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Mappin, venha correndo

violão

Anos 80, ganhei um violão. Cheguei no Conservatório Leopoldo Miguez e fui logo avisando o professor: “Quero tocar como o Paulinho Nogueira”. Ele deu um longo suspiro, e iniciou as aulas teóricas. Brevíssimas, pois abandonei o curso assim que ele me fez solfejar. Duvi-de-o-dó que o Paulinho Nogueira tenha começado solfejando.

O violão fora adquirido no Mappin. A maior loja de departamentos de São Paulo era um alucinante formigueiro de nove andares, especializado em financiar sonhos de todo tipo, com o mantra “crédito automático”. Nem precisava de promoção para viver cheio. E quando tinha, não havia quem não ficasse sabendo, pela TV ou pelo rádio.

Mappin, venha correndo

Mappin, chegou a hora

Mappin, até meia-noite

Mappin, é a liquidação

A cada andar, aboletado em seu banquinho redondo, o ascensorista anunciava, enquanto comandava o abre-e-fecha das portas do elevador: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário. Imagine falar isso o dia inteiro, subindo e descendo, sem saber se lá fora era sol ou chuva. Ascensorista, contudo, era profissão mais que necessária, para garantir a segurança dos fregueses e a ordem do estabelecimento. Praticamente extinta, quase não se vê mais.

Naquele dia, fomos eu, a Rô, minha melhor amiga, e o pai dela. Ela também estava adolescentemente determinada a aprender a tocar violão. Experimenta daqui, testa dali, elegemos o Giannini: cabia nos braços e nos bolsos dos nossos pais. Mil cruzeiros, em três vezes no carnê. Todo dia 10, íamos pessoalmente à Praça Ramos de Azevedo pagar as prestações. Os ascensoristas, infalíveis: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário…

Depois da minha frustrada experiência no conservatório, eu e a Rô descolamos um professor particular. Ele dava aulas em sua casa e tinha unhas compridíssimas – levemente asquerosas – , somente na mão direita. Temi precisar manter aquele layout também, cogitei abandonar o instrumento. Mas o método pedagógico dele era interessante, espécie de fast-food musical. Em pouco tempo aprendemos a dedilhar “Como é grande o meu amor por você”, a romântica açucarada do Rei. Treinei os acordes à exaustão, fiquei craque. Submetia todos em casa a longas e desafinadas audições. Família é pra essas coisas.

Com as noções básicas aprendidas, encerrei a temporada de aulas com o professor de unhas compridas e virei consumidora das revistinhas com cifras. Sem, no entanto, jamais chegar aos pés do Paulinho Nogueira. Minha versão de “Menina”, nem a família se dispôs a ouvir. Tudo tem limite.

Um dia, não sei por que, guardei o violão no armário. Para nunca mais. E não sei onde ele foi parar. O Mappin fechou as portas na virada do século, soube que agora é loja online. O que não tem a menor graça, cadê o formigueiro, as vitrines, o burburinho? A Rô partiu faz tempo. Seu pai, alguns anos depois. Foram, como se diz, para o “andar de cima”. Que tenham sido conduzidos por gentis ascensoristas.

A vida também é feita de departamentos. Só não sei em qual setor a gente paga o carnê da saudade. Acho que esse não se quita nunca.

O velho conservatório continua firme no mesmo endereço. E todos os dias um professor recebe um novo aluno, decidido a ser, não um Paulinho Nogueira, que essa turma não o conhece (e não sabe o que está perdendo), mas a próxima celebridade do Tik Tok.

Se me dissessem hoje que o Mappin, o velho Mappin, reabriu no mesmo lugar, do mesmo jeito, eu ia correndo. Ah, ia.

Sagu

sagu

Fiz sagu.

Enquanto despejava na panela cheia d’água os grãos crus, tão redondinhos e branquinhos, lembrei do presépio montado todo dezembro, quando eu era criança. Parecem as microbolinhas de isopor que a gente usava para decorá-lo, fazendo de conta que era neve. Presépio que se prezasse tinha que ter neve.

Minha mãe era craque no sagu. Usava o vinho mais barato que tinha. De vez em quando, colocava pedaços de abacaxi no meio. Foi um dos deleites gastronômicos da minha infância, ao lado do nhoque de batata e do bolo nega-maluca. Eu gostava de morder as bolinhas, uma a uma, adorando-as na boca como a um deus. Deus Sagu.

No doce pronto, as bolinhas cozidas ficam todas juntas, grudadas. E, ainda assim, mantêm-se separadas umas das outras. Deve haver alguma metáfora importante nisso, que eu não sei qual é.

Da primeira vez que fiz sagu em casa, meu filho perguntou, antes de provar: Que gosto tem?

Não sabia se respondia que, na verdade, sagu tem gosto de nada, que não passa de uma fécula boba, e que o vinho e o açúcar é que são o segredo, ou se contava que sagu tem gosto de assistir minha mãe, avó dele, fazendo casaquinhos de tricô na Lanofix, para vender. Ou que tem gosto de ouvir o LP da novela Selva de Pedra na vitrola, a Françoise Hardy murmurando lindamente “Je ne sais pas qui tu peux être, Je ne sais pas qui tu espères”. Tem gosto, talvez, do chão de caquinhos vermelhos do nosso quintal. Ou até gosto de encapar os cadernos novos da escola com plástico xadrez.

O importante é que ele gostou. Ele que faça suas próprias associações ao sabor do sagu, quando for mais velho. É isso que os doces nos ensinam, não?

Se a tradição do sagu está mantida, a do presépio, não. Talvez por medo de os gatos comerem ou quebrarem as peças. Talvez porque tenha perdido a graça, mesmo. Ou porque não há mais necessidade de inventar neve. Presépio bom é presépio dentro da gente.

Sagu é barato, ordinário. Porém, se vou a um restaurante e tem sagu de sobremesa, “de cortesia”, já colocado em potinhos de alumínio ou plástico, o self-service por quilo vira, na hora, fino bistrô. Sagu é um doce luxo memorial.

Já fiz sagu com vinho caro, não contei a ninguém. Gourmetizei a lembrança. Já errei a medida, deu um panelão que durou mais de uma semana.

É que sagu rende muito. Feito a saudade da gente.

Pijamas

pijama
ilustração: Karolina Pawelczyk

O dinheiro para roupas novas era curto. Solução: descolar um tecido aqui, outro ali, e inventar modelitos para minha mãe costurar. Vestido, blusa, calça, saia, conjunto.

Eu deixava Dona Angelina doidinha. Além dos modelos que via na TV e pedia para ela copiar, eu criava os meus. Alguns, irrealizáveis, davam uma trabalheira danada. Como se eu fosse uma arquiteta maluca, projetando estruturas que a engenharia jamais sonhara. Outros, ela tirava de letra. Não havia técnica que não dominasse. Era bom ter mãe costureira. Embora, adolescente, tudo que eu desejava era usar Pakalolo e Soft Machine.

Lembro da saia mídi de lãzinha marrom que usei com botas de caubói. Do vestido branco, igual ao da mocinha da novela das sete, com gola que abria de lado e faixa do mesmo tecido na cintura (usei-o em um casamento em Jacutinga). Da blusa azul-céu com pala frisada e golinha padre, desenhado em inédito desvario de recato. Da camisa amarela com ajuste de botão no quadril, que ficava subindo e era deveras irritante. Do macacão lilás de popeline, que passeou comigo por São Paulo inteira. Do colete feito de sacaria. O colete, meu Deus! Meus avós faziam panos de prato para vender. Vô Paschoal buscava no Bresser os sacos de algodão, aqueles de armazenar cereais, e os alvejava no tanque – o mesmo tanque onde minha avó, em passado tenebroso, afogava os filhotes recém-nascidos da nossa gata. Os sacos ficavam branquinhos da silva, uma beleza. Então, os dois passavam os dias cortando, fazendo bainha e bordando com linhas coloridas. Vendiam bem, na feira. Uma vez, pedi para minha mãe um colete de saco, na cor original, sem alvejar. Ela fez umas franjas no próprio tecido, dando à peça uma pegada riponga. Perfeito para a adolescente bicho-grilo que fui. Fiz relativo sucesso na escola.

Daria meu reino para ver, em algum arquivo perdido na memória, aquelas roupas todas. As imagens que guardo são difusas, sempre falta um pedaço. Talvez, hoje, eu me surpreendesse com os estilos que adotei ao longo da vida.

Em época de ficar em casa compulsoriamente, se viva Dona Angelina fosse, eu lhe pediria para fazer uns pijamas. De flanela, bem quentinhos. Não inventaria moda, só os básicos. Pijamas que me vestissem como um abraço dela. Pijamas mágicos, antivírus e antitristeza. Com botões de avançar no tempo. E que me fizessem sonhar, à noite, com dias melhores.

