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Martinha

bússola

Na terra da garoa, os dois policiais militares montam guarda próximo à saída do metrô República. Paramentados, armados e treinados, estão prontos para salvar a cidade. Mas eu, que estou ao lado deles esperando meu irmão, sei: eles são só gente como a gente.

Sem perder de vista os pivetes no pedaço, os dois engatam o conversê. Ela, rabo-de-cavalo no capricho, unhas feitas. Ele, sorriso aberto e alvo, a ouve contar sobre o casório da sobrinha. “Sabe a Martinha, minha prima?”. Sim, ele sabe. “Resolveu beber, maior vexame”. Ele arregala os olhos e se ajeita para ouvir, quando o homem de calça xadrez os interrompe:

– Como eu chego no Banco do Brasil?

O policial desarregala os olhos e prontamente dá a coordenada:

– Próxima rua. Só seguir reto, senhor.

E o senhor vai. “Tomou todas”, ela continua. Ele ri e balança a cabeça, em clara reprovação. “Resolveu fazer discurso na hora do bolo”. A senhora de cachecol verde desvia dos pombos e se aproxima:

– Qual dessas – pergunta, apontando as travessas da praça – é a 24 de Maio?

A dupla está ali não apenas para promover a ordem e a segurança. São policiais, mas pode chamá-los de Waze Humano. Desta vez, é ela que dá a orientação:

– Próxima rua. Só ir por aqui e virar à direita.

A senhora agradece e some na multidão. Aperta o passo e a bolsa contra o peito ao passar ao lado dos pivetes, recostados na vitrine. Medo.

“Foi lá na frente dos noivos e disse que o amor era lindo, papapá. Mas que, pra ela, nunca foi, papapá. É que o marido dela voltou com a ex” –  e o policial abre um bocão, disso ele não sabia. Então o rapaz com fones de ouvido:

– Onde tem farmácia por aqui?

Dica fornecida, prosa retomada. “E ela nunca se conformou. Acabou chorando, maior fuzuê, minha sobrinha não sabia onde enfiar a cara, era o casamento dela, poxa!”. Vem a jovem com bebê no colo:

– Moço [primeira cidadã a incluir na pergunta algum vocativo], a Praça da Sé está longe?

E um casal de velhinhos, mãos dadas:

– O Sesc novo é pra lá?

Mas será o Benedito? Eles não têm sossego. Mais fácil controlar um arrastão. Por um momento, compadeço-me; ó povo, deixai os dois fofocarem em paz. Na corporação da maior metrópole do país, uma das maiores do planeta, cabem essas miudezas também. E de que é feita a vida, se não das miudezas?

Mas a Martinha, hein. Alguém precisa orientar essa moça.

De que lado estamos?

Arte: Juliana Moraes

Meu marido e eu já moramos em três casas diferentes. Nas três, sempre dormi do lado esquerdo da cama que, por sua vez, ficava próximo à porta. Não me recordo de essa ter sido, em nenhuma das vezes, uma escolha racional. Foi chegar e ir instalando travesseiro e pijama no “meu lado”. Nos hotéis, em casa de parentes, o padrão perto-da-porta se repete. É intuitivo.

(Leitores casados agora estão pensando em que lado da cama dormem e por que.)

Em território doméstico, a exceção foi inaugurada há pouco tempo: como ele se levanta antes, negociou para ficar próximo ao banheiro. Quis dar três passos e estar na ducha, em vez de dez, caso precisasse dar a volta na cama. Qualquer providência que o ajude a ganhar tempo pela manhã, ainda que alguns segundos, é bem-vinda. Ele não sabe, mas sinto falta do meu autoproclamado lugar.

Reparei em alguns quartos (eu reparo) e concluí que estou com a maioria: mulheres escolhem o lado mais próximo da porta, seja ele o lado esquerdo da cama ou não. Para os casais, a definição do lado de dormir é natural, regida por um acordo silencioso e invisível. Dispensa argumentações ou reivindicações. É feita de paz.

Coincidência? Ordem mundial? Ou lógica ancestral da maternidade, mesmo quando ela nem é exercida? Afinal, quem está perto da porta socorre primeiro (em tese; não vale para sonos de pedra) o filho que acorda chorando no meio da noite.

O mundo é organizado, explicado e obcecado pelos lados. O lado escuro da lua. O lado A e o lado B dos velhos discos de vinil. O lado esquerdo do peito, a abrigar, simbolicamente, amores e amigos. O lado direito do cérebro, a casa da criatividade. Política, educação, ativismo social, todos divididos em lados. O lado bom e o lado mau das coisas. O lado ocidental e o lado oriental. A vida do lado de cá, a vida do lado de lá. De se esperar que descanso e sonho, as fundações do mundo, seguissem também a geografia da lateralidade.

Na última configuração do quarto dos meus pais, minha mãe dormia do lado esquerdo, justamente o lado da porta. Há, portanto, herança genética no meu jeito de dormir. Desde que enviuvou, meu pai dorme em uma cama de solteiro. Nunca mais precisou escolher seu lado.

