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Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

Quem acredita, sempre alcança

– Vai, moço! Corre, que dá!

À nossa frente, o ônibus segue seu itinerário. Na calçada, o moço de mochila nas costas, em desabalada carreira (tão bonito, “desabalada carreira”), tenta alcançá-lo. Falta pouco. Mas pé não é roda, difícil competir. A distância entre os dois aumenta.

No jogo Passageiro Atrasado x Ônibus No Horário, sempre torci pelo passageiro. Testemunhei tantos. A mulher de salto que, sem hesitar, arrancou os sapatos para correr e chegar a tempo no ponto. O senhorzinho apertando o passo, segurando o bolso da camisa, cada passo um palavrão. A ruidosa galera do colégio, que mais parecia estar numa gincana. Eu, de nova, nunca corri atrás de ônibus. E o medo de me estatelar no chão? Fora a vergonha de não conseguir. As pessoas na rua olhando, penalizadas. Vergonha também caso fosse bem-sucedida; os passageiros olhando, curiosos, a menina esbaforida e desajeitada com aquela estranha régua T, apetrecho fundamental nas aulas de desenho técnico.

E o moço correndo, acenando ao motorista que não o vê. Meu carro, logo atrás do ônibus. A gente torcendo e sofrendo: “Vai, vai, vai!”. Só faltava a ola, que não dava pra fazer.

Ele desvia da menina toda fitness com o totó, dribla o buraco na calçada, pula o saco preto de lixo, quaaase!, ih não deu!

Dou sinal de farol para o motorista; ou ele não vê, ou finge que não vê. Prefiro acreditar na primeira opção. Colo no ônibus, buzinadinha de leve. O coletivo nada de diminuir, está quase na praça.

Como corre, o moço 2.0. Pés e fé inabaláveis.

No carro ao lado, quatro rapazes acompanham tudo e, como nós, torcem pelo moço. Resolvem encostar, um deles abre a porta e chama, “Vem!”. O moço, desfolegado, entra. O desespero promove súbita confiança. E se os quatro são frios e calculistas traficantes de órgãos, sedam o pobre antes que alcancem a Lagoa do Taquaral, onde sempre tem viatura da Guarda Municipal, retiram seus rins ali, no banco de trás mesmo, e abandonam seu corpo inerte em um fim de mundo qualquer?

Mas o plano dos rapazes, felizmente, é outro: ultrapassar o ônibus, que segue, alheio a tudo – embora já seja visível certo movimento de passageiros lá dentro. Conseguem! O carro para um pouquinho mais pra frente, o moço desce, vai dar!

Vai nada. O motorista do ônibus nem tchum, passa reto. “Não acredito!” – inconforma-se minha cunhada.

E o moço correndo. Obstinação? Prova na faculdade? Tem professor que não deixa entrar depois. O ônibus não era o trem das onze, mas se perdesse aquele… sabe lá quando viria o outro.

Nosso Usain Bolt parece que vai cortar caminho pela praça para chegar ao próximo ponto antes do ônibus, se é que vi direito. De repente, quedê? Perdemos de vista o velocista mochilão, e o coletivo desaparece avenida abaixo.

Nosso caminho, infelizmente, é outro. Jamais saberemos o desfecho da aventura, pois pequenos, mas não menos importantes, acontecimentos não são pauta para os jornais. Embora devessem. A manchete: “Universitário perde ônibus, sai em desabalada carreira (coisa linda!) e o alcança; comunidade vibra”. Pena, perdemos o final da história.

Perdemos nada.

Cruzamos o bairro. Quem emparelha conosco, por acaso, no sinal?

O carro dos rapazes, com o nosso herói. Pela sua expressão, seus rins estão intactos. E não é que eles vão levá-lo ao seu destino? É caminho, afinal. Não custa. Aposto como ficaram amigos, tiraram selfies, já estão se seguindo no Instagram, combinaram uma pelada para o fim de semana.

É como diz o ditado que acabei de inventar: quem acredita, nem sempre alcança o ônibus. Às vezes, alcança coisa melhor.

Mãos ao alto

Como havia vinte e cinco anos que eu não era assaltada, a vida achou que estava na hora de quebrar esse jejum.

Estacionei na rua, para quê pagar estacionamento, não é mesmo?, fui fazer o que eu tinha que fazer, voltei, abri a porta do carro, entrei, ajeitei a bolsa no banco, afivelei o cinto de segurança, apanhei o celular, conectei-o ao carregador, estava mais tranquila que um buda em feriado prolongado, o homem encostou o carão na janela do passageiro, por um segundo achei que fosse pedir informação, ele abriu facilmente a porta, entrou, sentou-se ao meu lado, praticamente sobre minha bolsa, que, aliás, é nova, mandou eu ficar quietinha e não fazer nada, que era para passar o celular, obedeci direitinho, que eu não sou besta de reagir, entreguei meu aparelho com mil e quinhentas fotografias que não estavam salvas na nuvem, dos últimos aniversários dos meninos, das viagens, dos gatos, então ele quis dinheiro, eu pedi licença para pegar a bolsa sob seu bumbum, abri a carteira, tinha quarenta contos, ele reclamou, “Só isso?”, pensei, “É agora que morro e vão rir da minha calcinha de bolinhas no IML”, que ousadia, a minha, andar com essa miséria!, mas ele foi bacana, Síndrome de Estocolmo, versão campineira, catou meus trocados, guardou o celular no bolso da calça, confesso que não sei se ele estava armado; eu que não ia perguntar, o homem desceu do carro, e antes de fechar a porta e ir embora tranquilamente, ainda ordenou que eu continuasse quietinha, claro, sim, senhor.