Eu não passo desta noite

Já que, vira e mexe, alguém na família desenterra essa história e, considerando que meus filhos sempre perguntam um ou outro detalhe dela, melhor registrá-la devidamente e de uma vez.

Meu primeiro pileque, aos doze, quase treze, foi assim.

Réveillon de 1979 para 1980. Família reunida, fartura na mesa: tender enfeitado com abacaxi, castanhas, uva Itália. Iguarias que só apareciam nessa época do ano. A casa 1 da vila era só alegria. Nas taças, a velha Sidra Cereser que a gente chamava de champanhe.

Durante os comes, não me contentei com a irrisória franquia do pseudoespumante a que eu, caçula, tive direito. Enchi a taça. Brinquei com meus irmãos, zanzei pelo quintal, catei algum gato, botei um LP na vitrola. Mais uma tacinha, que mal tem? Que gosto será que tem whisky? Meio forte. Tudo bem, é quase ano novo. Mais uma Sidra, mais um Drury’s. Drury’s! Diante da minha epifania alcóolica, Seu Tonico e Dona Angelina só observavam. Havia sabedoria na atitude deles.

Cinco, quatro, três, dois, um, adeus ano velho! Só mais um tiquinho de Sidra. Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Lá pelas tantas, a família se recolheu para merecido descanso. Eu dividia o beliche com minha irmã. Não me lembro como cheguei à cama de cima. Em meu desvario etílico, Morfeu me aguardava, com o Eno na mão.

Meu estômago adolescente, acostumado a Ki-Suco e Guaraná, estranhou as novidades. No meio da madrugada, a fatura chegou. Foi como a erupção de um furioso (e fétido) vulcão, vindo montanha, ou melhor, beliche abaixo.

Os Franco acordaram, assustados.

Acode a mini-ébria, traz pano de chão, pega desinfetante, limpa o rebosteio, troca o pijama. Enjoada, eu me revirava, agora, na cama de baixo. Cedida pela minha irmã que, por pouco, não fora atingida pelos meus, digamos, dejetos estomacais. Foi ali que cunhei o bordão que, segundo familiares, eu repetia de minuto em minuto, em profética gemedeira: “Eu não passo desta noite”.

Não só passei como, no dia seguinte, debutando na ressaca, fui obrigada a encarar o sintético sermão da minha mãe: “Agora você aprende”.

A pedagogia deu certo. Desde então, nunca mais coloquei uma gota de whisky na boca. Não que eu seja abstêmia. Mas é comum vinho sobrar em minha taça. Nos formulários médicos, nunca sei o que responder. Deveria existir uma zona intermediária entre “nunca bebo” e “bebo socialmente”. A verdade é que não vejo muita graça.

Já vi, porém. É mister anotar que o porre inaugural na infância não foi o único. Na juventude, contabilizei uns dois (três?). Em um deles, conta a lenda que, ao deixar um boteco com minha irmã e amigas, saí pelas ruas da Vila Madalena, virada no vinho, e sentei-me sobre um latão de lixo na calçada. Pedi para me deixarem ali, pois aquele era o meu lugar.

Sempre dramática.

Régua T

regua t

De adolescente, vivi inúmeros conflitos típicos da fase. Amores não correspondidos, absorventes que vazavam, vergonhas infinitas, medos diversos, dúvidas esparsas. Poucos, no entanto, se igualaram à tragédia de carregar uma régua T, diariamente.

Aos quatorze, cismei que seria arquiteta. Influência evidente da irmã, que já trilhava o caminho.

Achei por bem optar por um colegial técnico, para chegar à faculdade de arquitetura mais azeitada. Avaliei os cursos disponíveis e, determinada a ser a versão sardenta do Niemeyer, escolhi Edificações.

Uma das melhores escolas do ramo: Liceu de Artes e Ofícios, no bairro da Luz. Do outro lado da cidade. Encarei o vestibulinho. Passei, que felicidade! Eu estava razoavelmente familiarizada com os materiais que minha irmã usava em seus trabalhos, papel vegetal, escalímetro, caneta nanquim, normógrafo e a própria régua T. Não tinha ideia, porém, do que me aguardava.

A Wikipedia assim a define:

Régua T é um instrumento próprio para desenho técnico. Assim como a régua paralela, é utilizada para apoiar o esquadro ou para traçar linhas paralelas quando apoiada na mesa de desenhos. Possui em média 80 cm e normalmente é de madeira com detalhes em acrílico. É uma régua de forma da letra T, e tem como benefício ajudar o desenhador durante o desenho.

Em meu dicionário particular, o significado é outro:

Régua T é um instrumento de tortura, causador de sofrimento. Não à toa, seu formato lembra uma cruz. Sua função, além de auxiliar na produção de desenho técnico, é fazer a pessoa que a carrega passar vergonha, onde quer que esteja.

Com oitenta centímetros de comprimento, praticamente metade da minha altura, não havia mochila ou pasta que a coubesse. O jeito era levá-la nas mãos. O que também não era simples. Seu formato de espada a transformava em uma quase arma. T de trambolho. T de troço. T de tranqueira. T de traumático. T de tridente – o Diabo, certamente, inspirou-se nela.

Da Mooca, eu tomava o 3104 que me deixaria na Praça da Sé. De lá, metrô até a Estação da Luz. Na volta, descobrira um ônibus direto, com percurso mais curto, porém mais lotado. Ao menos, a régua T só enroscava em uma catraca.

Considerando que sou dotada de apenas duas mãos, e enquanto uma delas tratava de agarrar as barras para garantir minha estabilidade no coletivo chacoalhante, a outra eventualmente abraçava os livros (só fui ter mochila mais tarde). De modo que faltava a terceira mão para tourear minha cruz, digo, régua T, que insistia em esbarrar nos passageiros, alguns em pleno cochilo. E, eventualmente, uma quarta, para alcançar a cordinha e informar o motorista que eu desceria no próximo ponto. Depois de “com licença”, “desculpe” era meu vocábulo mais empregado durante o trajeto.

Então, eu compreendi o calvário de Jesus Cristo.

Junto à régua T, geralmente eu levava um canudo de papelão, do mesmo tamanho da régua, com os desenhos. Para facilitar o transporte, eu prendia os dois com elásticos. O que, aparentemente, parecia uma solução inteligente, apenas dobrava minha tragédia. O canudo escapava, os elásticos rompiam, a ponta da régua cutucava a cabeça dos passageiros sentados.

Foram três anos de flagelo.

Eis que, quando o curso estava prestes a ser concluído, comuniquei à família: não vou mais fazer arquitetura. Quiseram saber o porquê. Expliquei que já tínhamos uma arquiteta na família. Que eu flertava com a publicidade há algum tempo. Que me dedicaria a ser a versão sardenta do Washington Olivetto.

Só não contei tudo. A razão, claro, foi a régua T.

Água e sabão

bolha sabão
arte: Guenevere Schwien

A brincadeira consistia em 1) jogar bastante água no quintal, 2) espalhar um pouco de sabão em pó e 3) ficar escorregando pra lá e pra cá a manhã toda.

Diversão da qual eu, caçula, não era autorizada a participar. Minha irmã e meu irmão mais velhos, privilegiados pelo tempo, deslizavam pelo chão vermelho de caquinhos, felizes da vida. Eu só assistia. E desejava, com toda determinação que garotinhas de quatro anos são capazes, crescer logo para entrar naquela farra também.

O quintal, pequeno, tinha bom formato para a pista ensaboada. Na lateral estreita, quinze metros, no máximo, os tombos não importavam. Eram, aliás, a melhor parte. Com direito a adrenalina extra: ao final do corredor, havia uma bela escadaria que dava para o portão de entrada. Se mal calculada, a brincadeira poderia acabar em choro. Ou coisa pior. E quem se importava?

Um dia, enquanto meus irmãos capotavam, às gargalhadas, meu pai me chamou na porta da cozinha, que dava para o quintal. Abaixou-se um pouco e me olhou, sério. Pediu que eu tirasse a blusa. Era de botões, eu me lembro. Fiquei só de calcinha, já vislumbrando o anúncio. Ele desfranziu o cenho e, sorrindo, proclamou o tão sonhado alvará: “Vai!”.

Finalmente, eu estava liberada para a epifania aquática. Já não era mais criancinha, então. Joguei-me naquele pequeno parque de diversões caseiro. Imitei o quanto pude meus irmãos, veteranos do sabão. Acatei suas dicas, Ó, faz assim, Olha a escada!, e nunca me diverti tanto.

Era a água e o sabão, lavando a alma dos três filhos de Antonio e Angelina.

Nina, a neta caçula deles, lembrou esta semana de quando sua escola montou para a turminha do maternal uma lona ensaboada. Pediram até para levar biquíni. No fim da tarde, quando a busquei, vi em seus olhinhos castanhos e nos cabelos molhados: foi dos dias mais alegres que ela passara ali.

Será que transmiti a ela, em algum gene, a experiência do pequeno quintal? Hereditariedade é mesmo um barato.

