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Quem acredita, sempre alcança

– Vai, moço! Corre, que dá!

À nossa frente, o ônibus segue seu itinerário. Na calçada, o moço de mochila nas costas, em desabalada carreira (tão bonito, “desabalada carreira”), tenta alcançá-lo. Falta pouco. Mas pé não é roda, difícil competir. A distância entre os dois aumenta.

No jogo Passageiro Atrasado x Ônibus No Horário, sempre torci pelo passageiro. Testemunhei tantos. A mulher de salto que, sem hesitar, arrancou os sapatos para correr e chegar a tempo no ponto. O senhorzinho apertando o passo, segurando o bolso da camisa, cada passo um palavrão. A ruidosa galera do colégio, que mais parecia estar numa gincana. Eu, de nova, nunca corri atrás de ônibus. E o medo de me estatelar no chão? Fora a vergonha de não conseguir. As pessoas na rua olhando, penalizadas. Vergonha também caso fosse bem-sucedida; os passageiros olhando, curiosos, a menina esbaforida e desajeitada com aquela estranha régua T, apetrecho fundamental nas aulas de desenho técnico.

E o moço correndo, acenando ao motorista que não o vê. Meu carro, logo atrás do ônibus. A gente torcendo e sofrendo: “Vai, vai, vai!”. Só faltava a ola, que não dava pra fazer.

Ele desvia da menina toda fitness com o totó, dribla o buraco na calçada, pula o saco preto de lixo, quaaase!, ih não deu!

Dou sinal de farol para o motorista; ou ele não vê, ou finge que não vê. Prefiro acreditar na primeira opção. Colo no ônibus, buzinadinha de leve. O coletivo nada de diminuir, está quase na praça.

Como corre, o moço 2.0. Pés e fé inabaláveis.

No carro ao lado, quatro rapazes acompanham tudo e, como nós, torcem pelo moço. Resolvem encostar, um deles abre a porta e chama, “Vem!”. O moço, desfolegado, entra. O desespero promove súbita confiança. E se os quatro são frios e calculistas traficantes de órgãos, sedam o pobre antes que alcancem a Lagoa do Taquaral, onde sempre tem viatura da Guarda Municipal, retiram seus rins ali, no banco de trás mesmo, e abandonam seu corpo inerte em um fim de mundo qualquer?

Mas o plano dos rapazes, felizmente, é outro: ultrapassar o ônibus, que segue, alheio a tudo – embora já seja visível certo movimento de passageiros lá dentro. Conseguem! O carro para um pouquinho mais pra frente, o moço desce, vai dar!

Vai nada. O motorista do ônibus nem tchum, passa reto. “Não acredito!” – inconforma-se minha cunhada.

E o moço correndo. Obstinação? Prova na faculdade? Tem professor que não deixa entrar depois. O ônibus não era o trem das onze, mas se perdesse aquele… sabe lá quando viria o outro.

Nosso Usain Bolt parece que vai cortar caminho pela praça para chegar ao próximo ponto antes do ônibus, se é que vi direito. De repente, quedê? Perdemos de vista o velocista mochilão, e o coletivo desaparece avenida abaixo.

Nosso caminho, infelizmente, é outro. Jamais saberemos o desfecho da aventura, pois pequenos, mas não menos importantes, acontecimentos não são pauta para os jornais. Embora devessem. A manchete: “Universitário perde ônibus, sai em desabalada carreira (coisa linda!) e o alcança; comunidade vibra”. Pena, perdemos o final da história.

Perdemos nada.

Cruzamos o bairro. Quem emparelha conosco, por acaso, no sinal?

O carro dos rapazes, com o nosso herói. Pela sua expressão, seus rins estão intactos. E não é que eles vão levá-lo ao seu destino? É caminho, afinal. Não custa. Aposto como ficaram amigos, tiraram selfies, já estão se seguindo no Instagram, combinaram uma pelada para o fim de semana.

É como diz o ditado que acabei de inventar: quem acredita, nem sempre alcança o ônibus. Às vezes, alcança coisa melhor.

A moça e as rosas

flor amarela

Deixei o Luca no portão da casa do amigo, tinham trabalho da escola para entregar no dia seguinte. Ela estava na calçada e aproveitou a campainha. O amigo veio recebê-lo, tratando logo de dispensá-la. Os dois entraram, Tchau, Manda Whats quando terminarem, Tá bom, Beijo. Ela me viu estacionada, o vidro aberto. Caminhou em minha direção e, com a vergonha dos que vivem nas ruas, ofereceu:

– A senhora quer comprar flores? – disse, mostrando três rosas amarelas enroladas em celofane transparente. Tão murchas, pobrezinhas. Nem elas aguentam o verão daqui.

