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Água e sabão

bolha sabão
arte: Guenevere Schwien

A brincadeira consistia em 1) jogar bastante água no quintal, 2) espalhar um pouco de sabão em pó e 3) ficar escorregando pra lá e pra cá a manhã toda.

Diversão da qual eu, caçula, não era autorizada a participar. Minha irmã e meu irmão mais velhos, privilegiados pelo tempo, deslizavam pelo chão vermelho de caquinhos, felizes da vida. Eu só assistia. E desejava, com toda determinação que garotinhas de quatro anos são capazes, crescer logo para entrar naquela farra também.

O quintal, pequeno, tinha bom formato para a pista ensaboada. Na lateral estreita, quinze metros, no máximo, os tombos não importavam. Eram, aliás, a melhor parte. Com direito a adrenalina extra: ao final do corredor, havia uma bela escadaria que dava para o portão de entrada. Se mal calculada, a brincadeira poderia acabar em choro. Ou coisa pior. E quem se importava?

Um dia, enquanto meus irmãos capotavam, às gargalhadas, meu pai me chamou na porta da cozinha, que dava para o quintal. Abaixou-se um pouco e me olhou, sério. Pediu que eu tirasse a blusa. Era de botões, eu me lembro. Fiquei só de calcinha, já vislumbrando o anúncio. Ele desfranziu o cenho e, sorrindo, proclamou o tão sonhado alvará: “Vai!”.

Finalmente, eu estava liberada para a epifania aquática. Já não era mais criancinha, então. Joguei-me naquele pequeno parque de diversões caseiro. Imitei o quanto pude meus irmãos, veteranos do sabão. Acatei suas dicas, Ó, faz assim, Olha a escada!, e nunca me diverti tanto.

Era a água e o sabão, lavando a alma dos três filhos de Antonio e Angelina.

Nina, a neta caçula deles, lembrou esta semana de quando sua escola montou para a turminha do maternal uma lona ensaboada. Pediram até para levar biquíni. No fim da tarde, quando a busquei, vi em seus olhinhos castanhos e nos cabelos molhados: foi dos dias mais alegres que ela passara ali.

Será que transmiti a ela, em algum gene, a experiência do pequeno quintal? Hereditariedade é mesmo um barato.

A salada de pepino do meu pai

pepino

Ninguém faz salada de pepino como meu pai. Ninguém. Não que Seu Tonico arrase nas artes culinárias. Ele é MasterChef de um sucesso só. Ao menos, para a caçula aqui.

Desde meus tempos de criança, ingredientes e modo de fazer são (ou eram) os mesmos, seguidos à risca. Eis a receita para criar um clássico.

Para começar, ele nunca usou tábua de cortar. O pepino caipira, nu, se encaixava em sua mão esquerda. A direita, munida de faquinha comum, tratava de fatiá-lo em finíssimas e consecutivas rodelas, que iam despencando harmoniosamente na bacia. Sempre sem casca. (Não me venham, nutricionistas de plantão, bradar a importância dos nutrientes da casca nos processos digestórios, nem adeptos do consumo consciente dizer que não pode desperdiçar comida. Pepino do Tonico é sem casca e zéfini.)

Por cima da multidão verde-clara, apenas a tríade mágica: sal, vinagre e azeite. Nada de pomposidades como azeite de primeira prensagem de azeitonas gregas, vinagre de uvas Trebbiano, flor de sal extraído da Normandia, ervas esquisitas ou outra coisa. O segredo ancestral era simples, bicho: o velho sal Cisne, vinagre Palhinha e azeite Maria, a mãe das saladas da minha infância. Que nem azeite era.

Algumas rodelas escapavam do padrão super fino e saíam levemente mais grossinhas. Quando eu encontrava uma, fazia de conta que era prêmio. Quem disse que comer legume é chato?

Também nunca entendi por que pepino é sinônimo de problema. Se dizem, “Rapaz, que pepino!”, certamente é de coisa boa que estão falando.

A salada de pepino do Seu Tonico é (ou era), em si, o cardápio inteiro: entrada, prato principal e sobremesa. Um espetáculo sensorial, arregimentando visão, olfato, paladar e felicidade. Felicidade também é um sentido, meu bem.

Jamais consegui reproduzi-la. Ora erro na espessura das rodelas, ora exagero no sal. Talvez isso não passe de autossabotagem, só para perpetuar a iguaria paterna no rol da fama. Importante que continue, portanto, incopiável.

Quis terminar dizendo que, assim que passar essa quarentena maluca (um “pepinaço” mundial, para os que preferem a conotação negativa do Cucumis sativus) e as coisas voltarem à alguma normalidade, vou trazer Seu Tonico aqui em casa. Para que reproduza, em almoço comemorativo, a tradicional salada, que não provo há tanto tempo. Mas, na verdade, eu não quero.

Receio que, se ele a fizer, o resultado não seja o mesmo que alimentou, tão saborosamente, minha criancice. E se ele mudou o jeito de fatiar? Se inventar de salgar menos? A preocupação com o sal é diretamente proporcional à idade. Se, lá no meio, eu não encontrar nenhuma mais grossinha? E, mais temível que tudo: se a primeira frase desta história não fizer mais sentido?

Melhor não arriscar, e manter a sagrada salada bem guardadinha na geladeira de conservar lembranças. Aquela, que não deixa nada estragar.

Quando a quarentena acabar, vou convidá-lo para almoçar aqui. Direi: “Pai, hoje eu faço a salada”.

Por garantia.

Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

Farofa

Se o tempo amanhecesse bom no domingo, meu pai anunciava: “Vamos!”.

Pega a esteira, o chapéu, não esquece o bronzeador Bozzano, “Mãe, já vou com o biquíni por baixo?”, as toalhas, os sanduíches, o refrigerante, o guarda-sol, a prancha – de madeira, não existia de isopor.

Fusca cheio, vambora. O programa: farofar em Santos. Meu pai no volante, minha mãe ao lado, eu e meus irmãos atrás. Todos sem cinto de segurança. Deus existe, meu bem.

O Google diz que da Mooca até o litoral são setenta quilômetros. Bom para um bate-e-volta. Como não existia GPS na década de 70, eu perguntava de quinze em quinze minutos se a gente já estava chegando. Era minha maneira de calcular o tempo e a distância da viagem.

No caminho pela Estrada Velha de Santos ou Via Anchieta tinha Cubatão. Ouvia tanta história sobre a cidade, as chaminés das indústrias lançando fumaça preta no ar, dia e noite, crianças nascendo sem cérebro, que esse nome – Cubatão – já havia, para mim, virado metonímia para poluição. Lembro-me também de achar graça no nome de uma rodovia ali perto, a Pedro Taques, que eu pensava ser Pedro Táxi. Por certo, deveria ser um taxista muito famoso.