Dia da noiva

Foto: Scott Sherrill-Mix
Foto: Scott Sherrill-Mix

Eu, casada, bodas de marfim, dois filhos próprios e um gentilmente cedido, reivindico o dia da noiva que não tive. Eu, que não vivi a icônica tríade véu-grinalda-igreja; eu, que pulei o protocolo do noivado e fui direto aos finalmentes; eu, que não tive nada dessas coisas, venho requerer o direito inalienável e inexpurgável de incorporar, forever and ever, o dia da noiva aos meus dias de esposa.

Porque toda mulher casada há dois dias, dois meses ou vinte anos precisa de um dia da noiva. Vários, ao longo do mês.

Toda não-casada também.

Toda mãe de filho – pequeno, médio ou grande – precisa de um dia da noiva.

Aliás, toda mãe e toda não-mãe.

E toda avó.

Toda tia.

Toda filha.

Toda prima e toda sobrinha também merecem um dia da noiva.

E todo homem, todo pai e todo filho – pensa que não? A todo espírito santo também cabe um dia da noiva, para por os pezões invisíveis para cima, relaxar e não pensar nos problemas terrenos.

Aos desavisados: não um dia da noiva que preceda o ‘sim’, dia de borboletas no estômago, de pura preparação estética para o (des)conhecido porvir. Não como rito de passagem. Não como dia de paparico extra com banho de cinquenta minutos e demais firulas pré-nupciais.

Não.

Dia da noiva como dia próprio. Dia de dedicação plena ao ego. Dia de nada-mais-importante-a-fazer. Dia de ler três revistas inteiras. Dia de tempo sobrando. Dia de sumir, só aparecer mais tarde e todo mundo entender. Dia de cinema solitário. Dia de comparecer ao auto-altar. Dia de ver o dia pedindo, tentando, insistindo, querendo lhe desposar.

Proclame também o seu dia da noiva. Mesmo que você não seja uma. Aliás, tanto melhor.

Peça-se em casamento. E aceite.

Casal

Apanho o xampu, cabelos curtos precisam d’um pouco só. A primeira ensaboada é “pra tirar o grosso” – quem falava assim? Modo de dizer, em cabelo lavado todo santo dia sujeira nenhuma tasca. Repito a operação para melhores resultados. O rótulo que diz.

Volto o frasco ao seu lugar de costume, no canto, mais à mão. Reparo que o do condicionador, ao lado, com capacidade para os mesmos duzentos e cinquenta mililitros, está quase cheio. O do xampu, quase vazio. Não, não é papo sobre otimismo e pessimismo. É papo de amor, bicho.

Xampu e condicionador são, essencialmente, um casal. Apesar de vendidos separadamente, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim espera o fabricante – para habitar o mesmo lar, box, banheira, pia, frasqueira.

Eu gosto de comprar o casal. Eles não brigam, deixam o mesmo perfume nos meus cabelos. E eu sigo acreditando nos melhores resultados. Por conta da crença, eles nunca findam juntos. O xampu morre antes. O condicionador sempre fica viúvo.

***

Minha mãe se foi antes do meu pai. E ela não estava nem pela metade. Será que eu a usei demais, mais que a meu pai? Soubesse, eu a teria a usado menos, para que durasse mais. Meu pai continua lá. Quase vazio, mas lá.

Pai e mãe, apesar de nascidos e crescidos separadamente, aos olhos dos filhos, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim esperam os filhos – para habitar o mesmo lar, para sempre. O que quase nunca acontece, por separação ou morte. Separação é quando o amor não faz mais espuma. Viuvez é quando, de uma hora pra outra, o banho acaba.

Meu pai nunca quis se casar de novo. Permanecer viúvo, mais que de amor, é um ato de coragem. A saudade, às vezes, arde nos olhos.

***

Coloquei um xampu novo ao lado do velho condicionador; salvei-lhe da solidão. Porém, tal uma filha mimada, estranhei o casal logo de cara. Não são nada parecidos – apesar dos benditos ingredientes ativos semelhantes. Vamos ver como é que os dois, juntos, se saem. Porque não tem nada pior que rebeldia. Nem de filho, nem de cabelo.

Os botões do mundo

Foto: Fernando Oliveira
Foto: Fernando Oliveira

Preguei botão na camisa do marido, pedido feito há uma semana. O menorzinho, sob a gola, eternamente incumbido de mantê-la no lugar, caíra. Sabe-se lá onde.

Desenrolei o carretel, cortei a linha, lambi a ponta. Passei-a pelo furo da agulha, dobrei em duas, dei um nozinho no final, para não escapar. Apanhei o botão-estepe na bainha da camisa, ajeitei-me na cadeira e repassei, num lampejo, a trajetória feminina – minha e de todas as mulheres que me antecederam neste planeta, tão semelhante a um botão.

As tias velhas, quando queriam espezinhar uma semelhante, diziam “Essa aí não sabe nem pregar um botão”, referindo-se à falta de habilidades domésticas e, portanto, serventia, da companheira de espécie. Saber pregar botões, ao lado de saber cozinhar, lavar, passar, cuidar de casa e filhos e não reclamar era, conjugado em pretérito imperfeito e defeituoso, garantia de casamento feliz e duradouro.

A agulha entrou pelo primeiro dos quatro furos do botão e saiu do outro lado do tecido. Então é isso. De acordo com as tias, trago em mim a fagulha ancestral e invisível, mantenedora de um casamento. Dela lanço mão, sem saber, para perpetuar a minha família. Afinal, a caixinha de costura pertence a mim; não ao marido. É isso, então?

