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Tipo exportação

Cresci ouvindo falar em café tipo exportação. Laranja tipo exportação. Castanha de caju. Gasolina. Mulata.

Depois entendi.

Tipo exportação é quando a gente faz uma coisa que é bacana, mas precisa torná-la mais bacana, praticamente excelente, para poder vendê-la para outros países. (Entendi também que a mulata não deveria estar na lista.)

Ou seja: para fora, segue sempre o melhor.

Para dentro, não precisa ser o melhor. O bom já serve. O possível, o que dá.

Tem horas que concluo: eu sou uma pessoa tipo exportação.

Sou bacana, mas sou mais bacana ainda, praticamente excelente, para os outros. Sei dedicar carinho e atenção e gentileza às pessoas da minha família, as “de dentro”, mas acabo fazendo isso melhor para as de fora. As dos outros lares que fazem fronteira com o meu. Um lar é um país.

Tem dias que solto os cachorros em casa. Vocifero, esbravejo, surto por tudo e por nada.

Porém, se no instante de fúria doméstica o interfone toca e eu atendo, a voz recupera a maciez, “Tenho, sim, um ovo para emprestar. Levo aí!”. É a minha gentileza tipo exportação.

Quem nunca cuspiu fogo quando o namorado ou namorada faz um comentariozinho qualquer, questionando, por exemplo, seu empenho para arrumar emprego? Se, no entanto, é o professor da faculdade que lhe cutuca, além de aceitar a observação, agradece pelo toque… É a maturidade tipo exportação.

Nessas horas evoco Cazuza em livre e desesperada adaptação: por que que a gente é assim?

Se para a família e pessoas íntimas deveríamos, em tese, oferecer sempre o nosso melhor, o nosso excelente. Mas não. Estamos muito à vontade para escancarar nosso lado B. Mesmo que o preço seja uma carinha com superávit de tristeza no fim do dia.

Bom mesmo é ser do tipo importação. Do tipo “eu me importo com você”. Faz bem às relações. Até as internacionais.

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Cupidagem de supermercado

É desses supermercados que colocam um formulário no caixa, para que as pessoas indiquem produtos que, na opinião delas, estejam faltando. De geleia de pimenta à coleira, os fregueses vão anotando o que gostariam de ver nas prateleiras.

Na hora à toa, quando já coloquei toda minha compra sobre a esteira e aguardo a mocinha passar coisa por coisa, aproveito para me atualizar do que querem as pessoas. O leitor de preços vai cantando, pip, e eu, leitora, vou conferindo a listinha dos clientes. Às vezes o processo é demorado; ela lança a goiaba branca em vez da vermelha. Chama o supervisor (que está ocupado e vem irritadiço), ele passa seu cartão de funcionário, digita a senha, cancela o item e a goiaba branca desaparece da tela.

Na listinha de hoje, dois pedidos especiais. O freguês reclama que não encontrou a catuaba selvagem – prestem atenção: não basta ser o lendário afrodisíaco, tem que ser selvagem (oh furor!) – e a freguesa sinaliza que homem acabou.

Enquanto a mocinha do caixa digita manualmente o código da linhaça dourada, porque o leitor eletrônico resolveu encrencar, penso em sugerir ao supermercado que invista nas novas tecnologias. A listinha de produtos faltantes poderia virar um aplicativo, disponível para Android e iOS. Numa espécie de rede social com algoritmos especialmente programados, seria permitido que, fosse o caso, os fregueses pudessem contatar uns aos outros.

O freguês animadinho que pediu a catuaba poderia conhecer a freguesa solitária que relatou a falta de homem. E todos seriam felizes para sempre. Fim.

O que você faz?

arte: Andrea Joseph
arte: Andrea Joseph

– O que você faz?

Por um instante, tento adivinhar que tipo de resposta o perguntante busca. Se pergunta porque deseja, por mera ou suspeita curiosidade, saber a atividade pela qual sou remunerada. Se pergunta genericamente, sem maiores pretensões, aguardando abreviado esclarecimento. Ou se pergunta por perguntar, para puxar assunto, quebrar o gelo. Mais ou menos como quando se está numa festa em que se conhece apenas um convidado, e ele some. Na dúvida, sorrio e elaboro mentalmente a resposta (quase) completa.

