A insustentável leveza da faixa de segurança

Arte: Johanesj

A garotinha de presumidos três anos atravessa a rua de mãos dadas com sua mãe presumida, na faixa de presumida segurança. A mulher, com pressa, muita pressa. A garotinha, pressa alguma. Tanto que inventa, nos quinze segundos de travessia, sua brincadeira particular: só pode pisar nas faixas brancas. O que, devido ao tamanhico de suas pernas, é um exercício e tanto. Lá vai ela, caprichando nos pulos, determinada em seu objetivo, rindo gostoso entre um salto e outro. A mãe, constrangida, tenta, em vão, abreviar a história. Quase leio o apelo em seus lábios, “A moça quer passar!”.

A moça – eu – quer mesmo passar. Estou atrasada (quando não?). A verdade é que não há como não deixá-las em paz. Como motorista, meu dever de dar preferência ao pedestre só não é maior que meu direito de curtir a cena.

Faço sinal para a mãe, “Relaxa”. Ela entende; mães são telepáticas. Não que eu seja boa nisso o tempo todo (pelo contrário) mas, naquele instante, os significados de urgência e importância, e a sempre duvidosa relação que transita entre ambas, ganharam clareza instantânea e inabalável.

O parentesco – mãe e filha – é adivinhado, posto a tipicidade do comportamento, digamos, repressor. Fosse madrinha da garota, esta não só a autorizaria pular à vontade, como talvez entrasse na brincadeira. Mas a pai e mãe parece não ter sido concedido o dom da paciência; só a segurança branca do relógio lhes sustenta.

A pressa ignora o universo da leveza. A espera o contempla. Feitos de pressa, somos a ignorância em forma de átomos de carbono.

As duas alcançam o outro lado da calçada. A mãe agradece o inagradecível. A garotinha não quer nem saber, já procura mais coisas para fazer.

Busco no retrovisor o reflexo dos rostos de meus filhos. Vem a insegurança: levarão eles consigo, vida afora, a lembrança das tantas faixas brancas não-brincadas?

Tão simples, ser mãe do filho dos outros.

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10 comentários sobre “A insustentável leveza da faixa de segurança

  1. Muito bom!! Aliás, gostei de todos que li hoje: da revolta dos poodles até o seu aniversário sem crônica. Parabéns!

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  2. Não importa o texto, o assunto ou a quem se refere: sempre nos identificamos com alguma coisa !!! Se o meu dia não está lá “grandes coisas” … venho pra cá, pois sei que depois de ler algum texto, vou ficar o resto do dia sorrindo, relembrando o que li aqui … obrigada !

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  3. Essa foi na mosca. É um pensamento recorrente que me aflige: sou fonoaudióloga e durante 20 anso trabalhei em consultório atendendo (e brincando, inventando micagens) com os filhos… dos outros. Enquanto isso, dois filhos meus foram cuidados como dava, com uma mãe presente e brincalhona, mas exausta pelas brincadeiras com… os filhos dos outros. Espero que me entendam, esses dois meus.
    BJô

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  4. Vou lhe dizer o que mais gosto nos seus escritos, além do estilo, é claro! Um tema, para mim sempre foi representado como um icoságono de distintos pentágonos, girando e se revolucionando no espaço, oferecendo cores, brilhos, tonalidades várias, cada uma destas qualidades oferecendo uma maneira de ver, sentir, encarar e expressar a idéia mestra do pensamento. A sua arte é como Vc escolhe, dentre as muilti-facetadas oportunidades, a mais bela, brilhante e inesperada face do enredo. É isso que faz de Vc não apenas uma cronista, contista ou escritora mas uma apresentadora de realidades por ângulos sempre maravilhosos.

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  5. Muito bacana, Silmara! Das coisas de todo dia, você inventa uma crônica.
    E, no final, me cutuca também: aqui em casa, em coro (2 vozes masculinas), me provocam: “a ma-mãe não deixa nada!!!!” Entram aí reclamações de todo tipo: brincadeiras fora de hora (?), comer doce antes do jantar, deitar sem banho, andar de meias brancas pela casa, a bagunça do quarto e outras regras do quartel general da mamãe. E sentido! um bejo.

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  6. Lindo mesmo… ja’ ouvi dizer por ai’ que so’ aprendemos a ser filhos quando somos pais, e so’ aprendemos a ser pais quando somos avos (ou, no caso deste blog, madrinhas ou tias…). Viver o presente… tao dificil nesta correria do dia a dia…

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  7. Que lindo, Sil … lembrei das minhas sobrinhas contando pra Natália como eu sempre fui uma tia legal … e a certeza delas de que “mãe é mesmo tudo chata” … porque segundo elas, se até eu sou assim, não tem mais esperanças …. elas também serão chatas quando forem mães … :)

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  8. ai, ai, ai… fiquei pensando quantas vezes nao deixei as minhas filhas pularem as faixas brancas da rua…quantas vezes as “impedi” de aproveitar a infancia delas

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