Quando pequena, eu desenhava bastante. Um dia, não sei por que cargas d’água resolvi desenhar uma cena de assalto. Nela, um homem empunhava sua arma, anunciando o assalto à vítima. No balãozinho, escrevi com letra caprichada a fala do meliante: “Monzoalto!”. Para mim, pequena alfabetizanda atenta à oralidade, era assim que se escrevia “Mãos ao alto”. Acho até que escrevi com S, o que, nesse caso, seria completamente incorreto, todo mundo sabe que seria com Z.

Naquela tarde ensolarada de segunda-feira, o homem não disse “Mãos ao alto”, tampouco “Monzoalto”. Não se usa mais. Agora é o rude “Fica quieto(a) e não faz nada” ou o vago “Perdeu, perdeu!”. Considero “Mãos ao alto”, no entanto, bem mais elegante e educado.

Voltei para casa, fiz B.O. pela internet, chorei, passou. Dias depois, celular novo, contatos restaurados, dados recuperados, inclusive algumas fotografias. Já o meu desenho de criança… ah, esse está arquivado, permanentemente, na memória. Que é minha grande nuvem particular. Essa, meu chapa, ninguém tasca.

1983

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ilustração: Jessica Lopez

“Vende-se – ano 83”. Olhei o Gol à minha frente, tão velho e desbotado. Trinta e cinco anos nas rodas, meu chapa. E, pelo jeito, muitos quilômetros de histórias. Todo valente pela avenida, disputando seu lugar com os irmãos mais novos. Deve ter visto de tudo por esses caminhos de meu Deus. Carregado tantas gentes diferentes.

Onde eu estava em 1983?

O sinal abriu, engatei minha retrospectiva particular.

Quando aquele Gol era novinho em folha, eu tinha 16 anos. Usava cabelos até a cintura, morava na casa 1 da vila. Pesava quarenta e poucos quilos e não gostava das minhas pernas, finas e branquelas. Short e minissaia, por autodecreto, não passavam nem perto do guarda-roupa.

De aniversário, ganhei a Carolina. A cachorra mais linda e doce do mundo. Grandona e folgada, quantas noites a deixei dormindo na minha cama e fui para o sofá. Para não atrapalhá-la. E também porque ela roncava. Ê Caró…

Foi o ano em que, após longa espera, instalaram nosso telefone. Plano de expansão da Telesp, vinte e quatro meses pagando o carnê. Eu era a única da turma que não tinha. Para nunca esquecer: 948-3443. Dona Antonia (a vizinha da casa 4 que quebrava nosso galho quando precisávamos ligar para alguém, ou se um parente precisasse dar notícia importante, geralmente de morte, cujo número era 92-6405) respirou aliviada.

Segundo ano do colegial técnico em Edificações, no Liceu de Artes e Ofícios. Queria arquitetura, como a irmã. De casa, na Mooca, até a Luz, ônibus e metrô. E seiscentos metros de caminhada pela rua Jorge Miranda, em meio às bostas dos cavalos do 2º Batalhão de Choque. Levantava-me tão cedo que, não raro, aportava na escola com a blusa do avesso, ou uma meia de cada pé. O importante era a régua T chegar intacta. Fazia bolo para vender na hora do intervalo. Hoje, quase não faço bolo para meus filhos.

Segundo ano de tratamento da minha mãe. Eu a acompanhava, o hospital era ao lado da Santa Casa. Dia de quimioterapia era o pior. Dona Angelina ficava um trapo. Em frangalhos também, meu coração. Sofrimento deveria ser contável e divisível. “Me dá metade do seu enjoo, dois terços das suas dores”, lhe diria.

Não me lembro de ter ficado doente em 1983. Igualmente, não tive namorado. Mas saracoteava à beça. Saía com os mocinhos e, de vez em quando, mentia, dizendo que tinha 17. E também dei trabalho ao anjo da guarda: andava na moto dos amigos sem capacete.

Escrevi poesias. Aprendi a tocar violão. Passei tardes inteiras ouvindo Vinicius de Moraes e Rick Wakeman. Costurei um macacão azul-céu de popeline para mim.

Em 1983, tinha ideia fixa com o ano 2000, tão distante e irreal. Gostava de pensar onde eu estaria. Em minha prospectiva, imaginava que, caso o mundo não acabasse no Réveillon, aos 32 anos eu haveria de estar casada e teria dois filhos. Manteria os cabelos longos e projetaria casas e prédios maravilhosos. Nessa última parte, errei feio.

Quanto deve estar custando o Golzinho?

O banco da frente

fusca

A caçula completou dez anos, agora pode ir na frente. Fez valer seu direito já nas primeiras horas da nova idade, apropriando-se do banco dianteiro do carro. Sentiu-se, enfim, mais gente do que no dia anterior.

Eu não lembro de quando fui autorizada a andar na frente no carro do meu pai – se é que houve, um dia, a permissão oficial. Mãe moderna que sou, sei de cor idade e altura mínimas exigidas pela lei, as regras das cadeirinhas. Nada disso habitava o mundo dos meus adultos. Era comum o cinto de segurança permanecer, por toda a existência, enroladinho como viera da fábrica (quando tinha). Sarampo, colisão frontal, WhatsApp… As preocupações dos pais são como o comprimento das saias: mudam de uma época para outra.

