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A salada de pepino do meu pai

pepino

Ninguém faz salada de pepino como meu pai. Ninguém. Não que Seu Tonico arrase nas artes culinárias. Ele é MasterChef de um sucesso só. Ao menos, para a caçula aqui.

Desde meus tempos de criança, ingredientes e modo de fazer são (ou eram) os mesmos, seguidos à risca. Eis a receita para criar um clássico.

Para começar, ele nunca usou tábua de cortar. O pepino caipira, nu, se encaixava em sua mão esquerda. A direita, munida de faquinha comum, tratava de fatiá-lo em finíssimas e consecutivas rodelas, que iam despencando harmoniosamente na bacia. Sempre sem casca. (Não me venham, nutricionistas de plantão, bradar a importância dos nutrientes da casca nos processos digestórios, nem adeptos do consumo consciente dizer que não pode desperdiçar comida. Pepino do Tonico é sem casca e zéfini.)

Por cima da multidão verde-clara, apenas a tríade mágica: sal, vinagre e azeite. Nada de pomposidades como azeite de primeira prensagem de azeitonas gregas, vinagre de uvas Trebbiano, flor de sal extraído da Normandia, ervas esquisitas ou outra coisa. O segredo ancestral era simples, bicho: o velho sal Cisne, vinagre Palhinha e azeite Maria, a mãe das saladas da minha infância. Que nem azeite era.

Algumas rodelas escapavam do padrão super fino e saíam levemente mais grossinhas. Quando eu encontrava uma, fazia de conta que era prêmio. Quem disse que comer legume é chato?

Também nunca entendi por que pepino é sinônimo de problema. Se dizem, “Rapaz, que pepino!”, certamente é de coisa boa que estão falando.

A salada de pepino do Seu Tonico é (ou era), em si, o cardápio inteiro: entrada, prato principal e sobremesa. Um espetáculo sensorial, arregimentando visão, olfato, paladar e felicidade. Felicidade também é um sentido, meu bem.

Jamais consegui reproduzi-la. Ora erro na espessura das rodelas, ora exagero no sal. Talvez isso não passe de autossabotagem, só para perpetuar a iguaria paterna no rol da fama. Importante que continue, portanto, incopiável.

Quis terminar dizendo que, assim que passar essa quarentena maluca (um “pepinaço” mundial, para os que preferem a conotação negativa do Cucumis sativus) e as coisas voltarem à alguma normalidade, vou trazer Seu Tonico aqui em casa. Para que reproduza, em almoço comemorativo, a tradicional salada, que não provo há tanto tempo. Mas, na verdade, eu não quero.

Receio que, se ele a fizer, o resultado não seja o mesmo que alimentou, tão saborosamente, minha criancice. E se ele mudou o jeito de fatiar? Se inventar de salgar menos? A preocupação com o sal é diretamente proporcional à idade. Se, lá no meio, eu não encontrar nenhuma mais grossinha? E, mais temível que tudo: se a primeira frase desta história não fizer mais sentido?

Melhor não arriscar, e manter a sagrada salada bem guardadinha na geladeira de conservar lembranças. Aquela, que não deixa nada estragar.

Quando a quarentena acabar, vou convidá-lo para almoçar aqui. Direi: “Pai, hoje eu faço a salada”.

Por garantia.

Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

Farofa

Se o tempo amanhecesse bom no domingo, meu pai anunciava: “Vamos!”.

Pega a esteira, o chapéu, não esquece o bronzeador Bozzano, “Mãe, já vou com o biquíni por baixo?”, as toalhas, os sanduíches, o refrigerante, o guarda-sol, a prancha – de madeira, não existia de isopor.

Fusca cheio, vambora. O programa: farofar em Santos. Meu pai no volante, minha mãe ao lado, eu e meus irmãos atrás. Todos sem cinto de segurança. Deus existe, meu bem.

