La dolce vita

foto: Caro Wallis

Nos cafezinhos padarias afora uso sempre um pacotinho e meio de açúcar. Um é pouco, dois é demais. Para felicidade plena do meu paladar, nem cinco, nem dez gramas de doçura; sete gramas e meio é a conta exata.

Mas não me sinto confortável jogando fora o meio pacotinho que sobra. É desperdício politicamente incorreto de cana, papel e tinta. O planeta e o dono da padaria não merecem. Eu o retorno, então, à cestinha – sempre é uma cestinha – , dobrado no capricho, pronto para xícara ou copo vindouro. Deixar meio pacotinho de açúcar para quem vem depois é uma forma de amar o próximo, ser sustentável e não engordar tanto.

Há um problema, porém. Minha doce sustentabilidade, a ver pelo meu próprio exemplo, não tem futuro. Eu nunca uso saquinho de açúcar já aberto. E não é raro encontrar um, cestinhas afora. (Nunca estamos sós em nossas preferências açucareiras.)

Quando detecto meio sachê aberto, dobradinho à perfeição que seja, finjo que não vi. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Em outras palavras: faço minha parte, mas não faço a minha outra parte.

E o medo de aquele restinho de açúcar estar adulterado? E se a ele foi adicionada alguma substância ilícita, perigosa ou as duas coisas? Boto o açúcar, mexo com a colherinha, dou um gole e cataplaft. Caio dura no chão. Açúcar, por si só, já é veneno a longo prazo. Não posso correr o risco de sobrepor um envenenamento a outro, podendo ser fatal. E se a pessoa que o deixou ali na cestinha, ao contrário de mim, não lavou as mãos naquele dia? É neurose amarga e sem sentido, eu sei; o psicopata do açúcar pode muito bem atacar um açucareiro-padrão, e aí baubau do mesmo jeito. Mas a figura do pacotinho semiusado, sabe-se lá por que, desperta mais fantasias paranoicas.

Que faz um garçom ao encontrar pacotinhos abertos de açúcar largados pelas mesas? Qual será a ordem superior para esses casos? “Joga tudo fora”, por precaução, ou “Leva pra cozinha”, onde é reunido aos demais (eventualmente já sabotados pelos malucos de plantão), para o suco de limão e o iogurte batido que saem prontos dali?

La vita è dolce. Mas nem tanto. Por essa e por incontáveis outras, ninguém está integralmente a salvo, assim que põe o pé para fora de casa.

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4 comentários sobre “La dolce vita

  1. Sil, sua crônica é justa medida. Assim como sua medida exata do que é doce.

    Pessoalmente, opto não por açúcar em nada. Mania de quem tem antecedentes com diabetes na família. Mas não rejeito o que já vem docinho. Um docinho de vez e quando não há de fazer mal a ninguém.

    Fique bem.

    Cláudio.

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  2. Amei açucaradamente! Nunca encontrei um pacotinho assim pela metade e delicadamente fechado. O problema é que agora que te li e fiquei tão encantada, se encontrar, vai direto para a xícara sem pestanejar. Tomara eu não cataplaft, assim saberei que foi você que o deixou!
    Beijo.

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  3. Penso nesse desperdício do meio pacotinho mas também não usaria um que já estivesse aberto…Ou vc usa o pacotinho todo ou jogue-o no lixo. Porque, o mais certo, é ele ir para a cozinha e ser reaproveitado. rs Isso se o dono não for paranoico para achar que ele foi deixado ali já adulterado…rs
    Beijo, Silmara.

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