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Régua T

regua t

De adolescente, vivi inúmeros conflitos típicos da fase. Amores não correspondidos, absorventes que vazavam, vergonhas infinitas, medos diversos, dúvidas esparsas. Poucos, no entanto, se igualaram à tragédia de carregar uma régua T, diariamente.

Aos quatorze, cismei que seria arquiteta. Influência evidente da irmã, que já trilhava o caminho.

Achei por bem optar por um colegial técnico, para chegar à faculdade de arquitetura mais azeitada. Avaliei os cursos disponíveis e, determinada a ser a versão sardenta do Niemeyer, escolhi Edificações.

Uma das melhores escolas do ramo: Liceu de Artes e Ofícios, no bairro da Luz. Do outro lado da cidade. Encarei o vestibulinho. Passei, que felicidade! Eu estava razoavelmente familiarizada com os materiais que minha irmã usava em seus trabalhos, papel vegetal, escalímetro, caneta nanquim, normógrafo e a própria régua T. Não tinha ideia, porém, do que me aguardava.

A Wikipedia assim a define:

Régua T é um instrumento próprio para desenho técnico. Assim como a régua paralela, é utilizada para apoiar o esquadro ou para traçar linhas paralelas quando apoiada na mesa de desenhos. Possui em média 80 cm e normalmente é de madeira com detalhes em acrílico. É uma régua de forma da letra T, e tem como benefício ajudar o desenhador durante o desenho.

Em meu dicionário particular, o significado é outro:

Régua T é um instrumento de tortura, causador de sofrimento. Não à toa, seu formato lembra uma cruz. Sua função, além de auxiliar na produção de desenho técnico, é fazer a pessoa que a carrega passar vergonha, onde quer que esteja.

Com oitenta centímetros de comprimento, praticamente metade da minha altura, não havia mochila ou pasta que a coubesse. O jeito era levá-la nas mãos. O que também não era simples. Seu formato de espada a transformava em uma quase arma. T de trambolho. T de troço. T de tranqueira. T de traumático. T de tridente – o Diabo, certamente, inspirou-se nela.

Da Mooca, eu tomava o 3104 que me deixaria na Praça da Sé. De lá, metrô até a Estação da Luz. Na volta, descobrira um ônibus direto, com percurso mais curto, porém mais lotado. Ao menos, a régua T só enroscava em uma catraca.

Considerando que sou dotada de apenas duas mãos, e enquanto uma delas tratava de agarrar as barras para garantir minha estabilidade no coletivo chacoalhante, a outra eventualmente abraçava os livros (só fui ter mochila mais tarde). De modo que faltava a terceira mão para tourear minha cruz, digo, régua T, que insistia em esbarrar nos passageiros, alguns em pleno cochilo. E, eventualmente, uma quarta, para alcançar a cordinha e informar o motorista que eu desceria no próximo ponto. Depois de “com licença”, “desculpe” era meu vocábulo mais empregado durante o trajeto.

Então, eu compreendi o calvário de Jesus Cristo.

Junto à régua T, geralmente eu levava um canudo de papelão, do mesmo tamanho da régua, com os desenhos. Para facilitar o transporte, eu prendia os dois com elásticos. O que, aparentemente, parecia uma solução inteligente, apenas dobrava minha tragédia. O canudo escapava, os elásticos rompiam, a ponta da régua cutucava a cabeça dos passageiros sentados.

Foram três anos de flagelo.

Eis que, quando o curso estava prestes a ser concluído, comuniquei à família: não vou mais fazer arquitetura. Quiseram saber o porquê. Expliquei que já tínhamos uma arquiteta na família. Que eu flertava com a publicidade há algum tempo. Que me dedicaria a ser a versão sardenta do Washington Olivetto.

Só não contei tudo. A razão, claro, foi a régua T.

Wanda

casa antiga desenho

Chique era a Wanda. Longos cabelos estilo pantera, óculos escuros tipo Jackie Onassis. Bem vestida, a qualquer hora. Morava ao lado da nossa vila, na casa dos meus sonhos.

Acompanhe comigo, com olhos de Google Maps: rua, calçada, casa da frente da vila, área comum da vila, nossa casa na vila. Essa era a extensão da casa da Wanda, cujo limite coincidia com o da nossa. Cinquenta metros no total. Uns oito de largura. Casarão, para os modestos padrões da Mooca da minha infância. Nos fundos do terreno, exatamente ao lado da nossa casa, um pomar.

Completando a quimera, a Wanda. Moça bonitona e, na minha avaliação, rica. Moderna, tinha carro e dirigia. Nada lembro do marido. Nenhum registro sequer em minha memória. Se alto, baixo, feio, bonito. Nada. Não tinham filhos, mas cachorro: Gueibin. Não sei como se escreve. Gaybin? Gabin? Um cachorrão deste tamanho, alegre e saltitante. Eu os via e ouvia chamando o peludo para lá e para cá, Cuidado com o portão!, Para, Gueibin!, Não deixa ele sair! Da mesma forma, nunca soube: Wanda com W ou com V? Nunca conversamos.

