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Crônica de minuto #61

mentalize-itaiana
“Mentalize”, Itaiana Battoni

Vi no jornal da TV, a moça do tempo está grávida. Pensei: hoje está bom para escrever um pouquinho. Temperatura mínima de duas palavras, máxima de duas mil. Pancadas de café ao longo do dia.

A moça do tempo está grávida. Ela espera el niño. A espera, invariavelmente, é feita de tempo. Tempo bom, tempo nublado, tempestade, furacão. Todas as condições cabem numa barriga de mulher.

A moça do tempo está grávida. Ela mostra onde vai fazer frio. Dentro dela, no entanto, é sempre verão. Seu corpo é um mapa múndi e ela está grávida de sol, encoberto por nuvens de curiosidade, “Como será o rostinho?”. O tempo, eterno gestante, vai parindo a todo instante. Seus filhos se chamam acontecimentos.

A moça do tempo não sabe a hora que seu bebê vai nascer. Quando sentir que chegou a vez, irá ventando para a maternidade. Nesse dia, será que vai chover nos olhos dela? Não sei. Mas a previsão é que ele seja muito amado.

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Crônica de minuto #58

“sem título”, 2013 – Simone Huck
“sem título”, 2013 – Simone Huck

Aconteceu que ontem foi meu aniversário. E também o funeral do marido da minha amiga. Entre comemorar meu nascimento e lamentar a morte alheia, eu não sabia se ficava alegre ou triste. Na dúvida, fui os dois. A mim, chegavam as mensagens virtuais de parabéns. A ela, num desolador tête-à-tête, as de pêsames. Em todas, um brinde aos polos da existência – mais conectados, simultâneos e implacáveis do que se imagina.

Ele pedira para ser cremado. Sem velório, sem delongas. No crematório, a sala da cerimônia, ou sala da despedida, é uma espécie de arena. No centro, quem vai; ao redor, em circulares bancos cor de cinza-dor, quem fica. Pareceu-me aquele programa de entrevistas da TV, o Roda-Viva. No centro, sempre um pobre sabatinado; em volta, impiedosos inquisidores e suas mortíferas questões. Na despedida de ontem, as perguntas dos que (desta vez) ficaram eram feitas em silêncio. E ninguém sabia as respostas.

Para Dinah.

Crônica de minuto #56

arte: Jairo Souza
arte: Jairo Souza

Alguém morre e logo se conjuga:

– Descansou.

É a secular, esperançosa e bem-aventurada ideia de que, ao morrer, ganha-se de presente o repouso absoluto. Seja porque a pessoa livrou-se do sofrimento da vida nem sempre fácil no planetinha azul, porque se foi sem aviso-prévio ou porque viveu o bastante.

Estão pensando que é assim, é? Que morre-se e entra em férias eternas? Que se muda para um céu de infinita varanda com sofás fofos e macios, poltronas reclináveis, música da boa e suco de frutas vermelhas à vontade? Que o universo celestino é um dolce far niente sem agenda, sem relógio, sem calendário e muita, muita soneca?

Talvez estejamos todos redonda e mortalmente enganados.

Liberta da carcaça e agora transmutada na luz e energia originais, a alma ainda não chegou ao seu destino. E se a pós-vida terrena exigir de quem se foi, em vez de folga, trabalho dobrado? Tratamentos, estudos, reflexões, revisões de lições que ficaram para trás, atualizações de mundo, planos para um retorno.

Viver dá trabalho, morrer também. A vista, de lá, certamente é bonita. Mas Deus não dever dar mole, não.

Sete dias

arte: juliana moraes
arte: juliana moraes

Ontem fui à missa da mãe de minha amiga. Já são sete dias, na contagem terrena, desde que ela partiu. Somos semanais. E precisamos das missas para pontuar as chegadas, as partidas e os durantes da vida. O que é uma missa, se não uma conversa, coletiva e no viva-voz, com Deus?

Antes de ontem, conversamos longamente, ela e eu. Ela falou das mudanças que a vida quer que ela dê conta, dos aprendizados com pai e mãe, esses sujeitos compostos, determinados e nada ocultos da nossa história. Queixou-se do inferno astral – faz anos semana que vem. A morte é um tipo de aniversário.

Cheguei atrasada, a missa já havia começado. Sentei-me atrás, em silêncio. Escaneei o salão, à procura da minha amiga. Logo avistei seu cabelão anelado, no primeiro banco, à esquerda. Durante a celebração, foram suas costas que vi. Não soube de seus olhos, se secos ou molhados. De costas, ninguém é alegre ou triste.