O mundo é feito de botões. A começar pelos da roupa que veste o corpo; é com eles que se filosofa o essencial e, às vezes, inconfessável. Eles estão por toda parte: na televisão, no rádio, no telefone, no elevador, na campainha, no banco, no fogão, na calculadora, no carro, no jogo de futebol que se joga com os dedos. Conta a lenda que é apenas um botão o que resguarda o destino da Terra e impede que ela vá pelos ares.

A agulha emergiu pelo segundo furo, trazendo à tona a linha. São eles, os botões, que controlam, regulam, ligam e desligam o mundo. Cuidar dos botões, portanto, é estar no comando.

Repeti a operação três vezes na primeira dupla de furos, para reforçar. Redundância é segurança de informação; é a teoria da comunicação aplicada à alfaiataria.

Passei para a última dupla de furos. O marido poderia pregar o botão sozinho. E o faria, se sozinho vivesse. Preferiu pedir a mim. Ele também teve suas tias velhas.

(Preciso contar às minhas que o mundo mudou e o botão mais famoso, hoje, não é o das camisas e chama-se “curtir”.)

Arrematei o último ponto, o pequeno botão agora está firme como uma rocha. Pendurei a camisa na porta do guarda-roupa dele e olhei pela janela. É primavera.

Quem será que prega os botões da roseira?

De papel

Arte: Etringita
Arte: Etringita

Eu uso agenda de papel.

Faço reuniões pelo Skype e uso agenda de papel.

Compro sapatos pela internet, tenho leitor de código QR no celular e uso agenda de papel.

Baixo músicas, subo arquivos, utilizo vários aplicativos de mensagem instantânea ao mesmo tempo, estou nas redes sociais, tenho blogs, vou a qualquer lugar com GPS e uso agenda de papel.

Sou, com razoável desempenho, quase um ser digital. Na hora de organizar tarefas e compromissos, porém, ainda sou analógica.

O amigo geek me vê chegar para a reunião empunhando a dupla improvável tablet & agenda de papel. Pergunta se vim a cavalo. Sou discriminada. É bullying.

Nem sempre foi assim. Tive um relacionamento sério – casamento, propriamente dito – com um handheld, aquele pequeno computador de mão. Seu nome era Top. Palm Top. Estávamos sempre juntos. Ele sabia tudo da minha vida. Ele entendia tudo que eu escrevia.

Um dia, ele morreu. Inesperadamente.

Fiquei viúva, só no mundo, com contas a pagar cujas datas de vencimento eu não lembrava; só ele sabia. Quedei-me desnorteada, sem saber para quando estava marcada a consulta na ginecologista, a reunião na escola das crianças. Perdi aniversários, quase esqueço de renovar minha carteira de motorista. Levei um tempo para recompor minha rotina, resgatar a autoconfiança. Retomar a vida, enfim.

Naturalmente, passei a ter um pé atrás com a espécie. Não queria me entregar ao primeiro handheld que aparecesse, apesar das promessas de amor, estabilidade e backup eternos. Não, não. Preferi ir à papelaria. Flertei com vários modelos e saí de lá com minha nova companheira – virei gay? – , todinha feita em celulose. Desde então, nada de compromisso sério. Agora sou adepta do ‘ficar’. Papel sim, passado não. Uma vez por ano, adiós muchacha.

Tirante furto, incêndio ou enchente, a agenda de papel jamais me abandonará. Difícil é quando preciso transferir um compromisso para nova data (toca escrever tudo de novo) ou localizar uma informação importante (o que toma bons minutos). A tranquilidade tem seu preço.

Vez por outra, penso em superar o bloqueio afetivo-tecnológico, dar uma segunda chance à ciência para cuidar dos meus afazeres. (Afinal, a lista de endereços ainda é confiada ao chip do celular. Se perdê-la, não serei capaz de ligar para ninguém. Quem decora número de telefone hoje em dia?) Mas gato escaldado tem medo de água fria – já dizia minha avó, que odiava gatos e nunca soube o que é uma agenda.

Estou satisfeita com minha Tilibra amarela, modelo espiral, toda rabiscada. Que não é touchscreen, não requer bateria, não tem sistema operacional e roda com qualquer Bic. Viveremos felizes pelo resto do ano. Até que 31 de dezembro nos separe.

Casamento, parte 2

Arte: Greg W

Ele perde. Eu localizo. Ele espalha. Eu recolho. Ele guarda. Eu descarto. Sou sua vice-versa.

Ele é indoor; eu, outdoor. Eu reclamo; ele salva. Eu publico; ele reserva. Ele planta árvore; eu, livro. Tudo é semente.

Ele prefere pão queimadinho. Eu, branquinho. Ele gosta do chuveiro mais frio, no 3, quase 2. Eu no 4, pelando; às vezes, 5. Ele corre a São Silvestre. Eu evoco o São Benedito. Minha música é alta. A dele, branda. Ele gosta do silêncio; eu careço do ruído. Nosso conflito é o decibel.

Eu abasteço a geladeira com água de coco, só para ele. Ele compra Amandita, só para mim. Ele briga porque como o pacote inteiro de suspiro. Eu sempre digo que não fui eu.

