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Mistura

Tudo que não era arroz e feijão, a gente chamava de mistura. Geralmente, carne. “O que tem de mistura?”, eu perguntava, já abrindo as panelas sobre o fogão. Verduras e legumes também entravam na categoria. Viraram, com o tempo, acompanhamento.

Como se diz a alguém, “Que Deus te acompanhe”, também deve-se falar para a dupla gastronômica mais brasileira que há: “Que o purê de batata te acompanhe”. Afinal, se está com purê de batata, está com Deus.

Cresci com os adultos mandando a gente ir comprar mistura. Lá ia eu no açougue buscar uns bifes, ou na avícola, pegar umas coxas de frango. Para os bifes, havia um martelo especial. Diferente dos martelos do meu avô, o da minha mãe era quadradinho, com pontas achatadas. Para amaciar a carne, diziam. Eu gostava de brincar com ele. Sumiu, nas mudanças.

Não digo que sempre achei esse termo – mistura – curioso, porque jamais deitei pensamento sobre. Fez parte do meu vocabulário desde sempre, é dessas palavras que a gente só reproduz, não questiona. Não, até agora. A mistura é mistura de quê? No Google, leio que o nome remonta ao tempo dos escravos. Nas refeições, eles recebiam um naco de carne que, de tão pouco, era misturado ao arroz, feijão e farinha de todo santo dia. Veio a abolição, o nome ficou. Toda cozinha tem um pé na senzala.

Apesar de amante do bom e velho feijão com arroz, hoje a mistura é o melhor do meu prato. Abobrinha empanada. Shimeji na manteiga. Quiabo refogadinho no alho. Suflê de espinafre. Salada toda coloridona. Por trás de um grande prato há sempre uma grande mistura. Pronto: mistura é a mistura de coisa boa com coisa gostosa.

Quando foi que deixamos de falar mistura? Deve ter sido quando paramos de dizer engrossar (um molho, por exemplo) e adotamos o reduzir. Ou quando substituímos o combinar pelo harmonizar.

Ontem fui pensar no almoço e a palavra saiu assim, sem querer: o que teríamos de mistura? Ri sozinha. Sem acompanhamento.

Lembrei das velhas panelas lá de casa. Fechei os olhos, abri as tampas. Servi-me de saudade. Memória com nostalgia é a melhor mistura que tem.

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Gorda

comida

Quando minha avó soube que tinha diabetes, Doutor Fuad foi logo avisando: ela teria que mudar a alimentação. Algumas coisas ficariam de fora do seu cardápio, forever and ever.

E ela passou a comer a mesma comida todos os dias. Arroz sem tempero com carne cozida idem, pão sem glúten – ela falava “glút” – com Becel, laranja de sobremesa. Não sei se levou a sério demais as orientações, se entendeu tudo errado, ou os dois juntos. Com raríssimas exceções, e sempre seguindo o mesmo modo-sem-graça de fazer, de segunda a segunda, incluindo feriados, lá estava a mesma gororoba no prato da dona Josephina.

Cresci achando que diabéticos só podiam comer aquilo. Que droga de vida, pensava. Ficava penalizada ao ver minha avó recusar um biscoitinho, um quitute diferente, ainda que sem açúcar. “Não posso”, sentenciava.

Então minha amiga, aos quinze anos, teve diabetes. E agora, o que seria dela?, lamentei. Só poderia comer arroz, carne cozida, pão sem glúten com Becel e laranja o resto da vida.

Belo dia, fui à sua casa e ela estava almoçando. Tomei um susto quando vi seu prato. Que variedade de cores, sabores, texturas, cheiros. Depois, vi que o café da manhã e o jantar também eram assim. Os pais dela estavam doidos, deduzi.

Não estavam.

Fora minha avó, e mais ninguém, que decretara que sua comida, a partir do diagnóstico, seria a mais insossa possível. Falta de criatividade ou equivocada resignação? Sim, há diabetes e diabetes. Mas nunca conheci um diabético que seguisse dieta tão miserável quanto a da minha avó. Definitivamente, não precisava ter sido assim.

Confesso que já fiz, e ainda faço, muita dieta. Só que de ideias. Vou cozinhando verdades únicas, servindo-me de pensamentos estreitos e acabo me satisfazendo com um caldo ralo de vida. Adoeço.

Faço terapia. Psicólogo é uma espécie de nutricionista. Agora ando incluindo mais opções no meu cardápio mental. Tenho comido ideias novas, bem temperadinhas.

