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Mãos ao alto

Como havia vinte e cinco anos que eu não era assaltada, a vida achou que estava na hora de quebrar esse jejum.

Estacionei na rua, para quê pagar estacionamento, não é mesmo?, fui fazer o que eu tinha que fazer, voltei, abri a porta do carro, entrei, ajeitei a bolsa no banco, afivelei o cinto de segurança, apanhei o celular, conectei-o ao carregador, estava mais tranquila que um buda em feriado prolongado, o homem encostou o carão na janela do passageiro, por um segundo achei que fosse pedir informação, ele abriu facilmente a porta, entrou, sentou-se ao meu lado, praticamente sobre minha bolsa, que, aliás, é nova, mandou eu ficar quietinha e não fazer nada, que era para passar o celular, obedeci direitinho, que eu não sou besta de reagir, entreguei meu aparelho com mil e quinhentas fotografias que não estavam salvas na nuvem, dos últimos aniversários dos meninos, das viagens, dos gatos, então ele quis dinheiro, eu pedi licença para pegar a bolsa sob seu bumbum, abri a carteira, tinha quarenta contos, ele reclamou, “Só isso?”, pensei, “É agora que morro e vão rir da minha calcinha de bolinhas no IML”, que ousadia, a minha, andar com essa miséria!, mas ele foi bacana, Síndrome de Estocolmo, versão campineira, catou meus trocados, guardou o celular no bolso da calça, confesso que não sei se ele estava armado; eu que não ia perguntar, o homem desceu do carro, e antes de fechar a porta e ir embora tranquilamente, ainda ordenou que eu continuasse quietinha, claro, sim, senhor.

Quando pequena, eu desenhava bastante. Um dia, não sei por que cargas d’água resolvi desenhar uma cena de assalto. Nela, um homem empunhava sua arma, anunciando o assalto à vítima. No balãozinho, escrevi com letra caprichada a fala do meliante: “Monzoalto!”. Para mim, pequena alfabetizanda atenta à oralidade, era assim que se escrevia “Mãos ao alto”. Acho até que escrevi com S, o que, nesse caso, seria completamente incorreto, todo mundo sabe que seria com Z.

Naquela tarde ensolarada de segunda-feira, o homem não disse “Mãos ao alto”, tampouco “Monzoalto”. Não se usa mais. Agora é o rude “Fica quieto(a) e não faz nada” ou o vago “Perdeu, perdeu!”. Considero “Mãos ao alto”, no entanto, bem mais elegante e educado.

Voltei para casa, fiz B.O. pela internet, chorei, passou. Dias depois, celular novo, contatos restaurados, dados recuperados, inclusive algumas fotografias. Já o meu desenho de criança… ah, esse está arquivado, permanentemente, na memória. Que é minha grande nuvem particular. Essa, meu chapa, ninguém tasca.

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(Des)Empregada III, o furto

Ilustração: Toon Van de Putte/Flickr.com

Depois de ser abandonada e, em seguida, traída com o padeiro, enfim eu encontrara uma nova empregada. Meu lugar ao sol – e não ao tanque – parecia despontar no horizonte doméstico. Só parecia.

Estranhar, eu estranhei. A mulher tinha todos os dias livres e rara boa vontade. Gostava de gatos e tatuagens e tinha filhos pequenos como eu, o que tornava toda empatia possível. Poucos dias se passaram, peguei-a no pulo. A bolsa gorda, recheada, momentos antes dela encerrar o expediente. Ataulfo Alves bem que avisou: “Laranja madura, na beira da estrada… Tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”.

Se “A menina que roubava livros” virou best-seller, que destino estaria reservado à mulher que roubava brinquedos?

As duas, menina e mulher, têm histórias de vida pontuadas por dificuldades e dissabores. Salvos os respectivos cenários, as épocas, as devidas proporções e a boa dose de ficção, o que a Morte, narradora no livro, haveria de dizer, nesse caso?

Talvez ela, a Morte, me convidasse para um cafezinho ao entardecer e apontasse o farto oceano de brinquedos nos quartos dos meus filhos como razão para minha versão doméstica de Liesel Meminger agir. Não tenho inventário detalhado a respeito, posto ser essa tarefa hercúlea e inútil. Quem é capaz de identificar quem é quem na comunidade de Pollys e Barbies, contabilizar a esquadrilha de aviões, a esquadra de navios e os Legos que se valem do misterioso poder da geração espontânea? A brinquedoteca das crianças é superlativa, conjugada no coletivo. O excesso de brinquedos em casa é tão evidente quanto questionável, mas já desisti de nadar contra a maré, panfletando que isso não faz sentido. Porém, (talvez) ao contrário da história do livro, isso nunca deu e jamais dará a alguém o direito de apossar-se do que não é seu. A mulher, no papel de Robin Hood de si mesma, desconhece que justiça social se dá por outros meios e com outros fins.

Por outro lado, a Morte poderia apelar à compaixão, ao sugerir que eu imaginasse a mulher chegando em casa, depois do dia de trabalho que lhe rendeu uns parcos reais, e encontrasse seu menino a brincar com o caminhãozinho sem uma das rodas e uma velha e desbotada girafa de pelúcia, ao mesmo tempo que repassasse mentalmente a fascinante (aos seus olhos) paisagem da nossa casa. Eu diria à Morte que sim, estou acostumada a esse exercício. E o que posso fazer por essa mãe é pagá-la direitinho o combinado, para que ela tenha condições de proporcionar o mesmo aos seus filhos. Direito de todo cidadão e cidadã – igual ao direito de propriedade que ninguém pode tascar.

A Morte também tentaria me convencer a relaxar, contando ter visto coisas bem piores ao longo de sua, digamos, existência. Por esse lado, meia dúzia de Hot Wheels a menos para quem tem uma frota de três dígitos dos carrinhos é, de fato, titica.

Ou nada disso, e a Morte faria o que mais a diverte – pegar de surpresa – e me diria a inesperada e oblíqua verdade sobre o crime (?) cometido, que eu ainda não havia suspeitado: preciso escolher melhor minhas laranjas.