Gueibin era da raça setter irlandês. Jamais brinquei com ele. Quando eu passava na rua, em frente ao seu portão, nunca o via. Não era cão autorizado a latir para carros e gentes. Pena.

Antes de eles se mudarem para essa casa, havia outra vizinha. Uma senhora, cujo nome não me recordo. Só sei que dava jabuticabas para nós, por cima do muro. Depois que ela se mudou, o muro cresceu, a Wanda veio. Adeus, jabuticabas.

Nossa casa da rua Natal era pequena, ampliada na base do puxadinho. Eu passava bastante tempo pensando nas casas do bairro onde eu gostaria de morar. A da Wanda era a campeã. Em segundo lugar, um sobrado bacana na rua Jaboticabal, com pomposa rampa ligando o portão à porta de entrada. A janela da sala era um espetáculo: de parede a parede, do teto até quase o chão. A da nossa sala era tão mirrada. Para piorar, dava para o tanque de lavar roupas, no quintal. Por isso, quase nunca ficava aberta. A porta, então, fazia as vezes de janela também. Somada a outras limitações, não é de admirar que eu tenha dedicado tanto tempo sonhando com as casas do pedaço.

A única janela que me conectava ao mundo externo – fator de grande frustração – era a do quarto da minha mãe, que dava para a vila. Meu observatório geral de fundos de casas e telhados e horizontes, em um bairro predominantemente térreo, ainda imune à especulação imobiliária. Apenas ouvia os ônibus, as motos, o vendedor de biju, o sorveteiro. Dali, via a Wanda saindo. A Wanda chegando. A Wanda ralhando com o pobre Gueibin, que devia aprontar as suas.

Se viva for, Wanda deve beirar os setenta anos. Mais, até. Será que ainda usa óculos escuros? Será que tiveram filhos, netos, bisnetos? O Gueibin, se foi papai naquela época, talvez esteja na centésima geração. Que centésima o quê; tricentésima. Quem sabe já não topei, por esse mundo e sem saber, com um descendente seu, rolando n’alguma grama, batizando poste?

Depois que Wanda, marido e Gueibin se mudaram de lá, um japonês comprou a casa. O homem não era sofisticado, não usava óculos escuros. Nem cachorro, tinha. Ainda por cima, trocou o delicado portão de madeira da frente por outro, feioso.

Namorei um rapaz que tinha um setter irlandês. Como gosto de inventar reencarnações para os bichos, não demorou para que eu estabelecesse a conexão. Nunca confessei ao namorado, mas houve vezes em que cochichei ao ouvido do cão, como se segredo nosso fosse: “Eu sei que você é o Gueibin”.

Passou “Um peixe chamado Wanda” no Telecine. Aquele, dos anos 1980. Eu poderia fazer um filme também, “Uma vizinha chamada Wanda”. Nele, uma garotinha sardenta narraria, em primeira pessoa, suas filosofações sobre janelas, memórias e jabuticabas. Seu melhor amigo seria um cachorro. Igualzinho ao Gueibin.

Wilson

O ano? Não me lembro. Estávamos no primário. Ao subir as escadas, estranhei os colegas no corredor, quando deveriam estar na sala de aula. Ninguém correndo ou fazendo bagunça, que seria o normal. Uns com olhar espantado, outros conversando baixinho. Perguntei o que havia acontecido. Um deles contou: O Wilson morreu.

Wilson era da nossa classe. Oito, nove anos? Fora atropelado na rua onde morava, enquanto brincava. Caminhão, disseram.

Até então, nenhuma criança, que eu tivesse conhecimento, havia morrido naquele nosso pedaço da Mooca. Tão perto de mim. O ineditismo da morte pegou-me de jeito. Um estranhamento, uma tristeza recheada de susto.

Não fui ao seu enterro. A professora deve ter ido. As aulas continuaram sem ele. Seu nome era o último na chamada. Que ficou mais curta.

Daquele dia em diante, a cada vez que eu passava pela rua Florianópolis, pensava nele. (Ninguém sabe, mas até hoje, se acontece de eu passar por ali, penso.)

Não que fôssemos grandes amigos. Pouco sabia dele. Se assistia Família Dó-ré-mi ou se preferia Perdidos no Espaço. Para qual time torcia. O que gostava de pedir na cantina na hora do recreio. Não conhecia seus pais. Mas era alguém que eu via todo santo dia útil, entre cadernos e livros e provas de matemática e brincadeiras no páteo. De repente, nunca mais.

A morte, às vezes, pode marcar mais que a vida.

Não há uma fotografia dele sequer em minhas recordações da escola, já procurei. Para lembrar de seu rosto, preciso me concentrar. Então, ele surge por alguns segundos, para logo se misturar com os de outros colegas e desfazer-se em uma imagem difusa. De concreto, apenas isto: Wilson, meu colega de classe no primário, morreu. Tinha oito, nove anos? Caminhão, disseram.

