Nove (ou dez) lugares para ir antes de morrer

Arte: Andrea Joseph

Se você veio aqui crente que sairá com dicas de destinos maravilhosos pelo planeta afora, praias paradisíacas, cidades esquecidas, vilarejos charmosos e museus imperdíveis, errou de texto. Os lugares essenciais ficam mais perto do que se imagina. Não, necessariamente, na geografia. Sobretudo, afetivamente. Visitá-los confere certo sentido à vida, garante o caminho pela frente. Duvida?

1. A maternidade onde você nasceu. É certo que pouca coisa ou quase nada resta do hospital que lhe recebeu, tempos atrás. Você não reconhecerá, tampouco será reconhecido por nenhum obstetra e nenhuma enfermeira pelos corredores. Outros bebês chegarão nesse dia, exatamente como você fez, exceto por um pouco mais de tecnologia. É a maior prova de que o mundo acerta em suas intermináveis, cíclicas e inelutáveis voltas.

2. A escola onde você aprendeu a ler e a escrever, quando era deste tamanhico. Se o diretor permitir, e se você lembrar, faça o trajeto que sempre fazia, assim que se despedia da sua mãe no portão. Não se espante se, ao olhar para trás, a vir acenando para você, com a mesma roupa da foto no porta-retrato que você olha todo santo dia.

3. A casa da sua madrinha, se você tiver uma. De preferência, numa visita desapressada, para um chá com rosquinhas. De preferência, que ela mesma fez. Na ausência da madrinha, vale outra tia, uma que você nunca mais viu e nem sabe explicar por que. De preferência, a que você mais gostava de abraçar quando era criança. E também nem sabia por que.

4. A vendinha mais antiga do bairro onde você cresceu. Os últimos quinze metros quadrados poupados pela especulação imobiliária, a única sobrevivente do quarteirão, o ícone da resistência urbana. Na falta dela, vale a velha barbearia aonde seu pai ia aos sábados, o bazar com papel contact florido nas prateleiras onde sua mãe comprava linha de bordar ou a loja de brinquedos onde você namorava a boneca que andava, o avião de controle remoto. Tirante a barbearia, não saia sem uma sacolinha, não importa com o quê dentro. Será a sua melhor compra em anos.

5. O seu primeiro emprego. Mesmo que o local tenha sido derrubado para dar vez a um shopping center ou estacionamento. Estar de volta ao solo onde você declarou sua independência financeira e aprendeu a beber café lhe fará um bem danado.

6. A casa do seu primeiro amor – mesmo que ele, ou ela, tenha se mudado de lá há décadas. Não precisa tocar a campainha, nem ficar se explicando para o vizinho que varre a calçada com ares de inquisição, querendo saber o que você faz ali plantado. Deixe de lado o medo bobo do seu (ou sua) atual não entender; quem não compreende o primeiro amor alheio não há de ser merecedor de amor algum.

7. A igreja onde seus pais se casaram. Busque na lembrança todas as fotografias que viu desse dia e refaça, como se fosse sua dama de honra ou pajem, o caminho da sua mãe até o altar, onde seu pai a aguardava. Pense que, nesse instante, de alguma forma, você já existia.

8. A barraca de churros da feira de sábado. Sem maiores delongas ou adiamentos, peça logo uns dez. A felicidade tem sabor de açúcar e canela, meu bem.

9. Não deixe também de visitar o passado, de modo geral. Só para tirar dúvidas e se certificar de algumas coisas. Resista à tentação de se mudar, ainda que temporariamente, para lá. Entoe o mantra “Estou só de passagem” e volte, no primeiro ônibus, ao presente. Mas fique atento: se passar do ponto, irá parar no futuro. Que poderia ser o décimo lugar, mas não é; o futuro não passa de uma quimera brincalhona e inalcançável.  Fiquemos nos nove, mesmo.  Já é uma viagem.

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6 comentários sobre “Nove (ou dez) lugares para ir antes de morrer

  1. Linda Silmara.
    Muito bom de ler , fecho os olhos e fico observando voce passeando nos arredores da Rua Natal.
    Saudades do passado onde vivemos feliz é muito bom!!!!
    Recentemente voltei a terra de meu pai TAPIRATIBA (conhece??? ) para matar a saudades.
    E fechando os olhos pude reviver um passeio na cachoeira com uma prima querida que chegando lá gostou tanto daquela natureza toda que se jogou nas aguas sem a preocupação se sabia nadar ou não.
    A-do-ro o que voce escreve. Leio tudo.
    bjs

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  2. Moça, por que ainda não tem livro de crônicas publicado? Sou daquelas pessoas antiquadas que não tem (nem quer ter) tablet… prefiro a praticidade do bom e velho, às vezes novo, livro de papel! Sou seguidora silenciosa do seu blog e fiz uma loooonga viagem ao ler este texto, com um nó na garganta…

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  3. Sil, amei!!!!
    Eu continuo indo comer pastel na feira toda vez que eu vou pra Prudente … e a maternidade, bom, nasci na minha casa, no quarto dos meus pais … a parteira já morreu, mas os filhos e netos dela continuam nossos amigos … o neto da parteira casou com uma das minhas melhores amigas, e sempre se envergonha quando eu digo que vim ao mundo pela mão da sua avó …. 🙂

    Bjs

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  4. Sil, que delícia de texto!!!
    Já fiz isso algumas vezes, os lugares do meu passado. Não sei se porque já estou “bem passada”, muitos só mesmo na lembrança, outros as fotografias ajudam a lembrar como foram, alguns que na memória de criança pareciam imensos, se tornaram tão pequenos… A farmácia de meu pai onde passei parte da infância hoje é uma pastelaria…
    Adorei a ideia! Acho que qualquer hora vou refazer esse passeio. Beijos.

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