Crônica de minuto para quem calça 28

Arte: Frank Douwes

Na loja de calçados para renovar os pisantes dos filhos – pé de criança cresce mais rápido que bambu. Por um instante, quis que não fosse verdade: a caçula tirou as meias e os sapatos para experimentar o modelito cor de laranja e uma generosa porção de areia, clandestinamente vinda do parquinho da escola, se espalhou pelo chão. A aula deve ter sido animada naquela tarde.

Vendedoras ocupadas, fregueses entrando e saindo, não cabia pedir uma vassoura. Tomei rápida decisão e fiz a primeira coisa (muito) feia do dia: discretamente, apanhei uma das meias e “varri” com ela a areia para debaixo de um pufe. É dessas lojas com vários, coloridinhos, para a criançada sentar e se esbaldar em meio ao mar de opções. Aproveitei e descarreguei ali os grãos que restavam nos sapatinhos dela.

Lá ficou a areia criminosa, sob a proteção de courino lilás. Uma das vendedoras, de repente, inventou de arrumar o lugar. Ajeitou sapatos nas prateleiras, recolheu pares separados e… decidiu alinhar os pufes. Rezei, vibrei, torci para que ela não mexesse no pufe “x”. Como explicar aquela areia ali, combinando perfeitamente com o estado do uniforme da minha filha? Mentalização bem sucedida, passei a fazer a guarda do pufe.

Ter filhos pequenos é autorizar a vida a nos meter em saias-justas, outorgar à humanidade o direito de falar mal de nós.

Crianças revelam as mentiras dos adultos com verdades inconvenientes (“Fulano, não fomos ao seu aniversário porque fomos viajar”, ao que elas prontamente rebatem, na frente do Fulano, “Não fomos, não! Ficamos em casa!”). Flagram o nosso mau comportamento gastronômico, se atacamos o Doritos antes do jantar. Lascam comentários desconcertantemente sinceros se ganham um presente e detestam. Criam na sociedade a convicção de que nada ensinamos a elas, quando saímos de um restaurante e percebemos que nossa mesa ficou interditada para faxina. Ou quando agarram dez coxinhas ao final da festinha do amigo, “Para levar pra casa”.

Abreviei a compra dos sapatos novos, torcendo para não ser delatada pelo mais velho. Certifiquei-me que o pufe continuava no lugar e fomos embora. Ninguém viu nada.

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5 comentários sobre “Crônica de minuto para quem calça 28

  1. Ai Sil, por favor, faça a crônica para os pés que calçam 16,17, 18 em 6 meses…. eis meu dilema, minha variação, dona isadora resolveu cresceros pés, de uma vez… e lá se vão os lindos pares que mamãe tanto sonhou!!!

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  2. Este texto me trouxe lembranças. Quando criança, fui com um coleguinha comprar calçados para ele. A mãe dele, professora, tinha acabado de sair do trabalho e se encontraría com a gente na loja, que era perto de casa. Quando ele tirou o tênis, a meia branca estava literalmente preta e até meio dura. Ela, uma senhora muito asseada, quase morreu de vergonha e ele, acho que nem se deu conta…até sairmos da loja e ele levar uma bronca daquelas. Essa das coxinhas já aconteceu com minhas filhas, só que com brigadeiros. rsrs.
    Bom final de semana.

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