(É da fachada que todos cuidam mais: gravata, colar, estampas, enfeites. Adereços, assim como emoções, estão invariavelmente na parte da frente. Vivemos todos em uma imensa igreja, porém. E também somos demoradamente vistos por trás…)

Quando eu era nova, nas missas, queria ser como as pessoas que sabiam todos os ritos, faziam os movimentos na hora certa, conheciam as rezas, cantavam as músicas sem precisar olhar no papelzinho. Eu, semianalfabeta católica,  nunca sabia o que fazer: em que hora deveria me levantar ou erguer as mãos ou fazer o sinal da cruz; desconhecia todos os refrões e não entendia por que não podia mastigar a hóstia, mas esperar que aquela massa insípida e redonda se dissolvesse por completo em minha boca. Preocupada em acompanhar a coreografia e não errar, não me atinha à fala do padre. ‘Colava’ de quem estivesse ao meu lado. Mesmo assim, estava sempre perdida, deslocada, atrasada. Ontem, soube: ainda estou.

Sempre quis saber se a pessoa que se foi assiste sua própria missa. Encarapitada n’alguma imagem de santo, zanzando pela nave da igreja ou flutuando feito nuvem ao lado de quem ficou. Pensei no dia, lá na frente, em que os amigos de meus filhos comparecerão à minha missa de sétimo dia, como fiz ontem. Que saberão, os amigos, de mim? Eu pouco sei da mãe da minha amiga. Eles não saberão nada. Não saberão, inclusive, como é gostoso encarapitar-se n’alguma imagem de santo, zanzar pela nave da igreja e flutuar feito nuvem ao lado de quem ficou.

Para Monica

E eu não morri

Arte: Steve Bridger

Eu viajaria no dia seguinte, pela manhã, e retornaria à noite. Na véspera, me vi redigindo longo e detalhado email ao marido, com um inventário de informações e eventuais providências sobre a rotina da casa, das crianças, do meu trabalho em andamento. Por quê? Para o caso do avião cair e eu morrer, oras.

Tive medo de partir desta para melhor e não quis lhe dar trabalho para descobrir o modus operandi de algumas coisas que somente eu cuido ou sei. Não que ele seja alheio a elas, mas as minúcias, como a senha do meu computador, não é exatamente assunto que se lembre de conversar no jantar. Precaução extra de minha parte? Maluquice? Talvez apenas um devaneio de insubstitubilidade. Como se a Terra fosse interromper sua rotação, caso eu esticasse as canelas. Ou, como bem pontuou a amiga psicanalista assim que soube da missiva candidata a póstuma: meu caso é grave.

Se eu batesse as botas durante o voo, como é que o marido daria conta de saber, com relativa facilidade, quando as crianças têm consulta no pediatra? Que remédios meu pai toma? Onde está o bilhete da Mega Sena do concurso de amanhã? (Vai que.) Como ele daria a notícia aos leitores deste blog e aos meus amigos do Facebook, se não soubesse logins e senhas?

Contatos, pendências, compromissos marcados, as ONG’s de proteção animal que eu ajudo, a reiteração de que sou doadora de órgãos. Tudo se perderia entre as missas de sétimo dia e de um ano. Eu bem que tentaria falar com ele, mas não é certeza de que o wi-fi do lado de lá seja bom.

Nem em meus mais esquisitos sonhos pensei numa ação preventiva como essa. É algo que não passa pela cabeça. Como se morrer fosse uma possibilidade remota. Como se isso só acometesse quem viaja de avião. Ah, o nosso ingênuo imaginário. A morte pode estar em um tropeção na sala, num atropelamento besta, num  assalto, num infarto sem aviso prévio. Nunca cogitamos a impermanência no cotidiano.

Fui caprichando no email. Quando cheguei ao item 9, ri. Nisso que dá ter trabalhado em planejamento. Imaginei o marido lendo o email no outro dia, e eu em casa, vivinha da silva, dando comida aos gatos, levando as crianças para a escola. Como de costume.

Mesmo rindo e duvidando da sua utilidade, enviei o email. Ele não respondeu. Deve estar aguardando o melhor momento para fazer piada.

É bom estar viva.

