Casa de vó

Trouxe do supermercado um pão sovado, petulantemente batizado “Casa de Vó”. Que mentira, que lorota boa. Como se esse pão que vem no saquinho plástico, recheado de estearoil, propionato e sorbato (seja lá o que for isso), soubesse o que é casa. Quanto mais o que é vó. Que eu saiba, casa de vó é outro papo. Embora a minha, que me lembre, nunca tenha feito pão.

Das frustrações que trago na vida, uma é não ter passado férias, aquelas férias idílicas de livro e filme, na casa de vô e vó.

É que os pais do meu pai, não conheci. E a casa dos meus avós maternos se confundia com a nossa própria casa. Bastava subir quatro degraus e eu estava lá. Pequena casa construída no quintal, pelas mãos hábeis do vô Paschoal, aproveitando o fundo do terreno. Cozinha, sala, quarto. Banheiro, fora. Costume antigo, esse dos banheiros externos. Resquício dos tempos de esgotos rudimentares. Problema que não tínhamos, mas talvez a engenharia ancestral dera o tom na hora de meu avô planejar a construção. Eu, criança, dava graças a Deus por nosso banheiro ficar dentro de casa. No inverno, não precisava por casaco para ir fazer xixi à noite.

As férias escolares eram feitas de intermináveis quatro meses: dezembro, janeiro, fevereiro e julho. Cento e vinte dias por ano longe das lousas e cadernos, para se fazer o que quisesse. Eventualmente, nada. Parte deles, no caso dos livros e filmes e alguns amigos reais, passados na casa dos avós. O que podia significar uma temporada inteirinha comendo biscoitos pela manhã, sorvete depois do almoço, café com leite e bolo de chocolate à tarde, sopa à noite, chupando manga no pé (a legítima casa de vó tem mangueira), ouvindo histórias do arco da velha.

Em vez de sorvete e bolo de chocolate, na casa da minha avó tinha pão de glúten, queijo branco, leite Molico e Assugrin. Diabética, ela decidiu que só poderia comer e beber aquilo. Ter três netos ali ao lado não alterava o conteúdo de sua despensa. E o pão que ainda fermenta na minha memória é a bengala que meu avô trazia embaixo do braço e a gente fazia na frigideira, em rodelas e com margarina. Um pão chamado “casa de vô” mexeria mais comigo.

Não posso negar, porém, que a casa dos meus avó tinha seus encantos e mistérios. Mais mistérios que encantos. Meu avô, devotíssimo, mantinha sobre o guarda-roupa uma coleção de santos digna do Vaticano, em um altar com luzinha e tudo. Eu morria de medo, rezava (!) para que não me pedissem para buscar nada no quarto deles. Meu irmão mais velho, então meninote, dizia ver freiras pelo quarto. Questão devidamente resolvida na Federação Espírita, com um passe. Havia também o porão sob a cozinha, onde só se entrava ligeiramente agachado. Ali ficava guardada, entre outras tralhas, a enceradeira. Das antigas, grandalhona. Dia de faxina era dia de passear de enceradeira. A gente se aboletava sobre o motor e lá ia meu avô, dirigindo a máquina e lustrando o velho assoalho de tacos.

O pão do supermercado, também não posso negar, é bom. Da Seven Boys, nome tão presente na minha infância. Em casa, vejam só, éramos sete. Um a um fomos saindo, cada qual a seu tempo e destino. Hoje as duas casas, amalgamadas pela história e poeira, são só um triste conjunto de paredes descascadas e estuque prestes a ruir. Fechadas, sem criança em férias, sem vó, nem vô. Sem pão, sem santo, sem nada.

2 comentários em “Casa de vó

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