O mais velho usufruiu o monopólio por quase três anos. Veterano, e ligeiramente a contragosto, cedeu o posto. Também recordo-me de seu estado de graça quando pôde ir na frente e passou a controlar o som. Foi preciso repartir as memórias disponíveis no aparelho, para acomodar as minhas estações de rádio e as deles. Há duas semanas, na qualidade de mãe e prevendo confusão na hora de ir para a escola, fui rápida na sentença: “Na primeira briga, os dois vão atrás por tempo indeterminado”. A intervenção materna encerrou-se ali e o consenso foi celebrado: uma semana de cada um. Uma decisão salomônica em relação ao pobre banco do passageiro não foi cogitada, para meu alívio.

As conquistas da mobilidade humana nas primeiras fases da vida são: engatinhar. Andar. Ir sozinho à padaria. Viajar com a turma da escola. Tomar um ônibus até o centro. Para todas, há o correspondente veicular, representando a hierarquia dos assentos: tudo começa no bebê-conforto. Depois, a cadeirinha. Assento elevado. Diretamente no banco de trás, sem cadeirinha – a glória. Pré-ápice com gostinho de apogeu: o banco do passageiro e o horizonte das ruas, agora desnudado e sem interferências. E para coroar, mais adiante, o banco do motorista. A validação simbólica da maioridade, a consagração da independência.

Por ora, ela, caçula, segue igualmente encantada com o recém poder sobre o som, como o irmão, há alguns anos. Ele já tem nova meta: a minha posição. Conta os anos que faltam para a habilitação. Quer entender cada controle do painel, saber como se sai na ladeira usando o freio de mão.

Eu, que não só ando no banco da frente do carro, como o conduzo há três décadas, confesso: às vezes, tudo que desejo é um banco de trás para chamar de meu. Porque no imaginário da mulher cansada é o assento que melhor representa a tranquilidade de não estar nem aí com horários, rotas ou pessoas esquisitas que surgem nos sinais. Quem dera poder, de vez em quando, instalar-me numa espécie de bebê-conforto gigante e ser apenas levada e trazida. Com o direito de dormir na ida e na volta e ser prontamente atendida em caso de fome. E onde meu campo de visão abarcasse apenas um pedaço de céu azul.

O coco

coqueiro

O Fiat prata acabara de deixar o estacionamento do parque, bem à minha frente. O tráfego, não lá muito veloz, fez com que eu reparasse: um coco sobre o teto do carro. Coco verde, canudinho e tudo. Pendia para lá e para cá conforme as curvas da avenida. E continuava, sabe-se lá como, firme e forte.

Eu poderia ter mudado de pista, distraído-me com o noticiário na rádio ou com o escandaloso ipê amarelo, mas escolhi ficar atrás do carro-coco. Segui-o ao longo do quarteirão, afinal, era meu caminho. Torcendo pelo coco, claro. Ôooa!

Emparelhar e avisar? Pensa, Silmara, pensa.

E se se tratasse de um novo adereço veicular? Não botam bonequinho de Minie nas antenas? Cílios postiços nos faróis? Sei de carro com aquela almofadinha numerada de drive-thru, destinada aos condenados à espera, usada como enfeite. Par de pernas falsas, conectadas à tampa do porta-mala. Que dizer do antológico frango de borracha, depenado, atado ao escapamento? A indústria do bom humor não tem limite. Para inventarem um coco de polietileno com base imantada, canudinho e tudo, é um pulo.

Um tipo de câmera, talvez. Por que não a do Google, disfarçada, mapeando as vias da região? Por via das dúvidas, estando perto, não é recomendável enfiar o dedo no nariz e, sim, manter uma atitude normal de quem sabe que está sendo clicado mas não quer dar na vista que sabe que está.

Quem sabe fosse um experimento social, para aferir níveis de solidariedade e empatia nos grandes centros urbanos? Bolado por sociólogos e psicólogos, a experiência simularia uma situação de rua a fim de verificar até que ponto, no mundo globalizado, as pessoas se importam umas com as outras (e com os cocos abandonados). Babado sério. O resultado sairia num documentário que viralizaria no You Tube e quem resolvesse buzinar e acenar, avisando que há um coco sobre o teto do carro, ficaria mundialmente conhecido por participar do projeto. Observei ao redor: apesar de vistoso e balouçante, nenhum motorista ou pedestre parecia tê-lo notado. O documentário, aliás, iria além, abordando a invisibilidade conceitual das coisas e pessoas no caos concreto das cidades. Babado seríssimo.

Ou, ainda, apenas mais uma pegadinha da TV. O cidadão, bem intencionado, corre tirar o coco antes que ele caia e provoque algum acidente; surge o Sérgio Mallandro vestido de arlequim, “Glu glu, yeah yeah”, acompanhado de garotas trajadas com folhas de coqueiro.

Na rotatória, tive a oportunidade única de ficar ao lado do Fiat. Ele seguiria em frente; eu, à direita. Nunca mais eu saberia do coco. As janelas estavam abertas, quatro rapazes conversavam. Não resisti, desci o vidro e inquiri: “É pra ter um coco aí em cima, mesmo?”. Os quatro se entreolharam com expressão de quem esqueceu o feijão no fogo. Gargalharam. Um deles abriu a porta e, ali mesmo, resgatou o coco abandonado. O trânsito seguiu. Arranquei e pude ouvir, ao longe, uma espécie de apuração interna sobre quem fora o responsável.

Cotidianices numa cidade qualquer, esquecimento comum, inocências urbanas.