Ele deixa a TV ligada. Eu tenho preguiça de reciclar. Ele não apaga as luzes. Eu uso papel higiênico demais. Cada um com seu crime ambiental.

Eu reponho o sabonete dele, quando acaba. Ele me traz água no quarto, do jeitinho que gosto: 2/3 gelada e 1/3 natural. Eu coloco seu celular para carregar. Ele faz as contas para mim.

Ele pendura a roupa no varal. Vou lá, acertar os pregadores. Ele arruma a mesa para o jantar. Finalizo, colocando o que ele esqueceu. Ele guarda as coisas na geladeira. Surjo em seguida, realocando tudo. Ele lava a louça. Eu passo o rodinho na pia e reorganizo o escorredor. Eu finjo que não fiz nada. Ele finge que não me viu fazer.

Ele lê o que escrevo, bronqueia que não é indoor coisa nenhuma. Eu concordo com ele e me retrato: ele não é indoor coisa nenhuma.

Eu emprestei meus sobrinhos para ele. Ele emprestou os dele para mim. Nunca mais devolvemos.

Ele tem três filhos, dois comigo. Eu tenho dois, três com o dele. Dá tudo no mesmo.

A mãe dele colecionava “Mãos de Ouro”. A minha também. As duas, que não se conheceram, estão lá, tricotando pros anjos, cuidando de nós e inventando novos pontos para essa bendita trama de yin e yang.

Casamento é sorte, resiliência e bom humor. Na vida a dois, os opostos não se atraem; eles fazem sinal para o mesmo táxi. E dividem a viagem.

O resto é marmelada afetiva.

Nota: quer ler o que deu origem a este? Aqui.

Vai ou racha

Ilustração: Adreson Vita Sá

Nada deve ser mais ocultado num casamento que calcanhar rachado.

É preferível revelar o que aconteceu naquela viagem a Porto Seguro quando vocês ainda namoravam, fornecer detalhes da república onde você morou no tempo de faculdade, falar das suas vadiagens adolescentes e até confessar que já beijou uma mulher, a expor na relação um par de calcanhares prejudicados. Será o fim. Restará, apenas, decidir quem fica com a Nespresso.

Antes seu marido descobrir que não foi você a autora do salmão ao molho de gengibre que o conquistou no primeiro jantar na sua casa, que você espia o Facebook do sócio dele todo dia e que aquele vestido não custou cento e cinquenta reais, do que vocês terem uma noite de amor interrompida por um carinho, digamos, mais cortante sob os lençóis. Pior: ter que explicar por que namora sempre de meia soquete.

E a culpa é toda sua. Passa o verão metida em rasteirinhas, anda descalça pelo quintal curtindo sua fase natureba de “conexão com a terra”, capricha no hidratante da região superior e negligencia a inferior. Pensa que só as formigas e seres rastejantes notam seus pés e que semiárido é somente uma região do nordeste. Não, querida. Passível de justa causa, sola de pé desertificada tem peso dois em relação à celulite. Depois não reclame. Nem chore de saudade dos tamancos e dos sapatos Chanel.

Se o problema lhe assolar, mantenha o segredo a sete chaves (e jogue todas fora). Veja o que aconteceu a Aquiles. Em períodos de seca, para poupar o relacionamento e a palmilha dos seus calçados, lance mão de tudo que disserem para você fazer. De simpatias a receitinhas caseiras – sempre escondida, na calada da noite. Invista uma grana preta naquela dermatologista que não atende nenhum convênio. Faça promessa para Santa Rita, a das causas impossíveis. Se nem ela topar, peça emprestado ao marceneiro de sua confiança a lixadeira e a politriz. Recorra ao SUS.

Ou vai, ou racha.

O pum essencial

Foto: Juan Andres Martinez/Flickr.com

Soltar pum perto do marido, no recôndito do lar, não é, exatamente, sinal de intimidade. Não configura crime, talvez contravenção. Indício de que se passou muito tempo depois do “sim”. Red alert?

Nove entre dez flatos não escaparam, foram libertados. Seria o alforriado mais nocivo ao casamento que toalha molhada na cama, tampa do vaso sanitário levantada, calcinha pendurada no box, arrotos de setenta decibéis e outros clichês da vida a dois? O pum fora de contexto pode cheirar tão mal quanto a frase proferida do jeito ou na hora errada: “Temos mesmo que almoçar com seus pais?”.

Fechar, ou não, a porta antes do xixi na suíte do casal, eis a questão. Os manuais das boas maneiras entre maridos e esposas pregam que sim. E se o aperto surgir, incondescendente, e estiver passando na TV do quarto uma entrevista com a Adélia Prado? E se for a final do Brasileirão? Quando se compartilha a esponja do banho, fica difícil estabelecer as fronteiras entre o público e o particular. Aonde vai morar a liberdade quando os CEPs se unem? Tolice tentar manter intacta a aura do translúcido véu de noiva.

Que casamentos são um conglomerado de concessões e negociações, até os filhos percebem. Obedecer aos tais manuais, porém, é simplesmente fazer coro no lugar-comum da vida a dois. Há que se reinventar a intimidade pós-casório. Não há segredo que resista ao fio dental, ao gargarejo, ao aparo das unhas dos pés. É preciso criar novas configurações de privacidade, como se faz nas redes sociais. Saber injetar (com o perdão do trocadilho) um gás na relação e manter as coisas acesas, sem depender das portas fechadas e das charadas amorosas que, com os anos, vão ficando tão fáceis de adivinhar.

