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O banco da frente

fusca

A caçula completou dez anos, agora pode ir na frente. Fez valer seu direito já nas primeiras horas da nova idade, apropriando-se do banco dianteiro do carro. Sentiu-se, enfim, mais gente do que no dia anterior.

Eu não lembro de quando fui autorizada a andar na frente no carro do meu pai – se é que houve, um dia, a permissão oficial. Mãe moderna que sou, sei de cor idade e altura mínimas exigidas pela lei, as regras das cadeirinhas. Nada disso habitava o mundo dos meus adultos. Era comum o cinto de segurança permanecer, por toda a existência, enroladinho como viera da fábrica (quando tinha). Sarampo, colisão frontal, WhatsApp… As preocupações dos pais são como o comprimento das saias: mudam de uma época para outra.

O mais velho usufruiu o monopólio por quase três anos. Veterano, e ligeiramente a contragosto, cedeu o posto. Também recordo-me de seu estado de graça quando pôde ir na frente e passou a controlar o som. Foi preciso repartir as memórias disponíveis no aparelho, para acomodar as minhas estações de rádio e as deles. Há duas semanas, na qualidade de mãe e prevendo confusão na hora de ir para a escola, fui rápida na sentença: “Na primeira briga, os dois vão atrás por tempo indeterminado”. A intervenção materna encerrou-se ali e o consenso foi celebrado: uma semana de cada um. Uma decisão salomônica em relação ao pobre banco do passageiro não foi cogitada, para meu alívio.

As conquistas da mobilidade humana nas primeiras fases da vida são: engatinhar. Andar. Ir sozinho à padaria. Viajar com a turma da escola. Tomar um ônibus até o centro. Para todas, há o correspondente veicular, representando a hierarquia dos assentos: tudo começa no bebê-conforto. Depois, a cadeirinha. Assento elevado. Diretamente no banco de trás, sem cadeirinha – a glória. Pré-ápice com gostinho de apogeu: o banco do passageiro e o horizonte das ruas, agora desnudado e sem interferências. E para coroar, mais adiante, o banco do motorista. A validação simbólica da maioridade, a consagração da independência.

Por ora, ela, caçula, segue igualmente encantada com o recém poder sobre o som, como o irmão, há alguns anos. Ele já tem nova meta: a minha posição. Conta os anos que faltam para a habilitação. Quer entender cada controle do painel, saber como se sai na ladeira usando o freio de mão.

Eu, que não só ando no banco da frente do carro, como o conduzo há três décadas, confesso: às vezes, tudo que desejo é um banco de trás para chamar de meu. Porque no imaginário da mulher cansada é o assento que melhor representa a tranquilidade de não estar nem aí com horários, rotas ou pessoas esquisitas que surgem nos sinais. Quem dera poder, de vez em quando, instalar-me numa espécie de bebê-conforto gigante e ser apenas levada e trazida. Com o direito de dormir na ida e na volta e ser prontamente atendida em caso de fome. E onde meu campo de visão abarcasse apenas um pedaço de céu azul.

Sob controle. Ou não

Ganhei do ex-namorado. Uma máquina de escrever Underwood, garimpada num antiquário em Santana de Parnaíba. Era 1992, era sábado e tinha sol.

Eu nunca soube precisar sua data de nascimento. Uns batem o olho e atestam: anos 30. Outros  chutam, é cinquentinha. Minha intuição (mentira; pesquisei rapidamente no Google) diz que ela está no meio dos dois. É o presente mais cheio de passado que já recebi.

Ficou bom tempo encostada, sem lugar que a acolhesse. É grandalhona, pesa feito chumbo (embora eu nunca tenha pego em chumbo). Há pouco, resolvi colocá-la em exibição na sala de jantar. Desde então, não dá outra. Cada um que passa por ela – em especial, crianças que nunca viram uma – faz questão de testá-la como bem entende, tec tec tec tec tec tec. Falta-lhe certa lubrificação, então lá se vão as letras, ou tipos, encavalando.