Mas se uma fotografia ou vídeo da cena fosse postada na rede social, a patrulha viajandona não tardaria. Porque toda pauta, hoje em dia, requer análise e julgamento. Que irresponsabilidade, a dos rapazes. Comércio informal dos cocos, certeza que há sonegação de impostos. Cocos provenientes de manejo não-sustentável, cadê o Ibama? Vagabundagem (em plena tarde de quarta-feira?). Coco: o aliado das dietas. Coco: o vilão das dietas.

Tempos estranhos, estes, onde tudo pode ser tanta coisa. Menos o óbvio.

E olha que eu nem gosto de água de coco.

Crônica de minuto #59

Quando eu era pequena, meu pai nunca mandava a gente colocar o cinto de segurança no carro. Porque ninguém usava cinto de segurança naquela época. Os carros vinham equipados, mas era um acessório inútil, condenado a permanecer intacto, enroladinho, exatamente como saíra da fábrica. O quanto viajamos no Fusquinha, todos tão soltos.

Quando meu pai entra no meu carro eu preciso, invariavelmente, pedir para ele colocar o cinto de segurança. Ele, que já foi motorista de táxi, nunca se lembra. Porque nunca usou. E sempre se atrapalha. Eu sempre fico irritada e tenho de ajudá-lo. Ele sempre reclama que o cinto deve estar com problema. Eu sempre peço a Deus que me dê paciência com quem tantas vezes me levou passear de carro.

Hoje eu sei o real significado dos três pontos dos cintos. Pai, filha e Espírito Santo.

Amém.

Insulfilm

foto: Rudi Gude
foto: Rudi Gude

Entrou na concessionária e pediu para colocar Insulfilm nos vidros. “O mais escuro que tiver”. O vendedor mostrou os tons e apontou, “Este aqui a polícia pega”.

“É esse que eu quero”.

“Tem certeza?”, estranhou o vendedor. “Se fizerem você tirar, perde a garantia”.

Ela fez sinal de positivo, pediu que tocasse o serviço. Garantias ela já não tinha há tempos.

Em duas horas, saía da concessionária numa espécie de bat-móvel. Testou a invisibilidade ao parar no sinal. Encarou o motorista ao lado e mandou-lhe um beijo. Nada. Para que não restasse dúvida, mostrou-lhe o dedo do meio. Nada. Sorriu e engatou a primeira. Estava protegida.

Entrou no consultório, segunda sessão. Enrodilhava pequenas mechas de cabelos nos dedos, um por um, enquanto o terapeuta anotava coisas num caderno marrom e, de tempos em tempos, a fitava. Fitava mais do que anotava. No décimo dedo, ela anunciou, “Queria por Insulfilm no meu coração. O mais escuro que tivesse”. O terapeuta repousou o caderno no braço da poltrona, também marrom. (“Bom mesmo seria blindá-lo”, ela pensou baixinho.)

Assim como nos vidros do carro, ela queria uma fina e escura película ao redor de seu músculo involuntário. Mais que evitar calor, ela não queria que soubessem o que acontecia ali dentro; as tristezas públicas dão trabalho. Também tinha medo de que lhe roubassem os motivos, as razões, os direitos ao recolhimento. Queria ficar a salvo de assaltos e sobressaltos.

Entrou no consultório, sétima sessão. Cortara os cabelos pela manhã, seus dedos agora ficavam à toa no regaço. O terapeuta quis saber se ainda pensava no Insulfilm cardíaco. Ela sorriu. Ele anotou.

Dois meses depois, foi parada em uma blitz. O policial, cumprindo a previsão do vendedor, encasquetou com os vidros de seu carro. Pediu para ver os documentos. Deu a volta no veículo. Inspecionou o porta-malas. Falou pelo rádio com algum colega, conversaram por consoantes codificadas. Devolveu-lhe os documentos, ela roía as unhas. “Vai ter que tirar”, disse, apontando para as janelas.

Décima nona sessão. Já conseguia enrolar uma nova mecha no dedo indicador, enquanto o terapeuta contava da proltrona nova, vermelho-escuro, adquirida em um brechó. “Só duzentos e cinquenta reais, acredita?”. Em seguida, abriu o caderno, agora vermelho-claro, e quis saber como andavam as coisas. A certa altura, tornou a lhe perguntar se ainda sentia vontade de ter o Insulfilm dentro dela. Ela disse que não, pois sempre haveria alguém lhe pedindo para tirar. Desenrolou a mecha e aproveitou para contar: “Fizeram-me arrancar o Insulfilm do carro duas vezes”.

“Desistiu, então?”.

“Não”.

Vendera o carro.

O que quer o homem que ultrapassa

Da série “Veículo curto”, 2012 – Simone Huck

Só ele ouviu o disparo imaginário do tiro de partida: engatou a primeira, a segunda, costurou, ziguezagueou. A lanterna traseira de seu bólido acendeu cinco vezes em menos de vinte segundos. Tanto esforço para nada: acabou em penúltimo lugar na prova dos cem metros nada rasos do quarteirão encalacrado. Conquistou morno segundo lugar na pole position do sinal fechado.

Afinal, o que quer o homem que ultrapassa? Salvar o planeta, pegar a padaria aberta ou fazer xixi?

A ultrapassagem rápida e feroz preenche sua rotina de ideias lerdas e inócuas. A descoberta da velocidade lhe é soberana à da roda. Missão: ultrapassar o impossível. Quebrar recordes invisíveis. Nascer a cada esquina, parido pelo motor dos duzentos cavalos selvagens e esfomiados. Chegar primeiro ao infinito e além, mais conhecido como nada.

