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A moça e as rosas

flor amarela

Deixei o Luca no portão da casa do amigo, tinham trabalho da escola para entregar no dia seguinte. Ela estava na calçada e aproveitou a campainha. O amigo veio recebê-lo, tratando logo de dispensá-la. Os dois entraram, Tchau, Manda Whats quando terminarem, Tá bom, Beijo. Ela me viu estacionada, o vidro aberto. Caminhou em minha direção e, com a vergonha dos que vivem nas ruas, ofereceu:

– A senhora quer comprar flores? – disse, mostrando três rosas amarelas enroladas em celofane transparente. Tão murchas, pobrezinhas. Nem elas aguentam o verão daqui.

Eu não tinha nem um real na carteira. Moedinha, nada. Ela insistiu:

– Alguma coisa pra comer, a senhora tem?

Também não.

Ela começou a lenga-lenga: que não comera nada aquele dia. Que era HIV-positiva. Que isso, que aquilo. Reparei: era magra, fina, comprida e murcha. Feito as rosas.

E se fosse golpe? Olhei ao redor. Um comparsa do outro lado da rua, talvez. E se ela tivesse uma faca? Caco de vidro? Seringa contaminada? Parte de mim queria voar dali, outra parte era pura compaixão. Meu pé direito se preparava para chispar dali, mas a boca anunciou:

– Me dá dez minutos? Vou procurar alguma coisa pra você.

Domingo, tudo fechado no bairro. Rodei meia dúzia de quarteirões. Uma padaria! Pedi logo quatro salgados para viagem, que lanche demoraria mais. Apanhei da geladeira uma latinha de suco de laranja, com o cuidado de não ser zero açúcar; a moça precisava de energia. No caixa, acrescentei à marmita um Sonho de Valsa. Dois, vai.

Voltei à rua. Lá estavam a moça com suas rosas amarelas desmaiadas. Sempre achei engraçado rosa ter outra cor, que não rosa. Ela veio até o carro. Eu, de olho. Sabe como é, comparsa, faca, caco, injeção. Desci o vidro, entreguei-lhe a sacolinha de plástico biodegradável escrito Volte sempre. Ela abriu o sorriso maltratado, Deus te abençoe, Você tambémAmém, Se cuida.

Antes de dobrar a esquina, pelo retrovisor, a vi conferindo a comida. Começaria pela coxinha ou pelo kibe? Lembrei: poxa vida, poderia ter levado um copo d’água para as rosas.

À noite, fui buscar o Luca. Enquanto o aguardava notei um brilho no chão, um pouco adiante da casa do amigo. Eram as rosas, ainda embrulhadinhas. Largadas na rua, sem viço. Feito a moça.

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Atende!

phone
arte: Alanna Cavanagh

Peço o livro ao atendente, ele consulta o sistema, tem. “Um minuto, vou buscar”. Assim que o Alexander – li no crachá – vira a esquina da seção de gastronomia, o telefone do pequeno balcão toca.

Olho ao redor. Ninguém com crachá. E agora?

Sofro quando um telefone toca e ninguém atende. Tenho urgência de alôs.

Não devo me meter, não sou funcionária da livraria. Mas a pessoa do outro lado da linha não tem culpa de o Alexander ter ido buscar o meu livro, e não ter mais nenhum atendente por perto. E se é um pai que precisa, com urgência, de um livro para a filha fazer o trabalho de Ciências, que não tem em lugar nenhum, quem sabe ali?

O ring-ring nervoso me deixa nervosa. Só eu ouço? Um telefone invisível, um tilintar (meu pai que fala tilintar) inaudível, captado apenas pelos meus, agora angustiadíssimos, ouvidos. Olho os fregueses. Nenhum parece ter – e, na verdade, não tem – nada com isso. Quem tem é o Alexander, que deve ter ido à editora a pé buscar meu livro, só pode. E os colegas dele resolveram todos sumir. Esse negócio de megastore é lindo, mas duvi-de-o-dó que um telefone toca mais de cinco vezes em uma livraria pequena.

É pegadinha. Sempre acho que estou em uma. Atendo; a pessoa procura por um título escalafobético qualquer, entabula uma conversa sem pé nem cabeça, difícil de se desvencilhar; peço, toda educada, que aguarde, vou chamar um atendente; a pessoa diz, então, para eu olhar para trás; eu olho e tcharam! Estou na TV. Todos os funcionários, inclusive o sacana do Alexander, mais dezenas de fregueses curiosos, morrem de rir.

