Horóscopo

Minha avó gostava de ouvir o Omar Cardoso no rádio. Todo santo dia. Embora não fosse assim tão crente em previsões astrológicas, dona Josephina não perdia um programa. Ligava o aparelho na cozinha, bem alto, e ia cuidar da louça, da roupa, da casa.

Eu, por tabela, ouvia também. A voz empostada do radialista servia de trilha sonora para minhas manhãs, enquanto me divertia no quintal. A escola era só à tarde. Vez por outra, prestava atenção ao que ele dizia. Áries, seja mais assim. Câncer, seja menos assado. Peixes, dia propício para isso. Gêmeos, melhor evitar aquilo. Em minha meninice, achava que fazer horóscopo era um bocado divertido. Bastava inventar as coisas.

No quintal da minha infância, tão imenso, dava para brincar de balanço, esconde-esconde, de professora (dei muita aula para alunos imaginários; será que se formaram?), de casinha, andar de bicicleta, ter cachorro e gato e tartaruga, construir móveis para a boneca Susi com as ferramentas do meu avô. Cabia mesa e cadeiras, de vez em quando almoçávamos ali.

Não pode ser o mesmo quintal de quando me mudei de lá, quase duas décadas atrás. Tão estreito, tão apertado. Hoje, tão silencioso. Onde cabia a vida de todos nós, cabe nem meu choro. Algumas tralhas amontoadas, esperando o destino que nunca vem. Fechada há anos para morada dos vivos, agora a casa 1 da vila deve ser lar de almas que não podem pagar aluguel. Casa tem signo?

Éramos sete: meus avós, meus pais, meus irmãos e eu. Cinco signos diferentes. Toda família é uma salada zodiacal.

Certa vez, o Omar Cardoso anunciou uma tal pedra da lua. Que tinha poderes terapêuticos, energéticos e tal, uma beleza. Pois minha avó fez que fez, e só sossegou quando meu avô comprou a dita cuja. Deve ter custado uma fortuna. Que eu saiba, não serviu para nada.

Meu avô a chamava de Zéfina. Os parentes, de Pina. Eu achava ‘Josephina’ tremendamente feio. Ainda mais com ph. Só fui simpatizar com o nome depois de ler “Mulherzinhas” e saber que o nome da personagem principal, a porreta Jo March, era Josephine. E há quem diga que livros não são importantes.

Minha avó faria aniversário esta semana, dia 6 de novembro. Ela era de Escorpião. Um tantinho venenosa, feito o temido artrópode. Longeva, no entanto; viveu 81 anos. O que os astros lhe reservaram, no dia em que morreu? Omar Cardoso teria profetizado, “É hoje, Zéfina”.

De acordo com o horóscopo que acabo de estabelecer, hoje, sexta-feira, oito de novembro, passado e presente estão em harmoniosa conjunção. Bom dia para cavoucar as lembranças. Tenho uma constelação delas no céu do meu peito. Sou Touro com ascendente em saudade.

2 comentários em “Horóscopo

  1. Se não me engano ele dizia : ” Todo dia sob todos os aspectos, estou cada dia melhor “. Se não for isso, desculpa minha memória, são os anos já vividos…

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