O homem que ultrapassa participa da corrida sem prêmio, encara desafio sem competidor, vive da glória sem devoção, da fama sem fã. Viciado em tempo, tem fantasias com o podium, delira com a linha de chegada que teima em lhe escapar. Morre na praia.

Estamos, ele e eu, sob o mesmo céu, sobre o mesmo asfalto a nos sustentar. Todos de passagem.

Talvez seja um homem sem quereres, feito de estares: à frente, ao alto, avante, em eterna vantagem. Para construir, em prazo recorde, a breve história de seu dia. O que você quer, homem de Deus, ao deixar o mundo para trás? Se nem conhece o que vem pela frente.

Perco de vista o homem que ultrapassa. Apressado, se foi no sumidouro da avenida, desapareceu da minha crônica.

Talvez, no fundo, ele tenha a valentia que me falta, a ousadia que não me pertence. A coragem de que não sou feita. Sou o seu veículo longo. Freio é medo.

Ultrapassada estou.

Andar a pé eu vou (que o pé não costuma falhar)

Arte: TataliaL

De casa até o próximo compromisso são três quilômetros. Tenho a opção de ir de carro, como de costume. E posso também rodar dois quilômetros e quatrocentos metros, deixar o carro lavando no posto de combustível (necessário, após sessão de biscoitos e chicletes no banco de trás) e fazer o restante do trajeto de seiscentos metros a pé.

Verifico os calçados: sapatilhas. Conforto garantido, lá vou eu, ineditamente, de segunda opção. Eu, que não tenho vocação para andarilha. Sou feita de rodas. E meu motor, no quesito exercício, não é flex.

“Lavagem simples, por favor. Não, não precisa de jet cera”. Apanho o canhoto onde a placa do bólido está escrita num garrancho e me despeço, “Volto lá pelas tantas”. Estreio a calçada fervente e meus neurônios se agitam em divertidas sinapses. Para conferir as novidades do velho trajeto, nada como mudar a posição e a velocidade do observador. A pé, tudo fica em câmera normal. Lenta, não.

E em câmera normal, observo o inobservável a sessenta por hora. Dez vezes mais rápido do que as coisas, de fato, acontecem. Não te contaram?

A pé, sou autorizada a seguir pela contramão e dou de cara com vistas nunca dantes vistas. Vejo, de frente, meu caminho ao contrário. É a vida em ré maior.

Passo pelo balão e sua dinâmica circular. Estou no centro de um carrossel urbano. Ao meu redor, cavalos de cento e vinte motores.

Desço a rua, vejo a placa cravada em frente à uma casa, anunciando a panaceia milagrosa à base de babosa que promete tratar tudo. A cura do câncer, quem diria, está num jardim!

Continuo.

A pé, as casas parecem maiores no close do olhar, da audição e do olfato. Maximizo os sentidos para decupar outra dimensão da rua, aquela que normalmente não acesso do meu aquário 1.4 com oxigênio-condicionado.

Vejo meus filhos na porta de uma escola em horário de saída. Mas não são os paridos; são os filhos dos outros. No trânsito de mochilas de rodinhas, um chama “mãe” e eu atendo, instintivamente, com olhar e ouvido atentos. O timbre infantil é coletivo. Uma vez mãe de um, mãe de todos.

Continuo. Sou a versão feminina de Johnny Walker.

Tanto lixo, vontade de sair varrendo tudo. A cidade também é minha casa. Minha casa grande e minha senzala. Sou dona e escrava da rotina urbana. Quero alforria sem açoite.

Atravesso. Meu GPS interior avisa: “Você chegou ao seu destino”.

Três horas depois, tomo o rumo do posto. Para concluir a round trip, escolho o outro lado da calçada para imprimir minhas próximas pegadas. Novo ângulo, novas fotografias: trilhas de formigas apressadas, ipês amarelos batendo papo, gente falando sozinha, restos de construção, um edifício-cadáver, minha sombra no muro.

Por trinta minutos – quinze para descer a rua na ida, quinze para subir na volta – , fui uma recém-chegada à cidade. Meus olhos de migrante-por-um-dia viram o que o cidadão motorizado não vê. O que, ao lado de ter o carro limpo novamente, não deixa de ser uma vantagem.

Nota: comecei esta crônica crente que estava abafando com o título. Porém, depois de uma rápida busca no Google, percebi que há nada menos que 4.470 ocorrências dessa expressão. Ou seja: mais difícil que me por para caminhar é ser criativa na internet.

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Arte: Jim Devlin

Se você anda irritadiça, raivosa ou está pelas tampas, não convém assistir TV, muito menos ligar o rádio. Poderá topar, a qualquer instante, com um anúncio de feirão de carros. E, esteja você interessada ou não em adquirir ou trocar seu bólido, fique certa: o apoteótico clima do comercial a levará a um quadro de confusão mental, e você terá ímpetos de jogar a mãe do trem, matar a família e ir ao cinema depois.

A locução, sempre apressada, e a trilha sonora, infalivelmente nervosa, somam-se, no caso da TV, ao abuso do zoom in e zoom out e toda sorte de efeito gráfico. De estética acintosa, os típicos anúncios de feirões deveriam ser vetados pelo Conar e entrar na categoria dos alucinógenos, sendo, inclusive, proibidos pelo Ministério da Saúde.

