À flor do pelo

foto: Silvia Kalvon
foto: Silvia Kalvon

Tenho gatos. Gatos têm pelos. Tenho pelos de gato nas minhas roupas e nas minhas coisas. Todas. É uma lógica felina, peluda e universal. Houve época em que, dona de dois gatos brancos, eu evitava as roupas escuras. Depois, veio o siamês com seus cinquenta tons de bege. Em seguida, os pretos. Por fim, a tricolor. Liberei geral no guarda-roupa.

Uma rápida busca no Google, “como tirar pelo de gato das roupas”, e somos abençoados com quase oitocentas mil dicas, produtos, artigos, teses de mestrado, técnicas, tutoriais. Toalha molhada, luva de latex, esponja. Soluções instantâneas e… inúteis. Há mais pelos soltos de gatos entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Antes de sair de casa, recorro aos rolinhos adesivos. Entro no carro e, apesar de os gatos não andarem ali, lá estão eles, os pelos. Grudados, aderidos, incorporados ao tecido dos bancos. Gatos são onipresentes.

Chego à reunião e me dou conta que minha blusa está cheia de pelos. Discretamente, e em vão, tento me livrar deles. Torço para que os presentes também gostem dos bichanos. Se perguntarem, digo que os pelos são meus amuletos. E que carrego vários comigo, só por garantia.

O rolinho da Scotch-Brite e seus genéricos fazem parte das compras rotineiras e essenciais da casa, como arroz e feijão. Ninguém entende por que tenho tantos rolos de fita adesiva, daquelas largas, perfeitas para a missão. Sou das que testam tudo e compram todas as novidades do setor. Gatos, quem diria, movimentam a economia de um país.

Houve tempo em que eu sentia enorme vergonha por exibir pelos acidentais na calça, no vestido. Como se fosse sinal de falta de higiene, de zelo. Hoje, não mais. De vez em quando, noto olhares enviesados. Assim como também rola a maior identificação com quem também convive com gato. Há sempre uma foto dele no Instagram para mostrar aos outros.

Meu filho, segundo exames, tem moderada alergia a pelo de gato, embora não manifeste sintomas. Algumas pessoas acham um absurdo os gatos dormirem na nossa cama. Nós temos moderada paciência com gente assim.

Tem anfitrião que oferece vinho, cerveja e comidinhas às visitas. Aqui em casa a gente oferece Polaramine.

Uma coisa é certa: Deus fez o gato no sábado, enquanto comia Nutella e ouvia Tom Jobim. No dia seguinte, descansou.

Tudo, então, estava pronto.

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8 comentários sobre “À flor do pelo

  1. Sempre convivi com gatos, em casa de minha mãe. Mas há anos não os temos mais e eu, aqui em casa, nunca tive. Acho lindo e todos os etcs., mas não os tenho.
    Crônica ótima, como sempre.
    Beijo, Silmara.

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  2. Purrrrr, que linda crônica, my dearest! “Deus fez o gato no sábado…e descansou”, pérola…aos poucos! Te perdoo por interromper nossa conversa e finalizar o texto! beijos.

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  3. Adorei! Como sempre… 😉
    Mas hoje tem gostinho especial prá mim, porque minha foto tá aí!!!! Ehhhhh!!!! Com meus dois amores em 50 tons de cinza e bege, que espalham amor, carinho, pêlos e ensinamentos à todos da casa.
    Minha filha era super alérgica e graças à Santa Homeopatia ela vive superbem com eles 🙂
    Obrigada, Sil! É uma honra “estar aqui’!
    Beijos

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  4. Obrigada, obrigada, obrigada!
    Hoje era tudo o que eu precisava ouvir.
    Mas, restou uma dúvida: algumas pessoas deixaram de frequentar sua casa e pelos foram a razão? Aqui aconteceu.

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