O Google diz que da Mooca até o litoral são setenta quilômetros. Bom para um bate-e-volta. Como não existia GPS na década de 70, eu perguntava de quinze em quinze minutos se a gente já estava chegando. Era minha maneira de calcular o tempo e a distância da viagem.

No caminho pela Estrada Velha de Santos ou Via Anchieta tinha Cubatão. Ouvia tanta história sobre a cidade, as chaminés das indústrias lançando fumaça preta no ar, dia e noite, crianças nascendo sem cérebro, que esse nome – Cubatão – já havia, para mim, virado metonímia para poluição. Lembro-me também de achar graça no nome de uma rodovia ali perto, a Pedro Taques, que eu pensava ser Pedro Táxi. Por certo, deveria ser um taxista muito famoso.

Ao mesmo tempo que eu amava passar o dia na praia, comendo salgadinho, brincando com meu baldinho e fazendo castelos na areia, eu também sofria. Pois nos dias seguintes o sol mandava sua fatura. Vermelha como o gorro do Papai Noel, logo eu me encheria de bolhas doloridíssimas. Minha mãe tinha lá suas panaceias para essas horas e, quando a dor passava, eu gostava quando ela – que nenhum pediatra me ouça – as furava com agulha de costura e linha. Era meio nojento quando vazavam. Depois vinha a fase de descascar; uma coceira dos diabos, mas a despelação era divertida. Não existia protetor solar naquela época, só bronzeador – um veneno para minha tez de Branca de Neve. Fui uma criança sardenta, não por acaso.

Certa vez, meu pai estacionou em uma rua próximo à orla. Passamos a manhã na praia e, na hora do almoço, voltamos ao carro. Surpresa: o Fusca havia sido arrombado. Lembro-me da expressão preocupada dos meus pais, contando os trocados que haviam sobrado, n’algum cantinho que passara despercebido pelo ladrão. O frango assado estava garantido.

Então, num belo dia, meus pais compraram a venda. Como o batente era de segunda a segunda, foi o fim dos passeios a Santos.

Tanta coisa mudou. O advento do protetor solar com fator 50 cancelou, definitivamente, as queimaduras e as bolhas. Não moro mais a setenta quilômetros da praia, não entro num Fusca há décadas (suspiro). Na Estrada Velha, agora, só gente e bicicleta. Cubatão, vejam só, deixou para trás o estigma de “Vale da Morte”. O sanduíche da minha mãe é só saudade. Meus filhos não sabem o que é andar de carro sem cinto de segurança, mal conhecem Santos, tampouco o prazer de uma legítima farofagem. E, apesar da minha pouca disposição atual para a dupla mar & areia, minhas lembranças daquele tempo continuam ensolaradas. Arrisco dizer que foram as farofas mais bem temperadas da minha vida.

A tônica do Tonico

agua tonica

Em nove, de dez vezes que meu pai vai a um restaurante, ele pede água tônica. Limão espremido e gelo completam o ritual. Embora, ultimamente, venha deixando o gelo; reclama que tem lhe feito mal à garganta. O refrigerante, ao lado do molho de pimenta, é dos seus hábitos mais antigos. Seu nome bem que podia ser Tonico da Tônica.

A lata diz que é feita de quinino. Que diabos é quinino, menino?

With a little help from my friend Google, aprendo: é uma substância que se tira da casca da árvore cinchona, que nunca vi. Um pó branco, tecnicamente batizado de hidrocloreto de quinina. Como esse título não faria o menor sucesso, pelo contrário, resolveram chamá-la simplesmente de água tônica de quinino. Mais bonito e poético. Perguntar qual a sílaba tônica de tônica é mais ou menos como perguntar qual é o doce mais doce que o doce de batata doce.

Gramática e trocadilho à parte, a água tônica deve funcionar como uma espécie de tônico da longevidade. Seu Tonico acaba de completar oitenta e sete anos, nos trinques. Um dos médicos que o acompanha brinca que ele está tão bem, que podemos vendê-lo. Ele acha graça.