Eu não tinha nem um real na carteira. Moedinha, nada. Ela insistiu:

– Alguma coisa pra comer, a senhora tem?

Também não.

Ela começou a lenga-lenga: que não comera nada aquele dia. Que era HIV-positiva. Que isso, que aquilo. Reparei: era magra, fina, comprida e murcha. Feito as rosas.

E se fosse golpe? Olhei ao redor. Um comparsa do outro lado da rua, talvez. E se ela tivesse uma faca? Caco de vidro? Seringa contaminada? Parte de mim queria voar dali, outra parte era pura compaixão. Meu pé direito se preparava para chispar dali, mas a boca anunciou:

– Me dá dez minutos? Vou procurar alguma coisa pra você.

Domingo, tudo fechado no bairro. Rodei meia dúzia de quarteirões. Uma padaria! Pedi logo quatro salgados para viagem, que lanche demoraria mais. Apanhei da geladeira uma latinha de suco de laranja, com o cuidado de não ser zero açúcar; a moça precisava de energia. No caixa, acrescentei à marmita um Sonho de Valsa. Dois, vai.

Voltei à rua. Lá estavam a moça com suas rosas amarelas desmaiadas. Sempre achei engraçado rosa ter outra cor, que não rosa. Ela veio até o carro. Eu, de olho. Sabe como é, comparsa, faca, caco, injeção. Desci o vidro, entreguei-lhe a sacolinha de plástico biodegradável escrito Volte sempre. Ela abriu o sorriso maltratado, Deus te abençoe, Você tambémAmém, Se cuida.

Antes de dobrar a esquina, pelo retrovisor, a vi conferindo a comida. Começaria pela coxinha ou pelo kibe? Lembrei: poxa vida, poderia ter levado um copo d’água para as rosas.

À noite, fui buscar o Luca. Enquanto o aguardava notei um brilho no chão, um pouco adiante da casa do amigo. Eram as rosas, ainda embrulhadinhas. Largadas na rua, sem viço. Feito a moça.

Atende!

phone
arte: Alanna Cavanagh

Peço o livro ao atendente, ele consulta o sistema, tem. “Um minuto, vou buscar”. Assim que o Alexander – li no crachá – vira a esquina da seção de gastronomia, o telefone do pequeno balcão toca.

Olho ao redor. Ninguém com crachá. E agora?

Sofro quando um telefone toca e ninguém atende. Tenho urgência de alôs.

Não devo me meter, não sou funcionária da livraria. Mas a pessoa do outro lado da linha não tem culpa de o Alexander ter ido buscar o meu livro, e não ter mais nenhum atendente por perto. E se é um pai que precisa, com urgência, de um livro para a filha fazer o trabalho de Ciências, que não tem em lugar nenhum, quem sabe ali?

O ring-ring nervoso me deixa nervosa. Só eu ouço? Um telefone invisível, um tilintar (meu pai que fala tilintar) inaudível, captado apenas pelos meus, agora angustiadíssimos, ouvidos. Olho os fregueses. Nenhum parece ter – e, na verdade, não tem – nada com isso. Quem tem é o Alexander, que deve ter ido à editora a pé buscar meu livro, só pode. E os colegas dele resolveram todos sumir. Esse negócio de megastore é lindo, mas duvi-de-o-dó que um telefone toca mais de cinco vezes em uma livraria pequena.

É pegadinha. Sempre acho que estou em uma. Atendo; a pessoa procura por um título escalafobético qualquer, entabula uma conversa sem pé nem cabeça, difícil de se desvencilhar; peço, toda educada, que aguarde, vou chamar um atendente; a pessoa diz, então, para eu olhar para trás; eu olho e tcharam! Estou na TV. Todos os funcionários, inclusive o sacana do Alexander, mais dezenas de fregueses curiosos, morrem de rir.

Nem morta que vou atender.

Mas e se, do outro lado da linha, for um senhorzinho, desses que usa cachecol xadrez e gosta de ir à livraria encomendar livro, para depois ir de novo buscá-lo, querendo saber se sua encomenda chegou? Quer tanto aproveitar o feriadão de Páscoa para reler os contos reunidos da Lygia Fagundes Telles, dizem que a nova edição ficou supimpa. Senhorzinhos que usam cachecol xadrez falam supimpa.

O telefone segue se esgoelando. É um pobre solitário na ilha do pequeno balcão, cercada por um mar de leitores, não de ouvidores. O Alexander escafedeu-se. Deve ter infartado na seção de auto-ajuda e não há ali ninguém para socorrê-lo. Só ele, com uma atitude positiva e pensamento focado, pode se salvar.

