Arquivo da tag: rotina

O que você faz?

arte: Andrea Joseph
arte: Andrea Joseph

– O que você faz?

Por um instante, tento adivinhar que tipo de resposta o perguntante busca. Se pergunta porque deseja, por mera ou suspeita curiosidade, saber a atividade pela qual sou remunerada. Se pergunta genericamente, sem maiores pretensões, aguardando abreviado esclarecimento. Ou se pergunta por perguntar, para puxar assunto, quebrar o gelo. Mais ou menos como quando se está numa festa em que se conhece apenas um convidado, e ele some. Na dúvida, sorrio e elaboro mentalmente a resposta (quase) completa.

– Faço força para acordar cedo. Faço banana amassada com aveia e Toddy em formato de coração para meu filho e bisnaguinha na chapa com ovos mexidos para minha filha, de café da manhã. Faço agendas inviáveis e acordos impossíveis com Cronos. Faço tempestade em copo d’água e, das tripas, coração. Faço o bem e, vez por outra, olho, sim, a quem. Faço o que eu digo e faço o que eu falo – tento fazer sentido. Faço amor. Faço guerra, também. Faço de um limão, limonada; de uma alegria, felicidade, e de uma lembrança sólida, nostalgia líquida. Faço muito. Faço pouco. Faço é nada. Mas faço o que posso. Faço caminhos e laços tortos (fazer o quê!). Faço graça. Faço surpresa. Faço coleção de bolsas, caderninhos e cafeteiras. Faço, aliás, juras de amor ao café (e faz tempo). Faço suco de maracujá com gengibre, kibe de soja, hamburguer de abobrinha, bolo de cenoura, arroz e feijão cheios de alho. Para tudo isso, faço supermercado. Faço livros, blogs, amigos. Faço homenagem e piada. Faço rir, faço chorar e faço dormir. Faço ideia. Faço grandes malas e boas viagens. Faço uma fézinha de vez em quando, e já vou fazendo planos. Faço cara feia. Faço pouco caso. Faço que não é comigo. Faço bobagem, faço vista grossa, faço por merecer. Faço o que eu quero, pois é tudo da lei – da lei! Faço as pazes, as camas, as unhas (faço questão). Faço ligações, conexões e intervenções. Faço minhas orações, minhas doações e minhas proclamações. Faço anos todo ano. Todo ano, faço promessas de ano novo. Faço conta e faço de conta. Faço, enfim, alguém feliz. – E você, me diga: faz o quê?

Amanhã

Ilustração: India Amos/Flickr.com

Contei: são seis livros novos repousados ao lado da cama, mais outro tanto, arrumadinho na estante. Adquiridos, emprestados, ganhos. Todos aguardam, pacientemente e em certa fila anárquica, minha leitura. Que inicia, avança, mas não finda. É a roda-viva do dia-a-dia, fazendo picadinho de mim. A maldição do fiado, enfeitiçando a biblioteca particular: só amanhã.

Quase sempre, vivemos, os livros e eu, algo parecido com a síndrome do mamão. Eternamente renovado na fruteira, sob os votos de papá-lo todos os dias, ele há de garantir longevidade e intestino em ordem. Já registrei em cartório: quero completar cem anos fazendo tai-chi-chuan na praia. E o fruto é protagonista do plano. Fatalmente, porém, eu o flagro apodrecendo. Ao preferir o açucarado e fácil Sucrilhos matinal, me esqueço dele. Assim é com o livro, que vive perdendo a vez para eventuais fast-leituras, lotadas de calorias e poucos nutrientes. Livro, ao menos, não estraga. Também contribui para a vida longa, põe a mente para funcionar, faz bem à pele. E, de quebra, também é cheio de sementes.

Dei para colecionar livros na (vã?) promessa de que esse, ah! Esse eu vou ler. O problema é que arrumo sarna demais para me coçar. A leitura prometida fica para o dia seguinte, mês que vem, nunca. E ‘nunca’, todo mundo sabe, não existe no calendário. Eles, os livros, vêm parar nas minhas mãos por vários motivos. Um é culpa do projeto gráfico, lindo de morrer. Outro, de um assunto que eu pre-ci-so dominar. Mais um, daquele autor que eu não perco nenhuma vogal publicada. Mais outro, porque o amigo achou que eu deveria ler, e me deu de presente. (Quase sempre o amigo está certo.) Como procuro não questionar os mecanismos (ou ordens) do universo, eu os acolho, dou-lhes as boas-vindas, apresento-lhes a estante, confiro suas orelhas, exploro até a página vinte. Ler inteiro, que é bom, necas. Em casa, a proporção entre lidos e não-lidos beira o fracasso: um para dez. Até o criado ao lado da cama, que não é nada mudo, levanta a voz para mim, vez por outra: “O que há com você?”. Não sei de qual doença padeço.