Pandemia

virus

Doutor Fuad era o médico da família. Sisudo, tinha implante capilar e voz grave. Tratava de tudo e de todos. Da diabetes da minha avó à minha catapora. Seu consultório ficava na avenida Sapopemba, só indo de ônibus. A portinha na calçada, permanentemente aberta. Uma longa e reta escada dava acesso à pequena sala de espera. Sem recepcionista, nem TV ou revista velha. O atendimento era por ordem de chegada, em fila gerenciada pelos próprios pacientes. Diziam que aquele era seu consultório para os pobres, com consultas a preços módicos; os ricos eram tratados em um bairro chique, distante dali. Certamente, com recepcionista, TV e revistas novas. No da Sapopemba, nenhuma possibilidade de passatempo para crianças como eu que, dependendo do dia, aguardariam horas para serem examinadas.

Certa vez, reparei na plaquinha pendurada na parede, a pedir: “silêncio”. Naquela tarde, ela foi minha salvação. Silenciosamente, brinquei de formar palavras com aquelas letras. Sol, lince, sino, liso. E, como eu inventara a brincadeira, inventei também as regras; podia duplicar letras ou não utilizar alguma, se assim conviesse. Assim, conseguia formar mais palavras. Sócio, colo, leciono, sono. De repente, eu era uma fábrica de anagramas.

Nesta quarentena, é como se eu também me encontrasse num tipo de espera, mas pelo momento de retomar a vida normal (o que é normal?). Estou, não em uma sala de espera, mas em uma casa de espera. Nela, aguardo as boas notícias, enquanto recebo as más. Confinada, com TV na palma da mão e revistas virtuais do mundo inteiro e, graças!, café. Recorro, então, ao passatempo que um dia me salvou. Que anagramas possíveis existem para pandemia? Essa palavra que não é nova, mas se tornou mortalmente incluída no vocabulário do mundo inteiro? Essa, inscrita em uma plaquinha invisível, grudada em todas as paredes da minha casa, da sua, tatuada na minha pele, na máscara estranha que uso para ir ao supermercado, nos meus pensamentos e, eventualmente, meus sonhos também? (Sonhei que encontrara uma prima que não via há décadas, dei-lhe um abraço e pus-me agoniadamente a repetir, feito autômata, “Meu Deus, peguei!”.)

Da palavra pandemia, extraio “pai”. O meu, aos oitenta e oito anos, vive inédita situação de não poder visitar, nem ser visitado. Leitor de jornais, mantém-se informado e arrisca suas teorias conspiracionistas.

Sigo no passatempo e, em pandemia, encontro: “aipim”, “empada”, empada de aipim. Minhas horas na cozinha, em um mês, já superam as do ano passado inteiro. “Andaime”. Na volta do supermercado, passo pela obra na avenida e avisto homens trabalhando, rindo e conversando. Sem máscara! “Piedade”: peço a Deus por eles, por nós. Finalmente: “nada”. Eu sei, nada será como antes.

Esta não é uma crônica de Páscoa

P1020370 - Copia VÔ PASCHOAL NOV1958
Vô Paschoal – arquivo pessoal

Era grandinha, já, quando liguei os pontos: o nome do meu avô vinha do nome do feriado do coelhinho.

Cresci chamando e falando do Vô Paschoal, sem nunca juntar lé com cré. O que não fez, depois, a menor diferença. Uma coisa era o dia de ganhar ovos de chocolate; outra, completamente distinta, era meu avô. O filho de imigrantes italianos, de sorriso largo e gargalhada fácil. Torcedor inabalável do Palmeiras. Que mal sabia escrever, mas dominava os números. Que todo santo dia, depois da laranja finalizadora do almoço, tirava a sesta, sentado na poltrona, braços cruzados sobre o peito. Que inventava traquitanas, elétricas e mecânicas, para tudo em casa. Que perdeu parte do dedo em um acidente de trabalho nos Moinhos Minetti Gamba, na Mooca, e eu tinha certa aflição daquele toco sem unha. Que gostava de gato e cachorro, mas fazia de conta que não, porque minha avó detestava. Que ia em duas feiras diferentes, só para aproveitar os preços das frutas. Que pegava o carrinho de mão e saía para comprar tijolo e cimento e areia na Casa São Pedro, na rua Teresina. Que tinha um exército de santos num altar sobre o guarda-roupa, iluminado com um sistema que ele próprio instalara, e que eu morria de medo. Que nunca ficava doente. Que subia no telhado para verificar as calhas, mesmo depois do 90º aniversário, e nunca aconteceu nada, porque os anjos todos eram seus chapas. Que morreu numa véspera de Carnaval. E não de Páscoa.

Sendo assim, esta não é, nem de longe, uma história de Páscoa. Não deixa de ser, no entanto, pascoalina. A língua tem seus caprichos.

Meu avô tinha um armário cheio de ferramentas e uma pequena bancada de trabalho no nosso quintal. Eu era encantada com a morsa. Um dia, lhe pedi madeira, serrote, prego e martelo. Queria fazer uma cama para minha boneca Vivinha. Ele parou seus afazeres – ele sempre tinha afazeres, não parava quieto – e providenciou. Ensinou-me a usar os aparatos todos. Não sem algumas bufadas impacientes quando eu fazia algo errado, como entortar prego ou serrar fora da marcação.

Eu não tinha ideia da beleza daquilo: avô e neta martelando, serrando, construindo juntos. A gente nunca sabe direito a real importância das coisas. Só quando elas vão parar, feito quadro raro, na galeria da memória.

Depois da caminha, peguei gosto e o resto da mobília da boneca veio: armário, sofá, mesa, cadeira. Não podia ver um toco de madeira dando sopa. Tão fácil, a marcenaria! Não ficava perfeito, nem muito bonito, é verdade. Mas a Vivinha até que levava uma vida confortável.

Eu devia ser a única garota da escola que tinha, à disposição, um arsenal ferramenteiro daquele em casa. E um avô talentoso, apelidado pelas primas de Professor Pardal. Em paralelo às bonecas e coleção de papéis de carta decorados, eu também me divertia com porcas, parafusos, brocas, limas, colher de pedreiro, enxada, cal, cimento, brita, gesso. Sabia a diferença entre chave de fenda e de boca. Lugar de menina também é, por que não?, na oficina.

Meu avô me chamava de “joia rica”. Achava engraçado. Não era nem joia, tampouco rica. Carinhoso a seu modo, ele afagava meus cabelos e ria das minhas molecagens. Embora não fizesse questão de esconder: o preferido era meu irmão mais velho. Primeiro e único neto homem. Ganhou uniforme completo do Palmeiras quando pequenininho. Minha irmã e eu, não. Porque menina não jogava futebol. Mas podia brincar com serrote e plaina e parafuso à vontade. Pirraça inconsciente ou não, fui corintiana por alguns anos.

Seu Paschoal era dono de coração enorme, simpatia maior ainda. Religioso, era grato à vida simples que tinha. Onde quer que tenha renascido, está contando piada, ajudando alguém ou inventando alguma engenhoca.

Desconfio que o feriado é que leva o nome do meu avô, e não o contrário.

A salada de pepino do meu pai

pepino

Ninguém faz salada de pepino como meu pai. Ninguém. Não que Seu Tonico arrase nas artes culinárias. Ele é MasterChef de um sucesso só. Ao menos, para a caçula aqui.

Desde meus tempos de criança, ingredientes e modo de fazer são (ou eram) os mesmos, seguidos à risca. Eis a receita para criar um clássico.

Para começar, ele nunca usou tábua de cortar. O pepino caipira, nu, se encaixava em sua mão esquerda. A direita, munida de faquinha comum, tratava de fatiá-lo em finíssimas e consecutivas rodelas, que iam despencando harmoniosamente na bacia. Sempre sem casca. (Não me venham, nutricionistas de plantão, bradar a importância dos nutrientes da casca nos processos digestórios, nem adeptos do consumo consciente dizer que não pode desperdiçar comida. Pepino do Tonico é sem casca e zéfini.)

Por cima da multidão verde-clara, apenas a tríade mágica: sal, vinagre e azeite. Nada de pomposidades como azeite de primeira prensagem de azeitonas gregas, vinagre de uvas Trebbiano, flor de sal extraído da Normandia, ervas esquisitas ou outra coisa. O segredo ancestral era simples, bicho: o velho sal Cisne, vinagre Palhinha e azeite Maria, a mãe das saladas da minha infância. Que nem azeite era.

Algumas rodelas escapavam do padrão super fino e saíam levemente mais grossinhas. Quando eu encontrava uma, fazia de conta que era prêmio. Quem disse que comer legume é chato?

Também nunca entendi por que pepino é sinônimo de problema. Se dizem, “Rapaz, que pepino!”, certamente é de coisa boa que estão falando.