Quero ser gorda. Gorda de mundo.

Mortadela

O dindim para o lanche da escola tinha destino certo: sanduíche de mortadela e guaraná Caçulinha para acompanhar. Na minha tabela nutricional particular, não havia culpa, nem preocupação. Só alegria saturada.

A receita: pãozinho cortado ao meio, duas fatias – para justificar o preço camarada – de mortadela. Frio ou na chapa, dependendo do dia. Da escola, é a minha lembrança nota dez.

A mortadela divide opiniões gastronômicas e sanitárias. Posso afirmar, no entanto, que o sanduba de mortadela da cantina foi a síntese condimentada da primeira fase de minha vida escolar. Deveria constar em meu histórico acadêmico, ao lado das notas de geografia e matemática. Apesar de não botar a iguaria na boca há décadas, é dele que me lembro mais, tanto tempo depois. Das matérias, nem tanto. Quer dizer, nunca esqueci o que são, num verbo, radical e desinência. Achava linda essa palavra, desinência.

Vanderlei e Marli. O casal simpatia que tocava a cantina da escola, seu ganha-pão-francês. Como a dupla conseguia atender todos no breve recreio, era um mistério. Dava o sinal e um enxame de crianças famintas se aboletava no pequeno balcão. Que mané fila única, o quê. Éramos alunos selvagemente civilizados. Ou civilizadamente selvagens. Se eu fechar os olhos, posso vê-los na minha frente, entregando o troco que eu nem conferia e enfiava nos bolsos do avental branco.

(Parêntesis: espécie de jaleco, o avental era a alternativa prática e detestável ao tradicional uniforme. Ia-se com qualquer roupa por baixo. Charme zero, tornando impossível desfilar a Levi’s ou a US Top novinha em folha. O meu vivia rabiscado de caneta e encardido, o chão era uma extensão natural dos bancos. No fim do ano, os colegas o assinavam, como lembrança para a eternidade. A eternidade dos meus não durava muito e logo eles iam para o lixo.)

A distância entre os hábitos alimentares de uma geração e outra é quase abissal. Ninguém se preocupava com glúten, lactose. Teor de sódio e prazo de validade não passavam pela nossa cabeça. E sobrevivemos. Mudamos muito no quesito comida. Recebo reclamações constantes dos meus filhos, por não fazer batata frita. Belchior estava enganado: não somos e nem vivemos como nossos pais.

Quando terminei o ginásio e precisei me mudar de escola, foi do sanduíche de mortadela que mais senti falta. Na nova não tinha. Eram as frustrações da vida se apresentando, fatia por fatia.

Nunca mais entrei na velha escola. Os amigos daquela época, nunca mais encontrei. O Vanderlei e a Marli? Nunca mais os vi.

Parece que toda saudade vem com um “nunca mais” dentro.

A verdade sobre comer, rezar e amar

arte: Paul Downey
arte: Paul Downey

Há no mundo um exército dedicado a nos convencer de que cozinhar é uma experiência próxima ao nirvana, o maior ato de amor, a epifania máxima.

Cozinhar pode ser literalmente delicioso, quando rotina, obrigação e horário não estão na parada.

No combate ao mimimi culinário, minha colher de pau e eu estamos aqui para lhes dizer, ó chefs afetivos, que o negócio não é bem assim.

A magia de poder preparar no fogão o alimento da ou das pessoas amadas, embora real, não se aplica a quem precisa fazê-lo todo santo dia, sob a vigilância implacável do relógio e da agenda.

Fora isso, é, de fato, estimulante preparar aquele peixe com molho de não-sei-o-quê guarnecido com lascas de não-sei-que-lá junto com os amigos. Fora isso, faz sentido sovar longamente a massa do pão integral e esperar, como numa gestação, que ela cresça, forte e bela. Fora isso, dá vontade de fotografar o cuscuz lindão e postar no Instagram. Fora isso, pinta alegria ao ver como o bolo de cenoura ficou fofinho e as crianças vibram ao saber que vai ter cobertura de chocolate também.

Há dias – não  poucos – em que cozinhar resume-se a um ato mecânico, necessário para cumprir o protocolo diário (em especial de quem tem filhos pequenos) e atender a uma necessidade fisiológica, sua ou de outrem. Uma pitada de carinho, às vezes nem isso, porque a cabeça está em outras paragens, e pronto. Todos alimentados? É o que importa. Vamos, estamos atrasados.