O garçom traz o pedido à mesa, meu pai faz uma piadinha qualquer. O garçom entra na onda (ou não), e todos riem (ou não). Ele quebra o lacre, plec, e a vira no copo. Do encontro do amargo da bebida com o azedo do limão dá-se a química da felicidade do meu pai, traduzida no primeiro gole e o quase onomatopeico “Aaah” de prazer.

Falando em química, na tabela periódica, oitenta e sete é o número atômico do Frâncio. O sobrenome do meu pai é Franco. Uma coincidência dessa, bicho.

O slogan impresso na latinha afirma: “o amargo transforma”. O quê em quê, nunca soube ao certo. Mas desconfio. Olho meu pai partindo o quiabo ao meio e juntando-o, metodicamente, ao arroz e feijão. O rosto enrugado de mundo, os cabelos branquinhos, a indefectível boina. Meu pai soube transformar sua vida. Viúvo aos cinquenta e cinco, era do tipo que não se servia sozinho à mesa – tarefa exclusiva de minha mãe. Quando ela se foi, inventou sua autonomia e entendeu-se com a solidão. Amargura? Se sentiu, metamorfoseou-a em poesias e músicas dedicadas à Dona Angelina. Apropriou-se da casa e suas domesticidades, aprendeu a cozinhar e a preparar suas gororobas. (Algumas tornaram-se lendárias: sua vitamina matinal, por exemplo, costumava levar leite, óleo, ovo, banana, mandioquinha, beterraba, vinho, Sonho de Valsa e o que mais estivesse dando sopa na pia, tudo no liquidificador. Praticamente um suco atômico.)

Com a poção acre-doce no copo, meu pai acessa a memória que lhe resta e se põe, com genuíno entusiasmo, a contar causos. Os mesmos de sempre, de novo e de novo. O pisão que levou da vaca Beleza, quando era criança. O orgulho dos dons oratórios e literários do meu avô. O primeiro emprego quando chegou a São Paulo, na fábrica de sapatos, aos dezesseis anos. O dia em que conheceu minha mãe, em pleno Finados. Sua saudade é líquida. Eu, que antes me chateava, aprendi a ouvi-los como se fosse a primeira vez.

Bendito quinino. Transformou até a mim.

Eu (não) uso óculos

Levei meu pai ao oftalmologista – “olhista”, como ele gosta de dizer. Aos oitenta e seis, a visão do Seu Tonico anda precária. Resiste aos óculos com receita, bom mesmo é o self-service da farmácia, com modelos prontos. Apanha na vitrine e vai testando, “Esse está ruim”, “Agora melhorou um pouquinho”, “Ah, esse está bom”. Leva ao caixa, paga e vai embora. Feliz da vida, enxergando vários palmos diante do nariz.

Quando eu tinha sete anos, usei óculos. Astigmatismo. Minha primeira grande provação, depois da botinha ortopédica. Não gostava da ideia, nem do modelo, tampouco do que via no espelho. Naquela época, a gente chamava oftalmologista de oculista. Só depois fui aprender: um é o médico que cuida dos olhos. Outro é a pessoa que faz os óculos. Não sei se nós confundíamos os dois, afinal oculista é mais fácil de pronunciar, ou se nossos óculos eram, de fato, prescritos e feitos pelo tal do oculista (o que nem pode). Só sei que fomos a uma ótica e saí de lá dividida: contente porque conseguiria ler a cartilha Caminho Suave numa boa, mas angustiada, antevendo os apelidos na escola.

O Banana, por conta das sardas, ganharia dos colegas um complemento fofo: Quatro-Olhos. Fiquei sendo Banana-Quatro-Olhos. Eles achavam aquilo engraçado. Eu não via, nem com óculos, graça alguma.