Ao mesmo tempo que eu amava passar o dia na praia, comendo salgadinho, brincando com meu baldinho e fazendo castelos na areia, eu também sofria. Pois nos dias seguintes o sol mandava sua fatura. Vermelha como o gorro do Papai Noel, logo eu me encheria de bolhas doloridíssimas. Minha mãe tinha lá suas panaceias para essas horas e, quando a dor passava, eu gostava quando ela – que nenhum pediatra me ouça – as furava com agulha de costura e linha. Era meio nojento quando vazavam. Depois vinha a fase de descascar; uma coceira dos diabos, mas a despelação era divertida. Não existia protetor solar naquela época, só bronzeador – um veneno para minha tez de Branca de Neve. Fui uma criança sardenta, não por acaso.

Certa vez, meu pai estacionou em uma rua próximo à orla. Passamos a manhã na praia e, na hora do almoço, voltamos ao carro. Surpresa: o Fusca havia sido arrombado. Lembro-me da expressão preocupada dos meus pais, contando os trocados que haviam sobrado, n’algum cantinho que passara despercebido pelo ladrão. O frango assado estava garantido.

Então, num belo dia, meus pais compraram a venda. Como o batente era de segunda a segunda, foi o fim dos passeios a Santos.

Tanta coisa mudou. O advento do protetor solar com fator 50 cancelou, definitivamente, as queimaduras e as bolhas. Não moro mais a setenta quilômetros da praia, não entro num Fusca há décadas (suspiro). Na Estrada Velha, agora, só gente e bicicleta. Cubatão, vejam só, deixou para trás o estigma de “Vale da Morte”. O sanduíche da minha mãe é só saudade. Meus filhos não sabem o que é andar de carro sem cinto de segurança, mal conhecem Santos, tampouco o prazer de uma legítima farofagem. E, apesar da minha pouca disposição atual para a dupla mar & areia, minhas lembranças daquele tempo continuam ensolaradas. Arrisco dizer que foram as farofas mais bem temperadas da minha vida.

A tônica do Tonico

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Em nove, de dez vezes que meu pai vai a um restaurante, ele pede água tônica. Limão espremido e gelo completam o ritual. Embora, ultimamente, venha deixando o gelo; reclama que tem lhe feito mal à garganta. O refrigerante, ao lado do molho de pimenta, é dos seus hábitos mais antigos. Seu nome bem que podia ser Tonico da Tônica.

A lata diz que é feita de quinino. Que diabos é quinino, menino?

With a little help from my friend Google, aprendo: é uma substância que se tira da casca da árvore cinchona, que nunca vi. Um pó branco, tecnicamente batizado de hidrocloreto de quinina. Como esse título não faria o menor sucesso, pelo contrário, resolveram chamá-la simplesmente de água tônica de quinino. Mais bonito e poético. Perguntar qual a sílaba tônica de tônica é mais ou menos como perguntar qual é o doce mais doce que o doce de batata doce.

Gramática e trocadilho à parte, a água tônica deve funcionar como uma espécie de tônico da longevidade. Seu Tonico acaba de completar oitenta e sete anos, nos trinques. Um dos médicos que o acompanha brinca que ele está tão bem, que podemos vendê-lo. Ele acha graça.

O garçom traz o pedido à mesa, meu pai faz uma piadinha qualquer. O garçom entra na onda (ou não), e todos riem (ou não). Ele quebra o lacre, plec, e a vira no copo. Do encontro do amargo da bebida com o azedo do limão dá-se a química da felicidade do meu pai, traduzida no primeiro gole e o quase onomatopeico “Aaah” de prazer.

Falando em química, na tabela periódica, oitenta e sete é o número atômico do Frâncio. O sobrenome do meu pai é Franco. Uma coincidência dessa, bicho.

O slogan impresso na latinha afirma: “o amargo transforma”. O quê em quê, nunca soube ao certo. Mas desconfio. Olho meu pai partindo o quiabo ao meio e juntando-o, metodicamente, ao arroz e feijão. O rosto enrugado de mundo, os cabelos branquinhos, a indefectível boina. Meu pai soube transformar sua vida. Viúvo aos cinquenta e cinco, era do tipo que não se servia sozinho à mesa – tarefa exclusiva de minha mãe. Quando ela se foi, inventou sua autonomia e entendeu-se com a solidão. Amargura? Se sentiu, metamorfoseou-a em poesias e músicas dedicadas à Dona Angelina. Apropriou-se da casa e suas domesticidades, aprendeu a cozinhar e a preparar suas gororobas. (Algumas tornaram-se lendárias: sua vitamina matinal, por exemplo, costumava levar leite, óleo, ovo, banana, mandioquinha, beterraba, vinho, Sonho de Valsa e o que mais estivesse dando sopa na pia, tudo no liquidificador. Praticamente um suco atômico.)

Com a poção acre-doce no copo, meu pai acessa a memória que lhe resta e se põe, com genuíno entusiasmo, a contar causos. Os mesmos de sempre, de novo e de novo. O pisão que levou da vaca Beleza, quando era criança. O orgulho dos dons oratórios e literários do meu avô. O primeiro emprego quando chegou a São Paulo, na fábrica de sapatos, aos dezesseis anos. O dia em que conheceu minha mãe, em pleno Finados. Sua saudade é líquida. Eu, que antes me chateava, aprendi a ouvi-los como se fosse a primeira vez.

Bendito quinino. Transformou até a mim.

Eu (não) uso óculos

Levei meu pai ao oftalmologista – “olhista”, como ele gosta de dizer. Aos oitenta e seis, a visão do Seu Tonico anda precária. Resiste aos óculos com receita, bom mesmo é o self-service da farmácia, com modelos prontos. Apanha na vitrine e vai testando, “Esse está ruim”, “Agora melhorou um pouquinho”, “Ah, esse está bom”. Leva ao caixa, paga e vai embora. Feliz da vida, enxergando vários palmos diante do nariz.

Quando eu tinha sete anos, usei óculos. Astigmatismo. Minha primeira grande provação, depois da botinha ortopédica. Não gostava da ideia, nem do modelo, tampouco do que via no espelho. Naquela época, a gente chamava oftalmologista de oculista. Só depois fui aprender: um é o médico que cuida dos olhos. Outro é a pessoa que faz os óculos. Não sei se nós confundíamos os dois, afinal oculista é mais fácil de pronunciar, ou se nossos óculos eram, de fato, prescritos e feitos pelo tal do oculista (o que nem pode). Só sei que fomos a uma ótica e saí de lá dividida: contente porque conseguiria ler a cartilha Caminho Suave numa boa, mas angustiada, antevendo os apelidos na escola.