Eu, como mãe zelosa-furiosa a controlar a apalpação excessiva de seu recém-nascido pelas visitas assanhadas, vivia barrando. “Não faz assim”, “Assim estraga”, “Não puxa desse jeito”, “Não fica girando o cilindro!” e outras ordens, cumpridas à revelia ou desobedecidas na cara dura.

Movida pela compaixão (nostalgia?), mostro (brevemente; não tenho tanta paciência) como funciona. Querem saber se era a minha, quando criança. Para quem nasceu neste século, qualquer coisa com mais de quinze anos é antiguidade. Então, tanto faz se eu usava uma Underwood dos anos 40 ou uma Olivetti dos anos 90. É tudo velharia, passado longínquo, matéria dos livros de história.

A própria época do namoro e do passeio à Santana de Parnaíba já é velharia, passado longínquo, matéria do meu livro particular de história.

Como não consigo frear a curiosidade dos pequenos (deveria, afinal?), uma decisão tomei. Não os detenho mais. Desisti. A Underwood permanece em exposição em seu altar (mentira; é sobre o bufê). As crianças seguem em suas investidas. Mas já não dou uma voadora em quem aperta o liberador e o carro dispara para a esquerda, pá, plim! Divirto-me, aliás; o pequeno infrator sempre toma um susto. Não ligo se brincam com os marginadores. Não reclamo mais se os tipos encavalam.

O exemplo é bobinho, mas o aprendizado tem valido para um bocado de coisa, digamos, não-bobinha. A gente é mais feliz quando para de querer controlar o incontrolável. Cansa menos. E isso é de uma obviedade, tão fundamental quanto oculta, impressionante.

Escreve (datilografa ou digita) o que estou dizendo.

Jardim da infância

arte: Julie
arte: Julie

Não é o diretor, a pessoa mais importante de uma escola. É o jardineiro.

Um diretor cuida de alunos. Um jardineiro cuida de plantas. Todo aluno é uma espécie de planta.

Seu Clóvis era o diretor. Sisudo, austero e formal, como exigia o personagem. Sempre de terno cinza. De poucas aparições. Às vezes, surgia de surpresa durante a aula, tínhamos de ficar em pé. Eu tinha medo dele.

Seu Teodoro era o jardineiro. Amável, calado e introspectivo, como exigia o personagem. Sempre de macacão azul-marinho. Podia ser visto quase todos os dias entre as roseiras ou podando os pinheiros. Eu não tinha medo dele.

O que aprendi nos nove anos que passei ali, do pré-primário ao ginásio, o que absorvi das ciências e das geografias, o que sofri com as matemáticas e o que viajei com as letras foi definido, de certa forma, pelo Seu Clóvis.

Seu Teodoro não me ensinou nada.

É dele, no entanto, que me lembro quando passo em frente à velha escola estadual de primeiro grau. Seus pinheiros, ladeando a escola inteira, ainda estão lá. Não me parecem mais tão felizes como eram sob seus cuidados. Ou eu que prefiro pensar assim. A nostalgia é uma lembrança com photoshop.

Procuro o Seu Clóvis no Google. Encontro várias referências, memórias de ex-alunos – de amor e ódio – espalhadas nas comunidades virtuais e em páginas antigas do Diário Oficial.

De Seu Teodoro não se encontra nada. Ninguém parece se lembrar dele, quarenta anos depois. Exceto a garotinha sardenta que morava a um quarteirão dali. Se vivo, ele seria do tipo que não acessa internet, não tem email, nem smartphone. As plantas são a única, fundamental e melhor rede social para um jardineiro. Nem tudo precisa estar no Google para ser importante.

O nome Clóvis significa “guerreiro célebre”. Teodoro, “presente de Deus”. Nada é por acaso.

Da rua, não se vê mais o jardim do velho Teodoro através das compridas grades de ferro. Porque não tem mais grade. É tudo muro, agora. Sinal dos tempos. Só se avista, da rua, os pinheiros da cintura pra cima. Seu Teodoro certamente não aprovaria a tristonha intervenção arquitetônica que escondeu do bairro o seu jardim e, por tabela, suas crianças de uniforme.