A salada de pepino do Seu Tonico é (ou era), em si, o cardápio inteiro: entrada, prato principal e sobremesa. Um espetáculo sensorial, arregimentando visão, olfato, paladar e felicidade. Felicidade também é um sentido, meu bem.

Jamais consegui reproduzi-la. Ora erro na espessura das rodelas, ora exagero no sal. Talvez isso não passe de autossabotagem, só para perpetuar a iguaria paterna no rol da fama. Importante que continue, portanto, incopiável.

Quis terminar dizendo que, assim que passar essa quarentena maluca (um “pepinaço” mundial, para os que preferem a conotação negativa do Cucumis sativus) e as coisas voltarem à alguma normalidade, vou trazer Seu Tonico aqui em casa. Para que reproduza, em almoço comemorativo, a tradicional salada, que não provo há tanto tempo. Mas, na verdade, eu não quero.

Receio que, se ele a fizer, o resultado não seja o mesmo que alimentou, tão saborosamente, minha criancice. E se ele mudou o jeito de fatiar? Se inventar de salgar menos? A preocupação com o sal é diretamente proporcional à idade. Se, lá no meio, eu não encontrar nenhuma mais grossinha? E, mais temível que tudo: se a primeira frase desta história não fizer mais sentido?

Melhor não arriscar, e manter a sagrada salada bem guardadinha na geladeira de conservar lembranças. Aquela, que não deixa nada estragar.

Quando a quarentena acabar, vou convidá-lo para almoçar aqui. Direi: “Pai, hoje eu faço a salada”.

Por garantia.

Wanda

casa antiga desenho

Chique era a Wanda. Longos cabelos estilo pantera, óculos escuros tipo Jackie Onassis. Bem vestida, a qualquer hora. Morava ao lado da nossa vila, na casa dos meus sonhos.

Acompanhe comigo, com olhos de Google Maps: rua, calçada, casa da frente da vila, área comum da vila, nossa casa na vila. Essa era a extensão da casa da Wanda, cujo limite coincidia com o da nossa. Cinquenta metros no total. Uns oito de largura. Casarão, para os modestos padrões da Mooca da minha infância. Nos fundos do terreno, exatamente ao lado da nossa casa, um pomar.

Completando a quimera, a Wanda. Moça bonitona e, na minha avaliação, rica. Moderna, tinha carro e dirigia. Nada lembro do marido. Nenhum registro sequer em minha memória. Se alto, baixo, feio, bonito. Nada. Não tinham filhos, mas cachorro: Gueibin. Não sei como se escreve. Gaybin? Gabin? Um cachorrão deste tamanho, alegre e saltitante. Eu os via e ouvia chamando o peludo para lá e para cá, Cuidado com o portão!, Para, Gueibin!, Não deixa ele sair! Da mesma forma, nunca soube: Wanda com W ou com V? Nunca conversamos.

Gueibin era da raça setter irlandês. Jamais brinquei com ele. Quando eu passava na rua, em frente ao seu portão, nunca o via. Não era cão autorizado a latir para carros e gentes. Pena.

Antes de eles se mudarem para essa casa, havia outra vizinha. Uma senhora, cujo nome não me recordo. Só sei que dava jabuticabas para nós, por cima do muro. Depois que ela se mudou, o muro cresceu, a Wanda veio. Adeus, jabuticabas.

Nossa casa da rua Natal era pequena, ampliada na base do puxadinho. Eu passava bastante tempo pensando nas casas do bairro onde eu gostaria de morar. A da Wanda era a campeã. Em segundo lugar, um sobrado bacana na rua Jaboticabal, com pomposa rampa ligando o portão à porta de entrada. A janela da sala era um espetáculo: de parede a parede, do teto até quase o chão. A da nossa sala era tão mirrada. Para piorar, dava para o tanque de lavar roupas, no quintal. Por isso, quase nunca ficava aberta. A porta, então, fazia as vezes de janela também. Somada a outras limitações, não é de admirar que eu tenha dedicado tanto tempo sonhando com as casas do pedaço.

A única janela que me conectava ao mundo externo – fator de grande frustração – era a do quarto da minha mãe, que dava para a vila. Meu observatório geral de fundos de casas e telhados e horizontes, em um bairro predominantemente térreo, ainda imune à especulação imobiliária. Apenas ouvia os ônibus, as motos, o vendedor de biju, o sorveteiro. Dali, via a Wanda saindo. A Wanda chegando. A Wanda ralhando com o pobre Gueibin, que devia aprontar as suas.

Se viva for, Wanda deve beirar os setenta anos. Mais, até. Será que ainda usa óculos escuros? Será que tiveram filhos, netos, bisnetos? O Gueibin, se foi papai naquela época, talvez esteja na centésima geração. Que centésima o quê; tricentésima. Quem sabe já não topei, por esse mundo e sem saber, com um descendente seu, rolando n’alguma grama, batizando poste?

Depois que Wanda, marido e Gueibin se mudaram de lá, um japonês comprou a casa. O homem não era sofisticado, não usava óculos escuros. Nem cachorro, tinha. Ainda por cima, trocou o delicado portão de madeira da frente por outro, feioso.

Namorei um rapaz que tinha um setter irlandês. Como gosto de inventar reencarnações para os bichos, não demorou para que eu estabelecesse a conexão. Nunca confessei ao namorado, mas houve vezes em que cochichei ao ouvido do cão, como se segredo nosso fosse: “Eu sei que você é o Gueibin”.

Passou “Um peixe chamado Wanda” no Telecine. Aquele, dos anos 1980. Eu poderia fazer um filme também, “Uma vizinha chamada Wanda”. Nele, uma garotinha sardenta narraria, em primeira pessoa, suas filosofações sobre janelas, memórias e jabuticabas. Seu melhor amigo seria um cachorro. Igualzinho ao Gueibin.

Wilson

O ano? Não me lembro. Estávamos no primário. Ao subir as escadas, estranhei os colegas no corredor, quando deveriam estar na sala de aula. Ninguém correndo ou fazendo bagunça, que seria o normal. Uns com olhar espantado, outros conversando baixinho. Perguntei o que havia acontecido. Um deles contou: O Wilson morreu.

Wilson era da nossa classe. Oito, nove anos? Fora atropelado na rua onde morava, enquanto brincava. Caminhão, disseram.

Até então, nenhuma criança, que eu tivesse conhecimento, havia morrido naquele nosso pedaço da Mooca. Tão perto de mim. O ineditismo da morte pegou-me de jeito. Um estranhamento, uma tristeza recheada de susto.

Não fui ao seu enterro. A professora deve ter ido. As aulas continuaram sem ele. Seu nome era o último na chamada. Que ficou mais curta.

Daquele dia em diante, a cada vez que eu passava pela rua Florianópolis, pensava nele. (Ninguém sabe, mas até hoje, se acontece de eu passar por ali, penso.)

Não que fôssemos grandes amigos. Pouco sabia dele. Se assistia Família Dó-ré-mi ou se preferia Perdidos no Espaço. Para qual time torcia. O que gostava de pedir na cantina na hora do recreio. Não conhecia seus pais. Mas era alguém que eu via todo santo dia útil, entre cadernos e livros e provas de matemática e brincadeiras no páteo. De repente, nunca mais.

A morte, às vezes, pode marcar mais que a vida.

Não há uma fotografia dele sequer em minhas recordações da escola, já procurei. Para lembrar de seu rosto, preciso me concentrar. Então, ele surge por alguns segundos, para logo se misturar com os de outros colegas e desfazer-se em uma imagem difusa. De concreto, apenas isto: Wilson, meu colega de classe no primário, morreu. Tinha oito, nove anos? Caminhão, disseram.

 

Nota: devo registrar, a título de assossego interno, que quando recebi a notícia dos colegas, ali no corredor, talvez por distração, ou por não ter ouvido direito, entendi outra coisa. Algo como o professor ter faltado, que não haveria aula. Soltei, para espanto geral, um infeliz “Graças a Deus!”. Só depois me dei conta do vexaminoso mal-entendido. Por instantes, fui a sem-coração da turma.

Fritz

Anos 80. Meu irmão chegou em casa com o bichinho em uma caixa, todo feliz. Meu irmão, não o bichinho. Comprara de um rapaz no centro da cidade. Agora tínhamos um papagaio.

Vai se chamar Fritz. Providencia gaiola, põe no quintal, “para ele ver o movimento”, cuidado com os gatos, não é pra ensinar palavrão.

O tempo passava, e nada de Fritz falar.

Meu irmão lembrou que, durante a negociação, questionou o tamanho e a aparente mudez da ave. O vendedor justificou: “É novinho, ainda”.

A engabelação é uma arte. Anunciado como papagaio, Fritz era, na verdade, maritaca. Que fala, mas em maritaquês. Não foi, porém, empecilho para que tivéssemos altos papos, meu amigo verde e eu. Reclamava se a gente passasse por ele e não lhe desse bom dia, boa tarde, boa noite. Nós gostávamos dele. E arrisco dizer que Fritz gostava da gente, numa espécie de síndrome de Estocolmo.