O Banana, por conta das sardas, ganharia dos colegas um complemento fofo: Quatro-Olhos. Fiquei sendo Banana-Quatro-Olhos. Eles achavam aquilo engraçado. Eu não via, nem com óculos, graça alguma.

Dia desses, postei nas redes sociais um achado: minha foto do primeiro ano, com os ditos cujos. Rendeu imediata comparação com a Chiquinha, do Chaves. É preciso admitir que a semelhança procede. Infelizmente, no dia da fotografia não havia ninguém para dar uma ajeitadinha em mim antes do clique, nem uma penteada de leve nos cabelos. Resultado: o mal ajambramento e os malditos óculos eternizaram-se. Na época, rabisquei, de propósito, a fotografia. Inventei-me dentes e flor na camisa. Customizei a infelicidade, dando-lhe ares bufônicos para, talvez, sobreviver à desgraça.

O astigmatismo cedo foi embora, aposentei por conta própria os óculos. Adulta, fui brindada com leve miopia. Quando me perguntam se uso óculos, digo que não. Em seguida, lembro que sim – os de sol têm pouco mais de meio grau, iguais aos que ficam na bolsa, para o caso de uma rodovia à noite. Deve ser uma espécie de negação.

Há algum tempo, Nina cismou que queria usar óculos. Sem indicação para tal, quase me convenceu a mandar fazer uns sem grau, como se fosse um acessório, uma tiara. Diante das consecutivas negativas, fez birra, chorou, ficou infeliz. Lembrei de mim, sofrendo justamente pelo contrário: ter que usar o trambolho. Das inúmeras vezes que os “esqueci” sob a carteira, na sala de aula. Do sumiço que dei na peça, quando concluí que não precisava mais deles. Cada um com seu drama. No final, tudo depende de como você vê as coisas.

Hoje, quando olho a fatídica foto do primeiro ano, rio e tenho vontade de abraçar a menininha que fui. E, parafraseando a raposinha d’O Pequeno Príncipe, diria ao pé do meu ouvido: “Sabia que só se vê bem com o coração, e que você fica linda de óculos?”.

silmara gallicho 1o ano 1974

O quadro

jesus 1

No quarto dos meus pais havia um quadro de Jesus Cristo. Minha irmã conta que foi ideia do nosso avô. Provavelmente, para que Ele abençoasse o casal e a família. Ou para lembrar Seu Tonico e Dona Angelina que o filho de Deus estava vendo tudo, tudinho.

O quadro era grande e trazia um Jesus bonitão, loiro dos olhos claros, barba meio hipster. A moldura dourada tinha uma cordinha atrás para pendurar no prego, deixando-o levemente pendente para frente. O que talvez causasse ao Senhor certo constrangimento, de vez em quando.

De qualquer forma, minha mãe devia ter altos papos com o Jesus emoldurado. Contava-lhe dos filhos, das encomendas de tricô, dos apertos financeiros, as fofocas na família. Será que contou a ele quando ficou doente? Para nós, os filhos, não.

Foi nessa cama que nasceu, de parto normalíssimo, meu irmão mais velho. Ter Cristo assistindo ao vivo e em cores, abençoando tudo de pertinho, quem não haveria de querer? No entanto, comigo, a caçula, e minha irmã do meio, meus pais resolveram não arriscar, então nascemos no hospital. No meu caso, fez toda diferença: só estou neste planeta graças ao fórceps.

E a ideia do quadro só pode mesmo ter sido do meu avô. Ele mantinha um exército de santos em seu quarto, dispostos em um oratório ao lado do guarda-roupa. Eu tinha medo da santaiada, evitava entrar lá sozinha. Como se eu adentrasse uma festa sacra, e secreta, para qual eu nunca era convidada. Era nesse quarto também que meu irmão, o afilhado de Cristo por tabela, quando criança costumava ver freiras enfileiradas caminhando e sumindo através das paredes. Coisa que minha mãe tratou logo de resolver na Federação Espírita.

O Jesus Cristo loiro e cabeludão morou com a gente por muito tempo. Sua imagem estava incorporada ao quarto, à casa, à minha infância, adolescência, juventude. Tipo um parente. Lembro-me com exatidão de suas mãos, tão serenas, apesar das marcas da crucificação. Que sina, a dele; pregado na cruz, pregado nas paredes.

Quando minha mãe morreu, reconfiguramos os dormitórios e o quadro foi embora. Não sei que fim levou. Se o demos para alguém, ou se acabou indo para o lixo, de tão velho. É pecado jogar fora um quadro de Jesus, ainda que desbotado e carcomido pelas traças? E será que traças que moram em um quadro santificado, quando morrem também ganham o reino de Deus, fazem upgrade evolutivo e retornam à Terra como peixes?

Na nossa cozinha havia outro quadro, menor, da Santa Ceia. Vá lá: cozinha, comida, ceia. Mas deixar Cristo sobre a cama do casal? Que ideia, vô.

Besourada

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— O que você fez no Carnaval?

— Desvirei besouros.

No sítio, à noitinha, a varanda vira um besouródromo. Como não têm um bom plano de voo, esses bichinhos errantes se lançam no ar como dá. E, às vezes, não dá. Esborracham-se nas paredes, nas janelas venezianas. Não é fácil ter exoesqueleto.

Quando vou ver estão no chão, as perninhas pro ar. Feito baratas – certamente há parentesco entre eles – tontas. Debatem-se à espera do milagre. Alguns alcançam a graça da desviração. Outros, não.

Compadecida, entro em cena. Com um galhinho do pé de romã, vou desvirando um por um. Aconselho-os a não voarem próximo às paredes. Eles não me ouvem, sequer agradecem. Onde ficam os ouvidos do besouro?

Na escola, li O Escaravelho do Diabo. Por obrigação, ia ter prova. Esqueci o enredo, mas sei que não tem samba. Recorro ao Google. Enquanto desviro mais um, dos grandes, sinto o arrepio que vai de ponta a ponta do meu endoesqueleto: será que também morrerei amanhã com uma espada cravada no coração? As vítimas do assassino em série, na história, recebem uma misteriosa correspondência contendo um besouro. São ruivas e sardentas. Sardenta eu sou. Os cabelos deram uma desbotada depois que tingi. Estou salva? Se o assassino for exigente e só escolher legítimos vermelhos, sim.

