Voar é com os pássaros. Ou não

Arte: Mariana Fossatti

O mais perto que estive de um suicida foi, de fato, longe. Próximo o bastante, porém, para que a quase-imagem do fato consumado se eternizasse nas minhas memórias. Cristalizadas com os anos – o episódio tem quase duas décadas  –, nem sei mais se vi o que vi, se sonhei que vi, se aumentei ou diminuí algum ponto no conto.

Era meu horário de almoço, eu trabalhava no centro antigo de São Paulo. Saí e, na ida, um cenário na avenida. Na volta, outro. “Há um segundo, tudo estava em paz”, não tem aquela canção? Ou não havia paz desde muito. Nunca, nunca mesmo, se sabe.

O homem saltara da janela do prédio e se espatifara no parabrisa do carro que passava na avenida naquele exato instante. Pronto: contei a história inteira em duas linhas. É relativamente simples narrar a vida e o fim dela.

Mas sempre é possível – e necessário – enfeitar os acontecimentos.

Enquanto, no trajeto da ida, eu matutava no que almoçaria aquele dia, cogitando entre meia dúzia de lugares que prestavam na região, o suicida preparava seu último ato. Talvez, enquanto eu passava pela calçada, sob sua derradeira janela, ele estivesse revendo seus dramas, infortúnios, tristezas e desesperos sem fim, como dizem fazer os suicidas antes de dar cabo de suas vidas. Eu ainda teria que decidir o que jantaria naquela noite. Ele, não.

Digestão em andamento, eu rumava de volta ao trabalho pela mesma avenida da ida, quando avistei o tumulto. O trânsito de carros e pessoas parou. O motorista do veículo atingido nada sofreu – exceto a inenarrável surpresa. Alguns arranhões, os estilhaços do vidro. Como explicaria aos amigos o atropelamento ao contrário? Policiais presentes, fazendo anotações em seus caderninhos. Calculavam a altura, tratavam de identificar a janela original. Motoristas e pedestres no entorno, estupefatos. O suicida pausara a tarde naquele quarteirão. Quem apertaria o play?

O voo do homem-pássaro não contou com trilha sonora de anjos vocalizando uma tristonha melodia celestial, nem com a câmera lenta, igual nos filmes. (Eu sei porque o cinema gosta tanto da câmera lenta: nossos olhos pensam devagar.) Foi zás-trás, pá-pum. Sem tiro, somente queda. A plateia, desprevenida, não pôde assisti-lo em detalhes. Quem viu, viu.

O Ícaro urbano quis testar, naquele dia, suas invisíveis e frágeis asas de cera. Fugir da Creta paulistana era preciso. E, embora a tarde se anunciasse rara de sol, elas se derreteram. O tombo não só era inevitável, como desejado. A gente que nunca entende isso.

O termo “queda livre” ganhou novo sentido na pele do suicida; era o caminho para a liberdade. Engano ou certeza?

Poucas pessoas despertam tantas reações e sentimentos quanto o suicida. Da incompreensão à compaixão, do desprezo à indiferença. Todos têm uma opinião, poucos ficam reticentes. É assunto polêmico. Popular e, ao mesmo tempo, secreto. Está presente nos versos, nas canções, nos noticiários, nas famílias dos outros. Só dos outros.

Suicídio é a vida como ela é, e como ela deixa de ser. Suicida é a pessoa que, no meio da brincadeira, pede para sair. Porém, o suicida não o faz porque precisa beber água, fazer xixi, a mãe chamou. Ele sai porque cansou. Porque a brincadeira estava sem graça. Ou insuportável. O suicida quer sair da brincadeira e ir para casa. E a casa dele, ele crê, não é aqui.

Anúncios

2 comentários sobre “Voar é com os pássaros. Ou não

  1. Sempre me espanto com os comentários de raiva e desprezo em relação ao suicida. Parece que as pessoas não querem nem imaginar como deve ser desistir da própria vida e, por isso, não conseguem ficar sensíveis diante da situação.

    Curtir

Quer comentar?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s