– Faço força para acordar cedo. Faço banana amassada com aveia e Toddy em formato de coração para meu filho e bisnaguinha na chapa com ovos mexidos para minha filha, de café da manhã. Faço agendas inviáveis e acordos impossíveis com Cronos. Faço tempestade em copo d’água e, das tripas, coração. Faço o bem e, vez por outra, olho, sim, a quem. Faço o que eu digo e faço o que eu falo – tento fazer sentido. Faço amor. Faço guerra, também. Faço de um limão, limonada; de uma alegria, felicidade, e de uma lembrança sólida, nostalgia líquida. Faço muito. Faço pouco. Faço é nada. Mas faço o que posso. Faço caminhos e laços tortos (fazer o quê!). Faço graça. Faço surpresa. Faço coleção de bolsas, caderninhos e cafeteiras. Faço, aliás, juras de amor ao café (e faz tempo). Faço suco de maracujá com gengibre, kibe de soja, hamburguer de abobrinha, bolo de cenoura, arroz e feijão cheios de alho. Para tudo isso, faço supermercado. Faço livros, blogs, amigos. Faço homenagem e piada. Faço rir, faço chorar e faço dormir. Faço ideia. Faço grandes malas e boas viagens. Faço uma fézinha de vez em quando, e já vou fazendo planos. Faço cara feia. Faço pouco caso. Faço que não é comigo. Faço bobagem, faço vista grossa, faço por merecer. Faço o que eu quero, pois é tudo da lei – da lei! Faço as pazes, as camas, as unhas (faço questão). Faço ligações, conexões e intervenções. Faço minhas orações, minhas doações e minhas proclamações. Faço anos todo ano. Todo ano, faço promessas de ano novo. Faço conta e faço de conta. Faço, enfim, alguém feliz. – E você, me diga: faz o quê?

De que lado estamos?

Arte: Juliana Moraes

Meu marido e eu já moramos em três casas diferentes. Nas três, sempre dormi do lado esquerdo da cama que, por sua vez, ficava próximo à porta. Não me recordo de essa ter sido, em nenhuma das vezes, uma escolha racional. Foi chegar e ir instalando travesseiro e pijama no “meu lado”. Nos hotéis, em casa de parentes, o padrão perto-da-porta se repete. É intuitivo.

(Leitores casados agora estão pensando em que lado da cama dormem e por que.)

Em território doméstico, a exceção foi inaugurada há pouco tempo: como ele se levanta antes, negociou para ficar próximo ao banheiro. Quis dar três passos e estar na ducha, em vez de dez, caso precisasse dar a volta na cama. Qualquer providência que o ajude a ganhar tempo pela manhã, ainda que alguns segundos, é bem-vinda. Ele não sabe, mas sinto falta do meu autoproclamado lugar.

Reparei em alguns quartos (eu reparo) e concluí que estou com a maioria: mulheres escolhem o lado mais próximo da porta, seja ele o lado esquerdo da cama ou não. Para os casais, a definição do lado de dormir é natural, regida por um acordo silencioso e invisível. Dispensa argumentações ou reivindicações. É feita de paz.

Coincidência? Ordem mundial? Ou lógica ancestral da maternidade, mesmo quando ela nem é exercida? Afinal, quem está perto da porta socorre primeiro (em tese; não vale para sonos de pedra) o filho que acorda chorando no meio da noite.

O mundo é organizado, explicado e obcecado pelos lados. O lado escuro da lua. O lado A e o lado B dos velhos discos de vinil. O lado esquerdo do peito, a abrigar, simbolicamente, amores e amigos. O lado direito do cérebro, a casa da criatividade. Política, educação, ativismo social, todos divididos em lados. O lado bom e o lado mau das coisas. O lado ocidental e o lado oriental. A vida do lado de cá, a vida do lado de lá. De se esperar que descanso e sonho, as fundações do mundo, seguissem também a geografia da lateralidade.