Um dia, sem mais, nem menos, Fritz se mandou. Não se sabe como conseguiu abrir a gaiola. Diz meu irmão que estava perto, e nada percebeu. O fato é que, depois de anos, ele cansou-se dos Franco. Fugiu sozinho, sem ajuda. Por próprio mérito. ‘Maritocracia’.

Ontem as maritacas do bairro estavam particularmente barulhentas. São tão livres, tão felizes. Quando elas aparecem, não há como não lembrar do velho Fritz. E da nossa crueldade, ao mantê-lo em injusto cativeiro. Uma vergonha maior que a de comprar gato por lebre. A ignorância é um tipo de gaiola.

Desculpa, Fritz.

Quem me ensinou a nadar

De elemento água, não sou. Como autêntica taurina, meu negócio é terra firme. Nem wet, nem wild.

Reza a lenda que, em certo passeio a Santos, fui derrubada por monstruosa onda. Certamente, nada além de uma marola júnior. Para uma garotinha de dois anos, no entanto, devastador tsunami.

Costumo contar o episódio para justificar a paúra das águas. Eu, de costas para o mar, olhando minha mãe na areia. Vem a danada da onda e me dá um capote. O resto é história.

Não entro em barco, já empaquei atravessando pinguela, nunca enfio a cara no chuveirão. Houve uma vez, no entanto, em que o trauma pareceu arrefecer.

Tapiratiba, final dos anos 70. Visitando parentes do meu pai, a turma resolveu ir à cachoeira. A sardentinha aqui vestiu-se de coragem e foi no embalo. Afinal, não era possível que as águas fossem assim tão terríveis. Nem que nadar fosse coisa tremendamente difícil. Disposta a viver, ali, minha história pessoal de superação, entrei em suas águas calmas, onde as quedas se transformavam em piscinão. De roupa e tudo. A Isabel, esposa do Tião, quis certificar-se que eu sabia nadar. “Aham!” – respondi, determinada.

Quem me ensinou a nadar

Quem me ensinou a nadar

Foi, foi, Marinheiro

Foi os peixinhos do mar

Primeiro (único) tchibum e Oxum surgiu, rindo da minha esdrúxula performance aquática. Eu era uma espécie de peixe fora d’água – só que ao contrário. Afundei, me debati, engoli água. Avistei a Dona Morte se aproximando, metida em um maiô grafite estampado com foicezinhos em verde neon, querendo me levar para um rolê. Foi quando a Isabel percebeu que aquilo não estava indo muito bem.

“Tira a menina da água!”, “Puxa o braço!”, “Tião, ajuda aqui!”.

Salvamento realizado com sucesso. Minh’alma encharcada. O rolezinho ficou para depois. Quando, enfim, recuperei o fôlego, a Isabel estava inconformada: “Mas você não disse que sabia nadar?”.

Muita autoconfiança aos dez anos de idade dá nisso. Insisti que sim, eu sabia nadar. E completei, para incredulidade dos presentes: “Eu treino na cama”.

Foi assim que protagonizei, talvez, a melhor piada da família. Lembrada até hoje nos encontros e festinhas.

Minha sorte é que, naquela época, não existia internet.

Horóscopo

Minha avó gostava de ouvir o Omar Cardoso no rádio. Todo santo dia. Embora não fosse assim tão crente em previsões astrológicas, dona Josephina não perdia um programa. Ligava o aparelho na cozinha, bem alto, e ia cuidar da louça, da roupa, da casa.

Eu, por tabela, ouvia também. A voz empostada do radialista servia de trilha sonora para minhas manhãs, enquanto me divertia no quintal. A escola era só à tarde. Vez por outra, prestava atenção ao que ele dizia. Áries, seja mais assim. Câncer, seja menos assado. Peixes, dia propício para isso. Gêmeos, melhor evitar aquilo. Em minha meninice, achava que fazer horóscopo era um bocado divertido. Bastava inventar as coisas.

No quintal da minha infância, tão imenso, dava para brincar de balanço, esconde-esconde, de professora (dei muita aula para alunos imaginários; será que se formaram?), de casinha, andar de bicicleta, ter cachorro e gato e tartaruga, construir móveis para a boneca Susi com as ferramentas do meu avô. Cabia mesa e cadeiras, de vez em quando almoçávamos ali.

Não pode ser o mesmo quintal de quando me mudei de lá, quase duas décadas atrás. Tão estreito, tão apertado. Hoje, tão silencioso. Onde cabia a vida de todos nós, cabe nem meu choro. Algumas tralhas amontoadas, esperando o destino que nunca vem. Fechada há anos para morada dos vivos, agora a casa 1 da vila deve ser lar de almas que não podem pagar aluguel. Casa tem signo?

Éramos sete: meus avós, meus pais, meus irmãos e eu. Cinco signos diferentes. Toda família é uma salada zodiacal.

Certa vez, o Omar Cardoso anunciou uma tal pedra da lua. Que tinha poderes terapêuticos, energéticos e tal, uma beleza. Pois minha avó fez que fez, e só sossegou quando meu avô comprou a dita cuja. Deve ter custado uma fortuna. Que eu saiba, não serviu para nada.

Meu avô a chamava de Zéfina. Os parentes, de Pina. Eu achava ‘Josephina’ tremendamente feio. Ainda mais com ph. Só fui simpatizar com o nome depois de ler “Mulherzinhas” e saber que o nome da personagem principal, a porreta Jo March, era Josephine. E há quem diga que livros não são importantes.

Minha avó faria aniversário esta semana, dia 6 de novembro. Ela era de Escorpião. Um tantinho venenosa, feito o temido artrópode. Longeva, no entanto; viveu 81 anos. O que os astros lhe reservaram, no dia em que morreu? Omar Cardoso teria profetizado, “É hoje, Zéfina”.

De acordo com o horóscopo que acabo de estabelecer, hoje, sexta-feira, oito de novembro, passado e presente estão em harmoniosa conjunção. Bom dia para cavoucar as lembranças. Tenho uma constelação delas no céu do meu peito. Sou Touro com ascendente em saudade.

Olhe bem, preste atenção

Não falem mal da musiquinha do Fantástico. Ao contrário do que pregam os resmungadores convictos, ela não marca o velório do fim de semana amado, idolatrado, salve, salve. Nem o prenúncio da desgraçada segunda-feira.

“Olhe bem, preste atenção”

A musiquinha dominical é o lembrete tranquilizador de que semanas sempre terão fim, e começo, e fim, e começo, num implacável círculo de dias. Não estamos falando de musiquinha qualquer, mas de uma das mais longevas composições registradas na memória do povo. Um clássico da MPB, goste ou não.

Apesar das inúmeras regravações, até hoje é a mesma base melódica que ouvi na noite daquele cinco de agosto de mil novecentos e setenta e três, quando o programa estreou. Eu tinha seis anos. Como não gostar? Como ser capaz de maldizê-la? É quase meio século no ouvido, bicho. Suas notas estão tatuadas em meu DNA. Fazem parte da trilha sonora afetiva da minha vida. Por isso, rogo: não falem mal do Fantástico.

“Nada na mão, nesta também”

Naquele domingo, os Franco se reuniram em frente à Telefunken para assistir, em preto-e-branco, ao novo programa. Época em que apenas meia dúzia de canais faziam a alegria da gente. Eu, alfabetizanda, juntei as dez letras garrafais da vinheta e descobri seu significado. Nas semanas seguintes, decorei a musiquinha e passei a fazer coro com a Vanusa.

“Nós temos mágicas para fazer

Assim é a vida, olhe pra ver”

Não falem mal do Fantástico. Que é chato, que é da Globo, pipipi, popopó. Nada disso importa, nada disso o destrói. O Fantástico é aquele parente velho que você pode até não ir com a cara, mas precisa respeitar.

Um dia, demos adeus à Telefunken. Era o progresso, chegando à casa 1 da pequena vila da Mooca. Pudemos, então, ver tudo, tudinho em cores. O programa e eu crescemos juntos. Queria ser a Heloísa Millet, tão linda e brilhante. Gostava da Zebrinha dando os resultados da loteria esportiva, “Coluna do meio”... Suspirei pelo Sergio Chapelin. Achei esquisito a Isadora Ribeiro emergindo da água com aquelas coisas na cabeça. Lamentei quando a musiquinha perdeu a letra.

Aos domingos, logo que anoitece, o Luca pergunta: “A gente vai ver Fantástico, né?”. Adolescente, sei que ele gosta mais do rito que do programa. Nossa TV é bem mais smart que a velha Telefunken. Aliás, nem precisaria de TV para assistir. Ele, então, senta ao meu lado. Nessa hora, sei direitinho o que minha mãe, sua avó, sentia quando eu fazia isso.