Nunca soube o nome, nem o rosto, nem nada, dos outros jardineiros que assumiram suas plantas depois que ele foi embora. Nem nas escolas onde estudei depois. Deve ser por isso, e somente por isso, que chamam essa época de jardim da infância.

Cartinha do Papai Noel

Foto: Tom Magliery
Foto: Tom Magliery

Queridas crianças

Todos os anos, eu recebo bilhões de cartinhas de vocês. De algum tempo para cá, passei a receber e-mails também (já são dezenove milhões de mensagens não-lidas). No mês passado, recebi uma pelo WhatsApp. Como a maioria dos adultos, eu também não dou conta de ler tudo. Um dos motivos: vocês escrevem demais. Falta foco, meninos.

A verdade é que eu não me importo tanto assim se vocês foram bonzinhos e boazinhas o ano todo. Vocês não precisam me enviar um relatório comportamental. Nem leio essa parte. Andei pesquisando sobre as crianças índigo, e penso que ser bonzinho não define muita coisa. Nem é garantia de que, assim, vocês ganharão presentes. Na vida, as coisas não funcionam assim. Seus pais ainda não ensinaram isso?

A vida aqui no Polo Norte, preciso dizer, não anda fácil. Depois da PEC dos Elfos, meus ajudantes querem redução da jornada e direito ao Fundo de Garantia. Não tenho para quem repassar esses custos. A sorte é que, até agora, nenhum deles me processou na Justiça do Trabalho.

Então, eu tive algumas ideias e quero compartilhá-las com vocês.

Pretendo escalonar a entrega dos presentes. Já sei; vocês não sabem o que é escalonar. Por que nunca pedem dicionários no Natal? Bem, funcionará assim: a entrega será feita ao longo do ano. Quem tem nome começando de A até I continua ganhando os presentes no Natal. Nomes de J a R receberão seus presentes na Páscoa, através do Coelhinho. Ele é meu chapa. Nomes de S até Z terão seus mimos entregues pela Fada dos Dentes, a cada ‘janelinha’ inaugurada. Quem não tiver mais dentes de leite certamente não acredita mais em mim, nem nela, e ficará tudo certo. Que tal?

Para aqueles que preferem enviar suas cartinhas por e-mail, peço que coloquem o que querem ganhar no campo “assunto”. Ajudará um bocado. E, por favor, evitem mandar links do Submarino etc.. Ano passado, muitas cartinhas foram parar no spam. Que trabalheira! Em tempo: cartas por WhatsApp não serão aceitas. É impossível decifrar aqueles desenhinhos que vocês colocam no meio das frases.

Ah, ia esquecendo de avisar: este ano não usarei trenó. Está cada vez mais complicado trabalhar com as renas. Os protetores de animais andam reclamando. Dizem que elas sofrem maus tratos, vejam vocês! Se souberem de alguém que queira adotá-las, me avisem. Estão todas castradas e vacinadas.

Por fim, aproveito para dar um toque: digam aos seus pais que não fica muito bonito aqueles bonequinhos de Papai Noel nas janelas e varandas, subindo escadinhas que nascem do nada. Parecem uma versão lapônica do Homem Aranha. Era para ser fofo? Alguns são pendurados tão de qualquer jeito, que beijam as paredes. É entristecedor.

Por ora, é isso. Conto com a ajuda de vocês, crianças.

Abraços natalinos, ho ho ho, aquelas coisas todas.

Noel

E agora, José?

Arte: Filipe Saraiva
Arte: Filipe Saraiva

Ando preocupada com José. José sumiu. Foi embora. Ninguém mais batiza em sua lembrança. É nome em extinção. João até que tem se virado bem. Que será que houve com a humanidade brasileira? Não será mais ele – o carpinteiro, companheiro de Maria – assim tão bonito para o RG?

Na praça de alimentação do shopping há uma mãe tentando convencer o Artur a comer a escarola. Na sala de espera do pediatra tem sempre um Gabriel mais danadinho, dando cambalhota na poltrona. E a lista de chamada do maternal lança mão dos sobrenomes para identificar tantos Enzos. O Zezinho, quedê? Faltou.