Nem morta que vou atender.

Mas e se, do outro lado da linha, for um senhorzinho, desses que usa cachecol xadrez e gosta de ir à livraria encomendar livro, para depois ir de novo buscá-lo, querendo saber se sua encomenda chegou? Quer tanto aproveitar o feriadão de Páscoa para reler os contos reunidos da Lygia Fagundes Telles, dizem que a nova edição ficou supimpa. Senhorzinhos que usam cachecol xadrez falam supimpa.

O telefone segue se esgoelando. É um pobre solitário na ilha do pequeno balcão, cercada por um mar de leitores, não de ouvidores. O Alexander escafedeu-se. Deve ter infartado na seção de auto-ajuda e não há ali ninguém para socorrê-lo. Só ele, com uma atitude positiva e pensamento focado, pode se salvar.

Aliás, pode ser um parente da moça do caixa, avisando que o avô está no hospital, que o caso é grave, que estão pedindo a presença de todos da família. AVC, igual ao bisavô, que sina! É o tipo de telefonema que não pode não ser atendido. Um minuto faz toda diferença em uma despedida.

Pronto, está decidido. Pelo trabalho de ciências da garota, pelo senhorzinho de cachecol xadrez, pelo avô da moça do caixa, pela memória de Graham Bell, vou atender.

Seja o que Deus quiser.

Martinha

bússola

Na terra da garoa, os dois policiais militares montam guarda próximo à saída do metrô República. Paramentados, armados e treinados, estão prontos para salvar a cidade. Mas eu, que estou ao lado deles esperando meu irmão, sei: eles são só gente como a gente.

Sem perder de vista os pivetes no pedaço, os dois engatam o conversê. Ela, rabo-de-cavalo no capricho, unhas feitas. Ele, sorriso aberto e alvo, a ouve contar sobre o casório da sobrinha. “Sabe a Martinha, minha prima?”. Sim, ele sabe. “Resolveu beber, maior vexame”. Ele arregala os olhos e se ajeita para ouvir, quando o homem de calça xadrez os interrompe:

– Como eu chego no Banco do Brasil?

O policial desarregala os olhos e prontamente dá a coordenada:

– Próxima rua. Só seguir reto, senhor.

E o senhor vai. “Tomou todas”, ela continua. Ele ri e balança a cabeça, em clara reprovação. “Resolveu fazer discurso na hora do bolo”. A senhora de cachecol verde desvia dos pombos e se aproxima:

– Qual dessas – pergunta, apontando as travessas da praça – é a 24 de Maio?

A dupla está ali não apenas para promover a ordem e a segurança. São policiais, mas pode chamá-los de Waze Humano. Desta vez, é ela que dá a orientação:

– Próxima rua. Só ir por aqui e virar à direita.

A senhora agradece e some na multidão. Aperta o passo e a bolsa contra o peito ao passar ao lado dos pivetes, recostados na vitrine. Medo.

“Foi lá na frente dos noivos e disse que o amor era lindo, papapá. Mas que, pra ela, nunca foi, papapá. É que o marido dela voltou com a ex” –  e o policial abre um bocão, disso ele não sabia. Então o rapaz com fones de ouvido:

– Onde tem farmácia por aqui?

Dica fornecida, prosa retomada. “E ela nunca se conformou. Acabou chorando, maior fuzuê, minha sobrinha não sabia onde enfiar a cara, era o casamento dela, poxa!”. Vem a jovem com bebê no colo:

– Moço [primeira cidadã a incluir na pergunta algum vocativo], a Praça da Sé está longe?

E um casal de velhinhos, mãos dadas:

– O Sesc novo é pra lá?

Mas será o Benedito? Eles não têm sossego. Mais fácil controlar um arrastão. Por um momento, compadeço-me; ó povo, deixai os dois fofocarem em paz. Na corporação da maior metrópole do país, uma das maiores do planeta, cabem essas miudezas também. E de que é feita a vida, se não das miudezas?

Mas a Martinha, hein. Alguém precisa orientar essa moça.

Achados e perdidos

guarda-chuva
ilustração: Marcio Alek

Esqueci meu guarda-chuva no teatro, semana passada. Guarda-chuva, não; sombrinha. Por que lhes dão nomes distintos, nunca soube. Sombrinha também protege da chuva, e guarda-chuva, do sol. Ao contrário de tantas outras que se foram, abduzidas ou desintegradas (de tão fajutas), essa está comigo há algum tempo. Guarda-chuva (ou sombrinha), pijama e lingerie estão no rol de coisas com as quais tenho enorme dificuldade para gastar dinheiro.

