Vida e morte de uma redação

Ilustração: Darlene Carvalho/Flickr.com

Começo assim: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento tolo”. Paro e leio o que acabo de escrever. Já vi vento fresco, mas tolo? Troco por ‘bom’. Continuo: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade”.

Carece agora explicar o que aconteceu. Falar, de modo breve e econômico, sobre o rapaz da história, que não era fresco, nem tolo, nem bom, mas que abandonara a mocinha, narradora, na véspera de seu casamento. Devo ser ousada nesta hora, o enredo é batido. Pior: não sei direito o que uma mulher sente numa hora dessa. Rôo as unhas e rascunho no canto da página: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite assustadora fria [assim ficou melhor] me acompanhar”.

Até que está bonito. Bem ao gosto da melancólica professora que, dizem, terminou com o namorado. Vai chorar até. E eu ganho nota máxima. Ou um zero bem redondo, dependendo do estágio do luto. E do nível da caixa de lenços de papel em cima da mesa. Meia hora para entregar. Vamos lá, força na caneta.

“Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite fria me acompanhar. Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando numa eterna contradança no salão das nossas vidas, agora me via condenada a um triste solo”.

Agora ficou meio bobo. ‘Salão das nossas vidas’?

“Então ele se foi (…) Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando num eterno pax de deux, agora me via condenada a um triste solo”.

Faltam dez minutos. Eu deveria ter escolhido outro tema. Bomba atômica, Copa do Mundo, Rock in Rio. Não sirvo para escrever histórias românticas. Como é que eu saio dessa?

A morte há de resolver a parada. Mato todo mundo: ele num acidente de carro; ela, de bala perdida. Tudo numa prosa bem parnasiana. Vão os dois para o quinto dos infernos, e eu me livro, em três linhas, de perpetuar a bobajada.

Passo a limpo, entrego a redação, não encaro a professora. A caixa de lenços está vazia. Danou-se.

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6 comentários sobre “Vida e morte de uma redação

  1. Silmara, conheci seu blog recentemente e adorei! Tiro alguns minutinhos todos os dias para dar uma lida em seus post antigosainda bem que a lista é grande!! Adoro suas sacadas e a forma da sua redação! Parabéns!
    Sendo eu uma iniciante dessa coisa toda de blogs e de escrever pra outras pessoas lerem, me reconheci muito nesse post, na escolha de palavras e de idéias, e na relação com o leitor. Muito bacana!!

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  2. kkkkkkkkkkkk
    inusitado !!!
    Eu simplesmente, com meu belo lado sagitariano, adorei o final. A matança coletiva foi a melhor saída e de quebra, ninguém passa o resto da vida chorando ou remendando panos, passados e presentes…
    Amei.

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  3. Parece brincadeira, coloquei-me agora mesmo numa sinuca dessas. Iniciado o texto, resisto em recomeçar do zero. A tela e a minha consciência lamentam o que não é branco. Dá vontade mesmo de mandar tudo pro inferno.

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  4. Sil, a professora deve estar em choque…por isso, a ausência de lágrimas. Ela deve ter achado que, ou vc é filha do Datena ou assit- todos os dias, pra tanta morte…hahahahahaha

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  5. … que cilada… eu não saberia sair dessa… também não sei o que sente uma mocinha nesta hora… quando o marido perdeu o ônibus que o levaria para nosso noivado, em outro estado, levei na esportiva, mas ele chorava muito ao telefone… foi só um susto, quem sabe um infortúnio desses aconteceu para que mais nada (de pior) acontecesse depois… e assim podemos viver felizes para sempre… Beijinho Sil e inté a próxima…

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