Aliás, pode ser um parente da moça do caixa, avisando que o avô está no hospital, que o caso é grave, que estão pedindo a presença de todos da família. AVC, igual ao bisavô, que sina! É o tipo de telefonema que não pode não ser atendido. Um minuto faz toda diferença em uma despedida.

Pronto, está decidido. Pelo trabalho de ciências da garota, pelo senhorzinho de cachecol xadrez, pelo avô da moça do caixa, pela memória de Graham Bell, vou atender.

Seja o que Deus quiser.

Martinha

bússola

Na terra da garoa, os dois policiais militares montam guarda próximo à saída do metrô República. Paramentados, armados e treinados, estão prontos para salvar a cidade. Mas eu, que estou ao lado deles esperando meu irmão, sei: eles são só gente como a gente.

Sem perder de vista os pivetes no pedaço, os dois engatam o conversê. Ela, rabo-de-cavalo no capricho, unhas feitas. Ele, sorriso aberto e alvo, a ouve contar sobre o casório da sobrinha. “Sabe a Martinha, minha prima?”. Sim, ele sabe. “Resolveu beber, maior vexame”. Ele arregala os olhos e se ajeita para ouvir, quando o homem de calça xadrez os interrompe:

– Como eu chego no Banco do Brasil?

O policial desarregala os olhos e prontamente dá a coordenada:

– Próxima rua. Só seguir reto, senhor.

E o senhor vai. “Tomou todas”, ela continua. Ele ri e balança a cabeça, em clara reprovação. “Resolveu fazer discurso na hora do bolo”. A senhora de cachecol verde desvia dos pombos e se aproxima:

– Qual dessas – pergunta, apontando as travessas da praça – é a 24 de Maio?

A dupla está ali não apenas para promover a ordem e a segurança. São policiais, mas pode chamá-los de Waze Humano. Desta vez, é ela que dá a orientação:

– Próxima rua. Só ir por aqui e virar à direita.

A senhora agradece e some na multidão. Aperta o passo e a bolsa contra o peito ao passar ao lado dos pivetes, recostados na vitrine. Medo.

“Foi lá na frente dos noivos e disse que o amor era lindo, papapá. Mas que, pra ela, nunca foi, papapá. É que o marido dela voltou com a ex” –  e o policial abre um bocão, disso ele não sabia. Então o rapaz com fones de ouvido:

– Onde tem farmácia por aqui?

Dica fornecida, prosa retomada. “E ela nunca se conformou. Acabou chorando, maior fuzuê, minha sobrinha não sabia onde enfiar a cara, era o casamento dela, poxa!”. Vem a jovem com bebê no colo:

– Moço [primeira cidadã a incluir na pergunta algum vocativo], a Praça da Sé está longe?

E um casal de velhinhos, mãos dadas:

– O Sesc novo é pra lá?

Mas será o Benedito? Eles não têm sossego. Mais fácil controlar um arrastão. Por um momento, compadeço-me; ó povo, deixai os dois fofocarem em paz. Na corporação da maior metrópole do país, uma das maiores do planeta, cabem essas miudezas também. E de que é feita a vida, se não das miudezas?

Mas a Martinha, hein. Alguém precisa orientar essa moça.

Achados e perdidos

guarda-chuva
ilustração: Marcio Alek

Esqueci meu guarda-chuva no teatro, semana passada. Guarda-chuva, não; sombrinha. Por que lhes dão nomes distintos, nunca soube. Sombrinha também protege da chuva, e guarda-chuva, do sol. Ao contrário de tantas outras que se foram, abduzidas ou desintegradas (de tão fajutas), essa está comigo há algum tempo. Guarda-chuva (ou sombrinha), pijama e lingerie estão no rol de coisas com as quais tenho enorme dificuldade para gastar dinheiro.

Liguei na bilheteria:

– Alô? Eu queria falar no achados e perdidos.

Essa é outra: por que não só “achados”, ou só “perdidos”? Não se diz, por exemplo, que uma loja é lugar de coisas vendidas e compradas.

– O que você perdeu?

– Uma sombrinha azul de bolinhas brancas.

– Vou olhar, e você liga daqui a pouco.

– Claro! Qual seu nome?

– Osmar.

– Obrigada, Osmar. Até já.

Tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac.

– Osmar?

– Oi.

– Você conseguiu localizar a sombrinha?

– Azul de bolinha branca, né?

– Isso!

– Está aqui, pode vir pegar. Você procura o Adailton.

Escolhi o pior dia para o resgate da sombrinha. Várias escolas estavam ali para alguma atividade, um fuzuê de crianças e ônibus, agentes da mobilidade urbana tentando contornar o caos no trânsito. Determinada a reaver a sombrinha, enfrentei a turba-mirim espalhada pela calçada e escadaria, “Com licença, com licença”.