Liguei na bilheteria:

– Alô? Eu queria falar no achados e perdidos.

Essa é outra: por que não só “achados”, ou só “perdidos”? Não se diz, por exemplo, que uma loja é lugar de coisas vendidas e compradas.

– O que você perdeu?

– Uma sombrinha azul de bolinhas brancas.

– Vou olhar, e você liga daqui a pouco.

– Claro! Qual seu nome?

– Osmar.

– Obrigada, Osmar. Até já.

Tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac.

– Osmar?

– Oi.

– Você conseguiu localizar a sombrinha?

– Azul de bolinha branca, né?

– Isso!

– Está aqui, pode vir pegar. Você procura o Adailton.

Escolhi o pior dia para o resgate da sombrinha. Várias escolas estavam ali para alguma atividade, um fuzuê de crianças e ônibus, agentes da mobilidade urbana tentando contornar o caos no trânsito. Determinada a reaver a sombrinha, enfrentei a turba-mirim espalhada pela calçada e escadaria, “Com licença, com licença”.

– Adailton?

– Você veio buscar a sombrinha?

– Isso!

Segui-o até sua sala. Lá ele destrancou um armário velho de madeira, cheio de coisas. Algumas jamais são resgatadas, fico sabendo. Outras, no entanto, sequer esquentam o lugar. Certa vez, ele contou, esqueceram uma carteira em uma das cadeiras. Com dinheiro. Muito dinheiro. O guarda do teatro, que ouvia a conversa em pé junto à porta, lembrou: “Cinco mil reais!”. O Adailton corrigiu, que cinco mil, o quê. Quatorze mil reais em euros. Continuou: eram de uma pianista que acabara de chegar do exterior. Fora assistir a um espetáculo ali e acabou se distraindo. Recuperou-a no dia seguinte, a dinheirama intacta. Sem muito trabalho naquela tarde, o Adailton se animou e começou a contar outro episódio.

No entanto, eu estava com pressa e não poderia ficar ali, perdendo tempo. Até porque, nunca mais o encontraria de novo. Ninguém devolve tempo achado. Pega para si.

A vida, repare, é feita de achados – caminho certo, cachorro sem dono, o grande amor da vida – e perdidos – emprego, pai, filho, prazo, o grande amor da vida. São engrenagens do mundo, movimentando os acontecimentos. Há sempre uma história sobre eles.

Na saída, encarei novamente a multidão infantil, “Com licença, com licença”. Quanta criança, meu Deus. Será que não se perdem nessas horas? Criança perdida é uma tristeza. Achada, uma alegria. Com a esperança, repare também, é assim.

Uma garoa leve começava. Distraída em devaneios, acabei perdendo a saída na avenida. Para achá-la novamente, só pegando o retorno. No final, tudo tem solução.

Cheguei em casa, a chuva havia engrossado. Não tinha problema, eu já estava novamente equipada. Um achado, essa minha sombrinha fajuta.

O que você faz?

arte: Andrea Joseph
arte: Andrea Joseph

– O que você faz?

Por um instante, tento adivinhar que tipo de resposta o perguntante busca. Se pergunta porque deseja, por mera ou suspeita curiosidade, saber a atividade pela qual sou remunerada. Se pergunta genericamente, sem maiores pretensões, aguardando abreviado esclarecimento. Ou se pergunta por perguntar, para puxar assunto, quebrar o gelo. Mais ou menos como quando se está numa festa em que se conhece apenas um convidado, e ele some. Na dúvida, sorrio e elaboro mentalmente a resposta (quase) completa.

