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Vergonha e orgulho

Cerimônia de formatura do ginásio, a 8ª A se despediria da escola. Paróquia São Pedro Apóstolo, na Mooca, 1981. Avisei meus pais, “Vai ser tal dia, tal hora”. Eu sabia que dificilmente eles compareceriam.

Por muito tempo, meus pais tiveram uma venda. Eu tinha seis anos quando eles compraram o ponto. Com a caçula na escola, ficaria mais fácil tocar o negócio. E meus avós tomariam conta dos três netos.

A rotina no pequeno armazém de secos e molhados era puxada. Segunda a segunda, sem direito a férias. O expediente começava antes de o sol raiar, quando inventaram de vender pão e leite fresco, e se estendia até a noite, com a homarada entornando seus cinzanos no balcão. Treze horas por dia pesando arroz e feijão para as donas de casa do bairro, fatiando queijo e presunto, moendo um quarto de café, contando dois cruzeiros de bala Juquinha para freguês-mirim que chegava cheio de moedinhas.

No dia da cerimônia, arrumei-me e fui. Espalhados nos compridos bancos de madeira, os fiéis pais, mães e parentes dos meus colegas de classe. Eu já estava razoavelmente acostumada a não ter meus pais nos eventos escolares, por causa dos horários da venda. Nas reuniões com os professores, meus irmãos faziam as vezes de responsáveis. Eles, que também eram tão novos.

Foi quando, perto do fim da cerimônia, avistei Seu Tonico e Dona Angelina atrás de um dos pilares, espichando o olhar para me localizar em meio aos colegas organizados em frente ao altar, para as últimas palavras do padre. Se conseguiram me ver, não sei. Mas eu os vi bem.

Em nada se pareciam com os demais presentes, tão arrumados. As mães com vestidos bonitos, penteados, unhas feitas, brincos, colares. Os pais de camisa passada, sapatos engraxados.

Sem tempo de passar em casa antes, os dois foram do jeito que estavam: com as roupas do batente e vestidos do cansaço de quem estava em pé desde as seis da matina, pesando cebolas e servindo pinga.

Ainda que eu tenha ficado contente ao vê-los – fecharam a venda mais cedo! –, senti-me encolher feito a Alice, depois de beber do vidro sobre a mesa, no país das maravilhas. Desejei sumir, me enfiar no confessionário. Precisava admitir a quem ali dentro estivesse (ou a ninguém, melhor ainda) que senti, sim, um fio de vergonha.

De quantos quilos de batata era feito meu vestido branco? Quantas doses de conhaque pagaram meus sapatos novos? Quanto pesariam, na velha balança Filizola vermelha, os livros e cadernos que me levaram até ali?

Quando a cerimônia terminou, fui ao encontro deles. Meu coração fatiado feito presunto. Ao abraçá-los, pude sentir o indelével cheiro do pó de café, invadindo a casa de Deus. Agora, todos os fiados do mundo cabiam no sorriso deles quando mostrei o canudo vermelho.

Então a vergonha, talvez por obra dos santos de plantão, transmutou-se em orgulho. “Pai e mãe, ouro de mina”, alguém já disse. E contar esta história hoje quita, de certa forma, a antiga pendência com o confessionário.

Formatura Sil Gallicho 8a A 1981 com Rosemeire de Lucca e Simone Cristina Augusto Rosa
eu (direita), arquivo pessoal

Vergonha

Tenho vergonha de andar de trenzinho.

Veja bem: não de trem. De trenzinho. Aquele que toda cidade do interior que se preza tem. O veículo customizado que leva a criançada, pais e/ou responsáveis para passear, dar um rolê.

Para começo de conversa, não é trem. É ônibus. Adaptado e decorado com florzinhas, palhacinhos, bichinhos. Uns têm personagens vivos, Mônicas e Pernalongas para acompanhar e animar a turma. Dão a volta na cidade beeem devagar. Fazem até piuí.

(Eu sei: imitam trem porque trens são do imaginário infantil – e adulto – desde sempre, muito mais que ônibus. Que criança ganha de Natal ônibus que vem com ponto de parada, rodoviária? Foi para um trem, não para um ônibus, que Villa-Lobos compôs uma das músicas mais lindas deste mundo. Mineiro diz “trem” para representar qualquer coisa; vê lá se ele diz “ônibus” a torto e direito. Adoniran eternizou o quê, ônibus ou trem? Trem é fantasia pura, meu chapa.)

Apesar da vergonha, andei em vários. Pedido das crianças, fazer o quê. Sempre que possível delego a missão ao pai, a uma tia carinhosa, primos, invento compromisso. Na impossibilidade, vou. Desejando ser invisível durante todo o itinerário, mas vou.