– Adailton?

– Você veio buscar a sombrinha?

– Isso!

Segui-o até sua sala. Lá ele destrancou um armário velho de madeira, cheio de coisas. Algumas jamais são resgatadas, fico sabendo. Outras, no entanto, sequer esquentam o lugar. Certa vez, ele contou, esqueceram uma carteira em uma das cadeiras. Com dinheiro. Muito dinheiro. O guarda do teatro, que ouvia a conversa em pé junto à porta, lembrou: “Cinco mil reais!”. O Adailton corrigiu, que cinco mil, o quê. Quatorze mil reais em euros. Continuou: eram de uma pianista que acabara de chegar do exterior. Fora assistir a um espetáculo ali e acabou se distraindo. Recuperou-a no dia seguinte, a dinheirama intacta. Sem muito trabalho naquela tarde, o Adailton se animou e começou a contar outro episódio.

No entanto, eu estava com pressa e não poderia ficar ali, perdendo tempo. Até porque, nunca mais o encontraria de novo. Ninguém devolve tempo achado. Pega para si.

A vida, repare, é feita de achados – caminho certo, cachorro sem dono, o grande amor da vida – e perdidos – emprego, pai, filho, prazo, o grande amor da vida. São engrenagens do mundo, movimentando os acontecimentos. Há sempre uma história sobre eles.

Na saída, encarei novamente a multidão infantil, “Com licença, com licença”. Quanta criança, meu Deus. Será que não se perdem nessas horas? Criança perdida é uma tristeza. Achada, uma alegria. Com a esperança, repare também, é assim.

Uma garoa leve começava. Distraída em devaneios, acabei perdendo a saída na avenida. Para achá-la novamente, só pegando o retorno. No final, tudo tem solução.

Cheguei em casa, a chuva havia engrossado. Não tinha problema, eu já estava novamente equipada. Um achado, essa minha sombrinha fajuta.

O que você faz?

arte: Andrea Joseph
arte: Andrea Joseph

– O que você faz?

Por um instante, tento adivinhar que tipo de resposta o perguntante busca. Se pergunta porque deseja, por mera ou suspeita curiosidade, saber a atividade pela qual sou remunerada. Se pergunta genericamente, sem maiores pretensões, aguardando abreviado esclarecimento. Ou se pergunta por perguntar, para puxar assunto, quebrar o gelo. Mais ou menos como quando se está numa festa em que se conhece apenas um convidado, e ele some. Na dúvida, sorrio e elaboro mentalmente a resposta (quase) completa.

– Faço força para acordar cedo. Faço banana amassada com aveia e Toddy em formato de coração para meu filho e bisnaguinha na chapa com ovos mexidos para minha filha, de café da manhã. Faço agendas inviáveis e acordos impossíveis com Cronos. Faço tempestade em copo d’água e, das tripas, coração. Faço o bem e, vez por outra, olho, sim, a quem. Faço o que eu digo e faço o que eu falo – tento fazer sentido. Faço amor. Faço guerra, também. Faço de um limão, limonada; de uma alegria, felicidade, e de uma lembrança sólida, nostalgia líquida. Faço muito. Faço pouco. Faço é nada. Mas faço o que posso. Faço caminhos e laços tortos (fazer o quê!). Faço graça. Faço surpresa. Faço coleção de bolsas, caderninhos e cafeteiras. Faço, aliás, juras de amor ao café (e faz tempo). Faço suco de maracujá com gengibre, kibe de soja, hamburguer de abobrinha, bolo de cenoura, arroz e feijão cheios de alho. Para tudo isso, faço supermercado. Faço livros, blogs, amigos. Faço homenagem e piada. Faço rir, faço chorar e faço dormir. Faço ideia. Faço grandes malas e boas viagens. Faço uma fézinha de vez em quando, e já vou fazendo planos. Faço cara feia. Faço pouco caso. Faço que não é comigo. Faço bobagem, faço vista grossa, faço por merecer. Faço o que eu quero, pois é tudo da lei – da lei! Faço as pazes, as camas, as unhas (faço questão). Faço ligações, conexões e intervenções. Faço minhas orações, minhas doações e minhas proclamações. Faço anos todo ano. Todo ano, faço promessas de ano novo. Faço conta e faço de conta. Faço, enfim, alguém feliz. – E você, me diga: faz o quê?

A verdade sobre comer, rezar e amar

arte: Paul Downey
arte: Paul Downey

Há no mundo um exército dedicado a nos convencer de que cozinhar é uma experiência próxima ao nirvana, o maior ato de amor, a epifania máxima.