Error

Arte: Id-Iom
Arte: Id-Iom

A mãe de um amigo do marido morreu. “Quantos anos?”, perguntei. A gente quer sempre saber a idade de quem morreu, assim como o peso de quem nasceu. Para, em seguida, inquirir de quê que foi e com quantos centímetros, respectivamente. São as perguntas-padrão, ponteando a curiosidade matemática nos extremos da vida.

“Era bem velhinha”, ele respondeu. Soltei um “Ah” vestido de ligeira tristeza, porém conformado. E segui com meus afazeres, sem choque, sem pena, sem filosofias. Tudo bem morrer velhinho, então.

Há algum tempo, a filha do amigo de uma amiga morreu. Perguntas feitas, respostas dadas, fiz coro na unânime inconformação: uma criança! Ninguém acreditou.

A velhice autoriza a morte. A juventude, não. O velho que morre está em conformidade com a vida. O jovem que o faz comete infração grave contra a (inventada) legislação da natureza. E quanto mais novo, parece, maior o agravante.

É como se disséssemos ao velho: “Já viveu o bastante; pode ir”. E, da mesma forma, ao jovem: “Ainda não viveu o que tinha para viver; tem de ficar!”.

Por um instante, incomodei-me com a possibilidade de ninguém ligar quando eu morrer, quem sabe, com oitenta e quatro anos. Não que eu vá querer choro e vela (nem fita amarela), mas não gostaria que considerassem justa a minha morte apenas por conta da idade que terei no derradeiro dia. E se eu ainda não tiver vivido tudo a que tenho direito? Se ainda tiver planos? Se ainda estiver aprendendo a tocar piano? Quem decide os fins, afinal de contas?

Culpa do planejamento. Assim como se programam tarefas ao longo dos dias da semana, viver está distribuído em anos. Nascer, engatinhar, andar, brincar, estudar, trabalhar, comprar uma casa na cidade, casar, ter filhos, continuar trabalhando, fazer um cruzeiro, ter netos, se aposentar, comprar uma casa na praia, ter bisnetos, morrer. Tirante as pontas, poucas variações dessa ordem são aceitas. Se se morre fora do script, é como se a brincadeira não houvesse valido. Falha na programação. Error.

Não quero mais saber a idade dos mortos. Nem o peso, tampouco altura, dos recém-nascidos. Vou querer saber, sobre eles, outras coisas, mais relevantes para uma lembrança ou votos de vida.

O que explica o mundo, desconfio, não são as respostas. São as perguntas.

Alô, doçura

– Ensina-me a viver.

Não, não é o filme que conta a história de amor entre Maude e Harold, sessenta anos mais novo que ela. Sou eu, conversando com o pacotinho de açúcar. Ele – o pacotinho – tem sempre uma dica imperdível para melhorar a minha vida e os meus relacionamentos. Refinado, ele sabe o que devo fazer para chegar lá. Alô, doçura: você não sabe da missa, a metade.

Tem um que diz “Saia mais com seus amigos”. Mas não há nenhum que fale “Arrume uma babá”, “Trabalhe menos” ou “Deixe de ser preguiçosa”.

Outro, mais orgânico, garante que “Um simples sorriso muda tudo”. Eu digo que um bom palavrão, dos cabeludos, também.

Os pacotinhos do bem-viver são a versão moderninha da ditadura da felicidade. Cinco gramas de teoria industrializada, com uma galeria de frases de efeito compradas prontas. É a psicologia de varejo, bem intencionada, adoçando seu café.

Em alguns, faltam complementos que o pessoal do marketing esqueceu de colocar. “Elogie mais, com cuidado para não se tornar um baba-ovo profissional”. “Plante um futuro melhor, e comece por saber como foi que deixaram este açúcar tão branquinho”.

Há ainda as sandices plenas, que vão do “Diga menos não” (não válido para quem tem filho pequeno da pá-virada) ao duvidoso “Invente menos problemas”. Ou seja: inventar pode, mas sem exagero. Um por dia está bom?

Para terminar, tem o “Viva intensamente”. Pago bem para quem definir, com razoável coerência, que diabos, afinal, é viver intensamente. Se é fazer bungee-jump na Rio-Niterói ou dormir o dia todo. Ficar com as crianças em casa nas férias ou se mandar para um retiro no Nepal. Comer doze Danetes de uma vez ou ler a obra completa do Manoel de Barros.

Quem segue à risca os mandamentos dos pacotinhos de açúcar é, para dizer o mínimo, um chato de galochas.

A vida é doce, mas costuma vir com defeito, acessórios que você não pediu, e não dá para trocar. É um pacote, ou pacotinho, completo.