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Mãos cruzadas

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arte: Kenyon Cox

Se me deito de costas e, instintivamente, cruzo as mãos sobre o peito, trato rapidinho de mudar. Que essa é, sempre foi e será posição de quem partiu desta para melhor, esticou as canelas, bateu as botas.

O manual dos bons modos dos mortos – que só é lido pelos vivos – diz que defunto que se preze deve permanecer assim em seu derradeiro leito. Quem será que inventou isso?

Só sei que disfarço, desentrelaço os dedos, ponho a mão no travesseiro, me viro de lado. Qualquer coisa que desfaça em mim a pose mortis. Vai que Dona Morte está pelo bairro, resolve aparecer e não confere direito. É risco que não se pode correr.

Quando criança eu ia (obrigada) aos velórios dos parentes, e ao me despedir deles no caixão (de novo, obrigada) meu olhar se demorava nos dedos entrelaçados sob o véu, num tom funesto de azul-frio com cinza-pedra. Minha avó. Meu avô. Minha bisavó (queriam que eu a beijasse; fugi). Que coisa, de minha mãe não me lembro. Não me lembro, aliás, de nada dela no dia em que foi cremada. Apenas que eu vestia, e isso me recordo bem, um macacão de popeline lilás costurado por mim, sob suas doces e pacientes instruções.

Até hoje, não gosto de ver ninguém dormindo, nem cochilando, de barriga para cima e mãos cruzadas no peito. Como se essa postura não pudesse pertencer ao mundo dos vivos. E justo essa posição vem ser das mais confortáveis. Quando o corpo repousa plenamente na horizontal, cabeça e mente alinhadas. Cotovelos apoiados, uma mão abraça a outra, quase em prece. (Será por isso?)

Se vou dar beijo de boa noite nos meus filhos e, por acaso, estão assim… Não chego a tentar mudar; vão perguntar o porquê. E não quero perpetuar a crendice. Resignada, sigo para minha cama, repetindo: “Deixa de ser besta, Silmara”.

Porque eu sou mesmo muito besta. Paciência.

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Biometria

“Passé/Futur”, an untrained eye, 2008

Eu não gosto do leitor biométrico do caixa eletrônico. Ele duvida da palma da minha mão. Pacientemente, reinicio o procedimento, já hesitante acerca da própria identidade. Será meu destino tão nebuloso assim?

Após cinco tentativas, ele cospe meu cartão e diz que não pode realizar a operação. Tenho garantias de RG a oferecer, nome de pai e mãe, data de nascimento. Ele desdenha. É a quiromancia digital, com previsões nada animadoras acerca do meu saldo.

A praça da Sé era meu caminho na volta do colégio. Ao sair da estação do metrô, era preciso fugir do assédio das ciganas, legítimas ou falsificadas, espalhadas ao longo do calçadão, seduzindo os ingênuos com a promessa de revelar-lhes o futuro através das linhas das suas mãos. Aquele negócio de adivinhação, pensava, não devia pagar bem. Eram todas maltrapilhas, geralmente descabeladas e invariavelmente desdentadas. Pegavam pesado na maquiagem, quase sempre nos mesmos tons dos seus vestidos multicoloridos e de suas bijuterias ordinárias. Eu andava apressada, mas havia tempo de observar os que caíam nos seus contos. Às vezes, um resto de previsão chegava aos meus ouvidos, “Você vai se casar no ano que vem”.

Bancos e ciganas são semelhantes. A cigana pega seu dinheiro e depois lê sua mão. O banco lê sua mão e depois lhe dá o dinheiro. Os dois querem sua grana. Ambos lhe enganam, e com a sua autorização.

Eu dispensava as ciganas da praça, já sabia meu futuro: dali trinta minutos, devoraria um pratão de arroz, feijão e “mistura” em frente à TV da sala. Era hora do almoço e eu chegava em casa faminta, depois de cinco horas de aula. Também sabia meu futuro, logo após a sobremesa: descansar um bocadinho e pegar os livros. Preparar-me, enfim, para o futuro que parecia tão distante. Eu que li errado; o futuro era logo ali. Às vezes, penso que ele já passou.

Faço nova tentativa. Posiciono minha mão, dedos estatelados como mostra o desenho no painel. Seguro o ar para não movimentar nenhuma impressão digital. Tenho a impressão de que a máquina me olha com olhos de big brother, e também analisa meu penteado, confere minha roupa, será que gosta da minha echarpe de bolinhas? Eu confiro o tempo lá fora, vem chuva.

Que revelações o leitor biométrico do caixa eletrônico, esse cigano de lata e plástico, me reserva? Terei sorte no amor? Farei uma grande viagem? Viverei feliz para todo sempre? Ou serei assaltada na saída?

A biometria diz que eu sou única. Mas só a cigana fala de amor.

Enquanto roo o esmalte

Foto: Naíra Teixeira Dias
Foto: Naíra Teixeira Dias

Em véspera de manicure, gosto de adiantar o serviço. Arranco o esmalte com os dentes e destruo a mandala colorida das unhas, feita com tanto capricho na semana passada. Durante dias justifico a pia cheia entoando o mantra “Não posso lavar louça”. A passagem do tempo está em minhas mãos.

Enquanto roo o esmalte, penso na roupa que ainda não tirei da secadora, na viagem de final de ano, na minha fotografia na carteira de motorista. No paradeiro do anel de borboleta e por onde andarão a tia Elisa, o doutor Fuad, a mulher das cocadas. Se volto a estudar ano que vem, se faço mais uma tatuagem, se mereço ser feliz.

Roer é uma espécie de meditação.