Cozinhar pode ser literalmente delicioso, quando rotina, obrigação e horário não estão na parada.

No combate ao mimimi culinário, minha colher de pau e eu estamos aqui para lhes dizer, ó chefs afetivos, que o negócio não é bem assim.

A magia de poder preparar no fogão o alimento da ou das pessoas amadas, embora real, não se aplica a quem precisa fazê-lo todo santo dia, sob a vigilância implacável do relógio e da agenda.

Fora isso, é, de fato, estimulante preparar aquele peixe com molho de não-sei-o-quê guarnecido com lascas de não-sei-que-lá junto com os amigos. Fora isso, faz sentido sovar longamente a massa do pão integral e esperar, como numa gestação, que ela cresça, forte e bela. Fora isso, dá vontade de fotografar o cuscuz lindão e postar no Instagram. Fora isso, pinta alegria ao ver como o bolo de cenoura ficou fofinho e as crianças vibram ao saber que vai ter cobertura de chocolate também.

Há dias – não  poucos – em que cozinhar resume-se a um ato mecânico, necessário para cumprir o protocolo diário (em especial de quem tem filhos pequenos) e atender a uma necessidade fisiológica, sua ou de outrem. Uma pitada de carinho, às vezes nem isso, porque a cabeça está em outras paragens, e pronto. Todos alimentados? É o que importa. Vamos, estamos atrasados.

Há dias – muitos – em que não há poesia alguma no ato de cozinhar. Como naqueles onde eu preciso correr para preparar e servir o almoço a tempo de as crianças não se atrasarem para a aula. Não há ternura possível na produção da torta de legumes quando o relógio, cinicamente, parece andar no fast-forward. Não posso impregnar o suflê, o arroz, o feijão e a salada com boas energias se não avisto mais o fundo da pia, a ajudante ligou dizendo que não vem e a reunião é às duas.

E mais: haja amor e criatividade para compor cardápios diários balanceados com proteínas, leguminosas, carboidratos, hortaliças e tudo que a pirâmide alimentar exige. Quisera ser faraó e viver embalsamada para não ter mais que decidir o que vamos comer. Peço perdão pelas fadas que sepultei, recorrendo ao velho Miojo. Não resta dúvida de que serei exemplarmente condenada pelo fadicídio, quando estiver diante de Deus prestando contas.

Nessas horas, penso que sou uma espécie de alien que pariu. Passo a me autoclassificar como mãe desnaturada, relapsa, sem coração. Mas há algo bastante errado quando o significado de férias é não precisar fazer varejão. Se minha relação com os brócoles, as cenouras e os tomates anda desgatada, lanço mão do self-service. Nem toda cozinha industrial será castigada.

O lirismo permanente do ato de cozinhar, tão declamado pelos soldados da comida afetiva, fica bonito no cinema, na fotografia com frase de efeito que circula no Facebook, na prosa do Mia Couto. Mas quase não combina com o meu dia-a-dia de gente normal. Só de vez em quando.

A garrafa da Jeannie

Querer, sempre quis. Desde criança, quando assistia o seriado na velha Telefunken preto-e-branco, eu queria ser a Jeannie. Que eu não entendia por que era “um gênio”, e não “uma gênia”.

Eu, que já desejei seus superpoderes mais do que ir bem na prova de matemática ou ganhar a boneca que falava, hoje confesso. Bastava-me a garrafa onde ela se recolhia.

Trocaria seu antológico piscar de olhos azuis, capaz de fazer desaparecer coisas e pessoas, pela solitude da garrafa-quitinete. Um refúgio para as horas de colapso doméstico. Indevassável, à prova de Galinha Pintadinha, Lego e vendedor de assinatura da Abril. Onde eu pudesse dormir uma noite inteirinha seguida, curtir meu jantar ainda quente e ler o despretensioso noticiário do Facebook sem alguém ao lado perguntando “Quem é?”. Sem, no entanto, amo para obedecer. Se houvesse um no enredo, que fosse apenas o “eu me amo”.

Uma garrafa-sótão para me esconder da tristeza de ter chegado tarde demais para salvar o passarinho. Para me livrar da insistência do vizinho que tenta me converter e da lanchonete que só tem salgado com carne. Para ouvir nada além da minha própria respiração. Para não ver nem a banda passar, cantando seja lá o que for.

Dentro da garrafa-salvação eu não me importaria de ficar largada sobre uma mesa, embaixo da pia, ao lado do cesto do lixo. O recôndito da minha sala de estar particular garantiria a verdadeira paz eterna, tão prometida pelos cristãos.