Tê-los, apenas tê-los, vistosos na estante, funciona como alívio, espécie de garantia: a de que só sua presença já fará seu conteúdo ser telepaticamente absorvido. Tornar-se proprietário de um livro dá certa paz, algum conforto, uma quase segurança. Sabe-se lá se ele, mesmo quando não é folheado, não é capaz de emanar suas letras pelo espaço, além capa, além prateleira?

Batizei um lugarzinho em meu computador, no browser, de “Para ler depois”. É lá que guardo o que vou descobrindo de interessante no oceano sem fim da web. São links de artigos, matérias, críticas, resenhas, blogs. E, como nas promessas para livro e mamão, juro retornar em breve. Sempre dou cano. Não sei ler tanta notícia.

Antes de dormir, contei de novo os livros ao lado da cama. Havia cinco. Li? Não. Marido levou um, sem avisar. Só assim. E viva o fiado.

Pelo caminho, parte 2

Ilustração: Silvia Falqueto/Flickr.com

Oito e meia. A ginástica – compulsória, automática, ausente de prazer – é, enfim, encerrada. O alongamento diz ‘Olá’ aos músculos recém-percebidos, a toalha seca o rosto. E o rumo agora é certo, previsível e familiar: caminho de casa.

Certo, quando a única coisa esperada é retornar ao lar.

Previsível, como aquilo que se sabe, sempre.

Familiar, porque eu sou aguardada. Não para um compromisso ou evento; apenas para quitar a preocupação. Numa família, todos se esperam em casa. Numa família, só se repousa, de fato, quando todos chegam em casa. Verdade cunhada pelo “Trem das onze” do Adoniran.

Pois não fiz nada disso. Não fui para casa. Dei-me o sabor de um brevíssimo jantar no meio do caminho. Sem companhia, sem comunicado, aviso prévio ou satisfação. Para que a única satisfação fosse íntima: saborear a inédita refeição. E avisar em casa não fazia parte do plano. Era a minha pequena contravenção. Meu pecado, nada original. Cometido com a anuência de outro, a gula.

Não fiz, no entanto, ninguém em casa perder o sono. No pequeno desvio de percurso não deixei mortos, nem feridos. Todos se salvaram. Logo, muito logo, eu estaria de volta. No trem das nove. Trinta minutos fora do ar garantiram o direito à solidão, tão rara em meus tempos de mãe. Mulher tem direito à solidão. Mãe, nem sempre. Certos mandamentos familiares têm a força do concreto armado. Convém, de vez em quando, implodi-los. Carinhosamente.

Pelo caminho

Ilustração: David Chilstrom/Flickr.com

Sei muito bem onde eu estava com a cabeça ontem, quando quase perdi a saída na rodovia. Eu tentava lembrar alguns trajetos que não faço mais. Os que foram minha rotina certa, familiar e previsível, por anos a fio. Os feitos a pé, ônibus, metrô, carro, quando eu tinha cinco, dez, quinze, vinte, trinta anos. E foi assim, brincando nos caminhos do passado, que quase me esqueci da trilha do presente.

Registro fundamental: o percurso de casa, meu marco zero particular, para a escola, que ficava na esquina. Aqueles duzentos metros deviam ser uma lonjura, posto que nunca me deixavam ir só. Alguém sempre me acompanhava. Cresci e fui autorizada à independência. Ia e voltava sozinha para a aula. O caminho de breves cinco minutos durou nove anos.

Nos finais de semana, de casa para a casa da bisavó. Esse, sim, longe. Cruzávamos os bairros a pé, minha mãe, minha irmã, minha avó e eu. Às vezes, minha irmã escapava. Mas eu era criança e ainda não tinha tanto poder de argumentação. Só me restava acompanhar os mais velhos em seus passeios e obrigações sociais. Lá havia chá-mate pelando de quente e com muito açúcar, servido nas xícaras de porcelana coloridas, tão finas que eu tinha medo de trincá-las com meus goles. E tinha sempre tios, tias e primos por perto. Os parentes gostavam daquele modelo onde várias famílias moram no mesmo quarteirão, e vão abrindo caminhos e instalando seus portõezinhos para conectar as casas. A visita era, portanto, quase sempre coletiva. Hoje eu me perderia por aquelas quebradas e não reconheceria a rua, nem a casa da minha bisavó. Nem ela, nem os parentes, moram mais lá. Os velhos portõezinhos fecharam-se para sempre.

