Fratura

Foi no Cine Comodoro, acho. Avenida São João. Pegamos o 378 e fomos eu, minha mãe e minha irmã. Estava passando “Uma janela para o céu”. Eu tinha oito anos e fiquei comovida com a história da moça que quebrou a perna esquiando naquelas montanhas tão branquinhas. Jill Kinmont, a personagem. Não me esqueço.

Minha mãe também quebrou a perna, anos depois. Mas não ao esquiar. Ela deitou-se na maca para fazer o raio-X, virou de lado e crec!, lá se foi o fêmur. Os ossos da Dona Angelina estavam fraquinhos. Pudera, tanta radioterapia.

No filme, a moça participava de uma competição. Minha mãe também. Em vez de montanha a vencer, um câncer. “Vamos ver quem ganha”, ela devia pensar.

Um dia, bem antes do tal raio-X, nós descemos a rua do Acre e atravessamos, já quase na avenida Álvaro Ramos. Um garoto de bicicleta vinha na maior vula – gosto bastante dessa palavra, vula – e não conseguiu brecar. Minha mãe se estatelou no chão. Achei que tinha se quebrado inteira, já estava doente. Enquanto eu e uns desconhecidos a acudíamos, o garoto teve a coragem de reclamar. Catou sua bicicleta e se mandou, fazendo careta. Não é bonito pensar assim, mas eu desejei que um dos ônibus na avenida desse um sustinho nele. Um pé quebrado, de leve, sabe?

Nunca me quebrei. Nem perna, nem braço, nem dedo. Já contei isso. Criança inconformada com a inquebrabilidade, fui até a Casa São Pedro e saí de lá com um quilo de gesso em pó. Em casa, peguei a bacia com água e inventei meu próprio braço quebrado. Não convenci ninguém.

Quando minha mãe se quebrou, eu deveria ter proposto a ela: “Fico com a perna partida, você com o braço quebrado de mentirinha”. Os médicos disseram que ela não andaria mais. Dona Angelina fingiu que não ouviu, inventou sua própria perna consertada e andou. Não lembro se a Jill Kinmont conseguiu.

Dez anos depois de receber de um Dr. Fuad, visivelmente preocupado, a carta de encaminhamento urgente ao Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho, a competição terminou para minha mãe. Era quase inverno e meu coração fraturado congelou. No filme da vida da minha mãe, a montanha venceu.

8 comentários em “Fratura

  1. Lindo, Silmara!
    Perdi minha mãe tão cedo também! Quanta falta me faz até hoje, mas especialmente quando meus filhos nasceram, era tão sábia e eu sonhava com aquele momento mãe, filha e netos.
    Quanto aos ossos, tive o mesmo sonho em quebrar unzinho que fosse, mas vc foi mais longe! Fiquei com inveja . Beijos

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    1. Oh meu… passo por isso também. Tantas perguntas no ar, tantas dúvidas de como fazer isso ou aquilo, tanta indagação, quando penso nos conselhos que pediria à tão sábia mãe. Ela se foi e deixou um buraco enoooooooooorme em minha vida. De fato, na vida de tantas outras pessoas que a conhecia. Estava na hora dela partir? Sim, estava. Isso não significa que a saudade deixe de morar comigo e que tenho as respostas prontas.

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