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Crônica de minuto #52

Foto: Russ Morris
Foto: Russ Morris

I

Um beijo no rosto, um só, a registrar olás e adeuses. Dado (e recebido), quase sempre, na bochecha direita. Sem maiores delongas, smack! Um par de estalos, quase simultâneo, quase combinado.

II

Dois beijos no rosto, dois, a registrar olás e adeuses. Na dupla conferência de bochechas, quatro estalos gerados. Isso quando há estalo. É o começo do demais.

III

Três, oh!, três beijos no rosto, a registrar olás e adeuses. Beija dum lado, beija do outro, volta ao primeiro lado já beijado e o beija de novo, reforçando a pegada. É tempo, movimento e beijo em excesso, investidos numa breve saudação ou despedida. São seis estalos.

Quantos trocariam três no rosto por um de língua?

Trinta trilhões de beijos beijados por dia no mundo, faz de conta que a conta é essa. Quem começa?

Três, dois, um, já.

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O primeiro beijo

Arte: Hsiao Ying

Meu primeiro beijo romântico, aos doze, foi isto: uma porcaria. O menino era da escola, daqueles que eu via aqui e ali, em frouxa convivência. Um dia, ele apareceu em casa. Tocou a campainha, desci as escadas para atendê-lo. Trocamos meia dúzia de frases compactas, conforme o esperado para a pouca idade. Quando dei por mim, estava beijando no portão. Não foi beijo dado, nem roubado. Foi beijo acontecido.

Por muito tempo, cobrei-me não ter tido um primeiro beijo especial como os das amigas e seus relatos encantadores. Em geral, os primeiros e primeiras, o que quer que sejam, costumam carregar, injustamente, um fardo: a obrigação de serem mágicos, perfeitos, inesquecíveis. Nem o amor à primeira vista dá garantia de felicidade, tampouco de eternidade. E as amigas, até as melhores, costumam inventar.

Meu primeiro carro, aos dezenove, não ficou escondido na garagem, enfeitado a laço, e eu não fui conduzida até ele de olhos fechados, para não estragar a surpresa. Foi um Fiat 147 (troco em um negócio do meu pai) caindo aos pedaços, cuja palheta do para-brisa saiu voando quando precisei usá-la num dia de chuva. A primeira vez no sexo também não foi nenhuma maravilha, posto que o rapaz era, antes de tudo, meu amigo. O primeiro emprego, ah!, esse é preciso confessar: teve o charme da estreia e está num bonito porta-retrato da memória. Foi no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga. Viver os bastidores do lugar que abriga a história do país, com acesso privilegiado, valeu cada hora de estágio. O primeiro salário, porém, não foi dedicado a nenhuma causa nobre, como pagar um jantar para os amigos ou ajudar os pais nas despesas do mês e, sim, torrado inteirinho numa única calça jeans.

Desajeitada, eu não queria continuar o beijo. Primeiro – e óbvio – motivo: não estava bom. Segundo, o medo de ser pilhada em flagrante. Um ato secreto e proibido como aquele não deveria ocorrer em território tão doméstico. Terceiro, não era daquele jeito que eu havia sonhado. Se é que sonhara. Às vezes, a gente sonha que sonhou. Primeiro beijo é feito de espera, susto ou sabor. O menino foi embora, razoavelmente decepcionado. Nunca soube se também era o seu primeiro. Ficou o beijado pelo não-beijado.

O que fazer com um beijo pioneiro absolutamente esquecível? Ele não foi, sequer, importante para os beijos que vieram depois. Não estudo mais naquela escola, não moro mais naquela casa e não sou mais colega do menino. E não tenho mais doze anos. Certos eventos não valem nem como experiência, ficam velhos, padecem e morrem. Servem apenas para risadas futuras. Ou para ilustrar histórias despretensiosas n’algum blog por aí.

Beijo de cinema

Foto: Marjolein

Há mais coisas na fila do cinema do que julga nossa nem sempre vã filosofia.

As duas moças encostam no balcão. Uma delas pergunta ao bilheteiro:

– Hoje tem a promoção do beijo?

Aquela, onde casais que se beijam na bilheteria pagam meia. Tem que ser beijo pra valer, de cinema. Selinho não vale, que ali não é Correio. É a hora do amor premiado: bom para beijoqueiros, bom para quem quer economizar. Bom para o dono do lugar, que fica lotado.

Sim, hoje tem promoção. A outra moça pergunta, baixinho e exatamente com os intervalos das reticências a seguir:

– E… precisa ser… homem e mulher…?

Receiam que a promoção não seja válida para elas. Talvez, uma condição prevista no regulamento, escrita em letras microscópicas, derivada de algum asterisco preconceituoso. Carecia confirmar.

