Porque hoje é sábado

Foto: David W

Não é a vingança, o prato que se come frio. Isso é uma mãe almoçando.

É sábado e ela está feliz. Dormiu vinte e quatro minutos a mais do que normalmente faz de segunda a sexta. O pai está em casa, o que lhe permitirá um banho matinal sem intercorrências, como chamados para acudir filhote de pardal caído do ninho, intermediar uma discussão salomônica acerca da divisão do único biscoito recheado restante no pacote ou apartar um arranca-rabo digno de campeonato UFC, versão kids.

É sábado e ela pede penne com frutos do mar em seu restaurante favorito. Ela saliva e quase baba quando o garçom pousa o prato cor de marfim sobre o sousplat laranja. Sua visão fica ligeiramente turva e ela, numa alucinação, vê a pasta de grano duro fazendo sexo com o vôngole e o camarão, bem ali na sua frente, numa orgia gratinada de fazer inveja.

Ela aguardou aquele momento feito criança que espera pelo presente de Natal, pelo primeiro acampamento, pelo dia de poder andar no banco da frente.

É sábado e o penne, o vôngole, o camarão e até a lula lhe sussurram, “Vem”. E ela, completamente seduzida, diz, “Vou”.

Mas é sábado e o caçula, que mandou bem no café da manhã, anuncia: precisa ir ao banheiro. Ela lança ao pai um olhar de gloriosa superioridade, e em seu sorriso de Mona Lisa esfomeada se lê a legenda: “Sua vez”. O pequeno, chacoalhando na cadeira, detalha: é número dois.

E o pai tem nojo. Um asco ancestral, inexplicável e inegociável. Ela relembra o dia em que ele lhe pediu seu telefone. Um sábado.

A missa é no domingo, mas ela antecipa suas orações e roga que o penne, o vôngole, o camarão, a lula e o raio que o parta permaneçam minimamente aquecidos até sua volta.

A pressa pode ser inimiga da perfeição, mas é amiga da mãe. “Anda logo, Pedro Henrique”.

Mãe e filho retornam à mesa. Ela confere a aparência, textura e, sobretudo, a temperatura do que, há nove minutos, era a mais perfeita tradução do prazer. Não é só pelo leite derramado que se chora, mas pelo macarrão emborrachado e gelado.

É sábado, é tarde, é uma pena e era uma vez um penne. Não há o que fazer. Foi ela quem insistiu para que o menino comesse aveia.

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3 comentários sobre “Porque hoje é sábado

  1. Adorei…Agora sou apenas a vóvis e como o que quero, à hora que quero, como(‘) quero..Mas creio que será por pouco tempo: em breve (espero que não muito) chegará o tempo de Bisa…e aí, SEJA O QUE DEUS QUISER!!!

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  2. Adoro seus trocadilhos. Você é craque nisso. Crônica totalmente visual. Imaginei a massa, o sexo com os ingredientes e a herança dos quintos dos infernos do pai. Deu até fome de macarrão.

    Muito bacana, amiga. Tu é fera!!!
    Bjs de camarão,
    Huck

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