De eras em eras a moda ressuscita velhos nomes para novos bebês. É um tal de Joaquim, Valentina e Tomás em porta de quarto nas maternidades. Só o José não dá mais o ar da graça nas certidões. Até o Luís ressurge, sempre ao lado do Eduardo ou do Felipe ou do Henrique. O José, coitado. Nem só, nem acompanhado. Acabou.

José é dos poucos que não causam confusão na hora de escrever, posto que a ele não cabe variação. Facilita a vida em seu minimalismo sonoro, combina com os outros, é da paz. E acordo ortográfico nenhum, nem em mil anos, há de derrubar seu acento. A razão do seu declínio é uma incógnita contemporânea, uma charada nominal.

Volta, Zé! As Marias, ainda que Eduardas ou Fernandas, precisam de você.

O mundo também.

A comédia da vida materna, parte II: a missão

E a pediatra das crianças pediu exames de fezes. Daqueles que não se colhe em laboratório, e sim, no recôndito do lar. Todo ano ela faz isso. Deve se divertir um bocado imaginando as pobres mães (pais não dão conta, morrem de nojo) travando uma luta inglória com frascos esterilizados e pazinhas traiçoeiras, à espera de uma boa amostra de cocô.

Não satisfeita com o trivial, e para meu desespero, ela pediu logo três amostras. Vejamos: dois filhos, total de seis porções a serem colhidas (em dias alternados), armazenadas e entregues no laboratório, no máximo em 12 horas. Lá vou eu, inspecionar o relógio de hora em hora, enquanto verifico, não sem demonstrar alguma ansiedade, a predisposição deles em consumar o ato. Rezo para que não seja antes das sete da noite; se for, o prazo vai para as cucuias e a produção, para o esgoto.

Ela também pediu exames de urina. Embora feitos no laboratório, esses representaram igualmente um ato de bravura – crianças raramente alinham necessidade, desejo e horário, gostam de brincar de acender e apagar a luz no banheiro e sempre querem ver como é o sabonete. O que dirá realizar o outro – de altíssima complexidade – em meio à rotina doméstica e sem diploma de enfermagem ou certificado de contorcionismo. Epopeia é o mínimo. Nos faz questionar o porquê de, um dia, termos desejado perpetuar a espécie.

Quem não tem filhos pequenos não faz ideia, mas uma coleta dessas não é simples. Requer prática, habilidade, destreza e, sobretudo, estômago. Adultos se programam, conseguem estabelecer um razoável planejamento refeição/toilette, agem sozinhos. Já com a gurizada, é preciso estar eternamente alerta, apetrechos ao alcance, pois qualquer hora pode ser hora. E se perdermos essa hora, é como diz Adoniran em seu Trem das Onze: “só amanhã de manhã”.

Mãos à obra: eu organizo o movimento, oriento o Carnaval, ponho-me a postos e não perco a cria de vista. Ao ecoar do chamado, empunho frasco e pazinha, saio voando. Muitos serão os alarmes falsos, até que chegue a Hora H. Ela chega e, nesse momento, faz-se mister evocar uma energia superior, rogando ausência momentânea de olfato e frescura. O mais velho se posiciona no vaso sanitário, eu me concentro. “Espera um pouquinho, filho”. “Senta mais para cá”. “Assim está bom?”. “VAI!”. Nesse instante, a caçula, sugestionada, chama do outro banheiro: “Também estou com vontade!”. Não há alternativa: o pai terá que enfrentar seus limites. Pelo menos, até eu estar liberada para acudi-lo.

É assombrosa a possibilidade de avaliar se uma pessoa está saudável ou não através da análise de seus dejetos. As universidades poderiam formar médicos tarólogos, com poder de visualizar a saúde de seus pacientes através dos arcanos, dispensando, assim, as constrangedoras coletas de substâncias orgânicas e mal-cheirosas.