Na primeira noite, desvirei uns dez. Manhã seguinte, tristeza: muitos chegaram depois que fui dormir e, quedados, não conseguiram se desvirar. Consumidos pelo cansaço, os foliões alados pereceram antes do raiar do dia. À noite, lá estavam outros desfilando seu voo incerto pela varanda, vários já de pernas pro ar. Pacientemente, fui desvirando todos. Na verdade, estou interferindo na seleção natural, desequilibrando o sistema, causando uma besourada. Que bicho tem coragem de comer um besouro? Só os de mandíbulas (e garganta) corajosas.

Vendo os besouros, lembrei dos nossos Fuscas. Meu pai teve dois, quando eu era criança. Um cor de pérola, chegamos a farofar em Santos várias vezes com ele. Inexplicavelmente, recordo sua placa: BG-7542. Informação sem qualquer serventia. O outro era azul, transformado em táxi. Seu Tonico trabalhou durante anos, como se dizia, “na praça”. Esse não tinha o banco direito da frente, e para fechar a porta quando o passageiro entrava havia uma cordinha que ia do freio de mão até o puxador da porta. Eu gostava da cordinha. Por vezes fiz escândalo, queria ir junto nas corridas. Ele e minha mãe explicavam que não podia, onde já se viu, o que os passageiros iriam pensar. Isso se algum passageiro fizesse sinal, pois logo veriam uma cabecinha atrás e concluiriam que o carro estava ocupado. Eu prometia ficar bem abaixadinha. Quando se é criança, nada é impossível. Besouros são, do ponto de vista aerodinâmico, bichos impossíveis.

E quando me perguntam o que fiz no Carnaval, digo, basicamente, que desvirei besouros. O Bloco dos Encouraçados Voadores só saía à noite. Eu ficava de prontidão com o galhinho de romã, sentindo-me a rainha da bateria dos coleópteros.

Cada um com sua fantasia.

Os Crocs novos do meu pai

Meu pai só anda de Crocs.

Depois que descobriu o calçado que não o deixa escorregar nem em chão de ladrilho ensaboado, Seu Tonico nunca mais quis saber de outra coisa. Dia e noite, noite e dia. Primavera, verão, outono e inverno. Casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos? Crocs. E, apesar de ter outros exemplares, há o eleito.

Teoricamente indestrutíveis, os Crocs do velho Tonico contrariaram as previsões e ficaram mais gastos que pneu careca. Andou levando uns tombos, nada bom para quem tem oitenta e três anos. “Vamos comprar outro, pai?”. Declinou o convite o quanto pode; não era necessário, os deles estavam “tão novos”.

Foi difícil convencê-lo. Aliás, anda difícil convencê-lo de muitas coisas, ultimamente. De atualizar a dentadura, de afrouxar o cinto (um medo inexplicável de que as calças desabem). Na velhice, ou se convence de tudo, ou se convence de nada. Nada importa, tudo importa ou importa de um jeito diferente do senso comum.

Meu pai foi sapateiro na juventude. Primeiro emprego quando chegou a São Paulo, anos cinquenta. Alguém lhe arrumara trabalho em uma fábrica – Calçados São José, ele nunca esqueceu. Assim como ainda se lembra dos termos que envolvem seu feitio: cabedal, balancim, cambrê. Ganhasse hoje um pedaço de couro e solados de borracha, talvez confeccionasse os próprios chinelos. (Que seriam inúteis, ele não usa chinelos. Só Crocs.)

Por conta da antiga profissão, meu pai não é freguês comum e costuma dar uma aula de sapataria aos vendedores. No dia de ganhar os Crocs novos, ele pôs a vendedora doida. Não deixou a mocinha ajudá-lo a calçar, pois ela não estava fazendo aquilo direito.  Explicou a engenharia da peça, discorreu sobre como se escolhe um calçado novo, a distância correta entre o fim do dedão e o limite do sapato. Experimentou vários modelos, deu voltinha na loja, analisou e deu o veredito: “Gostei deste”. A equipe da loja, compadecida, respirou aliviada.

“Já vai com ele, pai!”. E, para não correr o risco de ele voltar a usar os Crocs gastos, eu e meu irmão inventamos que a loja dava cinquenta por cento de desconto se ele deixasse o par velho para reciclagem. A vendedora entrou na onda e também tentou persuadi-lo. Não funcionou: ou ele levava seus amados Crocs para casa, ou nada feito.

Como pais rendidos diante da birra de seu rebento (porque toda história se inverte, um dia), cedemos: “Tá bom, pai. Leva.” E lá foi ele, feliz da vida, carregando seus velhos e fiéis companheiros nos braços, os novos companheiros nos pés. Que ninguém chegasse perto da sua sacola; Seu Tonico rosnava.

Desde aquele dia, os Crocs novos estão no armário, ao lado dos velhos. Não saem de lá nem para buscar o jornal. Acabou pegando emprestado de alguém outros Crocs, usados, feiosos. E é com esses que ele agora vai pra cima e pra baixo: casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos. Se lhe perguntam onde os arrumou, ele diz que ganhou. E mostra, orgulhoso, o solado antiderrapante.

Quem derrapa sou eu, na paciência.

Mas meu pai está feliz. Então eu também vou ficar.

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Nota: para quem quiser saber mais de Seu Tonico: https://fiodameada.wordpress.com/2014/04/25/meu-pai/

Crônica de minuto #59

Quando eu era pequena, meu pai nunca mandava a gente colocar o cinto de segurança no carro. Porque ninguém usava cinto de segurança naquela época. Os carros vinham equipados, mas era um acessório inútil, condenado a permanecer intacto, enroladinho, exatamente como saíra da fábrica. O quanto viajamos no Fusquinha, todos tão soltos.

Quando meu pai entra no meu carro eu preciso, invariavelmente, pedir para ele colocar o cinto de segurança. Ele, que já foi motorista de táxi, nunca se lembra. Porque nunca usou. E sempre se atrapalha. Eu sempre fico irritada e tenho de ajudá-lo. Ele sempre reclama que o cinto deve estar com problema. Eu sempre peço a Deus que me dê paciência com quem tantas vezes me levou passear de carro.

Hoje eu sei o real significado dos três pontos dos cintos. Pai, filha e Espírito Santo.

Amém.

Crônica de minuto #56

Pizzaria nova no bairro, do amigo de meu pai. A amizade era grande e ele até emprestara seu talento publicitário, sugerindo o nome e desenhando a logomarca para o lugar.

Assim que abriu, fomos. Prestigiar a amizade e a placa na entrada, de co-autoria do seu Tonico.