Dia desses, postei nas redes sociais um achado: minha foto do primeiro ano, com os ditos cujos. Rendeu imediata comparação com a Chiquinha, do Chaves. É preciso admitir que a semelhança procede. Infelizmente, no dia da fotografia não havia ninguém para dar uma ajeitadinha em mim antes do clique, nem uma penteada de leve nos cabelos. Resultado: o mal ajambramento e os malditos óculos eternizaram-se. Na época, rabisquei, de propósito, a fotografia. Inventei-me dentes e flor na camisa. Customizei a infelicidade, dando-lhe ares bufônicos para, talvez, sobreviver à desgraça.

O astigmatismo cedo foi embora, aposentei por conta própria os óculos. Adulta, fui brindada com leve miopia. Quando me perguntam se uso óculos, digo que não. Em seguida, lembro que sim – os de sol têm pouco mais de meio grau, iguais aos que ficam na bolsa, para o caso de uma rodovia à noite. Deve ser uma espécie de negação.

Há algum tempo, Nina cismou que queria usar óculos. Sem indicação para tal, quase me convenceu a mandar fazer uns sem grau, como se fosse um acessório, uma tiara. Diante das consecutivas negativas, fez birra, chorou, ficou infeliz. Lembrei de mim, sofrendo justamente pelo contrário: ter que usar o trambolho. Das inúmeras vezes que os “esqueci” sob a carteira, na sala de aula. Do sumiço que dei na peça, quando concluí que não precisava mais deles. Cada um com seu drama. No final, tudo depende de como você vê as coisas.

Hoje, quando olho a fatídica foto do primeiro ano, rio e tenho vontade de abraçar a menininha que fui. E, parafraseando a raposinha d’O Pequeno Príncipe, diria ao pé do meu ouvido: “Sabia que só se vê bem com o coração, e que você fica linda de óculos?”.

silmara gallicho 1o ano 1974

O quadro

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No quarto dos meus pais havia um quadro de Jesus Cristo. Minha irmã conta que foi ideia do nosso avô. Provavelmente, para que Ele abençoasse o casal e a família. Ou para lembrar Seu Tonico e Dona Angelina que o filho de Deus estava vendo tudo, tudinho.

O quadro era grande e trazia um Jesus bonitão, loiro dos olhos claros, barba meio hipster. A moldura dourada tinha uma cordinha atrás para pendurar no prego, deixando-o levemente pendente para frente. O que talvez causasse ao Senhor certo constrangimento, de vez em quando.

De qualquer forma, minha mãe devia ter altos papos com o Jesus emoldurado. Contava-lhe dos filhos, das encomendas de tricô, dos apertos financeiros, as fofocas na família. Será que contou a ele quando ficou doente? Para nós, os filhos, não.

Foi nessa cama que nasceu, de parto normalíssimo, meu irmão mais velho. Ter Cristo assistindo ao vivo e em cores, abençoando tudo de pertinho, quem não haveria de querer? No entanto, comigo, a caçula, e minha irmã do meio, meus pais resolveram não arriscar, então nascemos no hospital. No meu caso, fez toda diferença: só estou neste planeta graças ao fórceps.

E a ideia do quadro só pode mesmo ter sido do meu avô. Ele mantinha um exército de santos em seu quarto, dispostos em um oratório ao lado do guarda-roupa. Eu tinha medo da santaiada, evitava entrar lá sozinha. Como se eu adentrasse uma festa sacra, e secreta, para qual eu nunca era convidada. Era nesse quarto também que meu irmão, o afilhado de Cristo por tabela, quando criança costumava ver freiras enfileiradas caminhando e sumindo através das paredes. Coisa que minha mãe tratou logo de resolver na Federação Espírita.

O Jesus Cristo loiro e cabeludão morou com a gente por muito tempo. Sua imagem estava incorporada ao quarto, à casa, à minha infância, adolescência, juventude. Tipo um parente. Lembro-me com exatidão de suas mãos, tão serenas, apesar das marcas da crucificação. Que sina, a dele; pregado na cruz, pregado nas paredes.

