Tempo rei

ampulheta

Foi mais de uma vez: na volta do cursinho pré-vestibular, no ônibus que me levava até a Praça da Sé, costumava tocar “Tempo Rei”. Aquela, do Gil.

Às vezes, eu não tomava esse ônibus, e sim o metrô na estação Vergueiro, próxima ao cursinho. Um ia sob o chão, o outro, sobre. Dependia, portanto, do meu estado de espírito no dia. No metrô não tinha musiquinha ambiente, no ônibus tinha. E quase sempre tocava “Tempo Rei” durante o trajeto. Achava interessante a coincidência.

Foi bem mais de uma vez. Não fosse, eu não lembraria disso hoje, trinta anos depois. É que tocou “Tempo Rei” na rádio, enquanto eu fazia panquecas para o almoço.

Eu estava sempre cansada, por ter me levantado antes das seis e absorvido mais conteúdo escolar do que poderia dar conta. Carregando as apostilas abarrotadas de informações que, acreditava, me fariam entrar na USP, eu escolhia um assento perto da janela e sonhava com o almoço me esperando em casa. Quando minha mãe estava bem, às vezes tinha panquecas.

No ônibus, entre um bocejo e outro, eu acompanhava o Gil.

“Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”, eu pedia, em especial, para aquela parte dos logaritmos e exponenciais que costumava cair no vestibular. Nunca gostei dos números, nem eles de mim.

“Não se iludam, não me iludo”. A USP não era para qualquer um. E eu era, para todos os efeitos, qualquer uma. Não entrei. Só quarenta e um pontos na primeira fase da Fuvest. O tempo mostrou-me que isso, na verdade, não tinha tanta importância assim.

No percurso até a Praça da Sé, nada de Pães de Açúcar ou Corcovados. No ponto final, porém, uma respeitável – e um pouco esverdeada – Catedral da Sé. São Paulo nasceu ali. O meu marco zero foi na maternidade da Beneficência Portuguesa, no Paraíso. Perto do cursinho, aliás. O tempo é também rei do espaço, transformando as velhas formas do viver: levou-me para estudar, depois de grande, tão perto de onde nasci.

Da Sé eu ainda tomava outra condução até em casa. Um ônibus elétrico, que passava pela Mooca. Nesse, não tinha som ambiente. Ficávamos somente eu e meu pensamento, mesmo fundamento singular. E, claro, as apostilas pesando no colo. Tanta química. Para quê, ó Pai? Quase sempre, os cabos do ônibus escapavam dos fios elétricos suspensos no ar. O motorista parava onde fosse. Quem viesse atrás, paciência. O cobrador descia sem pressa, ajeitava os cabos, voltava ao seu posto, o motorista tocava em frente. Quando chovia eu ficava com pena do cobrador.

“Tudo permanecerá do jeito que tem sido” parece ser a máxima dessas três décadas: o cursinho ainda funciona no mesmo endereço. A estação Vergueiro do metrô, idem. Ainda há a linha de ônibus que tocava Gilberto Gil (se mantém a música ambiente, não sei). Praça da Sé e Catedral, claro, incólumes. Fucei o street view do Google e pasmei: o elétrico que me deixava a dois quarteirões de casa resiste no mesmo ponto e a linha sequer mudou o número.

Na minha vida, no entanto, não foi bem assim. Nesses trinta anos, que é tempo pra chuchu, pouca coisa permaneceu. Ninguém mais mora na nossa velha casa, exceto os fantasmas. Eu saí de São Paulo. Não vivo mais do meu diploma de bacharel em comunicação social. Não ando mais de ônibus, nem de metrô. Não tenho mais cabelos até a cintura, nem ilusões acerca do universo: “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. Não sei onde estão meus amigos do cursinho. Minha mãe não faz mais panquecas. E minhas ideias, no geral, são como os cabos do velho ônibus elétrico: às vezes, saem do lugar. Quando isso acontece, lá vou eu, sob sol ou chuva, ajeitá-las novamente. Ao menos, tentar.

Se o tempo é rei, a valentia é rainha.

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2 comentários sobre “Tempo rei

  1. Pois é Sil. Estive pensando em algumas coisas por estes dias sobre o tempo. É sempre assim quando cumprimos anos: os pensamentos vão desde os algorítimos vigilantes do google, sobre definições profissionais que preciso estabelecer para os próximos anos, sobre o desejo como definição de amor em Platão, sobre a mensagem incompreendida do revolucionário Jesus Cristo, sobre o desempenho escolar necessário para determinadas profissões que as crianças querem seguir. Como você diz, será que Maria, 13, que adora letras precisa estudar tanta química para seguir sua carreira como advogada? Mas este tempo rei não nos dá espaço, e se auto exaure na ilusão do incauto que esquece de cronos não para. Existe um tempo para tudo, como diz o Eclesiastes. Basta sincronizar. Às penso que perdi o passo. Lendo sua crônica, lembrei da minha época de escola, e pensei no meu filho de 14. Por que nele e não pensei nas irmãs dele? Talvez porque ele parece ser o mais consumista dos 3. Ele me diz que quer ser médico. Se realmente quiser vai ter que ralar para entender estas coisas todas que eu não entendo de biologia e química. Viajei junto com você na linha do ônibus. Onde ele estará daqui a 3 anos? Parece que foi ontem e ele estava de fraldas pela casa. Mas, por outro lado, porque será que ele quer ser médico? Não identifico ainda nele os traços daquelas pessoas que ama o outro e se importa com a dor do outro. Talvez aos 14 a voz interna do Narciso fale mais alta que qualquer outra voz. No futuro, a carteira pode estar cheia de dinheiro, com a casa cheia de coisas inúteis que nunca serão usadas. E esta é a realidade da nova geração. Desejam muito. Precisam de muita apreciação, de muitos “likes” e de gente distante, desconhecida. Gente que não tem cheiro. No fundo, cobro de meus filhos excelência na escola, porque este é o trabalho deles. E precisa fazer bem seu trabalho. Como dizia Drummond, a “dor é inevitável, mas o sofrimento não”. Me pergunto, com orientá-los para que não caiam nas teias do desejo platônico, do desejo inalcançável, irrefreável, insaciável? Olhando em volta, parece que esta geração deseja muito e se esforça menos que deveria. Quando não consegue, se frusta. E não entende o conceito de desejo. Vai para a rua culpar o governo, a oposição, o Trump, o papa, sei lá quem. Mais que isto, será que no futuro, serão capazes de sentir nostalgia, de sentir falta de algo, ou de lembrar de algo, como a nossa geração sente? Como diz o Belchior, “o novo sempre vem”. Nem precisa esperar. O novo virá. E eles terão os próprios sentimentos de sua época. Beijos e sempre um prazer ler suas adoráveis crônicas.

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