Há dias – muitos – em que não há poesia alguma no ato de cozinhar. Como naqueles onde eu preciso correr para preparar e servir o almoço a tempo de as crianças não se atrasarem para a aula. Não há ternura possível na produção da torta de legumes quando o relógio, cinicamente, parece andar no fast-forward. Não posso impregnar o suflê, o arroz, o feijão e a salada com boas energias se não avisto mais o fundo da pia, a ajudante ligou dizendo que não vem e a reunião é às duas.

E mais: haja amor e criatividade para compor cardápios diários balanceados com proteínas, leguminosas, carboidratos, hortaliças e tudo que a pirâmide alimentar exige. Quisera ser faraó e viver embalsamada para não ter mais que decidir o que vamos comer. Peço perdão pelas fadas que sepultei, recorrendo ao velho Miojo. Não resta dúvida de que serei exemplarmente condenada pelo fadicídio, quando estiver diante de Deus prestando contas.

Nessas horas, penso que sou uma espécie de alien que pariu. Passo a me autoclassificar como mãe desnaturada, relapsa, sem coração. Mas há algo bastante errado quando o significado de férias é não precisar fazer varejão. Se minha relação com os brócoles, as cenouras e os tomates anda desgatada, lanço mão do self-service. Nem toda cozinha industrial será castigada.

O lirismo permanente do ato de cozinhar, tão declamado pelos soldados da comida afetiva, fica bonito no cinema, na fotografia com frase de efeito que circula no Facebook, na prosa do Mia Couto. Mas quase não combina com o meu dia-a-dia de gente normal. Só de vez em quando.

A maldição da barrinha de cereais

Sou capaz de aceitar, quase de bom grado, sugestões para melhorar minha alimentação. Peçam-me tudo: para abolir os lanchinhos noturnos, fingir que não sei o que é Bis, ignorar o segundo pãozinho, ficar satisfeita com cem gramas de nhoque ao sugo. Rosnarei de leve, farei cara feia, mas prometerei condicionar o pensamento (e a boca) em prol da saúde e da alegria diante da velha calça jeans. Proibido, porém: aventar a maldita barrinha de cereais.

Aquela, feita de nada e com gosto de coisa alguma. A pior sacanagem gastronômica já inventada em laboratório. O engodo alimentar do século XX. Mistura de borracha TK-Plast com bala puxa-puxa e lista de ingredientes que vovó jamais reconheceria. Mas com apenas 100 calorias.

Com a nutricionista, elas são o ponto da discórdia, o momento crucial e inegociável da consulta. “Dá pra trocar?”. Santa inocência, Batman! A barrinha É a substituta sintética da proteína, do carboidrato e dos minerais que não posso carregar na bolsa em suas formas originais, para aquelas horas em que bate a fominha.

É uma maldição contemporânea: elas estão em todas as gôndolas, dos supermercados às farmácias. Uma verdadeira invasão de tropas inimigas, falsamente saudáveis, a atingir meu paladar. Que venham, pois! Venço-as com meu exército de pipoquinha de canjica.

Há algum tempo, uma companhia aérea as distribuía (ainda distribui?) aos passageiros durante o voo. Faziam isso porque tinham certeza que ninguém iria pedir para descer.

Pego carona na onda reivindicatória, na fome de quereres, para propor um manifesto: pelo fim das barrinhas, pelo direito à alimentação plena e prazerosa, por um código de ética das barras, pela volta da lancheira!

Cereais, sim; barrinhas, não.

Do quê que é?

Ilustração: Alanna Risse/Flickr.com

Eu que não serviria para trabalhar em lanchonete. Não me assusta ficar oito horas em pé, espremer laranjas, lavar copos. O desafio é passar o dia explicando do quê são os salgados. É raro ver legendas nas vitrines. Imagine repetir, duzentas vezes, que o enroladinho é de presunto. Só pão de queijo dispensa apresentação, é quitute com RG à mostra.

Nunca encontrei alguém que descrevesse os sabores das iguarias com paciência e boa vontade. Deve-se ir direto ao assunto, se não quiser despertar a cólera do atendente: “Quero aquele ali”. E contar com a sorte, como numa loteria. Saber administrar o prêmio, se for o caso. Ou então, lançar o pedido pá-pum: “Um pão de batata com requeijão, por favor”. A resposta é a solução: “Acabou. Só tem de frango”. A situação se agrava quando se trata dos doces, bem mais complexos em suas composições.