Colegial. O mesmo ônibus, apanhado no mesmo ponto na rua de cima, com pequenas variações nas linhas, ao longo de três anos. O mesmo metrô. E do metrô à porta do colégio, seiscentos metros a pé em uma rua eternamente decorada com cocô de cavalo, visto que havia um quartel ali. Cavalos e soldados levavam-se para passear e, sabe-se, cavalo é bicho que não tem frescura. Faz onde dá vontade. Quinze para as sete da manhã e minhas narinas eram tragicamente acordadas. Saberia refazer esse percurso. Mas os cavalos continuam por lá. Melhor não.

Faculdade. O primeiro emprego. O segundo. Foram anos de trólebus, os varões sempre escapavam dos fios. Lá ia o trocador: pausava a aferição do dinheiro, pulava a catraca, descia do ônibus, encaixava os danados no lugar, subia no ônibus, pulava a catraca, retomava seu posto e a conferência. Eu tinha pena dele. E, hoje, não saberia mais fazer os trajetos dos ônibus. Ou saberia? Tem memória que funciona no tranco. Se embarcasse num trólebus, a primeira coisa que eu faria seria tranquilizar o trocador: “Se escaparem, deixa comigo”. Mais tarde, passei a navegar pela cidade sobre minhas próprias rodas. Pude escolher os caminhos, variá-los e errá-los. Por vezes, parei atrás de um trólebus e acompanhei, não sem impaciência, a velha missão do trocador. A gente se esquece das coisas muito rápido.

As ruas todas onde passei e repassei a vida, salvo algumas mudanças das mãos, permanecem em seus lugares, têm ainda o mesmo nome. Quando se faz o mesmo caminho todo dia, exerce-se sobre ele uma espécie de propriedade. “Meu caminho”. É para que a (necessária) mesmice cotidiana ateste o passo – e a posse – sobre a vida. Quando um trajeto é abandonado, deixa de ser próprio. Muda de dono. Como um objeto pessoal que foi doado. Separar-se de um caminho é exercício de desapego. E refazê-lo, seria de quê?

Meus trajetos, hoje, também correm o risco da deslembrança futura. Quanto a isso, parece não haver saída. Nem a que eu quase perdi ontem, na rodovia.

Filosofia de chuveiro

Foto: Mel Toledo/Flickr.com

Sexta-feira é dia da empregada lavar meu banheiro. E ela muda tudo de lugar no porta-xampu. É desses de dois andares, compartilhado com o marido. As coisas dele ficam no térreo. No primeiro andar, as minhas, mantidas em previsível ordem. Xampus à frente, condicionadores atrás; óleo de banho na sequência; ao lado, esponja, sabonete e aparelho de barbear para o sovaco. Em dia de faxina, no entanto, fico perdida com a nova órbita dos meus satélites. O xampu no finzinho, deixado propositalmente de ponta-cabeça para melhor aproveitamento, está em pé de novo. O aparelho de barbear, apesar de cor-de-rosa, foi transportado ao território masculino. Percebo, aliás, que ali também houve certa embaralhada (não captada pelo patrão). Semana após semana, ela não repete o lugar de nada, num intrigante ineditismo. São sempre novas combinações. Criatividade, pressa ou distração?

Ao fazer isso, sem saber, ela altera o ritmo do meu banho. Invade a parte que me cabe nesse minifúndio feito de azulejos. Confunde meus neurônios, agora obrigados a novas e complexas sinapses. E deixa sua indelével pegada em território tão íntimo.

Depois de sua passagem pelo local eu me ponho, secretamente, a corrigir tudo. Sexta passada, porém, tomei a incomum decisão: deixei tudinho como ela definiu. Sabendo que o xampu do marido está no lugar do óleo perfumado, e consciente do risco dele usá-lo na cabeça.

Nesse pequeno e doméstico exercício, aparentemente sem importância, eu revejo o quanto a rotina, em seus detalhes, está sedimentada. E o quanto mexer nela pode alterar o percurso do dia. Para o bem e para o mal.

O cotidiano não é, mas pode ser um cruel replay de vidas presentes. Acordamos à mesma hora, levantamos sempre pelo nosso lado da cama, calçamos – ou não – os chinelos. Escovamos os dentes começando pelo mesmo lado da boca, bochechamos com água o mesmo número de vezes, secamos as mãos do mesmo modo. Espreguiçamo-nos igual ontem e olhamos pela mesma janela, que nos devolve a mesma paisagem. Sentamo-nos em nosso lugar à mesa e recriamos o café-da-manhã da manhã de ontem, variando entre pão ou torrada, café-com-leite ou suco de laranja. Escolhemos uma roupa e, raras exceções, optamos pelo já testado e aprovado. Dirigimos do mesmo jeito até o lugar de sempre e, no caminho, reparamos no que já foi percebido. Damos bom dia aos colegas de trabalho com o mesmo sorriso (salvo em dias de TPM), realizamos nosso ofício da mesma maneira, com direito a pequenas alterações no decorrer do período. Para quem fica em casa não é diferente. Depois, não sabemos por que é que nada de novo acontece na nossa vida. É uma repetição sem fim de gestos e hábitos, cristalizados, talvez, em nome da segurança e conforto de um suposto saber sobre como tudo será. Os dias da semana nem precisavam ter nomes diferentes.