Quando o trenzinho da alegria passa, as pessoas na rua sorriem, acenam para os passageiros, veem um encanto na coisa que eu simplesmente não vislumbro. Nunca retribuo os acenos dos estranhos, tampouco os sorrisos. Sou a rabugenta do trenzinho. Não estou ali, compreende?

A alegria dos meus filhos quando passeiam em um não é suficiente para que eu supere a vergonha que, tenho ciência, é boba. Sendo assim, além da vergonha intrínseca, há também a vergonha de sentir vergonha – cuja nascente eu desconheço. Sequer me lembro dos trenzinhos da minha infância.

Deve ser alguma memória descarrilada, talvez. Só fazendo terapia de trilhos passados.

Com a boca no mundo

Ilustração: Stefano Meneghetti/Flickr.com

Eu tenho, e uso, batom da Elke. A Maravilha.

Quando soube, duas décadas atrás, que um dos ícones midiáticos mais divertidos – e coloridos – dos anos 70 havia lançado uma linha de maquiagem, fui na onda do pensamento coletivo ao conjecturar como seria o catálogo. Bobagem. Os batons e lápis e sombras assinados pela tresloucada russo-alemã não transformavam ninguém em clones cabeludos, bocudos e extravagantes. Ao contrário. Eu que caíra na arapuca do imaginário coletivo.

Resisti por algum tempo. Um dia, comprei um batom na farmácia. “Só para experimentar”. Surpresa: muito bom. Há algum tempo, tiraram o ‘maravilha’ do nome Elke. Tolice. Ninguém diz uma coisa sem a outra. A força do personagem. Sujeito e predicado. Eternamente conjugados.

No meu toucador – acho linda essa palavra, ‘toucador’ – o batom da loira passou a ser vizinho de outro, um Dior. E depois daquele, comprado na surdina, vieram outros. Toucador tem que ser que nem município: várias classes sociais convivendo em paz.

A primeira vez que a colega de trabalho pediu o batom, no banheiro, depois do almoço, hesitei. Empresto ou não? Ela vai ver a marca. Explico? Respirei fundo, saquei-o da frasqueira. “Aqui está”. E fui logo dando a satisfação: “É da Elke Maravilha, mas é tão bom!”. Eu já devia saber: em boca fechada não entra mosquito.

Desenxabida, assisti, de canto de olho, a colega passar o batom. Analisei, secretamente, sua expressão diante do espelho. Encerrada a passação, ela apertou os lábios daquele jeito, devolveu-o e, laconicamente, disse: “Obrigada!”. Murchei. Só obrigada? Nenhum comentário? Um feedback? Eu precisava, com urgência, de uma validação. Por que foi que meti o ‘mas’ naquela frase, não sei até hoje. Quer dizer, sei.

A autoconfissão que não fiz: eu não desejava associar o meu makeup ao personagem Elke Maravilha, popular por definição. Senti vergonha, pronto. Muito embora Elke se localize numa sutil e complexa fronteira entre o popular e o refinado. Eu só não sabia disso. Soubesse, o episódio do banheiro não ecoaria tantos anos depois. Faltava-me, no entanto, um bocadinho de informação. E maturidade, aquela que apenas o tempo está autorizado a entregar.

Elke Maravilha é cool. Patrimônio da humanidade, ainda que somente da brasileira. E ela nem daqui é. Tirando Pedro de Lara, foi a mais emblemática jurada de Sílvio Santos. Do Velho Guerreiro, também. Eu, criança, não a decifrava direito. Nem precisava. Ela era, para mim, como a Branca de Neve ou a Bela Adormecida dos livros. Só que tridimensional. O que a tornava mais intrigante e interessante. Que Lady Gaga, que nada.

Lembrei da história porque hoje, ao me arrumar, fiquei entre o Dior e a Elke. Adivinha com quem saí sorrindo por aí.

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NOTA: Várias pessoas não estão conseguindo postar comentários, e eu não tenho ideia do que seja. Vou procurar ajuda no WordPress. Enquanto isso, caso alguém queira falar comigo, é só enviar um e-mail ou deixar recado no Facebook. Combinado? Beijos, Silmara

Crônica de minuto #5

Nina encheu de coxinhas suas pequenas mãos, numa festa de aniversário, na hora de ir embora. Perguntei por que fazia aquilo, e ela respondeu: “Porque em casa não tem, mãe”. Precaução, para as crianças, tem outro significado. Vergonha, pelo jeito, também.

Carta para meus pés

 

Neuro74/Flickr.com

Caros

Vamos ser sinceros: lindinhos vocês não são.

