O piano e a máquina de escrever

piano

Sempre quis saber tocar piano. Em vez disso, fui escrever. Combinar letras, em vez de notas, sempre me pareceu mais fácil. Repare: palavra é um tipo de nota musical. E um texto não deixa de ser uma música. Ouça esta história; leia esta canção. Tem poesia de dançar coladinho.

Quando criança, fiz meia dúzia de aulas do instrumento com o amigo, vizinho, gente boa. Osmar tinha cabelos loiros e compridos, parafinados como pedia a moda. Trouxera um skate dos Estados Unidos, o que, nos anos 70, o tornaria uma celebridade no quarteirão. Tocava piano como poucos. Conta a lenda que, no aprendizado, eu estaria mais interessada na hora do lanchinho. Costumava levar algum quitute para as aulas na casa dele, pegada à nossa. Por isso, ou não por isso, a coisa não foi para frente. Entre outros motivos, eu odiava solfejar. E não sei se ele gostava daquele ofício.

Nunca cheguei a tirar som de um piano, exceto o antológico trecho d’O Bife. Sou capaz, no entanto, de tocar uma máquina de escrever (das de ferro, das virtuais). Componho meus textos instintivamente; não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe o que são orações coordenadas sindéticas, quanto mais as assindéticas. Quer dizer, devo ter aprendido um dia, não sei mais. Escrevo “de ouvido”.

Quando tinha vinte anos, chorei as pitangas para um (outro) professor de piano. Disse-lhe que, àquela altura, achava tarde para aprender a arte. Aos trinta, lamentei: houvesse começado aos vinte, já estaria tocando tudo, tudinho. Aos quarenta, mesma lamentação, retroativa aos trinta. Hoje, um pé nos cinquenta, tivesse começado aos vinte, trinta ou quarenta, já estaria tocando tudo, tudinho. Imaginei-me aos sessenta. Jamais consegui responder, com razoável argumentação, por que não retomo o sonho.

Osmar e eu ficamos muito tempo sem saber um do outro. Da última vez, eu fui lhe dar um abraço pela sua exposição; ele se tornara artista plástico. No reencontro, quase vinte anos depois, ele veio me dar seu abraço pelo meu livro. O piano, para nós dois, e cada um ao seu modo, ficara para trás.

E se nem todo sonho deixado para trás tiver que ser lamentado, dado como morto? Já sonhei ser professora, já sonhei me chamar Noeli (por causa da novela Bandeira 2), já sonhei ter uma calça baggy verde limão (da loja Piter, centrão de São Paulo). Três quimeras infanto-juvenis que, simples assim, não são mais. O piano, talvez, esteja na mesma categoria, e meu deleite seja apenas seu som, enfim. Eu disse talvez. Gostar de cinema e de pavê de chocolate não me faz, obrigatoriamente, desejar produzir um e outro. Cinema e pavê estarão em mim, do mesmo jeito.

A partir de hoje, quando me perguntarem o que estou fazendo com caderno e caneta nas mãos, direi: “Estou compondo”. E o farei, por que não?, solfejando.

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3 comentários sobre “O piano e a máquina de escrever

  1. Ai como me identifiquei! Também tive o mesmo sonho, mas posso dizer que o realizei. Aprendi a tocar, toquei na igreja, em casa, toquei até em casamento! Porém, sei lá o que me deu… desisti. Hoje toco no teclado do computador e gosto. Sou professora e encontro nos meus textos a mesma harmonia. Escrever é um dom especial, e você o tem. Quanto ao piano… ainda há tempo. Sempre haverá.

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  2. E assim vamos Silmara, eu aos 15 fui aprender piano, mas em dois anos desisti. Já desejei ser professora de inglês, mas acabei sendo assistente Social e Terapeuta de casal e família. Daí comecei a rabiscar textos, poemas e lá vou eu poetando pela vida.bjs

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