A criatividade, pressa ou distração da empregada, quem diria, se torna uma grandiosa benfeitoria. A imperfeição da ordem no porta-xampu está somente em meu olhar. É em meu referencial que o caos mora. No primeiro ou segundo andar, tudo continuará ao meu alcance e com suas funções preservadas: o sabonete sempre será sabonete, e assim por diante. Se eu pudesse estender isso pela vida, meu mundo seria outro.

Mas quer saber? Não dou três dias para eu colocar tudo de volta no lugar.

Diariamente

Ilustração: Tadashi Kumai/Flickr.com

Todos os dias, enquanto escovo os dentes antes de dormir, presto atenção ao meu rosto. Não quero perder seu envelhecimento diário. Também não desejo, um belo dia, lá na frente, me assustar: “Meu Deus, estou velha”. Minha observação é pura precaução. Não posso fazê-la pela manhã, no entanto. Sou imprestável ao acordar. Como a tartaruga-marinha recém-nascida, que brota do seu ovo escondido na areia e dispara para o mar, eu broto dos lençóis e disparo para o chuveiro. É lá que termino de nascer. No banho, a água morna aciona minha agenda e eu repasso, tal uma vidente, o dia já anunciado.

Todos os dias, numa hora qualquer, presto atenção a alguma parte do meu corpo. Dedão, batata da perna, dorso da mão. Não quero perder de vista uma sarda nova, o anúncio de uma limitação física inédita, uma ruga que chega sem avisar. Meu corpo é uma hospedaria de sinais do tempo. Não gosto de todos, mas é preciso recebê-los e tratá-los bem. Sou feita deles.

Todos os dias, não sei ao certo a que horas, nem por quanto tempo, dedico-me a decorar os filhos. Estudo seus tamanhos, cheiros, formato dos olhos, quantos dentes aparecem quando sorriem. Talvez, por isso, ainda não tenha me espantado ao vê-los já grandes, nem compartilhado com outras mães as clássicas constatações, “Como cresceram!”, “Como o tempo passa rápido!”. Depois que tive filhos, o tempo não passou rápido coisa nenhuma. Seu compasso é o justo. Ser mãe demora. Uma vida inteira, por sinal. Às vezes, mais de uma.

Todos os dias, eu leio. Jornal, pensamento, olho, futuro. Nem sempre entendo o que dizem. Mantenho um dicionário na bolsa e outro no coração, para os casos de dúvida. Vez por outra, nenhum dos dois me acode. Então, em vez de ler, escrevo.

Todos os dias, é um tal de lembrar e esquecer as coisas, que nem sempre me lembro de lembrar de Deus. Sei que ele não liga para isso. Somos bons amigos, daqueles que não precisam se falar todo santo dia. E ele sabe que preciso mais dele que ele de mim. O que também não o preocupa. É mais velho, mais escolado. Não é dado a criancices. Isso ele empresta aos pequenos. Que vão lhe devolvendo as criancices, aos poucos, enquanto crescem. Mas eles nunca devolvem tudo. Sempre guardam um pouco delas, escondido entre uma coisa e outra. É assim comigo, é assim com todas as pessoas. Gente é incrivelmente parecida e repetitiva.

Quase todos os dias, quando dou comida para meus gatos, busco nas prateleiras mais inalcançáveis da memória as recordações dos outros animais que já viveram comigo. Três cães, dúzias de felinos, um hamster, alguns passarinhos. Enquanto fizer isso, vivos eles permanecerão. As lembranças são fundamentais para o registro da história – deles e minha. Despejo a ração nas vasilhas e vou historiando. Brinco que os bichos de agora são os de outrora, renascidos. É um jeito – inofensivo – de matar as saudades.

Quase sempre, no almoço ou jantar, imagino a jornada do alimento dentro de mim. Cada um dos nutrientes conhece plenamente a sua missão, sabe para onde ir e o que fazer para me manter viva e razoavelmente saudável. Ninguém lhes ensinou isso. Eles sabem por que sabem, a vida deles é tão somente ser. De vez em quando, queria ser um feijão.

Nem todos os dias sou feliz. Na maioria, alegre. Todos os dias, porém, sou valente. Isso basta.