 

Nota: devo registrar, a título de assossego interno, que quando recebi a notícia dos colegas, ali no corredor, talvez por distração, ou por não ter ouvido direito, entendi outra coisa. Algo como o professor ter faltado, que não haveria aula. Soltei, para espanto geral, um infeliz “Graças a Deus!”. Só depois me dei conta do vexaminoso mal-entendido. Por instantes, fui a sem-coração da turma.

A rua

“Street”, Lea Vervoort

As casas perfeitas eram sempre de frente para a rua. Onde, da calçada, já se entrava na garagem, e da garagem, na sala. Nessa sala, idealmente, a janela tomava a parede frontal toda, nada de janelica. E dela se podia ver o movimento lá fora: quem vinha pela calçada, quem passava de moto, de carro, os vendedores de tudo, os ônibus, os vizinhos. Glória, então, se fosse sobrado: além da escada, que eu considerava chique, o quarto da frente, sobre a sala, virava camarote.

Não fui criança de desejar viver em mansões, palacetes, nada disso. Modesta, bastava-me um sobrado geminado de frente para a rua – típico da Mooca, meu universo natal e então única referência arquitetônica – e eu estaria realizada.

Quis o destino, esse fanfarrão de marca maior, que eu fosse viver em uma pequena vila, de onde não se via absolutamente nada da rua, nem uma nesga de calçada. Ainda se fosse a casa 4, da Dona Antonia, que era a última e única alinhada ao corredor de entrada da vila. Mas não: a vida colocou-me justo na casa 1, a do canto, a mais distante de tudo e de todos. Quando o moço do biju passava com sua matraca, teleq-teleq-teleq, era preciso sair correndo para alcançá-lo já quase na esquina, pois nem sempre ele adentrava a vila para oferecer seu quitute. Quem morava de frente para a rua não passava esse apuro.

Suspirava quando ia à casa das amigas. Em frente às suas salas, seus quartos, suas garagens, se dava a adorável e mágica dinâmica da rua. Como elas deviam ser felizes! Era como pertencer à grande festa cotidiana, fazer parte do filme urbano, viver, enfim. Na vila, eu me sentia fora do cenário, do enredo, do baile.

Não que detestasse a vida na vila; ela acabava sendo uma extensão do nosso diminuto quintal, onde se podia brincar à vontade, andar de bicicleta e skate, sentar no chão e ficar conversando até tardão.

O problema surgiu à medida em que a adolescência chegava. A rua era o cosmos onde circulavam os amigos, os inimigos, os paqueras. E, da janela da nossa sala, eu não avistava nada, além do tanque onde meus avós lavavam roupa. Do quarto dos meus pais, que dava para a vila, só os fundos das casas da frente. E alguns telhados do quarteirão, com eventuais gatos zanzando. Pouco, para minha sede juvenil de acontecimentos (e pertencimento).

Movida pela quimera da moradia ideal, punha-me a desenhar, obsessivamente, casas imaginárias sob medida para a minha felicidade. Caprichava na planta, me dedicava às fachadas. Talvez tenha escolhido Técnico em Edificações no segundo grau por conta disso. Ainda bem que a opção mostrou-se, a tempo, puro delírio.

Mudei-me da vila já adulta. Outros lares vieram, e a vista para a rua nunca mais foi requisito. Os sonhos envelhecem.

Há anos moro em um condomínio horizontal, que nada mais é que uma vila grande. Retornei às origens, por deliberada vontade. Nossa casa é uma das últimas, escolhida a dedo. Quanto mais longe da rua, dos barulhos, dos ônibus, das fumaças, das buzinas, das motos, dos escapamentos adulterados, melhor. Não que tenha deixado de gostar da rua; agora, eu decido quando quero vê-la. Passei a apreciar, sem sofrimento algum, o silêncio e o sossego. A melhor coisa de se ver ao acordar, descobri, não é a rua. É um bem-te-vi carregando um galhinho no bico.

Sinto falta, porém, do moço do biju. Em compensação, tem o sorveteiro. Aos sábados, ele passa na rua de trás, anunciando no alto-falante sabores de creme e de frutas. Que eu nunca comprei.

Memórias de uma ditadura militar

bandeira brasil pb

As praias do Brasil ensolaradas

Lá lá lá lá

O chão onde o país se elevou

Lá lá lá lá

A mão de Deus abençoou

Mulher que nasce aqui

Tem muito mais amor

Eu botava o disco na vitrola e ia para o quintal, brincar no balanço. Um compacto com “Eu te amo, meu Brasil”, d’Os Incríveis. Decorei a letra e cantava bem alto, enquanto ganhava impulso no balanço e via, atrás de mim, o quintal de ponta-cabeça. Era começo dos anos 70, Brasil tricampeão.

Pouco depois, em 1973, entrei na escola. Uma vez por semana cantávamos o Hino Nacional e hasteávamos a bandeira. Nada contra o Joaquim Osório ou o Francisco Manuel, tampouco contra o símbolo augusto da paz. É que eu preferia ir brincar no pátio com meus amigos. Achava normais, porém, os rituais cívicos. Assim como soavam normalíssimos os versos ufanistas de Dom e Ravel na canção.

