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Crônica de minuto #51

Arte: Juan María

Ele queria um romance de mão dupla.

Ela insistia na mão única.

Ele acreditava numa conversão.

Ela mantinha distância.

A esperança é verde.

Ele engatou a terceira antes da segunda.

Ela fechou o cruzamento.

Ele foi multado por excesso de paixão.

Ela cometeu infração grave: mudou de amor sem dar seta.

O ciúme é vermelho.

Ele atrapalhara o trânsito com seus sonhos tão românticos.

Ela fora na contramão dos planos dele.

Ele quisera ser preferencial.

Ela lhe dera um balão.

A solidão é amarela.

As casas

Ilustração: Ekaterina Mitchev

Toda casa tem remédio vencido
Livro nunca lido
E ralo fedido

Toda casa tem tapete de bem-vindo com desenho engraçadinho
Forno de microondas um pouco sujinho
E xampu de ponta-cabeça, para aproveitar o restinho

Toda casa tem quintal razoavelmente bagunçado
Muito papel velho guardado
E um revisteiro, nem sempre atualizado

Toda casa com recém-nascido tem cantiga no ar
Uma visita craque em fazer bebê nanar
E quilos de fraldas que, pena!, não vão se reciclar

Toda casa com criança tem árvore de Natal
Bola murcha no quintal
E um Miojo providencial

Toda casa de gente preocupada tem leite desnatado
Dinheiro bem guardado
E portão com cadeado

Toda casa com gato tem sofá desfiado
Pelo pra todo lado
E pelo menos um vídeo dele, bem engraçado

Toda casa tem, inclusive, coisas que não rimam
Como vaso sem planta
Filme de viagem que ninguém assiste
Ímã de geladeira de lugar que já fechou
Controle remoto com pilha fraca
E cupom de promoção que não vale mais

Toda casa tem mais coisas que o necessário
Mas ninguém sabe
Que o que toda casa tem, coitada, é medo de cair.

Nota: este poema é a maior prova de que um texto, às vezes, tem vontade própria. Nascido para ser coisa de adulto, teimou e pendeu para o infantil o tempo todo. Não teve jeito: ele venceu.

Poesia de vento

Ilustração: Kathryn Harper/Flickr.com

.

Escrevi uma letra para a música que o vento fez

Quando anunciou a chuva de ontem.

Gravei meu quintal chovido em sonho

Para o dia que ele não for mais quintal de ninguém.

***

Estudei fora e dentro de mim

Só não fiz dever de casa

Eu nada devia.

***

Ganhei de aniversário uma vida, mas ficou pequena

Troquei por outra, dois números maior.

***

Fotografei o cheiro do feijão no fogo

Passei perfume na flor sem cor

Desenhei a risada da minha filha num papel de pão

Aqueci a foto da minha mãe no peito

(Ou foi ela que me aqueceu)

Deitei-me no colo do meu filho

Chamei-o de pai

Ele riu

Sabe que já foi meu pai.

***

Beijei o passado, namorei o futuro

Casei-me com o presente.

Formei-me cedo, tive filhos tarde.

Não vi a hora de ser feliz.

***

Entrei no Messenger, Deus não estava on-line.

Atendi o telefone, era eu mesma

E não era engano.

***

Fiz sopa de palavras no jantar

Estava com tanta pressa

Esqueci de por os pontos finais.

***

À meia-noite, fingi que dormia

E deixei a Cuca me pegar.

O fio da antiga meada – II

Mais um da pasta vermelha, dando sequência à sessão retrô do blog. Este aqui eu escrevi quando tinha dezessete anos. O ano era 1984. Foi uma encomenda: minha irmã deu as três primeiras palavras, e pediu que eu escrevesse o resto. Ficou assim.

Foto: J.Mark Dodds/Flickr.com

Já era tarde e ninguém o escondia mais

Surgia da profunda dor o pavor, o calor, o senhor

Brusco alívio de amor

Enternecida, a mão que o afaga

Sorri que agrada; deseja, mas não fala

Alisa o pedaço de corpo que já se esquiva

Já não era dor, nem pavor

Era cor

Cor do corpo que transmite luz

Na doce dança que não mais traduz

A leveza do já partir

E a tristeza de mãe, de não poder ir

Fere. Estilhaça.

O pequeno corpo tão cheio de graça

Que ri sem graça, pois que graça ter?

Se ao nascer já parte

Não. Não há cores que a agrade

Parece assim, luz que ofusca, mas não arde

E reanima o pavor de todos nós

Pois que senão, já era tarde.

