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Herança

“Under the cherry tree”, Majali

Uma tarde, visitei meu avô. Seguindo à risca seu ritual, ele passou café, serviu a mesa, lavou xícaras e pires, e colocou-os molhados sobre a toalha branca. A garrafa térmica, idem. Não enxugava nunca. O que me causava certa gastura.

Em meio a histórias de quando trabalhava nos Moinhos Minetti Gamba, gols do Palestra e lembranças da minha avó, ele se levantou e foi até o quarto. Remexeu em seu guarda-roupa e voltou com uma dúzia de cabides. Pretos, de plástico. Dos bons. “Fica pra você!”. Disse que não precisava de tantos.

Não era meu aniversário, nem nada. E Vô Paschoal , embora doce, nunca foi chegado a demonstrações explícitas de afeto. Tampouco eu era a neta preferida, posto eternizado pelo meu irmão mais velho. Naquele dia, no entanto, seu carinho estava ali. Multiplicado por doze. E onde quer que eu vá morar, lá estarão os velhos cabides. Não dou, não troco, não vendo, não empresto.

Noutra visita, não sei se antes ou depois, também voltei com presente. Desta vez, uma assadeira. Estava no armário, com algumas menores dentro. Uma matrioska de assadeiras, e eu ganhei a maior. “Sua avó usava muito!”. Por certo, ele considerou importante que eu tivesse uma peça daquela na cozinha. Fato: nela preparo torradas, minipizzas, tortas, pão de queijo. O antiaderente está ligeiramente comprometido. Pudera, são mais de vinte anos, só comigo. Às vezes, as coisas grudam. Às vezes, é a saudade que não desgruda. E onde quer que eu vá morar, lá estará ela. Não dou, não troco, não vendo, não empresto.

Além de uma assadeira e doze cabides, também herdei seu jeito de bufar, revirando os olhos, quando o sangue vêneto lhe fervia. Ah: e o colete cinza de seu terno. Que não me foi dado em vida; catei pra mim quando ele se foi.

Hoje, aliás, é um bom dia para vesti-lo. Pensando bem, esta sexta também pede pães de queijo para o lanche da tarde. E, de quebra, um legítimo bufar paschoalino pelas notícias dos jornais.

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Das coisas que não faço

Arte: Leszek Pietrzak

Dentre as coisas que minha mãe fazia para mim, no tempo em que eu era criança pequena e também quando virei criança crescida, há várias que não perpetuo com meus filhos, como seria natural. É como quebrar a corrente, furar o comboio afetivo, interromper a matrioska. Às vezes, me cobro. Outras, nem tanto. É meu jeito de combinar passado e presente.

Não faço bolos para meus filhos. Em casa sempre havia um: nêga-maluca, pão-de-ló, bolo com recheio, bolo sem recheio, bolo para o chá, bolo genérico, bolo de qualquer coisa. Tinha o tal do bolo-coelho, famoso na vizinhança e entre os familiares. Feito sob encomenda, demorava um tempão para ficar pronto. Lembro do seu caderno de receitas com o esquema para confeccioná-lo, passo a passo, e uma ilustração feita à mão do orelhudo. Receitas também são uma espécie de desenho. Hoje, vitimada pelo tempo arisco e seduzida pela conveniência do bolo pronto, recorro à padaria e escolho um, embalado em isopor fácil, sem assadeira para lavar depois. Não me lembro mais do ronco da batedeira. Aliás, não tenho batedeira. Raspar restinho de massa na tigela é apenas uma doce, cristalizada e antiga lembrança. Nem sei mais o ponto da clara em neve. Não fiz nenhum dos bolos de aniversário dos meus filhos. Ao contrário de mamãe, que assinava todas as produções culinárias, festivas e não-festivas. O bolo pronto, vá lá,  é bom. Mas é bolo sem história, sem certidão de nascimento, nem RG. Não tem signo. Dia desses, o mais mais velho comentou, com expressiva animação, o bolo que comera na casa da vizinha. Tinha gosto de mãe.

Não faço roupas para meus filhos. Mamãe costurava, tricotava e crochetava para nós. O guarda-roupa dos meus vem unicamente das lojas. Quando a caçula soube que eu andava tendo aulas de corte e costura, encomendou uma saia igualzinha à que eu acabara de fazer para mim. “Até aqui, mãe”, disse ela, marcando com a mãozinha a altura do joelho. Ainda não fiz. Devo-lhe isso, filha. E sequer elaborei uma boa lenga-lenga para justificar a demora. É porque não tem, mesmo.

Não nado com meus filhos. Não que eu tenha tantas lembranças maternas dessas situações. Nem sei se ela gostava. Mas entra para a lista, também. Sou avessa a experiências líquidas, embora saiba nadar. Minha atitude diante das águas é limitada à contemplação, à reverência. Não careço de maiores interações, enfim. Recuso sistematicamente o convite dos pequenos para o tchibum. Ao lado de deixar crescer meus cabelos, esse é o maior desejo deles. Um dia, quem sabe. O tchibum, claro.

Das coisas que faço para meus filhos, independentes do legado parental – como desenhar com eles, passar longas horas nas livrarias, promover sessões de cócegas, cortar-lhes as unhas enquanto eles assistem TV, preparar-lhes banana amassada em forma de coração – , qual delas eles imortalizarão junto aos meus netos e qual eles quebrarão a corrente?

O futuro do pretérito, no quesito tradição, nunca será perfeito.