Elogiadas as instalações, dado o dedo de prosa com o dono-amigo – que veio, orgulhoso, cumprimentar todos à mesa – , avaliado o cardápio, pedidas as bebidas, era a hora. “Vamos escolher?”. Pensa daqui, pondera dali e, com pleno exercício da democracia, chegamos à eleita: quatro queijos.

Pizza chega, a família se entreolha.

Cada quadrante estava preenchido por um dos quatro recheios, separadamente. Ao nordeste, a mussarela. No sudeste, provolone. Ao noroeste, o catupiry. No sudoeste, parmesão. Separados pela fronteira imaginária estabelecida pelo pizzaiolo, os queijos não se falavam. Não rolou a orgia queijística a que estamos acostumados. Nem o sincretismo laticínico. Era ado, ado, ado, cada queijo no seu quadrado.

Redondo, no caso.

Onde está o quarenta e três?

Em pronto-socorro, urgências e emergências são numeradas. Noventa e oito, trezentos e dezesseis, cento e vinte e dois. Fratura passa na frente de febre, virose vem depois de intoxicação.

É como praça de alimentação do shopping, onde fomes também são numeradas. A senha avisa quando a comida está pronta. No hospital, a senha avisa quando o socorro está pronto.

A senha do meu pai é um-sete-um. Ele gosta de prestar atenção aos números chamados no painel, pii, pii. Esbraveja quando o um-sete-dois é convocado. Acha que passou na sua frente. Explico: não está em sequência, depende da prioridade, da especialidade. Ele entende, depois esquece. Aparece o cinquenta e ele desanima, “Ih, tem mais de cem antes de mim”.

Onde é que retira a senha da paciência?

Meia hora de espera num pronto-socorro é suficiente para decorarmos o local, as placas de sinalização, nos familiarizarmos com os funcionários que vão e vêm. Nos habituamos até com os pacientes. Dependendo, viram amigos por um dia. Pena que o assunto é sempre doença.

O painel apita: senha quarenta e três.

Ninguém se levanta. Quem está em pé, não se mexe. Os grudados na TV muda permanecem atentos às cenas, brincando de descobrir as falas. Há diversão num PS.

O painel segue em frente e chama oitenta e nove, trinta e três, cento e dois. Pii, pii, pii. O oitenta e nove é gordinho, enxuga a testa com um lenço xadrez e sai em disparada rumo à sala de atendimento. Que será que tem, além de pressa? A trinta e três está com febre há três dias, faltou no trabalho, o marido também não anda bem, quer só ver se os dois ficarem de cama, quem vai levar o mais novo pra escola? Não vi o cento e dois, eu estava no café. Lá não precisa de senha.

O painel dá uma chance ao quarenta e três, pii. Ninguém aparece.

O segurança, com ares de investigador, olha em direção à plateia adoentada. Quer identificar o paciente distraído. Pergunta em voz alta, a senha verbal é uma exceção justificada.

O painel nervoso apita três vezes seguidas, quarenta e três, quarenta e três, quarenta e três! Onde terá se enfiado? É o que toda gente quer saber.

Começa o burburinho. Foi fazer xixi. Dormiu. Deu problema com o convênio.

A despeito do mistério, nova leva é chamada, pii, pii, pii, pii. O segurança empunha o rádio, vai até a porta, diz qualquer coisa em código para alguém do outro lado da linha.

O quarenta e três é, oficialmente, um foragido hospitalar.

O painel chora a ausência do doente ímpar, que também é primo e tem o número atômico do tecnécio.

Enquanto isso, a ruiva de saia longa e cólica renal caminha amparada pelo marido. Os gêmeos idênticos também na dor de barriga não querem ficar no colo da mãe, choramingam, ganham o chão, tentam lamber o pé da cadeira. A mãe puxa um, arrasta outro, realoca-os nas cadeiras. Eles descem de novo. Ela desiste. Ser mãe é padecer no PS.

Esperançoso, o painel não desiste, pii, pii, piiii! Arde na urgência e na emergência de encontrar o desaparecido, tal fosse caso de vida ou morte.

(Emergência e urgência, nunca compreendi a diferença. Uma saudade pode ser urgente? E amor emergente que vive a urgência de amar? Filho apertado para ir ao banheiro, no meio da rua, é qual das duas?)

Ninguém mais fala em dengue, chuva ou copa. O paradeiro do quarenta e três é a pauta do plantão. Desistiu e foi embora? Não está na lanchonete? Será que morreu? Risinhos proibidos vêm da recepção.

Um colega do segurança junta-se a ele na missão. Checam cantos, inspecionam banheiros, rondam o estacionamento em frente. Estão em busca do paciente perdido. O painel dá seu último suspiro. Quarenta e três, adeus.

Meu pai continua firme na paranoia de que estão passando gente na frente. O quarenta e três, aos poucos, vai sendo esquecido do público enumerado e enfermo. Seus quinze minutos de fama se esgotaram. Nem o painel quer mais saber dele, a fila andou.

Um-sete-um. Vamos, pai.

Pé de gente

foto-montagem / arquivo pessoal

Sessão de RPG. Estou deitada, meus pés suspensos. Atados por uma espécie de cinto, ligado à uma roldana que os mantêm no ar. Sozinha na sala, encaro-os por dez minutos, como parte do exercício que promete reestruturar globalmente minha postura. Por dez minutos, não são as unhas cor de vinho ou a gérbera tatuada em preto e branco no pé esquerdo que escaneio. O que procuro, neles, são os pés dos meus filhos. Que arquivos genéticos, dos meus, transmiti aos deles?

Beijei, de manhãzinha e à exaustão, dois pares de pés. Os dele, caídos fora do edredon amarfanhado, ao lado da tartaruga azul de pelúcia. Os dela, gentilmente alinhados com o gato negro de verdade. Aproveitei e medi, conferi, cheirei os minipés que ajudei a construir, célula por célula. Namorei-lhes a geografia já tão decorada. Varri-lhes as solas, descobri por onde andaram e imaginei por onde ainda andarão. Levei nisso tudo bem menos que dez minutos; o passo do tempo no quarto deles é outro. Agi com cautela e silêncio, para que não acordassem. É a melhor hora (mas não única) do dia para a adoração. O raro momento em que seus pés estão quietos. A inquietude inviabiliza o fetiche maternal.

O fisioterapeuta reaparece, quer saber se está tudo bem. Não, não está. Não há um só detalhe nos pés dos meus filhos que tenham puxado aos meus. Nem a unha do mindinho, nem o formato do dedão, nada. É tudo diferente, sabe? – lamento em pensamento. Não, ele não sabe. Ajeita qualquer coisa na roldana e sai novamente, precisa ver o paciente da outra sala.