Pés são como irmãos gêmeos. Brotaram juntos, nasceram no mesmo dia e hora. Carregam o estigma da alma idêntica, como aqueles bebês espelhados nos carrinhos duplos: mesmas meias, mesmos sapatos. Como é que vocês poderiam ter desenvolvido suas próprias identidades desse jeito? Logo vocês, que dão nome a tanta coisa. Pé de vento. Pé de moleque. Pé de chinelo. Pé direito. Pé de galinha. Pé de pato. Pé de meia. Toda fruta tem seu pé. Toda serra também. Tem o pé na estrada. E tem o pé na cova.

Por muito tempo, depois de adulta, já, eu tive vergonha de vocês. Hoje me envergonho da vergonha. Aprendi a gostar de vocês. Isso não acontece entre as pessoas? Pois então. Às vezes, cismamos com fulano, o ignoramos durante anos, décadas, uma vida inteira. Para, num belo dia, constatar que não era bem assim.

Vocês são iguais aos pés de minha mãe. Arredondados, dedos curtos. Exceto pelo fato de que os dedos dos pés de Dona Angelina, vistos de baixo, pareciam balas de coco. Os seus dedos não se parecem com bala nenhuma.

Seus dedões sempre foram como plantas buscando um sol imaginário. Um vislumbra eternamente a minha esquerda. O outro, minha direita. Dedões paralelos, que jamais se encontrarão no infinito.

A primeira vez que tirei os sapatos na frente de um namorado foi horrível. Na sala, descalcei-me na velocidade da luz, e enfiei vocês dois embaixo da maior almofada que havia no sofá. E lá vocês ficaram, exilados.

Um dia, uma colega de trabalho, que tinha os pés mais feios do mundo, apareceu de sandálias. Aquilo não eram pés, eram mãos que saíam dos tornozelos. Os dedos, longuíssimos e finos, pareciam tentáculos. Fui correndo para o banheiro, tirei as botas, arranquei as meias. Se pés tivessem olhos, os seus ficariam ofuscados com a claridade inédita. Encarei vocês. Tão amassadinhos. Ali decidi: se a amiga podia, eu também.

Comecei a procurar algo que representasse a grande virada em minha vida. Mas que não fosse tão radical. Afinal, meus queridos, eram anos de reclusão. Foi difícil encontrar um modelo que atendesse às minhas bizarras exigências. O namorado (outro) não compreendia como eu poderia pedir nas lojas uma sandália aberta que fosse o mais fechada possível. Resultado: acabava saindo com uma bota na sacola. Mais uma. Para desespero de vocês.

Quem diria. Hoje eu gosto, e muito, de vocês. São bonitos, reconheço. Branquinhos. Capricho no filtro solar, para eternizá-los assim. Eu não deveria tê-los submetido a tanto sofrimento na distante adolescência. Coca-cola, óleos… tudo pelo bronzeado. Que jamais aconteceu: a genética deixou claro quem manda no pedaço.

É hora de pedir perdão aos dois. Pela monotonia das botinhas, espécie de cativeiro para vocês. Por vocês não saberem, por anos a fio, o que era um podólogo. Pela falta de carinho e atenção. Pelos bicos finos, anos a fio. E, mesmo depois da nossa reconciliação, pelos saltos imensos em pleno nono mês de gravidez.

Hoje, metidos nas rasteirinhas abertíssimas que surpreenderiam os ex-namorados, vocês são muito mais felizes. Metade dos meus cremes são para vocês. Vocês passeiam descalços, até mais do que deveriam. Aos trinta e nove anos, pintei suas unhas de vermelho – inédito e histórico – e vocês vibraram. Vocês padecem, ainda, da maldição dos gêmeos, mas o que se há de fazer.

Nada como nossos olhos (aliás, para esses eu também preciso enviar uma cartinha) para nos fazer enxergar a beleza de outra forma, dar novo sentido às coisas.

Recentemente, fiz em um de vocês uma tatuagem. Um sol, para que meu caminho seja sempre iluminado. Mas o que deveria representar o senhor dos astros ficou parecido com uma aranha. Os raios lembram as perninhas. O desenho é bonito, mas se visto, no máximo, a trinta centímetros. Como as pessoas geralmente são mais altas que isso, preciso, com frequência, dizer do que se trata. E explicar tatuagem é o fim da picada.

É bom ter feito as pazes com vocês, ainda que tardiamente. E notar o quão nobres vocês são, perdoando a rejeição e do passado, compreendendo a que ponto chegam as esquisitices femininas.

Nem os pés da Cinderela, com seus sapatinhos de cristal, seriam tão charmosos.

Um beijo em cada um.

Nota: o sol tatuado no pé esquerdo passou por uma reforma, dando à luz uma linda flor. E o direito também ganhou um desenho especial.