Já no ginásio, aula de Educação Moral e Cívica. Muitos tinham medo do Professor Vadim. Eu tinha. Ele era baixo e andava com dificuldade, tinha uma perna mais curta que a outra e usava um calçado estranho. Não era por isso que eu o temia. Austero, não me lembro de um sorriso seu. Mas lembro do livro que copiávamos no caderno com letra bonita, fruto das aulas de caligrafia, lições sobre amor à pátria e de como deve funcionar um país. E, nas entrelinhas que eu ainda não podia ler, o que um brasileiro de bem não devia fazer, dizer ou pensar. Achava normal ter aulas de Educação Moral e Cívica. Assim como hastear bandeira fazendo continência, feito mini-soldados, cantar hino com a mão sobre o coração, brincar no balanço ouvindo “As tardes do Brasil são mais douradas, Mulatas brotam cheias de calor, A mão de Deus abençoou, Eu vou ficar aqui, porque existe amor”.

Na mesma vitrola também rolava Chico Buarque. Achava “Cálice” linda. Mas, aos doze anos, talvez considerasse apenas uma letra meio maluca que falava do Deus bíblico e do Deus mitológico Baco, com aquele negócio dos vinhos. Mais tarde, entendi a genialidade do Chico. Mas achava normal que ele, assim como outros, precisassem, para poder cantar os horrores que sabiam, disfarçar suas letras para driblar a censura que vigorava na ditadura militar. A normalidade pode ser um perigo.

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo

Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo

Ninguém segura a juventude do Brasil

Enquanto eu fazia coro com Os Incríveis no balanço do quintal, em junho de 1972, a um quilômetro e meio da nossa casa, uma moça chamada Ana Maria almoçava no restaurante Varela, também na Mooca, com mais três companheiros da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Eram guerrilheiros, se opunham ao regime militar. Diz que o dono a reconheceu em um cartaz do governo que caçava “gente subversiva”, e resolveu chamar a Polícia. Ao saírem dali, foram mortos. Apenas um escapou. Eu, que passava sempre em frente ao restaurante, nunca imaginei. Só soube da história muitos anos depois, já grande. Desta vez, não achei normal. Nem Dona Anadyr e Seu Mário Henrique, os pais de Ana Maria Nacinovic. Para eles, era mentira o verso final da canção. Sim, conseguiram segurar a juventude de sua filha. E de tantos outros.

O amolador

foto: arquivo pessoal

Ontem vi o amolador de facas. Daqueles que andam com suas bicicletinhas pelas ruas.

Poderia jurar que eles não existiam mais. Que estavam extintos, feito o rinoceronte negro. Que haviam sucumbido à obsolescência programada, “Compre facas novas!”. Que tinham, enfim, ficado na Mooca da minha infância.

Como o que de tempos em tempos adentrava a vila pedalando sua bicicleta mágica, tocando a inconfundível melodia na flauta pan, avisando as freguesas que ele estava no pedaço. Meu avô, às vezes minha avó, atentos às mensagens sonoras do bairro, desciam as escadas trazendo os utensílios que precisavam de um trato. Uma faca embotada, alguma tesoura cega, um alicate de unha. Então a bicicleta, tal um Transformer, virava a geringonça de afiar. As rodas ficavam suspensas numa espécie de cavalete e, ao pedalar em falso, o esmeril girava. O ritmo era importantíssimo: nada de corrida, que aquilo não era aula de spinning. Devagar, ele ia pedalando e afiando, afiando e pedalando, parando de vez em quando para conferir se já estava bom. Eu achava engraçado o nome da profissão, “amolador”. Amolar, para mim, era incomodar. Tinha um garoto na escola que me amolava. Puxava meu cabelo, inventava apelido. Ninguém sabia onde o amolador das facas morava, nem mesmo seu nome. A gente só sabia que ele aparecia de vez em quando. Um senhorzinho acima de qualquer suspeita. Deveria ser o avô querido de alguém, um tio zeloso, um pai de família. Pode ser também que não tivesse ninguém e vivesse sozinho. Sabia que o rinoceronte é um dos animais mais solitários do mundo?

A freguesa apareceu no portão. Ela traz a faca de cortar bife. Ele examina o fio, faz muxoxo. É, não está boa, não. Hora de o Transformer entrar em ação. Pena, cheguei tarde; não sei se ele anunciou sua chegada no quarteirão, como fazia o amolador do meu passado. Que não incomodava ninguém.

Na minha rua não passa afiador. Nem de faca, nem de alicate, nem de tesoura. Nunca mandei, aliás, afiar minhas facas. Existe amolador de alegria? A minha bem que anda precisando. Às vezes, sinto-me como o amolador: pedalo, pedalo, e não saio do lugar.

A freguesa avalia o resultado, faz sinal de aprovação com a cabeça. De longe, ela se parece com minha avó. Minha avó tinha facas bem afiadas. Língua também.