A delicada operação é concluída. Ainda há, porém, a bizarra finalização: manter as amostras na geladeira. No dia seguinte, todos almoçarão fora. Não há paz quando se sabe que elas – ainda que triplamente acondicionadas – estiveram próximas aos tomates.

As cenas se repetem por mais duas vezes nos dias seguintes, com pequenas variações e, eventualmente, alguns acidentes. Ao todo, três idas ao laboratório. A recepcionista já sorri quando me vê.

“Ser mãe é padecer no paraíso”, disseram. Com direito a passeios pelo purgatório, admita-se. Mas missão dada é missão cumprida. Dias depois, a recompensa: resultados negativos.

A comédia da vida materna

Arte: Marcello Akira
Arte: Marcello Akira
 

Descobrir, eu descobri faz tempo. Dureza foi admitir, por para fora, desabafar. Vamos estabelecer: é mais fácil ser executiva numa multinacional japonesa do que ser mãe de filhos pequenos. Trabalhar de segunda a sexta e eventualmente nos finais de semana, das nove às dezenove (na melhor das hipóteses)? Fichinha. Conviver com chefe doidinho, cumprir prazos imorais, apresentar resultado negativo na frente do CEO? Café pequeno.

Se não, vejamos.

Nos escritórios a cem metros do chão você trabalha sossegada, elabora suas análises de mercado em paz, traça estratégias para a empresa e atende clientes e parceiros, sem se preocupar em checar as janelas (que jamais têm rede de proteção), para o caso de ter algum colega de trabalho pendurado nelas, crente que é um super-herói indestrutível.

Durante o almoço no refeitório, seus colegas não se estapeiam, nem atiram farofa um no outro. O mais novo não reclama, choramingando, que o mais velho disse que ele é feio e burro. Todos sentam-se direito e comem a salada. E se não comem, rá! Problema deles. Você não tem nada, nadica a ver com isso.

Nas reuniões de equipe, para falar sobre o novo organograma, ninguém interrompe reclamando que está com fome, nem pede para sair antes porque vai começar o programa favorito na TV.

No ambiente de trabalho, todo mundo vai sozinho ao banheiro. Para fazer número 2, inclusive.

Se a reunião é no cliente e o pessoal do marketing tem que ir junto, você vai de motorista e a coisa flui que é uma beleza. Não há brigas a serem apartadas no banco de trás, nem súplicas para que todos coloquem o cinto de segurança, tampouco para que fiquem com ele durante o trajeto.

Os departamentos Financeiro e de Compras podem até tentar enlouquecer você, mas nada se compara a uma tarde com os filhos no shopping, na intenção de renovar o guarda-roupa deles.

Você não precisa contar até três para seus funcionários começarem a elaborar o relatório bimestral de vendas.

Se seu assistente resolve lhe pedir um aumento, e você explica que, no momento, não será possível, ele não se joga no chão, berrando “Mas eu queeeero!”.

No final do expediente, não existe a menor necessidade de pedir ao estagiário que arrume a mesa antes de ir embora. Ele guarda tudo sem você mandar!

Por essas e outras (ah, muitas outras), é definitivo: ser mãe é para poucas. Mãe de filhos em férias, meu caso, para pouquíssimas. A amiga, compadecida, ri da minha situação e recomenda que eu relaxe, encarne algum personagem de desenho animado e me jogue na farra. Numa espécie de “se você não pode com eles…” revisitado. Nam nam. Vou é recorrer à mitologia. Quero ser Medusa, uma das Górgonas. Para transformar em pedra todo humano com menos de um metro e vinte de altura que ouse me fitar, requisitando, de três em três minutos, toda sorte de coisas. (Ao final das férias, prometo, reverto o feitiço.)

Depois dizem que a maternidade realiza a mulher. Ora, ora. A maternidade realiza consultas, exames e partos. Ponto final.

E ainda é dezembro. Não sou a antimãe, nem a reencarnação de Herodes. Sou apenas uma genitora levemente ensandecida. Sabedora das deliciosas vantagens da vida materna sobre a vida executiva. O problema é que até o fim de janeiro do ano que vem, quando as aulas voltam, eu não vou conseguir me lembrar de nenhuma.