sucessivamente. Assim como as plantas e os bichos.

Mas o rapaz não alcançou aquele ônibus. Que partiu levando uma das possibilidades da sua vida.

Não faz mal: dali vinte minutos chegou outra.

Chega de cinza (be sure to wear some flowers in your hair)

Foto: D Sharon Pruitt

Neste inverno, quando as cores mais sóbrias e tristes parecem querer dar o tom, nas roupas e nas paisagens, surpreenda. E faça como manda aquela música: “be sure to wear some flowers in your hair”.

Mesmo que você não esteja indo a São Francisco, mas ao trabalho. Mesmo que você vá ficar em casa. Mesmo que custe uns minutinhos a mais na frente do espelho: coloque algumas flores em você. Pode ser um brinco. Um lenço. Um anel. Uma blusa. Uma bolsa. Qualquer coisa com flor.

Mesmo que as semanas de moda tentem lhe convencer do contrário, e a despeito da temperatura lá fora despencar para os quinze graus, estampe-se de flores. E, se não estiver geando, deixe à mostra aquela flor tatuada no ombro, para espanto dos seus colegas de escritório que nem sabiam que você tinha uma.

Mesmo que chova. Mesmo que o carro tenha deixado você na mão e você vá trabalhar de ônibus. Melhor assim: mais gente verá sua flor. Mesmo que os ônibus entrem em greve e você tenha de ir a pé. Aí você vai colhendo flores pelo caminho para enfeitar a sua mesa.

Mesmo que as coisas, no geral, não estejam do seu agrado. Mesmo que seja a centésima vez que você diz para si mesma que vai procurar outro emprego, mudar de profissão, terminar com o namorado, falar sério com o marido, ter mais paciência com os filhos. Que vai começar a caminhar. Que vai se alimentar melhor. Que vai colocar mais vestidos no seu guarda-roupa. Aproveite e comece por um florido.

Mesmo quando os cinzentos tentarem estragar seu dia, faça como o doce touro Ferdinando: prefira sentir o perfume das flores a entrar na briga. (Só tome cuidado com as abelhas.)

Mesmo que você use todos os seus trocados, compre todas as flores daquele senhor no sinal. Depois, dê-as de presente para seus vizinhos. Pois gentileza gera gentileza, alguns sabidos já notaram.

Empunhe sua flor e mostre que você está, sim, entendendo muito bem o que acontece no Irã, no Sudão e, principalmente, na sua cidade. E mesmo que para alguns soe como cafonice nostálgica e piegas, mostre que sua Flower Power está mais viva do que nunca.

Mesmo que você não tenha vivido os anos sessenta e setenta, jogue o meio tom e a sisudez para escanteio, e assuma a cor por inteiro. (Aliás, o mundo, hoje, está a cara de quem nasceu naqueles anos que prometiam tanto.)

Não tenha medo: vá de flor.