E eu pensando que os amoladores ambulantes haviam ficado na Mooca da minha infância. Vai ver, o de ontem é um deles. Veio pedalando, no tempo e no espaço. Levou quarenta anos. Finalmente chegou.

Inquebrável

osso

Tem criança que sonha ser super herói. Tem a que quer ir à Disney. A que deseja ter um macaco de estimação. Eu não queria nada disso. Queria quebrar o braço.

Era dessas quimeras infantis, coisa besta de almejar. Posto que fratura pode ser grave e até fatal. Mas criança, em seu mundo simples, desconhece “grave” e “fatal”. Achava lindo quebrar alguma parte do corpo, andar por aí de gesso, usar agulha de tricô para driblar a coceira, os amigos assinando naquela coisa que ia encardindo com o tempo.

Quis o destino, no entanto, que eu nunca quebrasse nada. Nem braço, nem perna, nem pé. Dedinho, que fosse. Nada. Fui uma criança inquebrável.

Inconformada com a minha resistência óssea, tratei de dar um jeito. “Você é do tamanho dos seus sonhos”, cunharia um guru da autoajuda, décadas depois.

Assim que terminou a aula, fui sozinha até o Depósito São Pedro, uma loja de material de construção que havia na Mooca, e declarei: “Preciso de gesso”.

Voltei para casa com um bom punhado no saquinho e refugiei-me no quintal. Só meus avós estavam em casa, cuidando de seus afazeres, e não desconfiaram da arte. Procedi com a mistura de pó e água. Escolhi o braço: esquerdo. Caprichei na modelagem, limpa daqui, ajeita dali. Em quinze minutos o sonho estava realizado: eu tinha um senhor gesso, que ia da mão ao cotovelo.

É certo que, quando me perguntassem, eu não teria uma história empolgante para contar – que caíra da bicicleta (eu nem andava) ou rolara as escadas – e precisaria inventar. Contava, porém, com a significativa vantagem de não ter havido dor. Nem pânico, chororô, corre-corre ao pronto-socorro.

Improvisei a tipoia com uma atadura encontrada no armário do banheiro, ensaiei alguns gemidos e fiquei esperando mais alguém chegar em casa. Já imaginava o dia seguinte, na escola, sucesso total. O braço esquerdo não fora escolhido à toa; assim eu conseguiria fazer as lições.

Foi quando o portão se abriu. Era minha mãe. Plantei-me na porta da sala e encenei o drama. Ela, de longe, levou as mãos à boca. À medida que subia as escadas, querendo saber o que havia acontecido, eu me enrolava na narrativa e deixava escapar uma risadinha, e seu susto se desfazia.

Em menos de um minuto eu fora pilhada na farsa. Mãe é mãe, mas meu trabalho era amador. Rimos. E precisei tirar aquela porcaria antes do banho.

A filha do amigo quebrou o braço esta semana, cirurgia e tudo. Por causa dela, lembrei da história. Não sei se ela, quando criança, também tinha esse desejo bobo. Não sei se ele, quando a viu quebrada, levou as mãos à boca, em procedente susto.

Só sei que pensei no Depósito São Pedro e na minha mãe. Nenhum dos dois existe mais.

Eu continuo inquebrável. Assim como minhas memórias. Meus sonhos, hoje, são outros. E, pensando bem: eu já quis, sim, ter um macaco.

 

Para o Zé.

De onde?

arte: René Nijman
arte: René Nijman

– Bom dia. Posso falar com o Fernando?

– Quem gostaria?

– Silmara.

– Silmara de onde?