Quando minha mãe morreu, reconfiguramos os dormitórios e o quadro foi embora. Não sei que fim levou. Se o demos para alguém, ou se acabou indo para o lixo, de tão velho. É pecado jogar fora um quadro de Jesus, ainda que desbotado e carcomido pelas traças? E será que traças que moram em um quadro santificado, quando morrem também ganham o reino de Deus, fazem upgrade evolutivo e retornam à Terra como peixes?

Na nossa cozinha havia outro quadro, menor, da Santa Ceia. Vá lá: cozinha, comida, ceia. Mas deixar Cristo sobre a cama do casal? Que ideia, vô.

Besourada

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— O que você fez no Carnaval?

— Desvirei besouros.

No sítio, à noitinha, a varanda vira um besouródromo. Como não têm um bom plano de voo, esses bichinhos errantes se lançam no ar como dá. E, às vezes, não dá. Esborracham-se nas paredes, nas janelas venezianas. Não é fácil ter exoesqueleto.

Quando vou ver estão no chão, as perninhas pro ar. Feito baratas – certamente há parentesco entre eles – tontas. Debatem-se à espera do milagre. Alguns alcançam a graça da desviração. Outros, não.

Compadecida, entro em cena. Com um galhinho do pé de romã, vou desvirando um por um. Aconselho-os a não voarem próximo às paredes. Eles não me ouvem, sequer agradecem. Onde ficam os ouvidos do besouro?

Na escola, li O Escaravelho do Diabo. Por obrigação, ia ter prova. Esqueci o enredo, mas sei que não tem samba. Recorro ao Google. Enquanto desviro mais um, dos grandes, sinto o arrepio que vai de ponta a ponta do meu endoesqueleto: será que também morrerei amanhã com uma espada cravada no coração? As vítimas do assassino em série, na história, recebem uma misteriosa correspondência contendo um besouro. São ruivas e sardentas. Sardenta eu sou. Os cabelos deram uma desbotada depois que tingi. Estou salva? Se o assassino for exigente e só escolher legítimos vermelhos, sim.

Na primeira noite, desvirei uns dez. Manhã seguinte, tristeza: muitos chegaram depois que fui dormir e, quedados, não conseguiram se desvirar. Consumidos pelo cansaço, os foliões alados pereceram antes do raiar do dia. À noite, lá estavam outros desfilando seu voo incerto pela varanda, vários já de pernas pro ar. Pacientemente, fui desvirando todos. Na verdade, estou interferindo na seleção natural, desequilibrando o sistema, causando uma besourada. Que bicho tem coragem de comer um besouro? Só os de mandíbulas (e garganta) corajosas.

Vendo os besouros, lembrei dos nossos Fuscas. Meu pai teve dois, quando eu era criança. Um cor de pérola, chegamos a farofar em Santos várias vezes com ele. Inexplicavelmente, recordo sua placa: BG-7542. Informação sem qualquer serventia. O outro era azul, transformado em táxi. Seu Tonico trabalhou durante anos, como se dizia, “na praça”. Esse não tinha o banco direito da frente, e para fechar a porta quando o passageiro entrava havia uma cordinha que ia do freio de mão até o puxador da porta. Eu gostava da cordinha. Por vezes fiz escândalo, queria ir junto nas corridas. Ele e minha mãe explicavam que não podia, onde já se viu, o que os passageiros iriam pensar. Isso se algum passageiro fizesse sinal, pois logo veriam uma cabecinha atrás e concluiriam que o carro estava ocupado. Eu prometia ficar bem abaixadinha. Quando se é criança, nada é impossível. Besouros são, do ponto de vista aerodinâmico, bichos impossíveis.

E quando me perguntam o que fiz no Carnaval, digo, basicamente, que desvirei besouros. O Bloco dos Encouraçados Voadores só saía à noite. Eu ficava de prontidão com o galhinho de romã, sentindo-me a rainha da bateria dos coleópteros.

Cada um com sua fantasia.