Beijo mais os pés de meus filhos que seus rostos, será? Os pés que já habitaram meu ventre – cada par a seu tempo – , muitas vezes passeando sob minhas costelas, me fazendo rir em plena reunião de diretoria. Cujos retratos ilustram suas carteiras de saúde, carinhosamente mantidas desde seus nascimentos: horário em que vieram ao mundo, tipo sanguíneo, primeiras observações médicas, “RN a termo”, notas do teste de Apgar, evolução de pesos x alturas, vacinas que tomaram. A racionalidade de um filho, enfim. No documento, fundamental mesmo é o pezinho carimbado na contracapa, a primeira pegada, o marco zero de suas biografias em progresso. Reparo no desenho que forma a planta de seus pés. Há uma espécie de árvore (genealógica?) desenhada ali, posso ver suas ramificações. São legítimos pés de gente, a me dizer que a história não para por aqui. E se não carregam de mim os traços externos, hão de levar dentro de si, por onde caminharem, algo de mim. Sobretudo, meus beijos exagerados.

Meu pai

arquivo pessoal
arquivo pessoal

Quero falar das coisas engraçadas que meu pai faz. E que ele nem sabe que faz. Em seu jeito inventivo e peculiar de viver, num permanente e bem resolvido estado de confusão, ele é um personagem de si mesmo. Este é um recorte biográfico autorizado, que sobressai ao resto de sua personalidade. Porque sou filha e vejo as coisas ao modo filial.

Antes, conto: ele é Antonio Batista Franco, ou só Tonico. Ou Joaquim, em indecifrável licença poética familiar, praticada apenas pelos três filhos – e nenhum dos três sabe ao certo como surgiu esse Joaquim. Tonico nasceu em Tapiratiba, interior de SP, em dois de fevereiro de 1932. Já foi sapateiro, contínuo de banco, depois caixa de banco, motorista de táxi, comerciante. Queria mesmo era ser cantor de ópera. (Desde que nasci, ouço-o cantar uma debochada versão, de sua autoria, para “La donna è mobile”, de Verdi. E eu cresci achando que “è mobile”, por conta da pronúncia, era o nome de uma mulher. Dona Imóbili.)

Pulo o resto da biografia, direto às toniquices. Apenas uma amostra delas; são muitas e variadas. Umas são antigas, outras atuais, algumas desde sempre. Não estão em ordem cronológica, já que todas poderiam se dar a qualquer tempo. É que não me recordo de meu pai sendo de outro jeito que não esse.

Quero contar que ele, sempre que viaja, leva uma bolsa térmica que faz as vezes de mala. Não adianta presenteá-lo com a melhor e mais bonita mala do mundo. É na velha bolsa térmica cinza que ele ajeita suas roupas, o Prestobarba, a escova de dentes, as meias, as cuecas, o livro, o caderno, a caneta, a boina, o rolo de papel higiênico. Também não adianta alertá-lo que aquilo ali não é uma mala. Ele não vai ouvir. (Interessante é ver que, tirante a estética e a convenção social, a bolsa térmica e a mala são a mesma coisa.)

Quero contar também que ele cantou o hino da França numa versão franco-brasileira impublicável, para meia dúzia de franceses desconhecidos, numa praça em Grenoble, e fez o maior sucesso.

E que ele comeu a ração da Luna, a cachorrinha da neta, pensando que era petisco, como amendoim ou coisa parecida. Quem mandou deixar em cima da mesa?

Que ele, quando se dirigia à festinha junina na escola do neto, errou de rua, entrou na festa errada e lá ficou, conversando com os convidados. Só depois de algum tempo achou estranho que nós não estávamos lá.

Que ele, num encontro de família, perguntou a uma tia nossa se ela, a própria, não tinha vindo.

Que ele, num velório, por engano disse ‘meus parabéns’ ao parente do morto, em vez de ‘meus pêsames’.

Que ele tomou um ônibus errado, foi parar no outro lado da cidade e voltou xingando o motorista que, segundo ele, deliberadamente havia feito outro itinerário.

Que ele, temporariamente incumbido de cuidar da nossa gatinha Dóris que precisava 1) usar protetor solar no focinho e 2) comer uma ração pastosa que vinha em um frasco semelhante ao do protetor, se confundiu e passou a ração em seu focinho. Ainda brigou com a pobrezinha, porque ela lambeu tudo, feliz da vida. Nunca descobrimos o paradeiro do protetor solar.

Que ele foi se deitar e se cobriu com uma toalha de mesa que estava no varal, pensando que era uma colcha. Detectada a confusão e com os pés descobertos, da cama, ele confessou: “Bem que vi, estava muito curta”.

Que seus óculos estavam meio largos e escorregavam no nariz, então ele lançou mão, sem cerimônia, de um considerável pedaço de fita crepe amarela que lhe atravessava a testa, para mantê-los no lugar. Tem, inclusive, registro fotográfico disso.

Que ele usa o cinto apertado demais, demais mesmo, com um medo inexplicável de a calça cair. Até os médicos, preocupados, já tentaram fazer com que ele o afrouxasse. Nada.

Que ele, de alguns anos para cá, conta as mesmas histórias como se fosse a primeira vez, mantendo, inclusive, a empolgação original.

E que, aonde quer que eu vá parar nesta vida, o mundo dará um jeito de deixá-lo perto de mim, por mais que eu tente fugir. E eu resolvi não discutir mais com Deus.

Por isso, quero registrar as coisas engraçadas que meu pai faz. Só as engraçadas; nada de falar das que me põem doida, às vezes. Uma espécie de inventário afetivo, para garantia das memórias e risadas futuras. Porque ele está velhinho e anda esquecendo tudo. E eu também vou esquecer. Aliás, já tinha esquecido de alguns causos que listei aqui, minha irmã que me ajudou a lembrar da maioria.

Casal

Apanho o xampu, cabelos curtos precisam d’um pouco só. A primeira ensaboada é “pra tirar o grosso” – quem falava assim? Modo de dizer, em cabelo lavado todo santo dia sujeira nenhuma tasca. Repito a operação para melhores resultados. O rótulo que diz.

Volto o frasco ao seu lugar de costume, no canto, mais à mão. Reparo que o do condicionador, ao lado, com capacidade para os mesmos duzentos e cinquenta mililitros, está quase cheio. O do xampu, quase vazio. Não, não é papo sobre otimismo e pessimismo. É papo de amor, bicho.

Xampu e condicionador são, essencialmente, um casal. Apesar de vendidos separadamente, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim espera o fabricante – para habitar o mesmo lar, box, banheira, pia, frasqueira.