Na última configuração do quarto dos meus pais, minha mãe dormia do lado esquerdo, justamente o lado da porta. Há, portanto, herança genética no meu jeito de dormir. Desde que enviuvou, meu pai dorme em uma cama de solteiro. Nunca mais precisou escolher seu lado.

Os mitos do amor

Foto: Paul Moody
Foto: Paul Moody

Dos mitos que os amantes inventam para o amor, três são dignos de nota.

O primeiro e mais falacioso: dois em um.

A medicina tem um baita trabalho para tentar corrigir o engano da natureza, que faz duas pessoas nascerem grudadas – os gêmeos xifópagos. E alguns malucos apaixonados, veja só, insistem em querer “se tornar um”, ainda que simbolicamente. Nem na plena adolescência, contaminada de certa crença em príncipes encantados, a ideia da fundição amorosa me agradava. “Dois em um” só fica bem em alguns produtos, como xampu & condicionador, impressora & scanner. Num relacionamento, é bom que cada um continue com seu corpo, sua alma, seus segredos, seus amigos, seus carros e seus RGs. Sem essa de um completar o outro. A única pessoa que me completa é o frentista do posto. Peço sempre para ele completar com gasolina comum (ou etanol, quando está em conta).

O segundo, tipicamente pueril: dormir de conchinha.

Conchinhas do mar são fofas. Quem nunca colecionou, quando criança? Era ir à praia e voltar para casa trazendo aquele montão, que logo ia para o lixo. Um dia, alguém cismou de compará-las ao modo dos casais enamorados dormirem, assim, encaixados, grudados. A concha, no entanto, é uma carapaça. Rígida, ela guarda em si um molusco. Eu que não quero ser carapaça, nem dormir ao lado de uma carapaça. Muito menos com molusco. Gostoso mesmo é dormir feito estrela do mar, como diz minha amiga. Espalhadona, solta, à volonté. O que não significa, evidentemente, falta de amor ou romantismo. As estrelas do mar são livres, se movimentam. As do céu brilham, para quem tiver olhos de vê-las e ouvidos de ouvi-las. Ora direis… Amar e mar têm as mesmas letras, e é só isso. Façamos assim, para não haver briga, nem cara feia, na hora de nanar: cinco minutos de conchinha e sete horas e cinquenta e cinco minutos de estrela. Pronto.

O terceiro e mais ardido: a pimenta.

Dez entre dez revistas femininas lançam mão, três vezes ao ano, da expressão “apimentar a relação” e seus similares, buscando reanimar relacionamentos combalidos. Dá-lhe cinta-liga, elixires, malabarismos, pirotecnias, apoteoses. Pimenta, todo mundo sabe, queima o gogó, arde nos olhos. Um amor que faz chorar, quem há de querer? Fosse assim, vatapá seria afrodisíaco. Pimenta na relação é para os masoquistas de plantão, candidatos a uma úlcera afetiva. Melhor seria “manjericar” o namoro. Ou “coentrar”, “tomilhar”, “papricar” o casamento. Mais saudável, mais gostoso.

Há mais mitos no amor. Muito mais. Cada um que descubra e desmistifique – ou não – o seu.

Os botões do mundo

Foto: Fernando Oliveira
Foto: Fernando Oliveira

Preguei botão na camisa do marido, pedido feito há uma semana. O menorzinho, sob a gola, eternamente incumbido de mantê-la no lugar, caíra. Sabe-se lá onde.

Desenrolei o carretel, cortei a linha, lambi a ponta. Passei-a pelo furo da agulha, dobrei em duas, dei um nozinho no final, para não escapar. Apanhei o botão-estepe na bainha da camisa, ajeitei-me na cadeira e repassei, num lampejo, a trajetória feminina – minha e de todas as mulheres que me antecederam neste planeta, tão semelhante a um botão.

