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Sagu

sagu

Fiz sagu.

Enquanto despejava na panela cheia d’água os grãos crus, tão redondinhos e branquinhos, lembrei do presépio montado todo dezembro, quando eu era criança. Parecem as microbolinhas de isopor que a gente usava para decorá-lo, fazendo de conta que era neve. Presépio que se prezasse tinha que ter neve.

Minha mãe era craque no sagu. Usava o vinho mais barato que tinha. De vez em quando, colocava pedaços de abacaxi no meio. Foi um dos deleites gastronômicos da minha infância, ao lado do nhoque de batata e do bolo nega-maluca. Eu gostava de morder as bolinhas, uma a uma, adorando-as na boca como a um deus. Deus Sagu.

No doce pronto, as bolinhas cozidas ficam todas juntas, grudadas. E, ainda assim, mantêm-se separadas umas das outras. Deve haver alguma metáfora importante nisso, que eu não sei qual é.

Da primeira vez que fiz sagu em casa, meu filho perguntou, antes de provar: Que gosto tem?

Não sabia se respondia que, na verdade, sagu tem gosto de nada, que não passa de uma fécula boba, e que o vinho e o açúcar é que são o segredo, ou se contava que sagu tem gosto de assistir minha mãe, avó dele, fazendo casaquinhos de tricô na Lanofix, para vender. Ou que tem gosto de ouvir o LP da novela Selva de Pedra na vitrola, a Françoise Hardy murmurando lindamente “Je ne sais pas qui tu peux être, Je ne sais pas qui tu espères”. Tem gosto, talvez, do chão de caquinhos vermelhos do nosso quintal. Ou até gosto de encapar os cadernos novos da escola com plástico xadrez.

O importante é que ele gostou. Ele que faça suas próprias associações ao sabor do sagu, quando for mais velho. É isso que os doces nos ensinam, não?

Se a tradição do sagu está mantida, a do presépio, não. Talvez por medo de os gatos comerem ou quebrarem as peças. Talvez porque tenha perdido a graça, mesmo. Ou porque não há mais necessidade de inventar neve. Presépio bom é presépio dentro da gente.

Sagu é barato, ordinário. Porém, se vou a um restaurante e tem sagu de sobremesa, “de cortesia”, já colocado em potinhos de alumínio ou plástico, o self-service por quilo vira, na hora, fino bistrô. Sagu é um doce luxo memorial.

Já fiz sagu com vinho caro, não contei a ninguém. Gourmetizei a lembrança. Já errei a medida, deu um panelão que durou mais de uma semana.

É que sagu rende muito. Feito a saudade da gente.

Eu não passo desta noite

Já que, vira e mexe, alguém na família desenterra essa história e, considerando que meus filhos sempre perguntam um ou outro detalhe dela, melhor registrá-la devidamente e de uma vez.

Meu primeiro pileque, aos doze, quase treze, foi assim.

Réveillon de 1979 para 1980. Família reunida, fartura na mesa: tender enfeitado com abacaxi, castanhas, uva Itália. Iguarias que só apareciam nessa época do ano. A casa 1 da vila era só alegria. Nas taças, a velha Sidra Cereser que a gente chamava de champanhe.

Durante os comes, não me contentei com a irrisória franquia do pseudoespumante a que eu, caçula, tive direito. Enchi a taça. Brinquei com meus irmãos, zanzei pelo quintal, catei algum gato, botei um LP na vitrola. Mais uma tacinha, que mal tem? Que gosto será que tem whisky? Meio forte. Tudo bem, é quase ano novo. Mais uma Sidra, mais um Drury’s. Drury’s! Diante da minha epifania alcóolica, Seu Tonico e Dona Angelina só observavam. Havia sabedoria na atitude deles.

Cinco, quatro, três, dois, um, adeus ano velho! Só mais um tiquinho de Sidra. Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Lá pelas tantas, a família se recolheu para merecido descanso. Eu dividia o beliche com minha irmã. Não me lembro como cheguei à cama de cima. Em meu desvario etílico, Morfeu me aguardava, com o Eno na mão.