O fio da antiga meada

Hoje eu vou arriscar. Em vez de um texto recém-saído dos meus miolos, postarei este aqui. Eu o escrevi quando tinha dezesseis anos, para uma redação do colégio. Nem tem nome. Mas lembro do professor tê-lo lido em voz alta para a classe. Desde então, ele está guardado numa pasta vermelha de elástico (quase tão velha quanto ele), junto a muitos outros, registrados com Bic e máquina de escrever. Naquele tempo não tinha computador; ‘pen’ era uma coisa e ‘drive’ era outra, e essas palavras ainda não andavam juntas.

Há meses ensaio mostrá-lo aqui, numa espécie de sessão retrô. Claro que, hoje, eu reescreveria algumas partes. Mas resolvi publicá-lo do jeitinho que foi escrito há vinte e sete anos, sem retoques. Certa de que os caros leitores darão um bom desconto para a adolescência ingênua que dele transborda. Pois é isso que eu, afinal de contas, era. Confesso: estou morrendo de medo. E com um pouquinho de vergonha. Lá vai.

Foto: John Ryan Brubaker/Flickr.com

“Quero um Deus que não saiba rezar, que morda a língua e envergonhe a família. Um Deus que não saiba ensinar e que não se preocupe em aprender.

Quero um Deus fantasiado de colombina, que traduza em sons toda a melancolia de viver.

Quero um Deus que morra antes de eu nascer, que é para eu não lembrar nem ter saudades dele.

Quero um Deus meu, que saiba fazer pizza e caipirinha.

Quero um Deus que precise tragar fumaça para se convencer que o mundo é uma tragédia, que se coloque num altar e, embriagado, diga que a vida é linda e que meus pais me amam.

Quero um Deus sujo, que seja pedreiro e que não ganhe nada. Quero mandá-lo embora e depois esperá-lo até que ele volte.

Quero um Deus lindo e fotógrafo, que não use flash e que xingue o juiz de futebol. Quero chorar por achar esse Deus tão lindo.

Quero um Deus morto, que não dê trabalho, e que morra sem dizer um pio, que é para não atormentar.

Quero um Deus triste e que tenha medo de avião.

Quero um Deus que me ouça dizer um palavrão e que ria, me chamando de criança.

Quero um Deus que cante desafinado e que não viva sem mim.

Quero um Deus que me dê chocolate aos sábados, e que goste de me ver de branco.

Quero um Deus gordo, que passe pasta de dente em queimadura.

Quero um Deus que saiba imitar gato e bem-te-vi. Que conte a história do boneco de pau que comeu a maçã envenenada.

Quero um Deus azul que limpe os óculos com a camisa, e que ande com os pés pra dentro, que é para eu rir.

Quero um Deus sozinho, que precise de mim e mande me chamar na escola. Que diga que vai morrer, só para me ver chorar.

Quero um Deus completamente pobre, que diga que é rico e que vai comprar a lua para mim.

Quero um Deus amigo dos ladrões e dos barbeiros, que saiba dirigir caminhão e que me ensine coisas da vida.

Quero um Deus mocinho, que é para eu ensiná-lo que o Papai Noel não mora no Pólo Norte, e sim na América do Sul.

Quero um dia de manhã ir acordar esse Deus com um pássaro ferido achado em nosso quintal, e ele me chamar de criança, fechar os olhos e dormir para sempre.”

Mais vinte coisas que eu não sei

Foto: Filip Bunkens/Flickr.com

Por quem os sinos dobram.

Se Deus gostaria de saber o que eu penso dele.

Como a mãe do João Hélio consegue se levantar da cama todos os dias.

Usar calculadora científica.

Calcular juros.

Calcular o quanto gosto dos meus filhos.

Se vou de azul ou lilás. Ou se nem devo ir.

Porque ainda não queimamos os nossos terninhos. Tal e qual os sutiãs.

O que quer dizer “Bye bye, Cecy nous allons” em Casaco Marrom.

O que eu faria com um milhão de dólares.

Que idioma a minha empregada fala.

Por que ainda não fiz uma cirurgia plástica.

Como fazer mala pequena.

Quanto eu já gastei com sapatos na minha vida.

Como vou cortar o cabelo na sexta-feira.

Porque tenho tanto batom.

Porque comprei outra calça saruel.

Onde foi parar o papel onde anotei as outras coisas que eu também não sei, junto com o telefone da minha amiga.

Onde eu fui amarrar a minha égua.

Onde esta estrada vai dar.

Dezenove coisas que eu não sei

Ilustração: Stewart Ho/Flickr.com

Dar ponto sem nó.

Fazer nó de marinheiro.

Desfazer os nós que andei dando por aí.

Passar delineador.

Passar camisa.