O bilheteiro, pela primeira vez e por dois segundos, as encara e sorri:

– Não. Não precisa.

Quando eu era criança, na sala de aula, morria de vergonha de perguntar as coisas que eu não sabia ou não entendia. Invejava os colegas que levantavam a mão e expunham suas dúvidas – cabidas e descabidas – sem ficar com o coração palpitando, bochechas em fogo. Minha mãe ensinava que não se devia trazer dúvida para casa. Como se dúvida fosse algo que se levasse para passear. Então, havia a que ia de casa para a escola. E tinha a dúvida que vivia nas ruas, como a das moças na bilheteria.

Regra esclarecida. As duas, num riso particular, só delas, se beijam. Beijo de dois segundos. Para combinar com o tempo do bilheteiro ou a pressa da vida – que não é tão moderna. Poupam, assim, metade do valor do ingresso. É justo; investiram o dobro da coragem que tantos, ao longo da fila, não ousariam. Economia, quem diria, não é só número.

Em meio à gigantesca e nem sempre afável sala de aula urbana, elas resolveram erguer a mão e sanar a dúvida. Arriscaram publicar sua cabida questão. Que não é pequena, tal a alma de quem ama.

O filme há de valer a pena.

Crônica de minuto #30

Tenho me preocupado com os beijos. Aqueles, encomendados e jamais entregues.

– Mande um beijo para Fulano.

Pouca gente se lembra deles depois. São os beijos esquecidos. Os que aguardam delivery, atrasados em sua missão. Muitos vão se extraviando pelo caminho. Outros, desorientados, seguem beijando o vento, os rostos anônimos e as bocas distraídas.

Deveria existir nas cidades, a exemplo da seção de achados e perdidos, um lugar especial para acolher os beijos na mesma situação. Mas só os perdidos. Porque ninguém acha beijo na rua. Ou acha? E se acha, devolve ou fica para si? Beijo achado não é beijo roubado.

Quando se faz o pedido a alguém, “Mande um beijo”, está dada a ordem ao universo, que trata de criá-lo, à imagem e semelhança da lembrança. O beijo, então, em milésimos de segundos, toma forma, cresce e nasce, deixando para trás o útero insondável do pensamento. Se acaso não chegar ao seu destino, viverá sua vida de beijo pairando sobre o planeta, imigrando entre os países, aguardando o instante da realização. Que, no caso dos esquecidos, é nunca. E beijo órfão não é beijo feliz. Nem aqui. Nem na China.

Beijo a lápis

Ilustração: Abductit/Flickr.com

 

Entrou na loja com perfume de erva-doce (a loja, não ele), foi atendido pela moça de cabelos verdes e anel no dedo do pé. Achou esquisito (o anel, não o cabelo) e, mesmo assim, pediu:

– Quero um beijo.

A moça abriu um sorriso e explicou:

– Aqui é uma papelaria.

– Eu sei. Quero um beijo.

A moça fechou o sorriso. Não tinham beijos ali. Só papéis e canetas.

Ele caminhou mais alguns metros e, diante da vitrine com um gato de verdade, dormindo aos pés de um anjo de mentira e outros badulaques, sorriu para o vendedor, que já o aguardava na entrada:

– Quero um beijo.

– É para o senhor mesmo?

– Sim.

– Só um minuto, por favor.

O vendedor retornou. Desculpou-se:

– Não temos mais nenhum.

– Ah, pena.

– Quer deixar seu telefone? Quando chegar, eu aviso.

– Não… Era para hoje.

– Fico lhe devendo, então.

Ao sair, não viu mais o gato. Pensou, como é que alguém fica devendo um beijo? Pode-se dever muita coisa: favor, explicação, visita. Beijo, não. Loja mais esquisita. Parou para tomar um café na livraria. Enquanto namorava os doces, tão arrumados na cestinha de palha, perguntou para a garçonete que roía as unhas:

– Tem beijo?

– Só beijinho.

Beijinho ele não queria. Aliás, nada terminado em inho, como em ‘sozinho’. Pagou seu café, folheou um livro e saiu. Viu o gato, passeando do outro lado da rua. Morava a duas quadras dali (ele, não o gato), no décimo segundo andar do edifício mais antigo da cidade. Entrou no elevador, dobrou o casaco no braço. A porta se fechou mais devagar que de costume. No último instante, uma mão a alcançou, parando-a. Era a vizinha do décimo primeiro, vestida com blusa de passarinhos e saia-lápis. Ele se fingiu entretido com os botões (do casaco, não do elevador), ela puxou assunto. Riram, a moça era meio doidinha. Foi quando ela lhe disse ao pé do ouvido:

– Sabe duma coisa?

Com o lápis da saia, buscou-lhe a boca. E desenhou nela um beijo.