Prisão

Cheguei para doar sangue, a enfermeira chamou para uma salinha. Encostou a porta e iniciou o questionário. Queria saber se já tive isto e aquilo e mais aquilo outro. De câncer a hepatite, foi checando o inventário de enfermidades, acometimentos e eventuais vícios dos quais eu pudesse padecer ou já ter padecido nesta vida de meu Deus.

Talvez pela vigésima vez naquela manhã azul de sábado, ela seguia o script. A voz acelerada em 2x, diabetes?, cirurgia?, tatuagem?, fuma?. Como num campeonato, eu me esforçava para responder na mesma velocidade, não, sim, sim, não.

Então, ela lascou: “Já esteve presa?”

Pedi para repetir. De máscara (oh pandemia) ninguém fala, nem ouve direito. Ela pronunciou novamente, mais devagar. Quase deixei escapar uma risadinha – eu, presa? –, mas contive-me. Não era de bom tom rir do trabalho da moça. Respondi não, acrescentando mentalmente um ôxi. Ela seguiu com o rosário hospitalar, nem prestei mais atenção. Presa, eu. Rá.

Considerada apta a doar meu sangue tipo O, saí da salinha e fui para outra, maior. Acomodei-me na poltrona, o enfermeiro instalou em meu braço direito uns equipamentos. O sangue, retido em minhas veias, achou que estava livre. Era armadilha; continuava aprisionado, agora numa bolsa plástica. Que, aos poucos, ia enchendo e colorindo. Cor de vinho. Deve ser a cor mais bonita que há dentro do meu corpo. Melhor que amarelo-tripa. Mas quem é que se importa com a cor do avesso de alguém? Enquanto apertava e soltava na mão a bolinha verde de borracha, lembrei do Alberto Caeiro: “A cor é que tem cor nas asas da borboleta”. Borboletas não doam sangue. Embora saibam bem o que é prisão.

Meu sangue serve para qualquer pessoa, o enfermeiro disse. É bom saber-se doador universal. A gente se sente meio Criador. Ou, ao menos, da equipe dele.

Foi quando me dei conta. Sim, já estive presa.

Não pelo crime de ter tomado todos os Yakult da geladeira, de uma vez, quando era criança. Nem pelo de ter jogado talco na privada e sustentado até o fim que não fora eu, mesmo diante da névoa perfumada de Alma de Flores que se instalou no banheiro. Tampouco por ter, no primário, puxado a cadeira da coleguinha da frente, que se estatelou no chão e a mãe dela veio em casa depois, tirar satisfação com a minha (a menina ficara com um galo na cabeça). Olha, não foi nem por ter fumado Minister escondido com a amiga, depois do colégio, atrás do metrô Jabaquara.

Já estive, isso sim, presa a amor ruim, medo bobo, emprego esquisito. Presa à crença besta, como achar que bolinha não combina com listra e que não se toma sopa no verão. Que tem que tirar o miolinho do chuchu e que não dá pra ser feliz solteira. Que os santos veem tudo o que a gente faz. Já fui, veja só, presa à ideia de que precisa de salto alto e cabelo comprido para ser mulherão.

Não é fácil reconhecer um cárcere, quando ele lhe parece tão natural e quase confortável.

Uma vez presa, algumas penas acabei cumprindo. De outras, fugi. Liberdade é meio e é fim.

O enfermeiro avisou, “Prontinho”. Retirou a coisarada do meu braço, etiquetou a bolsa gorda de sangue; eu podia ir embora. Tinha lanchinho na copa, eu não queria aproveitar? Não, obrigada. Queria era voltar à sala da enfermeira e retificar minha resposta: sim, já estive presa. Mas meu sangue ainda há de servir.

Quer comentar?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s