Miro a bandeja dos croissants, o lugar faz uns fantásticos. Gêmeos múltiplos e idênticos, não fosse metade estar organizada de um lado, metade do outro. Alguma diferença há de ter. Na tentativa de adivinhar o sexo de cada um, espicho os olhos por cima do balcão; a vista aérea costuma ajudar. Mudo o foco, ativo o terceiro olho, tiro no tarô. Nenhuma evidência. O jeito é perguntar. Responde o dragão verde-fel, cuspindo fogo, enquanto aponta as extremidades da bandeja: “Peito de peru”. “Catupiry”. Opto pelo segundo. Primeira mordida, eca. Dragões também se confundem. Empunho meu escudo antichama e reclamo. Troca feita, outra abocanhada e… surpresa: nem uma coisa, nem outra. É de pizza. Fico bem quietinha. Eu, hein.

Mamão papaya

Ilustração: Mars

Não posso passar perto de mamão papaya em dia de sacolão. Compro. O ritual de colocá-lo na cestinha, levá-lo para casa e acomodá-lo na fruteira representa o meu desejo de ser uma pessoa mais saudável. De me alimentar melhor, emagrecer, acordar cedo, voltar a caminhar na lagoa, ser mais gentil e paciente, chegar aos cem anos fazendo tai-chi-chuan na beira da praia com o nascer do sol. O mamão papaya é a minha promessa de ano novo, sacramentada toda semana. Sepultada quando, de longe, o avisto apodrecendo na fruteira. Ah, não. Fiz de novo.

Para ajudar no cumprimento da promessa, de tudo já tentei. Transferi a fruteira de lugar, para não perdê-lo de vista. Guardei-o na geladeira, para não perdê-lo prematuramente para os fungos. Arrumei um prato bonito para servi-lo no café-da-manhã. Mas ele sempre retorna intacto ao seu posto. O mamão papaya perde para o pão com requeijão. O Sucrilhos. O bolo de fubá. A granola com sua colega, a banana. Para azedar tudo de vez, aqui o mamão só tem a mim como simpatizante. Se ele não for meu, não será de ninguém. Melhor dizendo: será das minhocas que habitam a composteira recém-instalada no quintal. Sim, tenho novos inquilinos. Ideia do marido, que resolveu dar uma mãozinha para a sustentabilidade do planeta. Ou represália, por conta dos bichos da rua, bem maiores, que vivo trazendo para casa. Torci o nariz: as minhocas ou eu. Elas ficaram. Eu também. São boazinhas, reconheço. Não fazem barulho, não saem de seus aposentos, não arrumam encrenca. Quase invisíveis. E comem quase todos os nossos restos. Devem vibrar quando o papaya, inteirinho, cai lá.

Mamão, na minha família, é como um parente bem-vindo, inteligente. Respeitado, até. Mas que ninguém quer muito papo. Ninguém dá muita bola. Fica de lado, esquecido, apesar de todos reconhecerem seu valor. Segue decompondo-se na solidão enquanto todos vão para os pratos – bananas, laranjas, mexericas, mangas, até o exótico gengibre – , menos ele. O último resistiu cinco dias em completo abandono. Escondido sob os limões, que também não saíram para passear naquela semana. Mais resistentes, estes conseguiram aguardar o dia de fazer companhia ao badejo. O frágil papaya, no entanto, já se encontrava em adiantado estágio de putrefação. Um cadáver vegetal. Duvidei da felicidade das minhocas quando o viram. Meu projeto de vida longa era, mais uma vez e literalmente, enterrado.

Semana que vem, eu sei, farei tudo de novo. O homem se distingue dos demais animais, dentre tantas coisas, pela capacidade de ter esperança. Bicho não sabe o que é isso. Com as minhas renovadas, escolherei um exemplar bem firme, dum alaranjado vivo. Cuidarei para que não esteja, e nem fique, machucado. Eu o colocarei sobre as outras frutas, papayas são sensíveis. Determinada, iniciarei um diário e registrarei: hoje comi mamão. Darei o passo definitivo em direção aos meus cem anos, ao tai-chi-chuan na praia. Daqui sessenta anos serei, então, entrevistada por um repórter curioso, ávido por descobrir o segredo da minha longevidade. Contarei que dia sim, dia não, ao longo da vida, dei casca – só a casca – de papaya para as minhocas comerem. Basicamente isso.