Em algum lugar do passado, o lado sombrio da publicidade convencionou que, para fazer sucesso e aumentar as vendas no varejo, anúncio de carro deveria ser ruidoso e frenético (ao mesmo tempo), para despertar no potencial, porém desavisado, consumidor o súbito e irreversível desejo de comprá-lo. Ora, pessoas compram carros porque precisam deles, e não porque nãopodeperderessaoportunidadevaisernessedomingocorra!

Mas o cidadão de bem, zonzo, acaba indo ao evento. Sai de lá com um veículo financiado em 72 meses, com taxa de juros de 20% ao ano, crente que fez um ótimo negócio. Ao seu redor, carros suspensos por guindastes, música estridente, pipoca, malabaristas. O feirão virou circo; adivinha quem é o palhaço.

E tudo começou com uma inocente mensagem, tão curtinha – trinta segundos, só.

Crônica de minuto para quem está só

Ilustração: Bill Tozier/Flickr.com

Deu seta, parou no acostamento ao lado do telefone de apoio. “Faltam duzentos e vinte quilômetros, Araras é uma lonjura”. Tirou o fone do gancho, chamou. Enquanto aguardava, na estrada o caminhão carregado de galinhas deixava para trás uma nuvem de penas. “Bicho besta, esse”. Do outro lado a moça atendeu, resmungou um blablablá qualquer e perguntou:

– Em que posso ajudar?

– Nada, não. Só queria conversar um pouco.

Outro caminhão, desta vez uma cegonha, carregada de carros-bebês. Ele, que fora trazido por uma cegonha estúpida, nunca vira uma de verdade. Nem arara. Só galinha.

– Não entendi, senhor. O senhor precisa de auxílio?

– Não. Parei pra prosear. Calorão, hein?

A atendente pôs no mudo e fez sinal para a colega, “Outro doido”.

– Senhor… O senhor se encontra em alguma emergência, houve algum acidente?

Duzentos e vinte quilômetros, ainda. Estrada gosta de solidão, e vice-versa.

– Deixa eu perguntar uma coisa. Você acredita em cegonha?

Solidões podem ser emergentes, mas nunca acidentais. A atendente tinha mais o que fazer. Desligou.

Crônica de minuto #34

Luca, sete anos, no banco de trás:

– Mãe, como se faz bebê?

Silmara, quarenta e quatro, no volante:

– É assim: na barriga da mulher tem um ovinh…

– Olha, mãe! Um Camaro do outro lado da rua!

[Ele é d-o-i-d-o com esse carro]

– Uau! Bonito, hein, filho? O motor deve ser 6.2. Puxa vida!

Resolvido.

Crônica de minuto #23

Para lavar o carro é R$ 25. Mas por conta dos farelos de biscoito, caixinhas de Toddy (com canudinho melecado), chiclete no tapete, um Bis esquecido e derretido no porta-treco e mais alguns materiais orgânicos irreconhecíveis sob os bancos, eu paguei R$ 30. E nem pude reclamar. Isso porque recolhi antes todos os brinquedos que estavam espalhados. O que polui o meio ambiente não é fumaça de escapamento. É filho.

Crônica de minuto #10

Pelo rádio do carro, o Roger me pergunta: “Quem é você?”. Respondo, confiante. Digo meu nome e meia dúzia de palavras que me definem. E vou me distraindo com as coisas da rua, tem loja nova no quarteirão de cima. Ele não se dá por satisfeito, realmente quer saber. Insiste na questão, tantas vezes que fico doida. Eu sei, ele quer me testar. Só para ver se uma hora eu vacilo e erro a resposta. Nem vem, Roger. Nem vem.

Anjice

Ilustração: Talas/Flickr.com

Basta eu ter pressa, e ensaiar algumas manobras de direção ligeiramente perigosa no trânsito, para que o evento se repita. É quando comprovo a existência dos anjos.

Um caminhão surge à frente, a cinco quilômetros por hora, freando qualquer tentativa minha de andar mais rápido do que a via permite. Lerdo, ele parece passear pela estreita rua de mão dupla, não deixando ao motorista de trás – no caso, eu – nenhuma alternativa, a não ser a prática da paciência. Alheia ao exercício, impraticável no momento, eu me descabelo enquanto o relógio dispara, os segundos se transformam em primeiros e o Coelho Branco de Alice aboleta-se no banco do passageiro, sempre resmungando. Tento ultrapassar de um lado, não dá. Do outro, também não. A próxima quadra é contramão, desisto de fugir. Tampouco adianta buzinar, o paquidérmico rodoviário nada pode fazer. Bem que seu condutor gostaria de estar a cem por hora. Resignada, vou estudando, mentalmente, as consequências do meu atraso, armando justificativas.

Quando não é caminhão, é ônibus. Daqueles cujo motorista resolve inventar pontos intermediários entre os oficiais. Ou outro veículo, também maior e mais forte que o meu. Morasse no litoral, um transatlântico cruzaria meu caminho num dia de pressa, só para me impedir de avançar o sinal. Qualquer dia, um tanque de guerra surgirá do nada na pista ao lado, assim que eu cogitar cortar caminho pelo posto de gasolina. É o jeito que meu anjo da guarda encontra para me proteger, na impossibilidade de aparecer sob a forma de guarda de trânsito. Embora eu ache que seria mais fácil ele me telefonar:

– Alô?

– Vai tirar o pai da forca?

– Quem está falando?

– Adivinha.

