Breve crônica para falar de amor

Ilustração: JacobT/Flickr.com

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Passou ventando pelo balcão de informações, sem ser notada pelo porteiro, vaidoso em seu uniforme azul escuro. Era novo. Roupa velha toma a forma do corpo, aquele jaquetão ainda estranhava os ombros miúdos do rapaz. Parou diante do enorme painel que ia até o teto. Apertou os olhos para ler o mar de letras e números, “Carvalho e Marcondes… Carvalho e Marcondes… que andar é, mesmo?”

Recorreu ao porteiro, única pessoa no saguão que não parecia ocupada demais.

– Você sabe qual o andar do escritório do Doutor Carvalho?

Sem olhá-la, entretido com os bolsos da calça nova, ele respondeu:

– Segundo.

Então, iria pela escada. Melhor assim, não gostava de esperar elevador. E estava em cima da hora. Mas não chegou ao terceiro degrau, resolveu descer. Foi até o balcão. Falava ou não?

– Moço…

Pela primeira vez, ele a encarou. “Pois não?”

– Eu estou muito maquiada? – perguntou, erguendo o queixo para facilitar a avaliação.

Ele se aprumou. Franziu a testa e, sério, estudou-lhe o rosto. Eram os olhos mais bonitos que os seus já tinham visto. Disfarçou e deu seu parecer.

– Acho que os olhos.

– O que tem os olhos?

– Muito pintados.

Ela vasculhou a bolsa. Aflita, buscou o espelhinho com a imagem da Nossa Senhora. “É, estão mesmo”. Sempre errava na sombra. Coloria demais os olhos, para compensar as cores que não via pela vida. “O Doutor Carvalho está precisando de recepcionista” – explicou, enquanto esmaecia, com a ponta do dedo, o verde ao redor dos olhos azuis – “Então, eu vou lá tentar”. Repentinamente tímida, agradeceu. Retomou as escadas. Mais uma vez, parou antes de alcançar o terceiro degrau. Voltou ao balcão, apoiou os cotovelos.

– Você acha que eu devo pedir quanto?

Ele baixou o volume do radinho escondido na gaveta. Ninguém havia lhe feito tantas perguntas. Nunca quiseram saber o que ele achava ou deixava de achar, sobre isso ou aquilo. Ora, como é que ele ia saber quanto os advogados do segundo andar pagavam para uma recepcionista? O escritório era fino, cheio de clientes bem arrumados. Aconselhou:

– É bom sobrar um pouquinho no fim do mês para passear. Daí, é você que vê.

Ela achou engraçado. Sempre haviam lhe dito que, dando para pagar as contas, estava bom.

Cinquenta e sete minutos depois, ela passou ventando, de novo, pelo balcão. Despediu-se com meio aceno e, pelo sorriso, o emprego era seu. Quem sabe, agora ela acertaria na sombra. Já alcançava a porta quando ele tomou coragem e a chamou. Não sem certa dificuldade: ele, apesar de tê-la ajudado a decidir sua vida, não sabia seu nome.

– Você me fez três perguntas – foi dizendo. – Então, será que eu poderia lhe fazer uma?

Ela não disse nem sim, nem não. Era sua deixa.

Ele saiu de trás do balcão. Aproximou-se dela, segurando o sorriso que teimava em fazer festa. Ajeitando a gola do jaquetão novo, perguntou o que ela iria fazer no feriado. É que abrira um lugar novo, lá pros lados da lagoa, e ele ouvira dizer que não havia galeto melhor na cidade inteira.

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10 comentários sobre “Breve crônica para falar de amor

  1. aiai! como te descobri há pouco, tenho esse”monte aí do lado” deliciosO pra ler , aí eu cheguei nessa …( suspiros.).. ai que boooom!

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  2. Silmara,

    Sempre tive curiosidade de ler o seu blog … li esta crônica … amei!
    Curto, leitura fácil … e lindo!
    Passarei aqui outras vezes …. parabéns!

    Bjs
    Rose

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  3. Silmara, Querida
    Hoje é um dia triste para mim: faz 5 anos que meu irmão faleceu… Mas com esse seu texto me senti mais leve e até esbocei um sorisso. Obrigada!

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  4. Adorei esse texto! E outros também… tantos… vou voltar mais vezes pra ler com mais calma os outros, mas o blog já está adicionado no meu reader! Boa surpresa para uma quarta com cara de segunda… Obrigada pelo presente, Silmara. Sua sensibilidade me encantou! Beijos, Rebecca

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  5. Pois eu acho que o amor começa desse jeitinho mesmo. O meu começou no ônibus e já dura mais de 5 anos, rumo à vida inteira.
    Beijo grande!

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  6. Adorei o seu texto! Muito lindo! Eu acredito que se pode encontrar um amor e até mesmo o amor da sua vida, até na fila pra comprar pão, num esbarrão qualquer. Por isso, concordo com o seu texto. Abraços

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