Ela nem precisaria ter a icônica arquitetura garrafal, tampouco evocar (dizem) o fálico. Poderia ter o layout de uma Minalba. Cem por cento opaca, evidentemente. Nela, um sofá macio. E, como a casa no campo do Rodrix e do Tavito, meus discos, meus livros e nada mais. (Embora uma conexão 4G também fosse bem-vinda.)

Será que a Jeannie teria filhos com o Major Nelson?

Se ela eu fosse, só toparia tê-los se os superpoderes pudessem ser mantidos depois do parto. Imagine. Fraldas trocadas instantaneamente. Brinquedos que se autorrecolhem. Home office com disciplina e eficácia (sem engordar) num passe de mágica. Depilação e manicure começando no “tic” e terminando antes do “tac”. Condução das crianças à escola, ao médico, às aulas de natação e aos aniversários dos amigos com a rapidez do teletransporte, zás!

Que nada. Era a garrafa que eu queria.

Brinquedo a gente junta, do tempo se fica amiga, do trânsito a gente ri e trocar uma fralda não toma mais que um minuto. Conta rápida: a sete fraldas por dia, são cinco mil fraldas em dois anos, o equivalente a apenas cinco mil minutos dos quarenta e dois milhões que, na média, se vive até o dia em que piscamos os olhos só de ida, sem volta.

O resto é efeito especial da vida.

 

Nota: e o Major Nelson (Larry Hagman) morreu no dia 23/11/12, poucos dias depois da postagem desta crônica.

Casamento, parte 2

Arte: Greg W

Ele perde. Eu localizo. Ele espalha. Eu recolho. Ele guarda. Eu descarto. Sou sua vice-versa.

Ele é indoor; eu, outdoor. Eu reclamo; ele salva. Eu publico; ele reserva. Ele planta árvore; eu, livro. Tudo é semente.

Ele prefere pão queimadinho. Eu, branquinho. Ele gosta do chuveiro mais frio, no 3, quase 2. Eu no 4, pelando; às vezes, 5. Ele corre a São Silvestre. Eu evoco o São Benedito. Minha música é alta. A dele, branda. Ele gosta do silêncio; eu careço do ruído. Nosso conflito é o decibel.

Eu abasteço a geladeira com água de coco, só para ele. Ele compra Amandita, só para mim. Ele briga porque como o pacote inteiro de suspiro. Eu sempre digo que não fui eu.

Ele deixa a TV ligada. Eu tenho preguiça de reciclar. Ele não apaga as luzes. Eu uso papel higiênico demais. Cada um com seu crime ambiental.

Eu reponho o sabonete dele, quando acaba. Ele me traz água no quarto, do jeitinho que gosto: 2/3 gelada e 1/3 natural. Eu coloco seu celular para carregar. Ele faz as contas para mim.

Ele pendura a roupa no varal. Vou lá, acertar os pregadores. Ele arruma a mesa para o jantar. Finalizo, colocando o que ele esqueceu. Ele guarda as coisas na geladeira. Surjo em seguida, realocando tudo. Ele lava a louça. Eu passo o rodinho na pia e reorganizo o escorredor. Eu finjo que não fiz nada. Ele finge que não me viu fazer.

Ele lê o que escrevo, bronqueia que não é indoor coisa nenhuma. Eu concordo com ele e me retrato: ele não é indoor coisa nenhuma.

Eu emprestei meus sobrinhos para ele. Ele emprestou os dele para mim. Nunca mais devolvemos.

Ele tem três filhos, dois comigo. Eu tenho dois, três com o dele. Dá tudo no mesmo.

A mãe dele colecionava “Mãos de Ouro”. A minha também. As duas, que não se conheceram, estão lá, tricotando pros anjos, cuidando de nós e inventando novos pontos para essa bendita trama de yin e yang.

Casamento é sorte, resiliência e bom humor. Na vida a dois, os opostos não se atraem; eles fazem sinal para o mesmo táxi. E dividem a viagem.

O resto é marmelada afetiva.

Nota: quer ler o que deu origem a este? Aqui.

Voar é com os pássaros. Ou não

Arte: Mariana Fossatti

O mais perto que estive de um suicida foi, de fato, longe. Próximo o bastante, porém, para que a quase-imagem do fato consumado se eternizasse nas minhas memórias. Cristalizadas com os anos – o episódio tem quase duas décadas  –, nem sei mais se vi o que vi, se sonhei que vi, se aumentei ou diminuí algum ponto no conto.

Era meu horário de almoço, eu trabalhava no centro de São Paulo. Saí e, na ida, um cenário na avenida. Na volta, outro. “Há um segundo, tudo estava em paz”, não tem aquela canção? Ou não havia paz desde muito. Nunca, nunca mesmo, se sabe.