Meu estômago adolescente, acostumado a Ki-Suco e Guaraná, estranhou as novidades. No meio da madrugada, a fatura chegou. Foi como a erupção de um furioso (e fétido) vulcão, vindo montanha, ou melhor, beliche abaixo.

Os Franco acordaram, assustados.

Acode a mini-ébria, traz pano de chão, pega desinfetante, limpa o rebosteio, troca o pijama. Enjoada, eu me revirava, agora, na cama de baixo. Cedida pela minha irmã que, por pouco, não fora atingida pelos meus, digamos, dejetos estomacais. Foi ali que cunhei o bordão que, segundo familiares, eu repetia de minuto em minuto, em profética gemedeira: “Eu não passo desta noite”.

Não só passei como, no dia seguinte, debutando na ressaca, fui obrigada a encarar o sintético sermão da minha mãe: “Agora você aprende”.

A pedagogia deu certo. Desde então, nunca mais coloquei uma gota de whisky na boca. Não que eu seja abstêmia. Mas é comum vinho sobrar em minha taça. Nos formulários médicos, nunca sei o que responder. Deveria existir uma zona intermediária entre “nunca bebo” e “bebo socialmente”. A verdade é que não vejo muita graça.

Já vi, porém. É mister anotar que o porre inaugural na infância não foi o único. Na juventude, contabilizei uns dois (três?). Em um deles, conta a lenda que, ao deixar um boteco com minha irmã e amigas, saí pelas ruas da Vila Madalena, virada no vinho, e sentei-me sobre um latão de lixo na calçada. Pedi para me deixarem ali, pois aquele era o meu lugar.

Sempre dramática.

O vinho, o táxi e outras paroxítonas

Foto: Maria G./Flickr.com

Saiu do escritório duas horas mais cedo. Tinha, portanto, três horas até a aula. Aquele MBA não acabava nunca. Não era uma pós, mas permaneceu após tudo: casamento, gravidez, separação, lipoaspiração. Passou no boteco ao lado da faculdade e resolveu tomar uma. Uma, não: um. Pediu vinho. O garçom, desacostumado, nem sabia se havia algum vinho para servir. Voltou quatro minutos depois:

– Tem este aqui…

– Vai esse mesmo.

Vinho, para ela, tinha sabor de festa, aniversário, reunião com amigos. Sozinha, nunca. Pois agora o vinho estava ali na sua frente. Seria também uma reunião. Só que desta vez, dela com ela mesma. Hora de colocar os pingos nos is, os acentos nas sílabas certas e os pontos finais nos devidos lugares. Pra que mesmo aquele MBA? Ela, que sonhava ser atriz. Zonza da silva, foi para a aula. Entrou na sala errada, sentou-se na última cadeira e prestou a maior atenção. Fez anotações no caderno. Na hora de ir para casa, a zonzeira não havia passado. Melhor não dirigir e voltar de táxi. Aproveitou um que acabara de deixar o passageiro.

– Para onde vamos, senhorita?

– E por acaso o senhor sabe de onde todos nós viemos?

Da faculdade até sua casa, falaram sobre política, a chuva da semana passada, receita de queijadinha com doce de leite – exclusividade da mulher do motorista –, bíblia, MBAs e novela. Ele estacionou, acendeu a lâmpada sobre o espelho retrovisor, a Nossa Senhora pendurada nele ficou iluminada. Enquanto procurava cinco reais para o troco, anunciou:

– Vou dizer uma coisa: criei meus seis filhos sem esse tal de MBA. Perca seu tempo não, dona. Quem faz o que gosta ganha dinheiro se divertindo.

Dia seguinte, manhãzinha, foi até a faculdade buscar seu carro, que dormira na rua. No pára-brisa, o recado: “Desculpe-me pelo amassado. Me procure e acertamos tudo. Obrigado, Henrique”. Achou engraçado tanta paroxítona. No verso do cartão, pôde ler: o Henrique era dono da escola de teatro, a sete quadras dali. Foi lá, encontrar a sua sílaba tônica.