O preço do dinheiro

Ilustração: João Pedro C. de Oliveira/Flickr.com

O primeiro salário que recebi na vida eu gastei inteirinho numa calça jeans. Adquirida, inclusive, no dia do pagamento. Ou seja, restaram apenas alguns trocados na minha conta bancária recém-aberta, e eles deveriam durar por mais vinte e nove dias. Mal davam, porém, para meia dúzia de passagens de ônibus. A boa notícia: eu não dependia deles para viver. A má: eu estava completamente enganada. Ou vice-versa.

A construção da minha relação com o dinheiro remonta à primeira infância. Certo dia, apareceu no portão de casa um rapaz vendendo bichinhos de pelúcia. Eu estava só, numa época em que isso não constituía infração ao estatuto da criança. Eu o atendi; ele tinha uma tralha interessante. Os bichinhos, um mais feio que o outro, fizeram meus olhos brilhar. Menina educada, expliquei que não tinha dinheiro. O moço perguntou qual deles eu havia gostado. O ursinho, claro. Malandro, ele propôs: eu não tinha algum objeto de valor para trocar? Uma jóia, por exemplo. Mas claro que tínhamos jóias! A gaveta de mamãe estava cheia delas. Pedi um minuto. E voltei com um par de brincos de ouro com água-marinha, prontamente trocados pelo ursinho cinza. Um escambo bem safado: recheado de jornal, o urso se desmantelou no dia seguinte. Os brincos eram modestos, mas valeriam pelo menos dez daquele brinquedo fajuto. Levei duas broncas: por ter recebido um estranho e por ter feito um péssimo negócio. Quanto à segunda, tenho dúvidas se aprendi a lição. Difícil mesmo foi aguentar as piadinhas em casa.

A calça jeans nem era tão bonita assim. Mas o raciocínio raso e curto – “eu podia pagá-la” – prevaleceu. Apesar de adulta, eu não tinha noção do quanto custava, por exemplo, manter uma casa. Hoje sei que meu capricho representou quase a metade da mensalidade da faculdade, e foi por causa dela que eu entrei no mercado de trabalho já de forma privilegiada. Às vezes, os pais pensam que estão fazendo algo de bom aos filhos, ao poupá-los de dividir as despesas da casa quando começam a trabalhar, mas não estão. Preciso me lembrar disso mais tarde.

Na minha rua tinha uma lojinha de bugigangas. Jane era a dona, moça bonita dos cabelos longos. Virei sua amiguinha, de tanto que eu aparecia por lá para ver as novidades. Uma vez, cheguei em casa com anéis e pulseiras novos. Meu irmão estranhou, quis saber de quem eram. Respondi: “A moça da loja deixou trazer, depois a mamãe passa lá para acertar”. Não foi bem o que aconteceu: tive que devolver tudo, e ainda explicar o porquê à Jane. Outra lição, esquecida anos mais tarde quando fiz meu primeiro cartão de crédito.

Ao assinar o cheque da calça – praticamente um salário-mínimo da época –, as lições aprendidas no passado não ecoaram na consciência. No fundo, percebi que não era interessante receber salário e ele acabar no dia seguinte. Tratei de usar o jeans todos os dias, para que a aquisição valesse a pena. O efeito foi contrário: a todo instante eu me dava conta do pecado fashion que havia cometido. Pensa que me emendei? O segundo salário eu torrei numa bolsa.

Luca, seis anos, sobre o preço das coisas: “Mãe, para Deus tudo deve ser barato”. Ficou pensativo e completou: “Ele deve poder levar tudo de graça!”. Uma das coisas mais interessantes no longa-metragem da vida é o revezamento dos papéis. Agora era minha vez de ensinar. Justo eu, que tão pouco aprendera a respeito. Reparei, no entanto, que a questão ali era outra. O que facilitou um bocado: “Deus não tem dinheiro, filho. Ele não precisa.”

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6 comentários sobre “O preço do dinheiro

  1. Meu primeiro salário apliquei 90% na poupança…. a partir do segundo fui colocando só 50%, as vezes 30%…também tenho que arcar com minhas necessidades básicas…. e olha, resultou bem…. Muitos dos meus sonhos tenho realizado com a minha poupança….. Uns me chamam de pão duro…. mas acho que eles não entendem é que meus sonhos geralmente são mais ambiciosos, e pra isso preciso poupar….. mas nem é sempre…rs.

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  2. Com meu primeiro salário eu paguei um lanche pra mim e a mensalidade do cursinho.
    Meu pequeno, ensinando-me como são as mulheres&dinheiro:
    “Mãe, se você tivesse tido alguma filha mulher, você gastaria muito mais…”

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  3. Ai, isso me lembra do meu primeiro décimo terceiro que torrei em 2 dias, rs.

    Adorei seu blog, vou seguir,

    Dê uma passadinha no meu, é novo e tem uma história interessante.

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  4. Oi Sil..
    Isso me fez lembrar muitas coisas… inclusive uns papos nosso durante o ano… a maneira como lidamos com o dinheiro e com os benefícios que ele proporciona, enfim… nossa ligação com ele, o famigerado e abençoado salário… Pois eu criei um “mal comportamento” digamos assim… desde o primeiro estágio da faculdade sempre entreguei o cheque ao meu pai… não digo que isso seja o mal comportamento em si… mas isso me deixou sempre numa atitude de não me responsabilizar ou me preocupar com a grana…ela nunca foi minha. E assim foi com meu primeiro emprego registrado, e também depois de casada. Resultado: estou sempre dura!! dá pra acreditar? Pra mim, tudo aqui em casa é em comum acordo… recebo e o marido deposita, precisamos de algo vamos comprar juntos, posso dizer que seja uma contabilidade perfeita… agumas pessoas nunca se ajustariam a essa prática… eu fui educada pra ser assim… e vejo o esforço dele pra controlar os gastos e os quereres de todos aqui em casa sem prejudicar ninguém nas suas necessidades e caprichos, mas tudo muito medido e devidamente controlado, como manda as normas da boa convivência…
    vixi
    quase uma carta…ou um jornal

    beijinhos Sil.. e inté mais…

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  5. Meu primeiro salário também foi gasto com uma roupa – de marca.
    Hoje em dia a marca é a última coisa que eu levo em conta.
    Amadurecer tem que servir para alguma coisa.

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  6. Nossa, eu até hoje tenho o mesmo problema com grana!!! A gente não aprende, né? Sou gastadora então vivo dura.

    Já respondi seu email sobre Amsterdã!

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