As tias velhas, quando queriam espezinhar uma semelhante, diziam “Essa aí não sabe nem pregar um botão”, referindo-se à falta de habilidades domésticas e, portanto, serventia, da companheira de espécie. Saber pregar botões, ao lado de saber cozinhar, lavar, passar, cuidar de casa e filhos e não reclamar era, conjugado em pretérito imperfeito e defeituoso, garantia de casamento feliz e duradouro.

A agulha entrou pelo primeiro dos quatro furos do botão e saiu do outro lado do tecido. Então é isso. De acordo com as tias, trago em mim a fagulha ancestral e invisível, mantenedora de um casamento. Dela lanço mão, sem saber, para perpetuar a minha família. Afinal, a caixinha de costura pertence a mim; não ao marido. É isso, então?

O mundo é feito de botões. A começar pelos da roupa que veste o corpo; é com eles que se filosofa o essencial e, às vezes, inconfessável. Eles estão por toda parte: na televisão, no rádio, no telefone, no elevador, na campainha, no banco, no fogão, na calculadora, no carro, no jogo de futebol que se joga com os dedos. Conta a lenda que é apenas um botão o que resguarda o destino da Terra e impede que ela vá pelos ares.

A agulha emergiu pelo segundo furo, trazendo à tona a linha. São eles, os botões, que controlam, regulam, ligam e desligam o mundo. Cuidar dos botões, portanto, é estar no comando.

Repeti a operação três vezes na primeira dupla de furos, para reforçar. Redundância é segurança de informação; é a teoria da comunicação aplicada à alfaiataria.

Passei para a última dupla de furos. O marido poderia pregar o botão sozinho. E o faria, se sozinho vivesse. Preferiu pedir a mim. Ele também teve suas tias velhas.

(Preciso contar às minhas que o mundo mudou e o botão mais famoso, hoje, não é o das camisas e chama-se “curtir”.)

Arrematei o último ponto, o pequeno botão agora está firme como uma rocha. Pendurei a camisa na porta do guarda-roupa dele e olhei pela janela. É primavera.

Quem será que prega os botões da roseira?

Crônica de minuto para quem tem gato

Arte: Peter Neish
Arte: Peter Neish

Entro no banheiro, ele vem junto. Gato gosta de acompanhar o dono nesse destino. É seu favor diário. Fica ali, roçando a quina do armário e investigando um fiapo de qualquer coisa, caído ao lado do cesto de roupas. Amante de espaços mais amplos, é na limitação azulejada do dois por dois que um gato mantém a relação com seu dono em dia.

Ele pede colo, eu dou. Ele não quer saber o que estou fazendo ali sentada. Um colo é um colo.

É noite. Aviso-lhe: “Amanhã é mais um dia”. Antevejo a rotina de afazeres, deduzo acontecimentos; ele não. A repetição dos dias não o incomoda. Também não o seduz. Gato é atemporal. Melhor: proprietário de seu tempo. Todos os eventos mundiais cabem em uma lambida na pata.

Ele salta à pia. Encara o espelho e conclui: não há outro mundo dentro dele, Alice estava enganada. Ensaia uma espécie de capoeira com a bolinha de papel amassada que larguei ali. Não preciso da bula do hidratante, mesmo. Esse horóscopo testado dermatologicamente, a informar que o tempo correrá macio a partir de agora. Fiz aniversário, o presente já começou. Gatos vêm do futuro?

Ele desce. Ouve algo lá fora, que meu ouvido humano não capta, e se prepara para uma eventual defesa. Ele enxerga, escuta e se move melhor que eu; é de admirar que seus ancestrais não tenham dominado o mundo.

Inicio o banho, ele se enrodilha  sobre o tapetinho. O som da água é sua canção de ninar. O vapor morno faz seus pelos negros brilharem. Desligo o chuveiro, saio do box e pulo o tapete para não incomodá-lo em sua soneca.

Ele finge que dorme. Observa, olhos semicerrados, meu ritual pós-banho. Todo gato é um voyeur declarado e preguiçoso.

Ele fica comigo até o fim. Saio, ele sai também. E não sei mais quem acompanhou quem.