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Olhe bem, preste atenção

Não falem mal da musiquinha do Fantástico. Ao contrário do que pregam os resmungadores convictos, ela não marca o velório do fim de semana amado, idolatrado, salve, salve. Nem o prenúncio da desgraçada segunda-feira.

“Olhe bem, preste atenção”

A musiquinha dominical é o lembrete tranquilizador de que semanas sempre terão fim, e começo, e fim, e começo, num implacável círculo de dias. Não estamos falando de musiquinha qualquer, mas de uma das mais longevas composições registradas na memória do povo. Um clássico da MPB, goste ou não.

Apesar das inúmeras regravações, até hoje é a mesma base melódica que ouvi na noite daquele cinco de agosto de mil novecentos e setenta e três, quando o programa estreou. Eu tinha seis anos. Como não gostar? Como ser capaz de maldizê-la? É quase meio século no ouvido, bicho. Suas notas estão tatuadas em meu DNA. Fazem parte da trilha sonora afetiva da minha vida. Por isso, rogo: não falem mal do Fantástico.

“Nada na mão, nesta também”

Naquele domingo, os Franco se reuniram em frente à Telefunken para assistir, em preto-e-branco, ao novo programa. Época em que apenas meia dúzia de canais faziam a alegria da gente. Eu, alfabetizanda, juntei as dez letras garrafais da vinheta e descobri seu significado. Nas semanas seguintes, decorei a musiquinha e passei a fazer coro com a Vanusa.

“Nós temos mágicas para fazer

Assim é a vida, olhe pra ver”

Não falem mal do Fantástico. Que é chato, que é da Globo, pipipi, popopó. Nada disso importa, nada disso o destrói. O Fantástico é aquele parente velho que você pode até não ir com a cara, mas precisa respeitar.

Um dia, demos adeus à Telefunken. Era o progresso, chegando à casa 1 da pequena vila da Mooca. Pudemos, então, ver tudo, tudinho em cores. O programa e eu crescemos juntos. Queria ser a Heloísa Millet, tão linda e brilhante. Gostava da Zebrinha dando os resultados da loteria esportiva, “Coluna do meio”... Suspirei pelo Sergio Chapelin. Achei esquisito a Isadora Ribeiro emergindo da água com aquelas coisas na cabeça. Lamentei quando a musiquinha perdeu a letra.

Aos domingos, logo que anoitece, o Luca pergunta: “A gente vai ver Fantástico, né?”. Adolescente, sei que ele gosta mais do rito que do programa. Nossa TV é bem mais smart que a velha Telefunken. Aliás, nem precisaria de TV para assistir. Ele, então, senta ao meu lado. Nessa hora, sei direitinho o que minha mãe, sua avó, sentia quando eu fazia isso.

Tanta coisa mudou. Tanta coisa não mudou.

Deve ser esse, o show da vida.

Only yesterday

Ilustração: Fractal Ken

É que eu queria dar um presente para meus irmãos mais velhos, com meu próprio dinheiro. Crianças gostam dessas coisas. Fomos à loja de discos e escolhi “Horizon”, vinil dos Carpenters lançado em 1975. Eu tinha o que, oito, nove anos? Como disco presenteia mais de um ao mesmo tempo, eu ficava na sala, encarte nas mãos, cantando “Only yesterday” junto com a Karen Carpenter. Decorava a pronúncia das palavras, sem nem sonhar quais eram seus significados. Foi depois que fiquei amiga do dicionário. Ela falava de um certo ontem para um dia que, agora, é meu ontem também.

Spring era o nome da loja. Num tempo onde lojas de discos vendiam, basicamente, discos. LPs, compactos e K7 (quem lembra?) dispostos nas prateleiras, paredes com pôsteres de cantores e bandas, uma vitrola (vi-tro-la!) para quem quisesse ouvir o disco antes de comprar e pronto. Conseguir a letra das músicas em inglês? Só com o encarte ou o professor. VHS, CD, DVD, MP3, Blu-ray… Não havia tantas siglas. Multimídia era palavra ainda não-inventada e a internet não passava de um embrião no secreto útero norte-americano. (Quando conto minhas histórias, às vezes, tenho a sensação de que não estamos falando do mesmo planeta.)

Ficava a uma quadra de casa, na rua da Mooca, zona leste paulistana. Seu dono, batizado Manoel Francisco do Lago Neto, era o Glenn Michael, cantor de relativo sucesso nos anos 70, quando emplacou duas de suas músicas na Rede Globo. Cara meio quietão, cantava em inglês e “Spring” (claro) e “Just imagine” foram temas de abertura do Jornal Hoje (de eterno ontem e sempre) por um bom tempo. Será que, quando pequeno, ele também ficava de encartes nas mãos fazendo coro com seus cantores preferidos? Perdi minha chance no mundo da música.

A canção que abre “Horizon” é “Aurora”, e a que fecha, “Eventide”. As duas são idênticas, exceto pela letra: uma fala de amanhecer; a outra, de entardecer – também numa espécie de ontem e hoje, passado e presente, dia e noite, começo e fim. Achava bonitíssimo uma mesma música ser duas.

A Spring resistiu por várias primaveras e finalmente fechou. Não sei do paradeiro do nosso “Horizon”. Nem do Glenn Michael. Só sei da Karen, que morreu de anorexia em meados dos anos 80. Uma das vozes mais lindas do mundo. Das mais melancólicas, também. Tristeza e beleza, além da rima, parecem gostar uma da outra.

Resta-me reencontrar as canções nas versões modernas da velha loja do Mané, agora tão atemporais e infinitas no ciberespaço. E foi o que fiz ontem. Somente ontem.