São vários, os métodos dos anjos. Certa vez, perdi um ônibus. Era manhãzinha, eu ia para o colégio. Cheguei à porta de casa e vi o das seis e dez passando na esquina. Caminhei até o ponto, vociferando. Emburrada, peguei o das seis e trinta. Assim que chegamos à avenida, escondi meu escárnio. O das seis e dez havia batido num caminhão de laranjas. O canteiro central inundara-se de azeda laranjada, cacos de vidro por todo lado, passageiros assustados ao longo da calçada, tentando explicar uns aos outros como é que tudo havia acontecido. Mais cheio que de costume, o ônibus das seis e trinta chegou ao seu destino. Como entraria somente na segunda aula e ainda tinha tempo, dei um pulo na lanchonete. Em seguida, recolhi-me em silêncio na quadra ainda vazia e tomei um suco de laranja, com bastante gelo. Aquela era a minha prece de agradecimento.

Se um dia meu telefone tocar no meio do trânsito, e for um deles, vou querer saber por que se preocupam tanto conosco. De quem vem a ordem da proteção, qual a motivação para cuidarem tanto de nós, o que há por trás da eterna missão de nos resguardar e qual o mistério quando alguma coisa aparentemente não dá certo. Sobretudo, de onde eles ligam. Mas aí eu já sei: a ligação vai cair.

Som na caixa

Foto: Laura Bell/Flickr.com

Não é sexo. Nem rotina. Nem doença ou falta de dinheiro. Tampouco filho. O que põe um casamento à prova é andar junto no mesmo carro. Seja por quatro dias, quando o de um está na revisão; por anos, se as vacas são magras; na viagem de final de semana ou simplesmente no caminho para o almoço de domingo. Quando o casal coabita o mesmo veículo, a despeito da vasta literatura sobre a batalha dos sexos antes e depois de Karl Benz ter inventado o automóvel, o que está em jogo não é quem dirige melhor, quem tem mais ou menos pontos na carteira, quem usa a seta, qual dos dois é capaz de chegar ao destino sem GPS ou frentista de posto. É quem controla o som.

O condutor não deve se distrair com o dial, nem com a sequência das faixas do MP3. Caberá ao passageiro assumir as rédeas e definir a programação musical que acompanhará o casal. Nesse cenário, nada será pacífico. Quem finca sua bandeira no aparelho não deseja dividir o poder, quer reinar sozinho. Conflito à vista. O tempo todo, ambos discutirão a configuração (volume, graves e agudos) e a trilha sonora propriamente dita. Nenhuma escolha pessoal é bem-vinda. Toda individualidade será castigada. O coletivo há de vencer. Resultado: os dois bufarão, cada um de um lado, e se perguntarão onde é que foram amarrar suas éguas. Assim como o casal tem a música que embalou o início da sua história de amor, logo terá também a que representa seu fim.

O mesmo ambiente será palco de outra disputa: a temperatura do ar-condicionado. Na sua ausência, outro embate: um quer janelas fechadas. Outro as prefere abertas. Sem falar na co-direção e na síndrome de instrutor de auto-escola, comportamento incontrolável daquele que ocupar o banco do carona.

Carro é o quarto do casal sobre rodas. É quando a intimidade se desnuda. As manias, antes apenas contornos, ganham preenchimento. Sentimentos inéditos vêm à baila. No carro é onde os bois recebem nomes, e os is, seus respectivos pingos. Sutiãs são queimados no acendedor de cigarros e desabafos contra a TPM eclodem entre um semáforo e outro.

Nada é páreo, porém, para o controle do som. Que não deveria ser chamado de opcional. Muito menos de acessório.

O pão nosso de cada dia

Ilustração: N.C.Mallory/Flickr.com

Descrição de acidente de trânsito é sempre estúpida. A gente vai narrando, atinando na sequência de besteiras cometidas e se perguntando como é que aquilo pôde acontecer.

Domingo à noite, após um rápido raciocínio, cheguei à conclusão: não faria sentido algum a suculenta sopa que o marido preparava não ter a companhia de um pão italiano. Como um soldado solitário – estavam todos ocupados no preparo das batatas –, rumei à padaria. E como nos últimos vinte anos eu não me animo a percorrer nem duzentos metros a pé, fui de carro. Do balcão, apontei para o exemplar mais gordo, assado à perfeição. Um harmonioso equilíbrio de cores, do bege claro das partes menos tostadas ao marrom crocante da casca que se rompera ainda no forno, agora salpicada com uma leve farinha branca.

O pão perfumava o carro inteiro, provocante. Mantive, no entanto, a disciplina que caberia ao soldado: não comi nenhum pedacinho. O caminho até em casa é curto, tranquilo. Alguns quarteirões mais e estaríamos diante do trio pão–sopa–azeite, coroando o final de semana. Não fosse um motorista com pressa de chegar à sessão das oito ter feito uma ultrapassagem arriscada e, na contramão, acertado meu carro em cheio, interrompendo de vez a minha experiência sensorial ao lado do pão quentinho.

Se estou contando a história, é fato que não morri. Não sei se tem internet no além (se tem, deve ser mais rápida). Estou bem viva e sem nenhum arranhão, ao contrário do moço apressado. Porém, ainda frustrada pelo jantar realizado sem mim. E pelo pão que acabou esquecido lá no cesto da cozinha. Três dias depois, eu o reencontro. Continua na embalagem, lacrada com a etiqueta da padaria. Petrificado.