Eu gosto de comprar o casal. Eles não brigam, deixam o mesmo perfume nos meus cabelos. E eu sigo acreditando nos melhores resultados. Por conta da crença, eles nunca findam juntos. O xampu morre antes. O condicionador sempre fica viúvo.

***

Minha mãe se foi antes do meu pai. E ela não estava nem pela metade. Será que eu a usei demais, mais que a meu pai? Soubesse, eu a teria a usado menos, para que durasse mais. Meu pai continua lá. Quase vazio, mas lá.

Pai e mãe, apesar de nascidos e crescidos separadamente, aos olhos dos filhos, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim esperam os filhos – para habitar o mesmo lar, para sempre. O que quase nunca acontece, por separação ou morte. Separação é quando o amor não faz mais espuma. Viuvez é quando, de uma hora pra outra, o banho acaba.

Meu pai nunca quis se casar de novo. Permanecer viúvo, mais que de amor, é um ato de coragem. A saudade, às vezes, arde nos olhos.

***

Coloquei um xampu novo ao lado do velho condicionador; salvei-lhe da solidão. Porém, tal uma filha mimada, estranhei o casal logo de cara. Não são nada parecidos – apesar dos benditos ingredientes ativos semelhantes. Vamos ver como é que os dois, juntos, se saem. Porque não tem nada pior que rebeldia. Nem de filho, nem de cabelo.

Crônica de minuto #48

Quando fizemos o primeiro ultrassom do nosso filho, a médica disse que ele nasceria, provavelmente, entre os dias 24 e 29 de dezembro. Como mãe, minha primeira ordem foi: “Não nasça nesses dias, meu filho”. Falei-lhe sobre a forte concorrência com a festa de aniversário do Menino Jesus, a enorme possibilidade de todos os seus amigos estarem viajando nessa época etc. Ele, por garantia, obedeceu. E levou tão a sério o que eu dissera, que foi preciso uma cesárea no Dia de Reis. O garoto não queria saber de vir ao mundo.

Quando fizemos o primeiro ultrassom da nossa filha, a médica disse que a data provável para o parto seria 16 de outubro. Por coincidência, dia do aniversário do pai. Este abriu um sorrisão. “Calma”, ela disse. “É só uma previsão”. Como pai, seu primeiro pedido foi assertivo, quase uma torcida particular. Igual ao irmão, ela tratou de atendê-lo. Nem foi preciso marcar cirurgia; ela chegou, espontaneamente, no dia combinado.

Hoje, ele finge não me ouvir quando lhe peço para tomar banho e arrumar seu quarto. Ela se recusa a comer a salada e recolher os brinquedos.

Lembrei-me de uma passagem d’O Pequeno Príncipe. Disse o rei, que gostava de dar ordens razoáveis e cumpríveis: “Se eu ordenasse que um general se transformasse em gaivota, e o general não me obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha”.

O rei está certo. Mas ele não disse nada sobre banhos, saladas e arrumações de quarto.

A mães e pais não cabe tanta razoabilidade assim. Nosso reinado é outro.

Cartas do coração

Arte: JakobT_98
Arte: JakobT_98

A enfermeira posiciona as ventosas no peito de meu pai, é hora do eletrocardiograma. Pergunto se posso ficar ao lado, na cadeira. Posso. Estar perto talvez não faça diferença alguma, mas publica o cuidado. Empodera o afeto.

Ela ajusta os botões, aperta um deles e o papel zás!, assume seu posto. Torna a checar as ventosas, inspeciona os fios. Tranquiliza meu pai e ordena, talvez pela quinquagésima vez no dia, “Agora, o senhor não se mexe”. Começa. A caneta do aparelho, em riste, vai escrevendo o que seu corpo manda. Eletrocardiograma é um ditado.

Eu gostava de fazer ditados na escola. Escrevia rápido, terminava e buscava com o olhar a professora, aguardando a próxima palavra. “Quadrado”. Ela aproveitava para fazer outras coisas enquanto ditava para a classe. Assim, dava tempo de errar, apagar, escrever de novo. Verificava as unhas, conferia o tempo lá fora. “Azaleia”. (Que, naquela época, ninguém ousava não acentuar). Caminhava até a porta, espiava o corredor e retornava. “Famigerado”. Essa era para ver quem escreveria com gê e quem botaria jota.

Meu pai obedece, está quietinho. Parece dormir. Eu também quero dormir, tão tarde. Acordado, naquele pronto-socorro, só mesmo o eletrocardiógrafo. Que segue ligeiro, traçando com determinação militar suas frases que sobem e descem. Como é que não se perde pelo caminho? Devem ser as tais linhas tortas de Deus.

Da cadeira, ouço o ronco – não do meu pai, do aparelho, que fala enquanto escreve. Como os doidinhos do sanatório, escritores dos livros imaginários da vida real. Ou será o contrário? Só sei que o exame vai ficando bonito na codificada caligrafia cardíaca. Fosse lição, meu pai tiraria nota boa.

Eu usei caderno de caligrafia. Sugerido a quem tinha a letra feiosa, nele as crianças aprendiam, na marra, a fazer letra bonita. Pena que nunca inventaram caderno de treinar, além de forma, conteúdo. Assim, as pessoas aprenderiam a escrever também coisas bonitas. A professora pedia para eu fazer a ‘barriga’ do bê bem redondinha, caprichar nas ‘perninhas’ do ême, não esquecer o ‘chapeuzinho’ nas vogais de som fechado. Letra é gente. O alfabeto é orgânico.

A enfermeira vem fiscalizar, o ditado está acabando. Vamos ver se meu pai passa de ano.

Que tanto a engenhoca rabisca no papel de pauta esquisita? O que o exame nos dirá? Se meu pai está doente, se vai ter de tomar remédio, se infartou?

Que nada. Era só seu coração escrevendo uma carta de amor para minha mãe.

Crônica de minuto para ficar triste num instante

Arte: João Grando

A mãe do João Hélio disse que, naquele dia, gostaria de ter tido superpoderes para salvá-lo.

O pai do Mitchill disse que gostaria de voltar no tempo para mudar o desfecho da história, ou avançar nele, até um dia em que tudo houvesse, enfim, passado.

Outras mães e outros pais, vivedores da experiência de sepultar um filho, também já desejaram ter superpoderes, mas não disseram nada. Superquerer não é superpoder.