Tanta coisa mudou. Tanta coisa não mudou.

Deve ser esse, o show da vida.

Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

O pato

ilustração: Aimee Marie

Já tive um pato.

Não o que faz quém-quém. Patinho de brinquedo, do tamanho do meu dedão. Todo preto (cinza?), de plástico, desses que param em pé. Uma amiga do primário me dera, nem sei bem por que. Só sei que o brinquedinho simplório e, aparentemente, sem graça, estava sempre ao meu lado. Como um fiel animalzinho de estimação.

Batizei-o, em notório arroubo criativo, de Patolino. Patolino pra lá, Patolino pra cá. Ninguém podia pegá-lo, tampouco desdenhar dele. Eu virava fera, encarnava a pata-mãe furiosa.

Não que não houvesse, em casa, outros brinquedos à minha disposição. Apesar da vida apertada, eu tinha lá minhas bonecas, como a Susi (prima da Barbie, que ninguém conhecia), a Vivinha, a Fofolete, as de papel. Bichos de pelúcia e outros divertimentos, inventados com coisas comuns, como caixinhas de fósforos vazias, pedaços de madeira que sobravam na oficina improvisada do meu avô. Tive também bichos de verdade, muitos. Desde meu primeiro dia de vida neste planeta convivo com eles, em especial os gatos.

O fato é que me afeiçoei ao patinho de plástico, como poucas vezes o fiz a um brinquedo. E podia jurar que o Patolino, pelo teor dos nossos papos (sim, nós conversávamos), também gostava de mim. Fui dando corda a esse antropomorfismo afetivo, sabido e aceito pela família. Até que, um dia, o pior aconteceu.

Vô Paschoal, sem querer, pisou no Patolino. Quem mandou largar no meio do quintal? Quando o vi destruído no chão, e meu avô bufando (para piorar a situação), só consegui recolher o que restara do Patolino, e me recolher à cama para chorar.

Chorei copiosamente a ‘morte’ do patinho como fizera, por tantas vezes, pelos nossos gatos que se iam. Soluçava, lamentando não ter me despedido do Patolino. Condenei-me ao título de criança mais infeliz do mundo, que não sabia como ia viver dali em diante.

Então ganhei outro patinho de plástico. Parecido com o Patolino, só mudava a cor. Não me recordo se foi presente da mesma amiga ou se meu avô, redimindo-se do patocídio culposo e vendo a neta caçula inconsolável, tratou de providenciar. Batizei-o homonimamente em homenagem ao velho amigo, e dediquei sinceros esforços ao novo relacionamento.

Mas o Novo Patolino não era o Velho Patolino. Não se substitui um amigo assim, do dia para a noite. Talvez eu devesse ter dado outro nome. Além disso, faltava-lhe a ânima que o Patolino, em meu julgamento, tinha de sobra. Quem sabe, a diferença não estava nem no pato de plástico, mas em mim. Depois de viver a fundamental e necessária fase de ‘luto’, superei a perda e reconstruí a vida (os dramas infantis são tão imensos!), eventualmente me distraindo com alguma roupa nova, um dinheirinho ganho da madrinha, os passeios a Santos no velho Fusca, os bichos de verdade. E passou.

Patolino brotou na lembrança porque, dia desses, pisei, sem querer, em um pequeno brinquedo de plástico da Nina. Fui checar: um cachorrinho cor de rosa, menor que meu dedinho. Talvez da turma da Polly (neta da Vivinha). Recolhi os caquinhos e joguei fora. Lembrei com carinho do meu velho patinho querido, mas sequer cogitei se aquele cãozinho significava algo para minha filha. Se ela perguntar, jogo a culpa na gata. Ela que pague o pato.

Saudade, 7 letras

arte: Ruth Eastman

A Madalena usava um salto deeeste tamanho. Entrava na sala, tec, tec, tec, subia no tablado (toda sala de aula tinha, para reforçar a hierarquia), colocava suas coisas sobre a mesa, apanhava o giz e anunciava, “Cruzadinha, pessoal!”.

Professora de Geografia, a mestre loura de sorriso largo era aficionada por palavras cruzadas. Dava a matéria toda assim. Canal que liga o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo, 11 letras. Capital do Paraná, 8 letras. Até que era didático. Mas ela abusava do método. A turma virava cruzadista na marra.

Equilibrada em seus Luiz XV impossíveis, Madalena lançava o desafio no quadro-negro (que era verde) e a gente copiava no caderno. Era preciso atenção para não errar a quantidade de quadradinhos. Fiquei craque em desenhá-los, na horizontal e na vertical. Nem usava régua.

Em casa sempre tinha revistinha de palavras cruzadas. De pequena, eu gostava da Picolé, nível café-com-leite. Cresci, passei para as difíceis. Às vezes, dava uma espiadinha nas respostas na última página. Nunca admiti, porém. Trapacear nas palavras cruzadas é mais ou menos como colocar filtro no perfil do Instagram.

As revistas Coquetel seguem resistindo bravamente, mesmo em tempos de internet. São patrimônio do léxico brasileiro. Hoje dá para fazer palavra cruzada online. E qualquer pessoa pode, num clique, criar as suas próprias. Se tem o mesmo charme das antigas, não sei. Nostalgia, 9 letras?

Nostalgia é meu nome do meio. Sou feita de saudade não idealizada. Não é que eu queira reviver o passado. Adolescência, tirando meia dúzia de delícias, é fase esquisita. Não se é adulto, também não se é mais criança. O corpo indefinido, as ideias idem. Tantos medos esparsos, a maioria bobos. Meu desejo era poder, hoje, assistir às cenas vividas, feito espectadora. O filme da minha vida.

Rever os rostos dos antigos colegas de classe, e me ater aos dos que já partiram. Ver as velhas e pesadas carteiras de madeira do primário. O tampo da mesa era emendado ao assento do aluno da frente (quem foi o gênio que bolou isso?), motivo constante de problemas durante a aula, “Professora, fala pro Fulano parar de balançar, assim não consigo escrever!”. Ouvir o sinal do recreio, ver mais uma vez a cantina do Wanderley. O indefectível sanduíche de mortadela no pão francês com Guaraná Caçulinha de todo santo dia. O uniforme das aulas de educação física, meu pesadelo. O salto da Madalena era mesmo assim tão alto? E por onde ela andará? “Ô Ma… Ô Madá… Ô Madalê… Ô Madalelelelena, ô Ma”. Saudade, 7 letras.

Dizem que fazer palavras cruzadas rejuvenesce o cérebro, deixa o raciocínio mais rápido. Eu nunca mais fiz, ninguém aqui em casa tem o hábito. Mas vou montando as minhas, mentalmente. Organizando memórias num grande registro quadriculado, por vezes inexato. E não preciso mais olhar as respostas. Já estou nelas.

Ave, Neutrox

As vacas, em casa, eram magras. E os cabelos, fartos. Não seria o xampu Colorama Ovo que iria deixá-los desembaraçados – missão que cabia ao creme rinse (o avô do condicionador) e que não podíamos comprar. Sofríamos, minha irmã e eu, adeptas das melenas até a cintura. Como abrir mão da cabeleira estava fora de cogitação, o jeito era encarar longas batalhas com o pente.

Minha avó me penteava para ir à escola. Pequenina, eu subia no bidê do banheiro para facilitar seu trabalho. Ela, sem muita delicadeza, puxava meus cabelos com força. Eu reclamava, ela retrucava. Quem mandava ter assim, comprido? Cortasse, oras. Do alto de meus oito anos, eu nada podia fazer, exceto chorar as pitangas para minha mãe, à noite, quando ela chegava do serviço.

Eis que, no fim dos anos 70, a tecnologia nos brinda com algo revolucionário, mágico e, finalmente, acessível: o Neutrox. Botando para escanteio os velhos cremes rinses e inaugurando a era dos condicionadores. Creme amarelo com tampa vermelha. Bastava espalhá-lo nos cabelos depois do xampu e plim!, adeus, nós!

Passei a adorá-lo, como a uma entidade divino-cosmética. Deus Neutrox. Deixava a juba macia e brilhante. Era tão cheiroso que, um dia, comi. E aprendi: nem tudo que o nariz gosta, a língua aprova.

As coisas melhoraram um pouquinho, e em casa nunca mais faltou Neutrox. Outras marcas também chegaram ao nosso toucador. Não satisfeita com a primeira experiência, tratei de provar também o creme Yamasterol “de frutas”, aquele que formava um degradê colorido no frasco. Mas Neutrox era imbatível.

Com os cabelos desembaraçados e macios, faltava o acabamento. Sem secador de cabelos, eu e minha irmã resolvemos improvisar: conectamos a mangueira do aspirador de pó no bocal de saída do ar, em vez do de entrada, e voilá! Cabelos secos em um instante. Meio fedidos, no entanto. A gambiarra, obviamente, não prosseguiu.