No bairro onde eu cresci, de vez em quando apareciam aqueles parquinhos de diversão mixurucos. Eu ia sempre em dois brinquedos: trem-fantasma e carrinho-que-bate. Gostava da sensação de medo no primeiro, e do frio na barriga que antecedia a trombada no segundo. No domingo, foi como ir, ao mesmo tempo, nos dois brinquedos. Só que desta vez, o medo e o frio na barriga eram de verdade. Prefiro o parquinho.

No tempo desses parquinhos, à tarde alguém sempre ia à padaria comprar uma ‘bengala’. Que hoje é baguete, e é menor. Nome mais chique, europeu. Adaptei-me à mudança, praticamente esqueci o antigo nome. Mas sinto saudades da velha bengala. Minha mãe a cortava em fatias, passava margarina nos dois lados e as colocava para dourar na frigideira. Acho que nem aquele pão italiano poderia ser tão bom.

A compaixão e a raiva me dividiram em duas pessoas distintas enquanto, sob a chuva fina do local, eu ditava ao policial meu depoimento. Uma de mim queria que eu lamentasse a sorte do moço que não tinha nada: nem juízo, nem carteira de habilitação, nem coragem de encarar-me, nem carro (arruinado e apreendido por falta de documentação), nem seguro, nem mão direita (que seria engessada) e nem sessão das oito. Outra de mim só fez praguejar: só a mão quebrada? Por que não os dois braços e o pescocinho também?

E entre as duas coisas, outro sentimento, que ainda não batizei, me lembra da impermanência das coisas todas. Num segundo, moro neste mundo; no próximo, posso me mudar. Num instante, meus filhos têm mãe; no seguinte podem não ter mais.

Num dia, aquele pão era o supra-sumo; no outro, apenas uma massa endurecida e sem graça. Eu deveria era tê-lo devorado já na saída da padaria. Isso sim.

O Corcel do Pequeno Príncipe

Foto: Guenno/Flickr.com

Ontem vi um Corcel II, aquele carro antigo da Ford, estacionado em frente à padaria. Meu pensamento, como o ágil cavalo, deu um galope. Segurei suas rédeas com força e lá fui eu, de volta aos anos setenta.

No primário, havia um menino na minha classe. Loiro, olhos claros, ares de Pequeno Príncipe. Só tirava notas boas, sentava-se na primeira fileira, nunca esquecia o material, jamais faltava, sabia todas as respostas, era amigo de todos, sempre entregava os trabalhos no prazo, seu uniforme permanecia imaculado durante a aula inteira. Reinava absoluto no pequeno planeta do quadro-negro. E levava mesmo jeito para a nobreza: encarnou Dom Pedro I num desfile de Sete de Setembro na principal avenida do bairro. As professoras o idolatravam. Cansei de ouvir: por que nós, o resto da turma, não éramos como ele? Seus pais mantinham uma pródiga loja de calçados no pedaço. Hoje, não resta dúvida: foi sua família a grande inspiradora dos comerciais de margarina.

Um dia, na aula, vieram me contar. Ele havia dado um carro para sua mãe. Coisa fina: um Corcel II. Dourado – só poderia ser. E, de acordo com as informações que circularam, ele o havia comprado com o dinheiro da sua própria poupança. As professoras, fãs confessas do menino-príncipe, foram ao delírio. Até hoje ecoa na minha mente a estupefação de uma delas: “Que homenagem mais linda! Vocês [nós] deveriam fazer o mesmo”. Imaginem só, um menino comprar um carro zero-quilômetro. Hoje isso ainda seria um feito. Calcule-se o que pode ter representado – para ele, sua mãe, seus vizinhos, o corpo docente da velha escola estadual – mais de trinta anos atrás. (Tenho cá para mim que a história talvez não tenha sido exatamente assim. Pode ser que ela tenha sido um pouco abrilhantada, com a ajuda de algumas ferramentas do marketing pessoal.)

Eu nunca dei um carro para minha mãe. Meus presentes e agrados sempre foram mais singelos. Certa vez, eu era bem pequena e era seu aniversário. Abri sua gaveta, escolhi uma de suas blusas preferidas, que ela mesma havia comprado, fiz um embrulho bem bonito e a dei para ela. Ela achou graça, disse que adorou. E eu nem corri o risco de errar o número. De outra feita, ela estava adoentada. Resolvi preparar-lhe um café com leite bem saboroso. Afinal, eu me sentia eternamente responsável por aquilo que, todos os dias, cativava. Aproximei-me de sua cama com a bandeja, orgulhosa. Ela o bebeu com gosto, elogiou e quis saber onde eu havia encontrado leite, se o da geladeira havia acabado. Respondi: na tigela do gato. Não houve bronca alguma. Mães são outra categoria de ser humano. (A qual eu, em tese, pertenço, embora tenha perdido alguma coisa pelo caminho.)

Mas o Corcel II do Pequeno Príncipe. Não sei se desenvolvi um bloqueio psicológico a partir dessa experiência, mas o fato é que nunca consegui manter uma poupança. Já iniciei várias, todas prontamente encerradas diante da primeira oportunidade ou necessidade. Poupar não é comigo. Sinto uma tremenda inveja de quem tem algumas economias guardadas. Se, desde o dia em que nasci, o equivalente a um real fosse depositado numa conta, qual seria meu saldo quarenta e dois anos depois, com os devidos juros e correções? E todos os sapatos que comprei na vida, além do necessário, equivaleriam a quanto? Será que daria para comprar um carro para minha mãe? O que, no entanto, seria absolutamente inútil. Primeiro, porque ela nunca aprendeu a dirigir. Segundo, porque onde ela vive agora ninguém anda de carro. Estrela não tem rua.