O cofre de um casamento é outro.

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O pesadelo da ambulância

r8r, óleo sobre canvas, 16x20/Flickr.com

Sei que é hora de renovar a lingerie não quando o marido dá indireta, mas se imagino a sequência de cenas: bato o carro e preciso ser levada ao hospital; na ambulância do SAMU, os paramédicos fazem os primeiros socorros; rasgam tudo e, enquanto conferem meu coração, flagram meu sutiã, um dia alvíssimo, convertido num estranho off-white; as alças, semirretorcidas, a denunciar a terceira idade da peça; em seguida, apalpam meu abdome em busca de algum sinal de hemorragia; assombrados, descobrem a imensidão de microbolinhas em torno do esgarçado elástico da calcinha, cujo lacinho frontal há tempos foi para as cucuias, e em seu lugar há apenas a marca do ponto feito à máquina. Fosse real, o melhor a fazer seria fingir-me de inconsciente.

Não é desprezo pelas roupas íntimas. É uma justificável resistência a investir nessa categoria de vestuário – apesar de eu reconhecer sua beleza e, digamos, importância. Ao contrário do que parece, tenho disposição para adquirir novas roupas de dormir e sonhar e amar. Porém, na hora do vamos ver, entre dispender um salário mínimo em peças de baixo (as boas custam uma fortuna) e a mesma quantia nas de cima, eu vacilo. O íntimo que me perdoe, mas o público é fundamental. As de baixo ficarão, como o próprio nome diz, por baixo. Ocultas. Nem eu as vejo direito, quando estou vestida. E o que os olhos não veem, o coração ignora. Volto para casa com vestido novo. Sapatos e bolsa também. Sempre acho que fiz um bom negócio. O arrependimento vem quando lembro da ambulância do SAMU. Tarde demais. Agora, só mês que vem.

Talvez a síndrome não atinja apenas as minhas roupas íntimas. Outras seções do meu guarda-roupa também costumam ser afetadas, e não é de hoje. Nos tempos de faculdade, por exemplo, certa madrugada dei carona à amiga, depois de uma noite inteira estudando em casa. A ida se deu sem novidades. A volta, nem tanto. A garoa caía fina. E havia uma curva no meio do caminho, no meio do caminho havia uma curva. Resultado: engavetei no Minhocão. Fomos todos – eu, minha irmã (que estava no banco do passageiro) e demais motoristas envolvidos – à delegacia providenciar o boletim de ocorrência. E eu, com o pior pijama do meu prejudicado acervo. Como nesses lugares há de tudo, passei despercebida.

Um lento assassinato do casamento, três ou quatro amigas insistem em profetizar quando o assunto vem à tona. Que mentira, que lorota boa! O que destrói um relacionamento não é lingerie velha. São outras velharias, escondidas nas entranhas do dia-a-dia. Ideias, ilusões e desejos frouxos, um dia tão firmes como os elásticos da charmosa meia sete-oitavos. Um olhar desbotado para a paisagem do quarto. Sorrisos amarelados no café-da-manhã. O ‘eu te amo’ surrado e sem brilho, dito às pressas para encerrar a ligação. É o amor sem laço, nem fita, nem bordado. E nenhum atendimento de urgência resolve. São coisas mais danosas que qualquer desfile de calcinhas e sutiãs acostumados a máquina de lavar, alvejante e varal.

Melhor eu redobrar a atenção no trânsito.

Casamento

Ilustração: Silvia Falqueto/Flickr.com

Marido deixa microrrecados românticos ao lado do chuveiro, de vez em quando. Ele toma banho antes de mim. Compõe suas pequenas missivas usando aquelas letrinhas coloridas de EVA que grudam nos azulejos, deixadas ali pelas crianças em dia de ducha coletiva. Ele envia, eu recebo depois. O banheiro é a nossa caixa postal.

São recados curtos, de carinho imediato, mais breves que um tweet. Já não há tantas letrinhas disponíveis – o alfabeto de brinquedo, de tão antigo, foi se perdendo com o tempo. Quando eu os leio, ele já está longe, enfiado em reuniões e outras chatices corporativas. Gosto de imaginar que ele me imagina sorrindo nessa hora. Outro dia, um minimalista ‘super woman’ me aguardava no box ainda embaçado pelo vapor de seu banho, anunciando o bom dia. Percebi que o W era, na verdade, um M de ponta-cabeça. Aquele foi fácil de responder: tirei duas letras, W e O. Ficamos quites. Em outra ocasião, faltava um U à minha microfrase. Virei-me como pude, deixando coladinhos um L e um I. Criatividade e improviso, mais que tudo, deveriam constar como obrigações na certidão de casamento.

Nem sempre, porém, dá para ser lacônica. Eu, que estou mais para palavrosa, se pudesse, ocuparia o banheiro inteiro com meus bilhetes. Escreveria cartas com frente, verso e avesso. Que continuariam nas paredes do quarto, alcançariam o corredor, escorreriam pelas escadas e ganhariam o quintal. A super woman aqui é aprendiz na arte da concisão. E inveja no super man tal poder.

