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A tônica do Tonico

agua tonica

Em nove, de dez vezes que meu pai vai a um restaurante, ele pede água tônica. Limão espremido e gelo completam o ritual. Embora, ultimamente, venha deixando o gelo; reclama que tem lhe feito mal à garganta. O refrigerante, ao lado do molho de pimenta, é dos seus hábitos mais antigos. Seu nome bem que podia ser Tonico da Tônica.

A lata diz que é feita de quinino. Que diabos é quinino, menino?

With a little help from my friend Google, aprendo: é uma substância que se tira da casca da árvore cinchona, que nunca vi. Um pó branco, tecnicamente batizado de hidrocloreto de quinina. Como esse título não faria o menor sucesso, pelo contrário, resolveram chamá-la simplesmente de água tônica de quinino. Mais bonito e poético. Perguntar qual a sílaba tônica de tônica é mais ou menos como perguntar qual é o doce mais doce que o doce de batata doce.

Gramática e trocadilho à parte, a água tônica deve funcionar como uma espécie de tônico da longevidade. Seu Tonico acaba de completar oitenta e sete anos, nos trinques. Um dos médicos que o acompanha brinca que ele está tão bem, que podemos vendê-lo. Ele acha graça.

O garçom traz o pedido à mesa, meu pai faz uma piadinha qualquer. O garçom entra na onda (ou não), e todos riem (ou não). Ele quebra o lacre, plec, e a vira no copo. Do encontro do amargo da bebida com o azedo do limão dá-se a química da felicidade do meu pai, traduzida no primeiro gole e o quase onomatopeico “Aaah” de prazer.

Falando em química, na tabela periódica, oitenta e sete é o número atômico do Frâncio. O sobrenome do meu pai é Franco. Uma coincidência dessa, bicho.

O slogan impresso na latinha afirma: “o amargo transforma”. O quê em quê, nunca soube ao certo. Mas desconfio. Olho meu pai partindo o quiabo ao meio e juntando-o, metodicamente, ao arroz e feijão. O rosto enrugado de mundo, os cabelos branquinhos, a indefectível boina. Meu pai soube transformar sua vida. Viúvo aos cinquenta e cinco, era do tipo que não se servia sozinho à mesa – tarefa exclusiva de minha mãe. Quando ela se foi, inventou sua autonomia e entendeu-se com a solidão. Amargura? Se sentiu, metamorfoseou-a em poesias e músicas dedicadas à Dona Angelina. Apropriou-se da casa e suas domesticidades, aprendeu a cozinhar e a preparar suas gororobas. (Algumas tornaram-se lendárias: sua vitamina matinal, por exemplo, costumava levar leite, óleo, ovo, banana, mandioquinha, beterraba, vinho, Sonho de Valsa e o que mais estivesse dando sopa na pia, tudo no liquidificador. Praticamente um suco atômico.)

Com a poção acre-doce no copo, meu pai acessa a memória que lhe resta e se põe, com genuíno entusiasmo, a contar causos. Os mesmos de sempre, de novo e de novo. O pisão que levou da vaca Beleza, quando era criança. O orgulho dos dons oratórios e literários do meu avô. O primeiro emprego quando chegou a São Paulo, na fábrica de sapatos, aos dezesseis anos. O dia em que conheceu minha mãe, em pleno Finados. Sua saudade é líquida. Eu, que antes me chateava, aprendi a ouvi-los como se fosse a primeira vez.

Bendito quinino. Transformou até a mim.

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