Então, em um Natal (acho), ganhamos do Papai Noel um Braun Styler. A última palavra em secador de cabelos. Vinha com pente e escova modeladores, que se encaixavam no bocal. Super prático. Vermelho (ou cor de laranja?), potente, uma belezura. Agora, equipadas com Neutrox e secador, não tinha pra ninguém, meu bem.

Vi Neutrox outro dia, no supermercado. Ícone fundamental da minha biografia capilar. Não tive dúvida; abri um. Resisti à degustação, mas inspirei o quanto meus pulmões deram conta. Nada do cheirinho que um dia me encantou. Por que diabos mudam essas coisas? A fragrância do Neutrox deveria ser tombada pelo patrimônio histórico olfativo.

Três garotas se aproximaram, escolhendo seus produtos. Uma delas apanhou justamente o Neutrox e pôs-se a ler, em voz alta, o rótulo para as outras. Olhei-as e sorri. Duas – as ouvintes – sorriram de volta.

Elas não sabem de quê era feito meu sorriso. Não imaginam que houve um tempo em que aquele creme amarelo já fora o supra-sumo dos salões de beleza, objeto de desejo de dez entre dez cabeludas. Não fazem ideia de que aquele condicionador tem, provavelmente, a idade de suas mães. Nem suspeitam do significado que ele tem para mim, nas minhas longas, macias e penteadas histórias.

O calendário

Ines Hildur

Tinha em casa, quando eu era criança. Depois saiu de moda, nunca mais vi. Aqueles calendários que vêm com dois conjuntos de papeizinhos: um para os meses, com doze, e outro para os dias, com trinta e um. Era só ir trocando o papelzinho, conforme o dia. Um calendário eterno, válido para qualquer ano. O nosso era pequeno, feito em madeira. Se não me engano, havia algum desenho nele. Florzinha ou outra coisa mimosa. Fazia parte da decoração da cozinha.

Era necessário, no entanto, disciplina para mantê-lo atualizado. Alguém deveria, pontualmente, mudar o papelzinho do dia. E, quando chegasse ao trinta ou trinta e um (exceto fevereiro, o diferentão), trocar o do mês também.

O que nem sempre acontecia. Ficava dias sendo o mesmo dia. Meses, até. Março chegava, e ainda estávamos em janeiro. Já o sete de maio eu torcia para nada, nem ninguém, atualizar. Assim seria sempre meu aniversário.

Por outro lado, em meados de 1972, desejei pular direto para o ano seguinte, quando eu entraria no pré-primário. Queria saber como era esse negócio de ir à escola, meus irmãos iam e pareciam tão importantes com seus livros e cadernos e estojos e tarefas de casa. Mas tempo não é de papel. Tempo é de vento.

De tanto serem manuseados, os papeizinhos iam amarrotando e envelhecendo – o tempo também passava para eles. Curiosamente, ao tomar a dianteira no calendário, traziam sempre um dia inédito, um mês novinho em folha.

Não sei o destino que nosso calendário móvel teve. Sumiu. Ou acabou aposentado, substituído pela folhinha de parede, com fotos de gatinhos fofos ou bucólicas paisagens europeias (solares para os meses de verão e nevadas para os de inverno). Uma vez, ganhei de aniversário um relógio de pulso, com calendário automático. Eu não precisava fazer nada. Ele mudava seus papeizinhos sozinho.

Sei que na nossa velha casa o tempo, de certa forma, parou. Fechada há anos, ali o tempo não passa. É sempre o dia em que o último de nós saiu de lá.

Só as aranhas não sabem.

Herança

“Under the cherry tree”, Majali

Uma tarde, visitei meu avô. Seguindo à risca seu ritual, ele passou café, serviu a mesa, lavou xícaras e pires, e colocou-os molhados sobre a toalha branca. A garrafa térmica, idem. Não enxugava nunca. O que me causava certa gastura.

Em meio a histórias de quando trabalhava nos Moinhos Minetti Gamba, gols do Palestra e lembranças da minha avó, ele se levantou e foi até o quarto. Remexeu em seu guarda-roupa e voltou com uma dúzia de cabides. Pretos, de plástico. Dos bons. “Fica pra você!”. Disse que não precisava de tantos.

Não era meu aniversário, nem nada. E Vô Paschoal , embora doce, nunca foi chegado a demonstrações explícitas de afeto. Tampouco eu era a neta preferida, posto eternizado pelo meu irmão mais velho. Naquele dia, no entanto, seu carinho estava ali. Multiplicado por doze. E onde quer que eu vá morar, lá estarão os velhos cabides. Não dou, não troco, não vendo, não empresto.

Noutra visita, não sei se antes ou depois, também voltei com presente. Desta vez, uma assadeira. Estava no armário, com algumas menores dentro. Uma matrioska de assadeiras, e eu ganhei a maior. “Sua avó usava muito!”. Por certo, ele considerou importante que eu tivesse uma peça daquela na cozinha. Fato: nela preparo torradas, minipizzas, tortas, pão de queijo. O antiaderente está ligeiramente comprometido. Pudera, são mais de vinte anos, só comigo. Às vezes, as coisas grudam. Às vezes, é a saudade que não desgruda. E onde quer que eu vá morar, lá estará ela. Não dou, não troco, não vendo, não empresto.

Além de uma assadeira e doze cabides, também herdei seu jeito de bufar, revirando os olhos, quando o sangue vêneto lhe fervia. Ah: e o colete cinza de seu terno. Que não me foi dado em vida; catei pra mim quando ele se foi.

Hoje, aliás, é um bom dia para vesti-lo. Pensando bem, esta sexta também pede pães de queijo para o lanche da tarde. E, de quebra, um legítimo bufar paschoalino pelas notícias dos jornais.

Os furinhos do arroz

Diminuo o fogo, tampo a panela. A superfície do arroz está cheia de furinhos. Lembrei: de criança, pedia para minha mãe fazer “arroz com furinhos”. O mais gostoso do mundo. Engana-se quem pensa que esses miniburacos são resultado de simples fenômeno físico. Há mais coisas nos furinhos do arroz cozido do que sonha nossa vã gastronomia.

Ao lado do fogão, eu vigiava a panela semitampada até que a água começasse a secar, dando lugar à mágica dos furinhos. Na ponta dos pés, espiava dentro deles, na tentativa de descobrir-lhes a razão. Nada via, além dos borbulhos. Se a visão não trazia resposta, o olfato se esbaldava: meu nariz era inundado pelo vapor perfumado do alho, da cebola e do cheiro verde temperando os grãos.

Logo eu me distraía com outra coisa. A gataiada brigando no telhado, a vizinha tocando a campainha, o mandrová na folha da comigo-ninguém-pode. Até ouvir o chamado, “Tá na mesa!”. Eu pedia e, com a escumadeira, minha mãe escavava apenas a primeira camada do arroz, capturando, assim, os furinhos. Que se desfaziam no encontro com o caldo do feijão. Tem comida que é pura oração.

Já o arroz da minha avó, que passou a cuidar dos netos quando meus pais abriram a venda e nela trabalhavam o dia todo, era empapado. Não continha furinhos. Nem sabor. Houve época em que reclamamos. Minha mãe resolveu fazer nosso arroz na venda, entre um freguês e outro, numa cozinha improvisada atrás do balcão, trazendo-o à noite para casa. Não era a mesma coisa. Quando ela ficou doente e parou de trabalhar, ganhamos o arroz de volta. Eu não sabia se ficava triste ou alegre.

Desligo o fogo, aviso que o almoço está pronto. Meus filhos disputam a escumadeira para ver quem pega primeiro o arroz. Pergunto se está gostoso. Bocas ocupadas, seus olhinhos apertados dizem ‘sim’. Então concluo: os furinhos do ancestral cereal continuam mágicos. Dentro deles cabem presente e passado.

Lembrança é um prato cheio para a saudade.

Batom

Testei os batons no dorso da mão esquerda. Tão bonitos, assim, alinhados. Roxos, lilases, rosados, vermelhos, alaranjados. Verdadeiro festival cromático. Fui conferindo também o cheiro de cada um – coisa da maior relevância. Quatro sentidos ativados de uma só vez: tato, visão, paladar e olfato. Batom é troço muito sensorial, grudado no imaginário desde sempre.

De repente, um cheiro. Específico, único, arquivado nos confins da memória. O cheiro do batom da minha mãe. E eu não estava doida.

Dona Angelina, devota da cara limpa, por gosto ou falta de recursos, não era de muita maquiagem. Mas um batonzinho ia bem, para alguma ocasião especial. De criança, eu gostava de brincar com os dela. Ela, o desapego em pessoa, deixava. Lembro bem do estojinho, com um mecanismo diferente dos de hoje. Uma pequena saliência ao lado, bastava empurrá-la para cima para usar. Talvez fossem mais baratos. Qual marca, meu Deus? E o indelével cheirinho de mãe arrumada para passear.