Há também os recadinhos escritos com lápis de olho no espelho, sobre a pia. Devidamente codificados, para que fiquem entre nós. Às vezes, apenas um ‘boa viagem’, ou uma força para aquele dia que, sabe-se, vai ser longo. Às vezes, em inglês, para ninguém em casa decifrar. A empregada não pode ser bilíngue.

Nenhum dos dois, no entanto, manda recado ao outro pelas letrinhas nos dias em que a casa cai. Nem mandando lamber sabão, tampouco pedindo desculpas. Não se lava roupa suja no chuveiro. Nossa caixa postal é protegida contra insultos, tem Blindex. Ali, só o lado A do casamento. Ali, só correio elegante.

Nota: quer ver o que veio depois deste? Aqui.

Buscadores de lembranças

Ilustração: Ravenelle/Flickr.com

Atire a primeira pedra quem nunca procurou ex na internet. Seja solteira, casada ou tico-tico-no-fubá. Feliz no casamento, nem tanto ou nem um pouco. Por saudade, curiosidade ou falta do que fazer. De qualquer idade. O impulso é democrático.

Vamos combinar: isso não constitui traição. Não representa, necessariamente, recaída ou interesse num revival. Nem é prova incontestável de crise conjugal, existencial, ou as duas juntas. Psicólogos de plantão que me perdoem, mas o negócio pode – vejam bem, pode – ser mais simples: trata-se de querer saber por onde anda quem um dia andou com você. Descobrir se engordou. Se está grisalho. Saber onde está trabalhando, se casou, teve filhos. Se terminou aquele mestrado em Direito Penal ou abriu um boteco. Se é feliz, se virou monge, se está em expedição na Antártida ou se alugou um apartamento no seu bairro. Ou se sumiu do mapa e há dois anos não telefona nem para a mãe no Natal. Sem motivações rocambolescas e, uma vez saciada a curiosidade, retomar os afazeres sem maiores inquietações ou aflições.

Para dar conta da atualização afetiva, com ou sem segundas intenções, quem precisa de vidente se existem os buscadores, as redes sociais? Google, 123People, Orkut, Linked in, Twitter, Facebook, todos podem dar boas pistas em poucos segundos, uma proeza para qualquer esotérico profissional. Vale quase tudo na hora de sondar um paradeiro. Que mal há? É preciso, porém, ter boa memória para fornecer primeiro nome, nome do meio e sobrenome, cuidado com os homônimos e paciência para varrer os resultados sugeridos – melhor incluir as aspas na pesquisa. Quem é tradicional recorre ao método antigo: liga para a amiga do primo da cunhada que trabalhava com o fulano, estabelecendo uma espécie de corrente investigativa. O sigilo, nesse caso, passa ao largo do absoluto. Não há política de privacidade e o ex vai ficar sabendo, o que pode ser boa ou má notícia, dependendo do passado – e presente – em questão.

Às vezes, nem se trata de um ex de verdade, como ex-marido, ex-noivo, ex-namorado. Somente um ex-quase. Ou sequer ter chegado a isso. O amor platônico da faculdade. O dono da academia de ginástica onde você queimou mais suspiros que calorias. O moço cheio de esperança que lhe entregou um cartão com nome e telefone numa livraria e você, boba, jogou fora. As histórias de amor que foram sem nunca terem sido. Por culpa do Cupido, que estava de folga no dia. Ninguém é de ferro. Para dar uma forcinha nos assuntos do coração na era da informação, Santo Antonio deve ter sido convidado a fazer parte do Conselho Executivo do Google. Será que ele topou?

Fazer essa busca na internet também pode ser tudinho que você está pensando. É parte de um plano de ataque, minuciosamente elaborado sabe-se lá por quais razões – afinal, ninguém tem nada com isso, exceto quem vai para escanteio logo, logo. Talvez, uma sessão nostalgia, com direito a imaginar o que teria acontecido, não fosse o adeus. O adeus de comum acordo. O adeus sem acordo. O adeus sem adeus. Para tal, as vantagens da internet são imbatíveis. Auto-serviço, razoável garantia de anonimato, flexibilidade de horário. E ainda é de graça. Pode-se apagar o histórico da fuçação no browser. Afinal, será difícil explicar depois que focinho de porco não é tomada. Na iminência do flagrante, alternar para a página previamente aberta de um jornal online e disfarçar – “Quem será que ganha no segundo turno, hein?” – é tão rápido quanto o piscar de um par de olhos ressabiados.

A internet, no entanto, não emite opinião. Não resolve angústias. Não faz terapia. Nem aconselha. No caso de se querer saber se o ex ainda sente alguma coisa por você, ou se vocês têm alguma chance, ela não serve. Aí, só a vidente. Porque nem o santo casamenteiro vai querer se meter nisso.

Som na caixa

Foto: Laura Bell/Flickr.com

Não é sexo. Nem rotina. Nem doença ou falta de dinheiro. Tampouco filho. O que põe um casamento à prova é andar junto no mesmo carro. Seja por quatro dias, quando o de um está na revisão; por anos, se as vacas são magras; na viagem de final de semana ou simplesmente no caminho para o almoço de domingo. Quando o casal coabita o mesmo veículo, a despeito da vasta literatura sobre a batalha dos sexos antes e depois de Karl Benz ter inventado o automóvel, o que está em jogo não é quem dirige melhor, quem tem mais ou menos pontos na carteira, quem usa a seta, qual dos dois é capaz de chegar ao destino sem GPS ou frentista de posto. É quem controla o som.