Enquanto roo o esmalte, quieta num canto do sofá, finjo prestar atenção no Jornal Nacional. Nessa hora, repasso meu noticiário particular. É quando sou minha própria repórter: investigo e descubro, revelo e reivindico, pergunto e respondo. Às vezes, me engano.

Roer é ato primitivo. Uma extensão da fase oral.

Enquanto roo o esmalte, penso no que vou cozinhar para o almoço de amanhã e onde pretendo estar daqui dez anos. Que caminho farei para chegar ao consultório da ginecologista – a consulta é às quatro – e em qual esquina da vida entrei na contramão, anos atrás. A distância entre o raso e o profundo é de apenas cinco dedos.

Enquanto roo o esmalte, ficam carcomidas as lembranças inventadas de futuro. Vou até o banheiro e procuro acetona no armário. Sei que não existe removedor de passado.

Roer é validar o impermanente.

Enquanto roo o esmalte da vez, ensaio a próxima cor. Flerto com a paleta e namoro tons de vermelho, azul, cinza, marrom, verde, roxo. Eu mando no arco-íris.

Enquanto roo o esmalte, provo que tudo pode ser cancelado, renovado, destruído e reconstruído, indefinidamente. O resto que se lasque.

(Quem quiser entender uma mulher, que leia seus pensamentos nessa hora. Está quase tudo ali.)

Roer é preciso. Viver não é preciso.

A mão da santa

Foto: Maria Guimarães/Flickr.com

P. tem cuidado muito dos santos, ultimamente. Os santos da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, que há tempos precisavam de um carinho. A pequena igreja, feita de taipa de pilão e tombada pelo patrimônio histórico, fica escondidinha no centro de São Paulo e agora está sendo restaurada. Era ali que, antigamente, os escravos condenados davam uma passadinha para rezar, antes de serem enforcados em praça pública, ali perto, onde hoje fica o Largo da Liberdade. Daí o nome da igreja. Pois tudo o que aquelas pessoas poderiam pedir, àquela altura do campeonato, era uma boa morte.

Eu conheci P. no final dos anos oitenta. É uma mulher bonita, alta, magra, esguia, criativa e inteligente. Naquela época, sem noção de sua beleza (ou talvez ciente demais), se escondia nos jeans, camisetas, sapatos sem salto e na ausência do batom. Mesmo assim, chamava a atenção por onde passasse. P. cozinhava, costurava, tricotava, gargalhava, dançava. Dona de um fino senso estético sobre todas as coisas, conversava coisas incomuns e amava intensamente seus amores. Ficou viúva. No velório de T. eu a abracei forte. Seu olhar pedia que eu lhe dissesse o que seria dela daquele dia em diante. Não pude atender minha grande amiga naquela hora: eu não sabia.

O ofício de P. é restaurar objetos que já viveram demais, e que precisam continuar vivendo. Para que, de certa forma, eles expliquem nossa vida, de onde viemos e como chegamos até aqui. Os santos dessa igreja, em especial, devem ter muita história pra contar. Quanto desespero devem ter visto, quanto apelos devem ter ouvido. No entanto, imóveis em sua santice de barro, louça ou madeira, pouco podiam fazer pelos condenados.

P. chegando pela manhãzinha em seu ateliê. Ela diz “bom dia” aos seus santos e se prepara para o trabalho. Um nariz quebrado, um manto puído. Enquanto mexe aqui e ali, vai ouvindo os pequenos e gelados amigos contando coisas do passado. E quando volta para sua casa, à noitinha, certamente chora por tudo que ficou sabendo.

Há nove anos P. e eu não nos vemos. Três anos atrás encontrei, por acaso, um endereço seu, perdido na agenda. Escrevi. Ela respondeu, atualizamos a amizade, o carinho, as saudades e as novidades. E mais uma vez nos distanciamos. Agora, vez por outra nos damos um alô.

P. também costuma recolher bichos abandonados. Os mais recentes – uma cadelinha doente e um gatinho – foram resgatados do Centro de Controle de Zoonoses. Um nobre ato de misericórdia, posto que os animais que vão parar lá e não chegam a ser adotados sequer têm uma igreja aonde possam fazer uma última reza antes do sacrifício. Cujo método, tirante a semelhança da crueldade, chega a ser mais moderno que os enforcamentos dos nossos ancestrais.

Semana passada, após um bom período de silêncio e às voltas com a santaiada da igreja, ela me escreveu:

“Imagine você, que eu estava aqui retocando (vamos ser mais técnicas: reintegrando a policromia) e, olhando as mãos da santa, lembrei das tuas: tão branquinhas! Tem até umas manchinhas como se fossem sardas…”

A lembrança, espécie de elogio, comoveu. Eu não tinha noção – embora fosse de se esperar, pois a praia de P. é o detalhe – de que minhas mãos merecessem. Muito menos tanto tempo e ausência depois.

Acabou que naquele dia fiquei olhando para as minhas mãos mais do que de costume. Tentei me lembrar como elas eram, para entender como elas estão. Ainda são branquinhas. Mas nem tanto, o sol campineiro é mais implacável que o paulistano. O que, nesse ponto, confere à terra da garoa um fator a mais de proteção, ainda que solar. Continuam com sardas. Há nove anos uma aliança vive na mão esquerda, sem ter passado pela direita. Não são mais mãos jovens, com fome de mundo, como aquelas que P. conheceu. Tampouco são as mãos da última vez que nos vimos – já mudaram. Longe de serem santas, elas envelhecem com o resto do meu corpo, no mesmo compasso, nem adiantadas, nem atrasadas. Elas escrevem, desesperadamente escrevem. E hoje já fazem menos sinais feios no trânsito. Sim, as mãos também criam juízo.