Super-heróis, pense nisso, são inspirados em pai e mãe. A coisa da proteção, do cuidado. Uma vez que a estes foi concedido o superpoder de trazer uma pessoa ao mundo, igualmente deveria lhes ser concedido mais um, para mantê-la por aqui. Imitar Ícaro, domar Cronos – não importa qual. Desde que pudessem, através dele, garantir a existência daquele que lhes é confiado.

Aos pais e mães tristes, calados ou manifestos, se não recebem o poder providencial, cabe apenas a capacidade de superação. Que, de certa forma, é um jeito de ser super.

Os finados e o amor

Ilustração: Ciro Esposito/Flickr.com

Foi no dia de Finados que meus pais se conheceram. Ele gosta de começar a história assim: “No dia dos mortos, dois vivos se encontraram”. Ela morreu no dia dos Namorados. Ainda não compreendi direito a relação que existe entre o amor e a morte. Só sei que no calendário um vem antes do outro.

Nunca visitei o lugar onde as cinzas de minha mãe foram lançadas. Combinamos: ela é quem me visita. Em sonho, roupa, fotografia, receita de panqueca. De tempos em tempos, tomamos um chá da tarde juntas. Mas falta algo nesses encontros. A xícara dela está sempre vazia.

Quando meu irmão mais velho entrou na faculdade, ela descobriu que estava doente. Escondeu a doença dos três filhos. Ao fazer isso, escolheu o caminho mais longo para salvar sua vida e, ao mesmo tempo, o mais curto para o fim dela. Só nos contou e procurou o médico cinco anos mais tarde, depois da festa de formatura. Teve tantos medos antes disso. De ser obrigada a parar de trabalhar, do meu irmão não poder continuar os estudos, num dominó de receios sem sentido (não para ela). Passados cinco anos daquela festa, a família se reuniu novamente. Desta vez, sem nada para comemorar.

Até hoje meu pai faz poesias para minha mãe. Na sua academia particular de letras, ela é a sua imortal. Sempre que ele vê os netos, lamenta ela não ter conhecido nenhum. Um pesar logo substituído pelas novidades do dia, as eleições, o calor, o livro que ele está lendo. É bom assim. Distração é o melhor remédio para a saudade.

Ontem encontrei o gorro dela, de lã cor de vinho, guardado no meu armário. Ainda tem a borboletinha verde costurada nele, ideia dela para aproveitar o enfeite que caíra de um grampo de cabelo. Na verdade, o gorro era meu e acabou ficando para ela, que o usava para se aquecer nos dias gelados, já sem cabelos por causa da quimioterapia. Agora ela não precisa mais dele, eu sim. Como é que se põe gorro no coração? Às vezes, o meu sente tanto frio.

***

Aqui no quintal de casa as sementes de ipê brotaram, a amoreira da rua de cima está carregada. Meu filho aprendeu a escrever, vive me mandando bilhetinhos escrito “eutiadoro”, assim, com ‘i’ e tudo junto. O machucado do meu dedo (quem manda brincar com tesoura?) já nem dói mais. Acertei fazer moqueca e a filha da minha amiga nasceu. No dia dos mortos, é bom falar de amor.

O reencontro

Ilustração: Daniel Jacobino/Flickr.com

Tive um reencontro especial, dia desses. Foi na casa do meu pai.

Ela, que por instantes esqueci o nome. Calculei sua idade: perto dos trinta e cinco. Quando a vi, o burburinho da conversa na sala, com palpites sobre as eleições, foi ficando longe, bem longe. Enquanto a abraçava, era o barulho das portas na minha velha casa, os sons do rádio na cozinha me acordando todas as manhãs com o programa do Zé Bettio, a conversa dos meus avós no quintal, as nossas brincadeiras, Anete e eu, que tomavam conta do espaço. Fiquei aliviada ao recordar seu nome. É feio não se lembrar como a filha foi batizada. Ainda que ela seja uma boneca.

Ele, cujo nome veio fácil: Manequinho. Embora fossem irmãos, não sei qual dos dois nasceu primeiro. O que faz de mim uma mãe, para dizer o mínimo, relapsa. Mas o que se há de fazer? Ninguém faz certidão de nascimento para um boneco.

Anete não fazia nada. Era um bebê que só abria e fechava os olhinhos quando a deitavam. Está com a roupinha tricotada pela minha mãe: um conjunto de blusa e calça rosa e branco, com três florzinhas verdes bordadas no ombro, boina branca e sapatinhos cor de rosa. Ainda abre e fecha os olhos, ligeiramente carcomidos pelo tempo. Me olha com a mesma doçura de antigamente. Pergunto a ela se estou muito diferente, adianto que ela não mudou nada. Ela diz ter estranhado meus cabelos tão curtos. Quer saber de todos em casa, entristece-se quando conto que mamãe se foi, há tempos. Deduzira, no entanto, que algo tivesse acontecido. Dali, de dentro do armário, ela só ouve a voz do avô. Mamãe era sua referência de avó, já que a paterna nunca existiu.

Manequinho, dizia a caixa colorida de papelão, fazia xixi quando tomava mamadeira. Vinha até com peniquinho. Veste o único macacão que ganhou na vida, verde-água, também feito por Dona Angelina. Apesar dos anos sem vê-lo, sinto-me bastante à vontade para conferir o que povoou a minha fantasia quando eu era pequena: seu pipi. Está lá, intacto. Assim que o pego no colo, ele pede para que eu o mude de lugar no armário; já lera todos os livros guardados ali. Seus cabelos loiros continuam repartidos de lado, do mesmo jeito daquela época. Homens não gostam muito de mudar o penteado, mesmo. Os dois são de Touro ou Capricórnio. Eu só ganhava boneca – e boneco – no aniversário ou no Natal.

Quando a gente sai da casa dos pais, costuma deixar nela uma coisa ou outra, que é um jeito de nunca esquecer as origens, garantir o pertencimento, perpetuar o umbigo e tudo o que ele ligava. Embora, como os animais fazem com suas crias, eu não faça ideia de aonde tenham ido parar os outros ‘irmãos’ de Anete e Manequinho. Todos, assim como eles, saídos do ventre da minha imaginação. Também não é necessário explicar aos dois o motivo da minha ausência naqueles anos todos. Bonecos, como animais, sabem que nada é para sempre, não costumam ter autopiedade. Eles vão tocando suas vidas, como deve de ser. Gente é que se preocupa com isto e mais aquilo.

Prometi ir vê-los de vez em quando. Um dia, quero que brinquem com meus filhos de carne e osso, seus ‘meio-irmãos’. Por ora, é melhor que continuem morando com o avô, meu pai, protegidos pelo armário. Filho de verdade não é fácil; o Luca desmonta tudo o que vê, e a Nina é da pá virada.