Passar batido.

Como funciona o iPad.

Quanto custa um iPod.

E como pode alguém não gostar de gato.

Tirar a prova dos nove.

Ser à prova de bala e chocolate.

Falar a língua dos anjos.

Ganhar dinheiro.

Qual é o Chitãozinho, qual é o Chororó.

O que a Paris Hilton tem na cabeça.

Que fim levou Robin.

O que é bom para tosse.

O que será, que será.

O que eu vou ser quando meu filho crescer.

***

PS: o tema rende.

Sete chaves

Ilustração: Dots and Spaces/Flickr.com

Ela levava consigo tantas chaves.

Uma para fechar o tempo em casa.

Outra para fechar a conta no restaurante.

Uma para fechar aquele contrato.

Outra para fechar o boteco.

Uma para fechar o corpo em dia de terreiro.

Outra para fechar a boca e voltar a usar aquele vestido.

E mais uma, para fechar o coração para balanço

Só para descobrir

Com qual delas abriria os olhos.

Conversa de borboleta

Foto: Rich/Flickr.com

Na camiseta cor de céu

Mora a borboleta bordada

Em fios de verde oliva e laranja lima.

A borboleta de verdade ficou curiosa e pousou

Para conversar com a amiga

Que estava tão quietinha.

Perguntou seu nome

E a borboleta bordada não respondeu.

Quis saber qual flor ela gostava mais

E a borboleta bordada não respondeu.

A borboleta de verdade desistiu e voou.

A borboleta bordada chamou baixinho

Mas não deu tempo de contar

Que não tinha nome

E gostava das margaridas

Mas preferia os girassóis.

Rostos

Ilustração: Isaac Nazal/Flickr.com

Na revista colorida

Sem índice nem número de página

Há sempre alguém se casando

E um fulano que se separou.

Há a mulher que vai ter bebê

Perto da outra que acabou de ter um

Inexplicavelmente enxuta e sem olheiras.

Há uma família feliz em férias

Onde ninguém briga e nenhuma criança chora.

Há alguém querendo aparecer

E outro que faz de tudo para se esconder.

Há uma pessoa fazendo força para ser lembrada

Ao lado da que deveria ser esquecida.

Em meio aos anúncios de sorrisos em liquidação

Surge um beijo sem foco

Uma pose sem graça

E uma legenda sem ambição.

Há recém-apaixonados

Com grandes chances de se desapaixonarem

Até a próxima edição.

Uma traição aqui,

Outra reconciliação ali

E nada que altere a vida.

Sempre tem foto de quarto feito para tudo, menos dormir

Em algum apartamento deslumbrantemente falso

Ou num castelo de mentira

Onde mulheres posam em sofás de aquarela, com pezinhos esticados.

São bailarinas de um espetáculo impossível

Com roupas que não amassam, nem criam bolinhas.

Há sempre as confraternizações esquisitas

De harmonia indecifrável

Reunindo alhos e bugalhos

Brincando de ser amigos de infância.

No planeta-pose até as histórias tristes se dissolvem

Ficando fotogênicas e agradáveis.

Ninguém tem problemas.

Ninguém tem cárie.

Ninguém tem saldo negativo.

Nem chulé.

Revistas assim são estranhas companhias para a espera

Do médico atrasado

Da manicure desapressada

Ou do cabeleireiro ocupado.

Eu, entre um cafezinho e outro,

Deixo que elas sentem ao meu lado

E puxem conversa comigo.

Para o Kim

Ilustração: Dupo X-Y/Flickr.com

.

Kim

Me conta como é ser gato.

Porque gato não precisa fazer nada

Só precisa ir vivendo.

Não tem que apagar a luz ao sair

Nem acender ao entrar

Nem pagar conta

Nem ouvir gente chata.

Não tem que usar roupa

Nem sapato

Nem cobertor

Nem desodorante.

Muito menos sair correndo

Para tirar a roupa do varal

Quando começa a chover.

Kim

Me conta como é que reage um gato

A um assalto.

Olha tranquilo para o bandido?

Não altera um pelo

E lava a pata

E espera o tiro.

Ou nem sabe do tiro.

E quando ele vem

Morre-se, sem maiores delongas.

Mas vem cá: quem é que assalta gato?

Kim

Me diz como é ser gato.

Se é bom ou é ruim

Se tanto faz ou se tanto fez.

Ou isso é um engano danado

Das pessoas que pensam

Que não há nenhuma razão

Nas coisas que são e nas coisas que não são?

Kim

Penso, enfim, que ser gato deva ser um bom negócio.

Mas, me fala, gato é capaz de assistir a um bom filme?