O homem saltara da janela do prédio e se espatifara no parabrisa do carro que passava na avenida naquele exato instante. Pronto: contei a história inteira em duas linhas. É relativamente simples narrar a vida e o fim dela.

Mas sempre é possível – e necessário – enfeitar os acontecimentos.

Enquanto, no trajeto da ida, eu matutava no que almoçaria aquele dia, cogitando entre meia dúzia de lugares que prestavam na região, o suicida preparava seu último ato. Talvez, enquanto eu passava pela calçada, sob sua derradeira janela, ele estivesse revendo seus dramas, infortúnios, tristezas e desesperos sem fim, como dizem fazer os suicidas antes de dar cabo de suas vidas. Eu ainda teria que decidir o que jantaria naquela noite. Ele, não.

Digestão em andamento, eu rumava de volta ao trabalho pela mesma avenida da ida, quando avistei o tumulto. O trânsito de carros e pessoas parou. O motorista do veículo atingido nada sofreu – exceto a inenarrável surpresa. Alguns arranhões, os estilhaços do vidro. Como explicaria aos amigos o atropelamento ao contrário? Policiais presentes, fazendo anotações em seus caderninhos. Calculavam a altura, tratavam de identificar a janela original. Motoristas e pedestres no entorno, estupefatos. O suicida pausara a tarde naquele quarteirão. Quem apertaria o play novamente? Só lembrando: a vida não tem replay.

O voo do homem-pássaro não contou com trilha sonora de anjos vocalizando uma tristonha melodia celestial, nem com a câmera lenta, igual nos filmes. (Eu sei porque o cinema gosta tanto da câmera lenta: nossos olhos pensam devagar.) Foi zás-trás, pá-pum. Sem tiro, somente queda. A plateia, desprevenida, não pôde assisti-lo em detalhes. Quem viu, viu.

O Ícaro urbano quis testar, naquele dia, suas invisíveis e frágeis asas de cera. Fugir da Creta paulistana era preciso. E, embora a tarde se anunciasse rara de sol, elas se derreteram. O tombo não só era inevitável, como desejado. A gente que nunca entende isso.

O termo “queda livre” ganhou novo sentido na pele do suicida; era o caminho para a liberdade. Engano ou certeza?

Poucas pessoas despertam tantas reações e sentimentos quanto o suicida. Da incompreensão à compaixão, do desprezo à indiferença. Todos têm uma opinião, poucos ficam reticentes. É assunto polêmico. Popular e, ao mesmo tempo, secreto. Está presente nos versos, nas canções, nos noticiários, nas famílias dos outros. Só dos outros.

Suicídio é a vida como ela é, e como ela deixa de ser. Suicida é a pessoa que, no meio da brincadeira, pede para sair. Porém, o suicida não o faz porque precisa beber água, fazer xixi, a mãe chamou. Ele sai porque cansou. Porque a brincadeira estava sem graça. Ou insuportável. O suicida quer sair da brincadeira e ir para casa. E a casa dele, ele crê, não é aqui.

As flores do meio-fio

Foto: arquivo pessoal

É para cruzar com cuidado, avisa a placa plantada na esquina. Esqueceram de escrever: “Antes, veja as flores que brotaram no meio-fio”. Placas de trânsito são tão racionais.

Qual noiva quererá as flores clandestinas para seu buquê? Elas têm graça e são de graça.

Morte de quem, enfeitarão?

Que bêbado se juntará a elas na madrugada, quando esquecer o caminho de casa? Antigamente, dizia-se que gente, se bebesse além da conta, ia parar na sarjeta. Não se vê mais isso. Agora, o bebum prefere o aconchego da marquise ou banco da praça à inospitalidade da calçada. Sarjeta virou só lugar de passar água que lavou quintal, caminho de água de chuva e depósito de bicho atropelado enquanto o pessoal da limpeza não vem recolher.

Só criança colhe flor da rua. Meus filhos sempre apanham uma aqui, outra ali, e me dão de presente. Adulto gosta mesmo é de comprar.

Ninguém vai visitar o bebê da amiga na maternidade levando um caprichado arranjo vindo do canteiro da avenida, por mais bonito que ele possa ficar. As pessoas têm vergonha de oferecer presentes que não geraram nota fiscal. Levamos muito a sério o “Não pise na grama”.

Marido nenhum chega em casa com as mãos para trás, segurando a supresa que é um punhado de flores do manacá da rua de baixo. Principalmente, quando a esposa foi dormir de bico na noite anterior.

Quem é que põe como enfeite na recepção do escritório as flores cultivadas bem ali, na floreira do prédio, tão fáceis, renováveis e disponíveis?