– Faço força para acordar cedo. Faço banana amassada com aveia e Toddy em formato de coração para meu filho e bisnaguinha na chapa com ovos mexidos para minha filha, de café da manhã. Faço agendas inviáveis e acordos impossíveis com Cronos. Faço tempestade em copo d’água e, das tripas, coração. Faço o bem e, vez por outra, olho, sim, a quem. Faço o que eu digo e faço o que eu falo – tento fazer sentido. Faço amor. Faço guerra, também. Faço de um limão, limonada; de uma alegria, felicidade, e de uma lembrança sólida, nostalgia líquida. Faço muito. Faço pouco. Faço é nada. Mas faço o que posso. Faço caminhos e laços tortos (fazer o quê!). Faço graça. Faço surpresa. Faço coleção de bolsas, caderninhos e cafeteiras. Faço, aliás, juras de amor ao café (e faz tempo). Faço suco de maracujá com gengibre, kibe de soja, hamburguer de abobrinha, bolo de cenoura, arroz e feijão cheios de alho. Para tudo isso, faço supermercado. Faço livros, blogs, amigos. Faço homenagem e piada. Faço rir, faço chorar e faço dormir. Faço ideia. Faço grandes malas e boas viagens. Faço uma fézinha de vez em quando, e já vou fazendo planos. Faço cara feia. Faço pouco caso. Faço que não é comigo. Faço bobagem, faço vista grossa, faço por merecer. Faço o que eu quero, pois é tudo da lei – da lei! Faço as pazes, as camas, as unhas (faço questão). Faço ligações, conexões e intervenções. Faço minhas orações, minhas doações e minhas proclamações. Faço anos todo ano. Todo ano, faço promessas de ano novo. Faço conta e faço de conta. Faço, enfim, alguém feliz. – E você, me diga: faz o quê?

A verdade sobre comer, rezar e amar

arte: Paul Downey
arte: Paul Downey

Há no mundo um exército dedicado a nos convencer de que cozinhar é uma experiência próxima ao nirvana, o maior ato de amor, a epifania máxima.

Cozinhar pode ser literalmente delicioso, quando rotina, obrigação e horário não estão na parada.

No combate ao mimimi culinário, minha colher de pau e eu estamos aqui para lhes dizer, ó chefs afetivos, que o negócio não é bem assim.

A magia de poder preparar no fogão o alimento da ou das pessoas amadas, embora real, não se aplica a quem precisa fazê-lo todo santo dia, sob a vigilância implacável do relógio e da agenda.

Fora isso, é, de fato, estimulante preparar aquele peixe com molho de não-sei-o-quê guarnecido com lascas de não-sei-que-lá junto com os amigos. Fora isso, faz sentido sovar longamente a massa do pão integral e esperar, como numa gestação, que ela cresça, forte e bela. Fora isso, dá vontade de fotografar o cuscuz lindão e postar no Instagram. Fora isso, pinta alegria ao ver como o bolo de cenoura ficou fofinho e as crianças vibram ao saber que vai ter cobertura de chocolate também.

Há dias – não  poucos – em que cozinhar resume-se a um ato mecânico, necessário para cumprir o protocolo diário (em especial de quem tem filhos pequenos) e atender a uma necessidade fisiológica, sua ou de outrem. Uma pitada de carinho, às vezes nem isso, porque a cabeça está em outras paragens, e pronto. Todos alimentados? É o que importa. Vamos, estamos atrasados.

Há dias – muitos – em que não há poesia alguma no ato de cozinhar. Como naqueles onde eu preciso correr para preparar e servir o almoço a tempo de as crianças não se atrasarem para a aula. Não há ternura possível na produção da torta de legumes quando o relógio, cinicamente, parece andar no fast-forward. Não posso impregnar o suflê, o arroz, o feijão e a salada com boas energias se não avisto mais o fundo da pia, a ajudante ligou dizendo que não vem e a reunião é às duas.

E mais: haja amor e criatividade para compor cardápios diários balanceados com proteínas, leguminosas, carboidratos, hortaliças e tudo que a pirâmide alimentar exige. Quisera ser faraó e viver embalsamada para não ter mais que decidir o que vamos comer. Peço perdão pelas fadas que sepultei, recorrendo ao velho Miojo. Não resta dúvida de que serei exemplarmente condenada pelo fadicídio, quando estiver diante de Deus prestando contas.

Nessas horas, penso que sou uma espécie de alien que pariu. Passo a me autoclassificar como mãe desnaturada, relapsa, sem coração. Mas há algo bastante errado quando o significado de férias é não precisar fazer varejão. Se minha relação com os brócoles, as cenouras e os tomates anda desgatada, lanço mão do self-service. Nem toda cozinha industrial será castigada.

O lirismo permanente do ato de cozinhar, tão declamado pelos soldados da comida afetiva, fica bonito no cinema, na fotografia com frase de efeito que circula no Facebook, na prosa do Mia Couto. Mas quase não combina com o meu dia-a-dia de gente normal. Só de vez em quando.