– De São Paulo. Da Mooca, para ser mais exata. Da barriga da Angelina, casada com o Tonico, meu pai. Nasci na Beneficência Portuguesa, ali no Paraíso. Foi um Deus-nos-acuda naquele hospital, eu não queria saber de nascer, dá-lhe fórceps, vim toda roxinha, não chorava, minha mãe achou que eu tinha morrido e quem chorou foi ela. Mas não morri, e outro dia mesmo estava pensando: sou muito durável. Veja só, tenho quarenta e sete anos. São quarenta e sete anos respirando, sem parar. Inspiro, expiro, inspiro, expiro. Ando pra lá e pra cá, faço isso, faço aquilo, subo, desço, durmo, acordo. Já me machuquei muito quando era criança, rasguei tornozelo andando de skate, cortei o dedo na máquina de frios, tenho a cicatriz até hoje. Bati o carro feio uma vez, engavetei no Minhocão, tive de fazer B.O. de pijama, quem manda dirigir de pijama? Tive sarampo, um febrão que me dava alucinações, via gente pelo quarto, números gigantes flutuando. E tive catapora, estomatite, dez injeções de Benzetacil na bunda, tem noção?, cólica renal em pleno shopping, perdi o jeans da promoção. Pneumonia, gastrite, insolação, devo ter cruzado com muito bandido por aí e nem fiquei sabendo, graças a Deus, quer dizer, fiquei sabendo em duas vezes. E continuo aqui, não é uma coisa incrível? Nunca que um raio caiu na minha cabeça, nunca fui atropelada, nunca quebrei nada. Acredita que meu sonho, quando pequena, era quebrar o braço? Achava lindo quem ficava de gesso, os colegas da escola assinando naquele gesso encardido. Uma vez, fui sozinha na casa de material de construção, comprei gesso e engessei meu braço, improvisei tipoia, fingi o sofrimento. Quando minha mãe chegou em casa levou aquele susto, mas logo sacou, eu fingia mal. Quarenta e sete anos e nenhuma fratura, nenhum osso trincado, nem luxação. Devo ser inquebrável. A inquebrável de São Paulo, da Beneficência Portuguesa. Eu não sou portuguesa, nem descendente. Quarta geração de italianos, precisava tanto ir atrás da cidadania. Sou, de certa forma, da Itália. E da Mooca, da Angelina e do Tonico. Isso para ficar só nesta vida; se você me perguntar de onde, mas de onde mesmo eu sou, espiritualmente falando, só fazendo regressão. Será que sempre estive flanando neste planeta, ou será que já passei por outro? Silmara, de Júpiter. Silmara, de Saturno. Sabia que não é só Saturno que tem anéis? Aprendi com meu filho, ele foi ao planetário. Estou brincando, não sou de Júpiter, nem Saturno. Sou da Terra, mesmo, e de São Paulo, estou em Campinas há uma década, sou praticamente campineira. Morei em outro país, também. Um frio do cão. Aliás, por que se diz “frio do cão”? Ficaria melhor “frio do urso polar”. Então, na verdade, sou de um monte de lugares, dependendo da época, de qual época você quer saber? Sem contar, como falei, dos outros planetas por onde posso ter passado. Está certo, ‘posso ter passado’? Três verbos na mesma oração fica bem esquisito. Sabe, eu escrevo, mas tem horas que dá um branco. Pois bem, sou meio que da Itália e de outro país onde faz um frio do urso polar, de São Paulo, da Mooca, da Beneficência Portuguesa, da Angelina e do Tonico, de Campinas, esquece isso de Júpiter, senão o Fernando não me atende. Aliás, ele está?

– Um instantinho. Vou transferir.

– Obrigada, bom dia. – Fernando?

Cavalo dado…

Arte: Gustav Klim
Arte: Gustav Klim

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia. A TV Jockey é um deles.

Quem assiste?

Sempre que zapeio e passo pelo canal 2, tudo que vejo é a sonífera imagem de uma câmera estática e dois ângulos distintos, igualmente monótonos. Cavalinhos correndo. Cavalinhos correndo. Nem áudio tem; um relincho sequer. Eis o resumo da programação. Turfe deve ser bom para adormecer bebês.

Qual é a charada por trás dos derbies televisionados?

Talvez sejam mal-intencionados alienígenas que, infiltrados nesse esporte, estão empenhados em dominar nosso planeta através dos meios de comunicação. Basta analisar os nomes dos cavalos: Sabor a Triunfo, Undostais, Gandalf The Grey.

Pode ser que, no fundo, tudo não passe de uma seita secreta, cujos membros se comunicam por códigos – trifeta, quadrifeta – que só os iniciados entendem.

Estou quase convencida, porém, de que há uma mensagem subliminar no negócio, cujo objetivo desconheço. Mudo rápido de canal, receosa de viver uma experiência do tipo Poltergeist, onde espíritos do mal relincham e dão coices.

Tais elucubrações me levam ao passado. Em 1876 o Jockey Clube de São Paulo realizou seu primeiro páreo no Hyppodromo Paulistano, no bairro da Mooca. Nasci ali. Na minha época, no entanto, ele já não existia mais. Só restou o logradouro, batizado em sua homenagem: rua Hipódromo. (Embora o hipódromo não ficasse nela, e sim na rua Bresser.) Cavalos, ali, só os das eventuais carroças; os primos pobres das celebridades equinas de outrora.

Não sei de ninguém que assista a TV Jockey. Também não conheço, nem nunca ouvi falar de alguém que tenha o hábito de apostar em cavalos. É uma categoria de seres similar à dos ganhadores da Mega Sena e dos sorteados com carros e casas. Eles existem, embora nunca tenhamos visto um.

O canal, presente em meu pacote de TV por assinatura, é insondável mistério. Nem adianta querer removê-lo da grade. Cavalo dado não se olha a audiência.

Only yesterday

Ilustração: Fractal Ken

É que eu queria dar um presente para meus irmãos mais velhos, com meu próprio dinheiro. Crianças gostam dessas coisas. Fomos à loja de discos e escolhi “Horizon”, vinil dos Carpenters lançado em 1975. Eu tinha o que, oito, nove anos? Como disco presenteia mais de um ao mesmo tempo, eu ficava na sala, encarte nas mãos, cantando “Only yesterday” junto com a Karen Carpenter. Decorava a pronúncia das palavras, sem nem sonhar quais eram seus significados. Foi depois que fiquei amiga do dicionário. Ela falava de um certo ontem para um dia que, agora, é meu ontem também.

