Crônica de viagem #1 ou Família, a sagrada

sagrada familia tio tomas
Arquivo pessoal

Saio do hotel, estou a pé. Bastam uns quarteirões e eu surjo diante dela – e não ela diante de mim, sejamos humildes. A igreja da Sagrada Família é obra em eterno e santificado progresso. As gruas, incorporadas à paisagem de Barcelona, viraram extensões do projeto original. Ninguém se incomoda com elas, nem os pombos que ali fazem suas titicas. Tampouco Gaudí, dono dos traços, se amofinava com a demora na entrega. Dizem que, a quem lhe questionava sobre os prazos, ele respondia: “Meu cliente não tem pressa”.

Tio Tomás era espanhol, de qual cidade não sei. Casado com a tia Cida, que era irmã de meu pai. Os dois morreram há tempos e, como não tiveram filhos, a história do casal cessou ali, numa espécie de pretérito imperfeito. Não tinha mais ninguém para conjugar a família.

Próximo demais dos barulhos da segunda guerra mundial, ele ficara surdo. Escolhera o Brasil como pátria e era barbeiro da parentada toda. Mesmo quem não o visitasse com essa intenção, saía de sua casa com barba, cabelo e bigode feitos. Ele fazia questão. Hipocondríaco inconfesso, apresentava, orgulhoso, sua extensa farmácia a qualquer um que desse mole. Tocava sanfona, herança que tentou transmitir à afilhada, minha irmã. Mas ela não se interessou. Mais tarde, na faculdade, já órfã de padrinhos, ela aprendeu, dentre tantos, sobre o arquiteto catalão. O da igreja. De um modo ou de outro, a vida dá sempre um jeito de nos entrelaçar.

Apesar de querido, depois que minha tia morreu ninguém na família adotou o tio Tomás. Ele foi ficando de lado. Foram todos cortar cabelo noutro lugar. Ele continuava esperando pelas visitas. Também não tinha pressa. Um dia, não sei de quem partiu a ideia, alguém apareceu e o levou de volta à sua terra natal. Nunca mais o vimos. Foi aqui que ele morreu, nem sei direito quando, nem onde, junto aos seus. Como se os ‘seus’ não fôssemos também nós.

Em Barcelona, vejo meu tio Tomás em todo canto. Nos vovôs que passeiam pelo Parque Güell e nos comerciantes das Ramblas. Nos ruidosos senhores reunidos em charmosos restaurantes, afundando seus churros em espessos chocolates quentes. No exausto homem-estátua da avenida Diagonal. Tenho devaneios em catalão e saudades em português. E desconfio que nossa família, também em eterna construção, nunca foi tão sagrada assim.

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5 comentários sobre “Crônica de viagem #1 ou Família, a sagrada

  1. As famílias nunca são sagradas, lhe digo. Só a espiritual, mesmo.
    Tadinho do Tio, como podemos ser tão bons e tão ruins, né?
    Tenho uma tia perdida lá na Espanha, nem sabemos onde. Talvez nem a tenhamos mais, já estará perto dos 100 anos. Mundo esquisito, não?

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