Nem todas as flores públicas estão ao alcance das mãos, é verdade. A maioria, no entanto, sim. Basta esticar o braço.

Brinco de imaginar que as flores sem grife do cruzamento, nascidas em meio ao mato e algum lixo, foram orquídeas raras na vida passada. E nesta vieram ser flor qualquer. Reino vegetal tem carma?

Só sei que as flores do meio-fio, sujeitas à poda impiedosa no próximo mutirão da prefeitura, estão à toa na vida, sem banda para ver passar. Ninguém as quer. Nem noiva, nem morto, nem bêbado. Nem eu, que só parei para fotografar.

Filosofia de chuveiro

Foto: Mel Toledo/Flickr.com

Sexta-feira é dia da empregada lavar meu banheiro. E ela muda tudo de lugar no porta-xampu. É desses de dois andares, compartilhado com o marido. As coisas dele ficam no térreo. No primeiro andar, as minhas, mantidas em previsível ordem. Xampus à frente, condicionadores atrás; óleo de banho na sequência; ao lado, esponja, sabonete e aparelho de barbear para o sovaco. Em dia de faxina, no entanto, fico perdida com a nova órbita dos meus satélites. O xampu no finzinho, deixado propositalmente de ponta-cabeça para melhor aproveitamento, está em pé de novo. O aparelho de barbear, apesar de cor-de-rosa, foi transportado ao território masculino. Percebo, aliás, que ali também houve certa embaralhada (não captada pelo patrão). Semana após semana, ela não repete o lugar de nada, num intrigante ineditismo. São sempre novas combinações. Criatividade, pressa ou distração?

Ao fazer isso, sem saber, ela altera o ritmo do meu banho. Invade a parte que me cabe nesse minifúndio feito de azulejos. Confunde meus neurônios, agora obrigados a novas e complexas sinapses. E deixa sua indelével pegada em território tão íntimo.

Depois de sua passagem pelo local eu me ponho, secretamente, a corrigir tudo. Sexta passada, porém, tomei a incomum decisão: deixei tudinho como ela definiu. Sabendo que o xampu do marido está no lugar do óleo perfumado, e consciente do risco dele usá-lo na cabeça.

Nesse pequeno e doméstico exercício, aparentemente sem importância, eu revejo o quanto a rotina, em seus detalhes, está sedimentada. E o quanto mexer nela pode alterar o percurso do dia. Para o bem e para o mal.

O cotidiano não é, mas pode ser um cruel replay de vidas presentes. Acordamos à mesma hora, levantamos sempre pelo nosso lado da cama, calçamos – ou não – os chinelos. Escovamos os dentes começando pelo mesmo lado da boca, bochechamos com água o mesmo número de vezes, secamos as mãos do mesmo modo. Espreguiçamo-nos igual ontem e olhamos pela mesma janela, que nos devolve a mesma paisagem. Sentamo-nos em nosso lugar à mesa e recriamos o café-da-manhã da manhã de ontem, variando entre pão ou torrada, café-com-leite ou suco de laranja. Escolhemos uma roupa e, raras exceções, optamos pelo já testado e aprovado. Dirigimos do mesmo jeito até o lugar de sempre e, no caminho, reparamos no que já foi percebido. Damos bom dia aos colegas de trabalho com o mesmo sorriso (salvo em dias de TPM), realizamos nosso ofício da mesma maneira, com direito a pequenas alterações no decorrer do período. Para quem fica em casa não é diferente. Depois, não sabemos por que é que nada de novo acontece na nossa vida. É uma repetição sem fim de gestos e hábitos, cristalizados, talvez, em nome da segurança e conforto de um suposto saber sobre como tudo será. Os dias da semana nem precisavam ter nomes diferentes.

A criatividade, pressa ou distração da empregada, quem diria, se torna uma grandiosa benfeitoria. A imperfeição da ordem no porta-xampu está somente em meu olhar. É em meu referencial que o caos mora. No primeiro ou segundo andar, tudo continuará ao meu alcance e com suas funções preservadas: o sabonete sempre será sabonete, e assim por diante. Se eu pudesse estender isso pela vida, meu mundo seria outro.

Mas quer saber? Não dou três dias para eu colocar tudo de volta no lugar.

Crônica de minuto #7

Todo dia, o gato vem zanzar na frente do computador enquanto eu escrevo no blog. Se roça em tudo, como quem diz “Estou aqui”. Até a hora que – não falha – ele derruba a webcam com o rabo. Todo dia, eu reclamo. Todo dia, ele se faz de desentendido. Todo dia me levanto, recoloco a câmera no lugar e ele ganha um afago. Todo dia, ele salta da mesa e vai embora, feliz. É o nosso jeito de discutir a relação.