Spring era o nome da loja. Num tempo onde lojas de discos vendiam, basicamente, discos. LPs, compactos e K7 (quem lembra?) dispostos nas prateleiras, paredes com pôsteres de cantores e bandas, uma vitrola (vi-tro-la!) para quem quisesse ouvir o disco antes de comprar e pronto. Conseguir a letra das músicas em inglês? Só com o encarte ou o professor. VHS, CD, DVD, MP3, Blu-ray… Não havia tantas siglas. Multimídia era palavra ainda não-inventada e a internet não passava de um embrião no secreto útero norte-americano. (Quando conto minhas histórias, às vezes, tenho a sensação de que não estamos falando do mesmo planeta.)

Ficava a uma quadra de casa, na rua da Mooca, zona leste paulistana. Seu dono, batizado Manoel Francisco do Lago Neto, era o Glenn Michael, cantor de relativo sucesso nos anos 70, quando emplacou duas de suas músicas na Rede Globo. Cara meio quietão, cantava em inglês e “Spring” (claro) e “Just imagine” foram temas de abertura do Jornal Hoje (de eterno ontem e sempre) por um bom tempo. Será que, quando pequeno, ele também ficava de encartes nas mãos fazendo coro com seus cantores preferidos? Perdi minha chance no mundo da música.

A canção que abre “Horizon” é “Aurora”, e a que fecha, “Eventide”. As duas são idênticas, exceto pela letra: uma fala de amanhecer; a outra, de entardecer – também numa espécie de ontem e hoje, passado e presente, dia e noite, começo e fim. Achava bonitíssimo uma mesma música ser duas.

A Spring resistiu por várias primaveras e finalmente fechou. Não sei do paradeiro do nosso “Horizon”. Nem do Glenn Michael. Só sei da Karen, que morreu de anorexia em meados dos anos 80. Uma das vozes mais lindas do mundo. Das mais melancólicas, também. Tristeza e beleza, além da rima, parecem gostar uma da outra.

Resta-me reencontrar as canções nas versões modernas da velha loja do Mané, agora tão atemporais e infinitas no ciberespaço. E foi o que fiz ontem. Somente ontem.

Os parentes de Santo Amaro

Foto: detalhe da estátua de Borba Gato, Augusto Gomes/Flickr.com

A Dona Antonia morava na casa quatro. Nós, na um. Ela costumava receber visita de uns parentes que moravam no bairro de Santo Amaro. Eu tinha a maior admiração por eles. Quando o carro entrava na vila, eu ia espiar pela janela do quarto dos meus pais. Era um carro lindo – eu achava que eram ricos – e podia vê-los desembarcando. Os parentes. Tinha sempre uma ou duas crianças, talvez sobrinhos, que de vez em quando brincavam conosco. Mas eram forasteiros, crianças muito diferentes de nós. Lembro de acreditar que eles deveriam ser melhores que nós em tudo. O carro do pai deles era melhor. Assim como as roupas que usavam. A casa. A escola, então, nem se fala. Só não me lembro deles. A lembrança que tenho é coletiva, como uma entidade – eram só “os parentes de Santo Amaro”. Bom mesmo deveria ser morar lá. E não na Mooca. Pensava: criança de Santo Amaro certamente podia comer Flan Dany todo dia.

Para mim se tratava de um lugar muito, mas muito distante. E não a apenas dezessete quilômetros de casa. Tudo é longe quando se é criança. (Preciso lembrar-me disso quando, na viagem, meu filho pergunta Mãe, já está chegando?) A gente vai crescendo e o mundo, encolhendo. O meu tem ficado cada vez menor. Tudo me parece logo ali. O pior é que nele também não está cabendo mais uma porção de coisas que cabiam antes.

Quando descobri que Santo Amaro, além de não ser tão longe assim, não era um reduto de gente rica, nem um lugar fantástico, senti uma tristeza e alívio imensos. Então era ali que eles moravam? Só faltava ser perto da estátua do Borba Gato. Que, além de horrorosa, foi erguida em homenagem a um bandeirante paulista não tão nobre quanto se fez acreditar.

Tantos anos e quilômetros depois – cento e dezessete, para ser mais exata –, até hoje quando passo por ali ou leio alguma notícia de lá, é dos parentes da Dona Antonia que me lembro. A força do mito.

A mulher das cocadas (ou: Sobre a confiança)


Ilustração: Larry Wentzel/Flickr.com

Responda rápido: a campainha toca, você atende, uma mulher que você nunca viu lhe oferece cocadas. Você compra?

Em dois mil e nove: nunca.

Em mil novecentos e setenta e pouco: se a iguaria parecesse boa, sim.

Foi assim que na Mooca dos imigrantes italianos, numa pequena vila com quatro casas, a mulher das cocadas ganhou sua freguesa-mirim. Que se lembraria dela até hoje, embora não soubesse seu nome, muito menos de onde vinha.