O condutor não deve se distrair com o dial, nem com a sequência das faixas do MP3. Caberá ao passageiro assumir as rédeas e definir a programação musical que acompanhará o casal. Nesse cenário, nada será pacífico. Quem finca sua bandeira no aparelho não deseja dividir o poder, quer reinar sozinho. Conflito à vista. O tempo todo, ambos discutirão a configuração (volume, graves e agudos) e a trilha sonora propriamente dita. Nenhuma escolha pessoal é bem-vinda. Toda individualidade será castigada. O coletivo há de vencer. Resultado: os dois bufarão, cada um de um lado, e se perguntarão onde é que foram amarrar suas éguas. Assim como o casal tem a música que embalou o início da sua história de amor, logo terá também a que representa seu fim.

O mesmo ambiente será palco de outra disputa: a temperatura do ar-condicionado. Na sua ausência, outro embate: um quer janelas fechadas. Outro as prefere abertas. Sem falar na co-direção e na síndrome de instrutor de auto-escola, comportamento incontrolável daquele que ocupar o banco do carona.

Carro é o quarto do casal sobre rodas. É quando a intimidade se desnuda. As manias, antes apenas contornos, ganham preenchimento. Sentimentos inéditos vêm à baila. No carro é onde os bois recebem nomes, e os is, seus respectivos pingos. Sutiãs são queimados no acendedor de cigarros e desabafos contra a TPM eclodem entre um semáforo e outro.

Nada é páreo, porém, para o controle do som. Que não deveria ser chamado de opcional. Muito menos de acessório.

O inferno é aqui

Ilustração: Fractal Ken/Flickr.com

Só percebi que era briga quando ele, já alguns decibéis acima da média para o local, lascou: Vai pro inferno. Antes, ela havia dito que o cartaz escrito ‘batata baroa’ estava errado, aquilo era mandioquinha. Ele afirmou que era tudo igual. Ela rebateu, tudo igual uma ova. Ele falou que tanto fazia, qualquer uma que ela cozinhasse ficaria ruim. Ela culpou a sogra pela ignorância dele. Foi quando o inferno entrou na roda. Cogitei, por um instante, meter a colher e informar que não só é tudo a mesma coisa, como as duas também atendem por batata salsa. Mas não era tubérculo nenhum o culpado pelo desentendimento. Aquilo ali era antigo. E eu, que não sou boba, fiquei de bico calado. Como a protagonista do bate-boca não estava na minha lista, passei para as abóboras. Não sem antes imaginar como a história continuaria.

Supondo que ela tivesse prestado atenção ao insulto – e sei que não o fez, pois seguiu conduzindo o carrinho pelo supermercado como se nada tivesse ouvido e havido – o que se faz numa hora dessas? Devolve na mesma moeda, ou seja, com um insulto maior? Esbofeteia, na frente do repositor, o companheiro? Faz, ali mesmo, purê dele? Ou picadinho? Histórias assim não costumam ter final feliz. Embora, em tese, todas tenham tido um bom começo.

Difícil é saber o que fazer depois de ter, na vida a dois, ultrapassado a última fronteira antes do ódio. Ou pior, da indiferença. Complicado é compreender como se chega a esse ponto. Uma simples conversa sobre nome de comida, um regionalismo ingênuo, ser capaz de acionar tantos botões num relacionamento. O das mágoas mal digeridas, o das tristezas recolhidas e cozidas, o das paciências assadas e esturricadas, revelando uma frágil e irremediavelmente condenada engrenagem.

Ele e ela haviam alcançado o estágio onde qualquer hora é hora, qualquer lugar é lugar para demonstrar o desafeto. Como se desejassem que as pessoas à volta ficassem cientes do que estava acontecendo e intercedessem, tomassem partido, fizessem alguma coisa, pelo amor de Deus. (Parecido com aquelas comédias românticas onde o mocinho, no restaurante, pede alto e em bom som perdão à amada, seguido de mil explicações. E, de repente, todos os clientes ao redor entoam em coro “Perdoa!”, aplaudindo, por fim, o beijo que sela a remissão.) No fundo, o casal que briga em público não ignora, nem teme, a plateia. Ao contrário, ela lhe é fundamental: o casal tem necessidade que alguém assista à sua insatisfação. Quer contar com o apoio, de qualquer natureza, do espectador. Faz questão de escancarar, doa a quem doer, o podre do outro. Precisa mostrar, cada um à sua maneira, quem tem razão. Nem que para isso lancem mão de uma batata – baroa, salsa ou coisa que o valha. O que vem à superfície numa discussão pública é, infalivelmente, ruminamento de anos.

Ela já estava no inferno, assim como ele. E nenhum dos dois sabia disso. Ainda.