Mas sabia que vinha. Geralmente uma vez por mês, a mulher aparecia com seus doces. Uma senhora negra, arredondada, de bochechas sorridentes. Gentil. Quarenta e poucos anos, no máximo. Fazedora da cocada mais gostosa que já comi em toda minha vida. Cremosa, açúcar na medida certa – nem a mais, nem a menos. Flocos de coco num mar de leite condensado. Firmes e bem modeladas. Vá lá, há certa dose de nostalgia nisso tudo. Talvez fosse uma cocada comum. Mas o sabor dela e a imagem da mulher ficaram guardados na memória da menina de seis anos, naquele compartimento que costuma dar zoom em tudo: os sentimentos e as sensações das coisas boas e das ruins. E quando tem açúcar na parada, a lembrança fica cristalizada, doce, eterna.

Na primeira vez minha mãe comprou só algumas. “Para experimentar”, explicou. A mulher prometeu voltar para saber se havíamos gostado. Ela voltou, e os pedidos aumentaram. Até que um dia não houve mais pedido. Porque a mulher desaparecera. Ficamos órfãos da cocada.

A cocada branca da mulher negra ficou para trás. E o tempo trouxe outra dúvida: o que foi feito da confiança, esse sentimento que, ao lado da generosidade e da gentileza, movem a humanidade? Minha mãe olhou nos olhos da mulher, e a opinião saiu na hora. Ela não prestou muita atenção na maldade e no perigo que poderiam estar escondidos, disfarçados na forma de uma senhora bondosa e risonha. E deu certo.

Hoje só compramos alimentos que tenham nome, sobrenome, endereço, informação nutricional e prazo de validade. Sabe-se lá como é que a mulher fazia suas cocadas? Não importava, essa era a verdade. A cara dela era boa. A da cocada, melhor ainda. Pronto.

As relações pareciam mais simples, antigamente. Binárias: sim ou não. Longe do meio-termo medroso e cheio de dúvidas traduzido no “talvez”, “depende”, “mas e se” de agora. Sim, a nostalgia é uma forma de homenagem ao passado.

Mas confiança não deveria ser coisa do passado. Me diz: como é que a gente resolve essa parada?

O terno

Seu Carlos vende biju no Balão da Bela Vista, um cruzamento importante de Campinas. Mas seu Carlos não é um vendedor de biju qualquer: ele trabalha de terno e gravata. Ele é um homem de negócios, e o negócio dele é o biju. Sua loja é a imensidão do cruzamento. Por ali passa tudo: gente rica, gente pobre, homem, mulher, criança. Se contarmos quantas pessoas passam por ali, por minuto, não tem para ninguém: não há ponto-de-venda no mundo mais bem localizado. Nem vitrine melhor: não tem começo, nem fim, ela é onde seu Carlos passar. Nem todo mundo que passa por ali está disposto a comprar alguma coisa, é verdade. Mas quem é que não repara no seu Carlos? Quem é que não é atraído pela surpresa do seu terno bem cortado?

O terno do seu Carlos desconcerta o mundo à sua volta, porque inventa um novo significado para o dress-code pobre e triste das corporações: ele não está na rua a caminho do escritório. Ali já é seu escritório. Nas ruas, o terno – inventado para padronizar, endurecer e esconder tudo, reunindo nos escritórios os que são da mesma tribo, de preferência falando e pensando igual – acaba sendo o grande elemento da distinção. Escancarando o quanto precisamos de padrões para poder viver, e aí a vida fica um tanto pobre. Ficamos surpresos com o terno do seu Carlos ali, no sinal. Porque, no fundo, temos a ideia de que quem trabalha na informalidade das ruas não precisa se apresentar bem para seus clientes.

Mas o biju. Feito de água, farinha de trigo e açúcar. Gosto nostálgico da boa infância na velha vila da Mooca. São Paulo, anos setenta. De repente, ouvia-se ao longe, na rua, o homem do biju chegando. Achava linda aquela mistura de matraca com pandeiro, o som era inconfundível. Nunca reparei direito no instrumento, mas devia ser coisa das mais simples e improvisadas. O homem (era sempre um homem, nunca vi mulher vendendo biju) começava devagarzinho, ritmado, teleque… teleque… teleque… e de repente o som crescia, tectectectectectec! Eu pedia dinheiro para minha mãe e saía correndo para alcançá-lo. Nunca mais vi um desses.

Diziam que era um cabo de vassoura que dava a forma ao biju. Eu achava a coisa meio nojenta, mas comia assim mesmo. Eu pensava que, de certo, eles lavavam o cabo da vassoura antes. E pronto. Fiquei sabendo que existe uma máquina que faz o biju ficar com aquele formato de canudo. O que, evidentemente, não tem a menor graça, já que o charme do biju é o seu artesanato, sua impureza, sua venda informal, sem nome de fabricante, nem prazo de validade, nem informação nutricional. Sem nos deixar saber se contém glúten ou gordura trans.

Sinto falta quando seu Carlos não está lá. O Balão da Bela Vista fica menos interessante.