Lista de casamento

Ilustração: Fernando Weno/Flickr.com

O Brasil já teve sete moedas desde que nasci. E, depois de grande, eu me adaptei bem a pelo menos cinco delas. Foi fácil me familiarizar com a TV a cabo e seu jeito novo de assistir televisão. A transição do bip para o telefone celular foi tranquila (embora eu andasse com os dois, o sinal não era lá essas coisas). Aprendi a usar o email de um dia para o outro. Aderi sem problemas à ideia de separar o lixo na minha casa. E não vejo nada demais quando um amigo me conta como conheceu o namorado. Mas tem uma coisa que eu ainda não me acostumei: lista de casamento.

Lista de casamento foi inventada para fazer a gente se esquecer do significado de presente. Todo mundo sabe como funciona: os noivos vão a uma, duas, três lojas, escolhem uma porção de presentes que gostariam de ganhar, o vendedor põe tudo numa lista enorme, os convidados vão até essas lojas, escolhem um item, pagam e mandam entregar. Ou fazem tudo isso de casa mesmo. E pronto. Tarefa cumprida. No máximo, vai um bilhetinho junto, com uma frase óbvia sobre amor, casamento, votos de felicidade e outras patacoadas, escolhida dentre meia dúzia de opções que a loja já preparou para clientes sem muita criatividade ou paciência.

A gente já não precisa mais quebrar a cabeça pensando num presente especial para os noivos. Ninguém quer saber se eles são clássicos ou modernos; se vão morar num apartamento minúsculo ou numa casa espaçosa; se gostam de azul ou se preferem verde. Alguém resolveu facilitar tudo. As palavras de ordem: simplificar, não ter trabalho, ganhar tempo. As lojas estão preparadas para trocar os presentes repetidos, ou aqueles que não agradaram muito. O jogo de panelas, mais o de copos e a dúzia de bandejas viram um único presente. Quem deu esse home theater para vocês? Na verdade, o tio, a tia, o amigo, a prima, o irmão, a cunhada, o avô. A saia justa na primeira visita: Gostaram do vaso de murano? Aquele, que virou forninho elétrico.

Vá lá. Ninguém anda com tempo sobrando para longas peregrinações em busca do presente perfeito. Mas a facilitação exagerada arranca o charme dos rituais. Amputa o sentido de presentear. Manda para as cucuias o carinho, o afeto e o desejo original de ver o outro feliz.

Hora de reinventar o presente de casamento. E, por que não, o próprio casamento. O que já é outra história. Bem mais comprida.

A Tristeza é feia e quer casar

Foto: Pink Sherbet

Está no dicionário:

Tristeza: [Do lat. tristitia.] S.f. 1. Qualidade ou estado de triste. 2. Falta de alegria. 3. Pena, desalento, consternação. 4. Aspecto revelador de mágoa ou aflição.

A tristeza, isso a gente sabe, também é quando o olhar desbota, a voz perde a força, o andar fica pesado e impossível. É quando a cabeça não tem fome de nada, saciada no silêncio. Ou ainda, quando o rio que corre lá dentro da alma transborda e é preciso escoar de algum jeito. E o jeito são as lágrimas.

A tristeza é, na verdade, uma moça. Não muito bonita. Um pouco feia. Tem cabelos longuíssimos e sem vida, que cresceram sem que ela percebesse. Há anos estão penteados do mesmo jeito. Sua roupa é bem feita, mas não tem cor. As mãos são mornas, de poucos movimentos e sempre vagarosos. Finos e magros, seus pés cabem em qualquer sapato de qualquer tamanho. Sua boca é lilás, como a boca dos mortos. Fala pouco, e quando o faz as palavras já saem vaporizadas, flutuando no ar antes de cairem ao chão, dissolvidas em seus significados.

Apesar disso, a Tristeza mora em uma casa acolhedora, com perfume de baunilha e cortinas rendadas da cor do âmbar. Há sempre música no ar. Na entrada, um daqueles tapetinhos escrito “bem-vindo”, próximo à porta com uma guirlanda em formato de coração. Ela sabe que receber bem é importante, assim as pessoas ficam.

A Tristeza tem muitos amigos. Mas ela vive triste, porque eles só a visitam quando as coisas não vão bem com eles, e partem assim que se sentem melhor. O que não faz dela uma moça solitária. A Tristeza tem sempre companhia.

A Tristeza, moça meio sem graça, tem um desejo. A Tristeza quer casar. Quer encontrar um amor, ter muitos filhos. No fundo, não deseja que eles sejam parecidos com ela. Porque a Tristeza precisa da alegria à sua volta, assim o mundo lhe parece melhor. Talvez seja como diz aquela canção: “A tristeza tem sempre uma esperança, de um dia não ser mais triste, não”.

Tristeza e eu nos encontramos de vez em quando. A última foi quando Léo se foi. Fui tomar chá de capim-cidreira em sua casa, ela me pegou no colo enquanto eu chorava. Léo, em toda sua doçura, por certo já havia se encontrado com ela naqueles dias, sabendo que não descansaria mais sob a sua jabuticabeira. Os gatos sabem a sua hora.

Mas a Tristeza quer casar. Quer encontrar alguém que desalinhe seus cabelos e a faça falar pelos cotovelos. Que a leve para morar numa casa nova. Ela se mudará, e não deixará o novo endereço para ninguém. Apenas um recado na porta da velha casa, no lugar da guirlanda de coração: “A Tristeza não mora mais aqui”.