Fui apanhando os batons, um a um. De onde vinha aquele cheiro de tempo antigo, macio, quieto, cor de rosa? Numa saudade urgente, passei a abrir os blushes, as bases, as sombras, tudo. Onde, onde?

Então, me dei conta. Que tonta, eu. O cheiro não vinha da coisarada cosmética nas prateleiras da loja. Nem eu louca estava. Foi ela que, num voo etéreo, passou por ali e me deu um beijo.

Mapa

São Paulo, Avenida do Estado. Quase elegante em seu puído terno preto, ele expunha seus produtos no semáforo. Pendurados em seu braço, carregadores para celular. Nas mãos, um mapa colorido da cidade, que ele enrolava e desenrolava feito pergaminho, demonstrando aos fregueses. Era, ao mesmo tempo, vendedor e vitrine.

Mas quem, em tempos de GPS, compra mapa de papel? Quem, que com um clique pode descobrir, em segundos, onde fica a capital da Moldávia, podendo dar zoom e ver tudo em 3D, compraria um mapa de papel, limitado à pobre 2D, que facilmente pode se rasgar, sujar, pegar fogo, ser destroçado pelo cachorro?

Se ainda são feitos, é porque ainda se usam – uma lógica do mercado. Para mim, mistério.

Em casa, tínhamos um guia de ruas da cidade. Grosso, feito em papel bem fininho, mais de trezentas páginas. Para localizar uma rua, primeiro a gente a procurava na lista no começo do guia, com letras desafiadoramente miúdas. Na frente do nome, o número da página onde ela figurava, e uma coordenada alfanumérica, por exemplo, B8. Então, era só ir à página procurar na coluna vertical a letra B e, na horizontal, o número 8. Pronto! Como um tiro do jogo Batalha Naval, lá estava, no quadrante indicado no mapa, o logradouro desejado. Eu brincava de procurar ruas, ainda que não precisasse da informação. Visitava, com especial dedicação, a página onde a minha casa ficava. E via, encantada, o mundo de ruas que havia em torno de mim. Computadores ainda não existiam. Uns heróis, aquele pessoal que trabalhava nas editoras.

Nosso guia, por certo, foi parar no lixo em um dia de arrumação. Mesmo destino das pesadas listas telefônicas, que a Telesp entregava aos assinantes de tempos em tempos, devidamente atualizadas. Tinha a comercial e a residencial. Chegamos a acumular várias edições na estante da sala. Eu até que achava bonito, exibir aquele inventário de gente e negócios tão organizadinho.

No trânsito encalacrado daquela manhã de outono, que no GPS do meu carro aparecia em um desanimador tom de vermelho-raiva, observei as vendas do ambulante engravatado. Apesar da coreografia do abre-e-fecha do mapa, ninguém se interessou. Afinal, para quê mapa, se nesta cidade a população parece estar condenada a um eterno engarrafamento?

Ensaiei abaixar o vidro e perguntar-lhe quantos mapas ele vende em um dia bom – o que significa ruim para o motorista. Procuraria, também, saber o perfil do comprador. Novo? Velho? Homem ou mulher? Talvez, até comprasse um para mostrar aos meus filhos. Mas não deu. O sinal abriu, o ônibus atrás de mim buzinou e eu segui pela Avenida do Estado. Que eu não sei em qual página e coordenada alfanumérica figuraria, em nosso velho guia de papel.

Mocinha

Não gostava quando diziam: “Fulana ficou mocinha”. Ainda não gosto, embora compreenda. Tem palavra mais horrorosa que menstruada? Só genuflexório. Ou locupletar.
 
Também não entendia por que diabos as amigas falavam num tal de Chico para se referir à menstruação. Ainda se fosse Chica. Recusava-me a usar a expressão, antes mesmo de saber o significado.
 

Como eu ouvia as moças conversando sobre absorventes e quetais, ficava ansiosa para que chegasse minha vez. Um dia – já contei essa história – , eu era bem pequena e resolvi colocar um Modess da minha mãe. Os absorventes não eram como os de hoje, ultrafinos, diversos tamanhos, com abas, sem abas, com perfume, sem perfume. Coloquei calça comprida e fui dar um rolê. Voltei rapidinho. Senti-me usando fralda. Joguei no lixo e filosofei: eu era sortuda por não ter que usar aquilo.

Então, chegou o dia de usar aquilo.

Assim que menstruei, minha mãe tratou de me levar ao Dr. Fuad. Era o médico da família, e não ginecologista. Tinha rosto quadrado e implante nos cabelos, o que lhe dava ares de Frankenstein. Gente boa. Lembro de ele ter dito, polidamente, que precisava examinar minhas “partes baixas”. Melhor do que dizer que examinaria minhas “vergonhas”. Muita gente falava (fala) assim. Não à toa que o mundo, para as mulheres, é o que é.

Eu tinha doze anos e, sem saber que estava diante de inevitável suplício hematológico, cheguei a comemorar. Tolinha. Os tempos que se seguiram foram memoráveis. O que não quer dizer que foram bons.

Não sabia, por exemplo, calcular direito a hora de trocar o absorvente. E, para piorar, aquele período era como um rio que passava em minha vida, mensalmente.

Certa vez, na escola, senti que algo saíra do controle. Sem coragem de pedir ajuda à professora de Ciências, ou licença para ir ao banheiro, tentei permanecer imóvel na carteira. A cada movimento, uma respirada mais profunda que fosse, o estrago ficava maior. Era a última aula. Rezei para que a professora não me chamasse à lousa, e Deus, compadecido de minha miséria, atendeu. Enquanto ela discorria sobre os estados da matéria (o líquido eu já sentia, na pele), tive a brilhante ideia de me sentar sobre uma de minhas pernas, para que o fundo da calça não tocasse a cadeira, que era verde-água. Naquele dia, eu usava um mocassim de couro da minha irmã, bem clarinho, pelo qual ela tinha certo xodó. Não sei se o fiz à época, mas revelo agora a razão daquela mancha escura em um deles, que jamais saiu, nem com água oxigenada. Quando o sinal bateu, levantei-me e estiquei, com a força do pensamento, o comprimento do avental branco que usávamos por cima da roupa. Desci a rua de casa correndo, me sentindo o próprio Mar Vermelho.

Eu andava de ônibus para cima e para baixo, em São Paulo. O que, naqueles dias, se transformava em experiências pra lá de constrangedoras. Quando me levantava do banco e dava sinal ao motorista de que eu desceria no próximo ponto, eu tinha cer-te-za de que uma imensa e colorida mancha decorava meus fundilhos, e que todos os passageiros olhavam para mim e cochichavam entre si, caçoando ou com dó da garota com absorvente vencido. Suava frio, sentia o rosto queimar, queria desaparecer. Depois, quase sempre, via que havia sofrido em vão e tudo estava sob controle. Sem controle era minha imaginação. E minha insegurança.

Em compensação à minha inabilidade para, na prática, lidar com a natureza, na família não rolava obscurantismo. Nunca me proibiram de lavar os cabelos, andar descalça ou outras crendices, enquanto estivesse menstruada. Algumas amigas não tinham a mesma sorte.

Aquela “mocinha” dos anos 70 se transformou em senhora. E hoje me pego novamente ansiosa, mas por outro marco biológico: a menopausa. Que, ainda bem, é uma palavra mais bonitinha.

Farofa

Se o tempo amanhecesse bom no domingo, meu pai anunciava: “Vamos!”.

Pega a esteira, o chapéu, não esquece o bronzeador Bozzano, “Mãe, já vou com o biquíni por baixo?”, as toalhas, os sanduíches, o refrigerante, o guarda-sol, a prancha – de madeira, não existia de isopor.

Fusca cheio, vambora. O programa: farofar em Santos. Meu pai no volante, minha mãe ao lado, eu e meus irmãos atrás. Todos sem cinto de segurança. Deus existe, meu bem.

O Google diz que da Mooca até o litoral são setenta quilômetros. Bom para um bate-e-volta. Como não existia GPS na década de 70, eu perguntava de quinze em quinze minutos se a gente já estava chegando. Era minha maneira de calcular o tempo e a distância da viagem.

No caminho pela Estrada Velha de Santos ou Via Anchieta tinha Cubatão. Ouvia tanta história sobre a cidade, as chaminés das indústrias lançando fumaça preta no ar, dia e noite, crianças nascendo sem cérebro, que esse nome – Cubatão – já havia, para mim, virado metonímia para poluição. Lembro-me também de achar graça no nome de uma rodovia ali perto, a Pedro Taques, que eu pensava ser Pedro Táxi. Por certo, deveria ser um taxista muito famoso.

Ao mesmo tempo que eu amava passar o dia na praia, comendo salgadinho, brincando com meu baldinho e fazendo castelos na areia, eu também sofria. Pois nos dias seguintes o sol mandava sua fatura. Vermelha como o gorro do Papai Noel, logo eu me encheria de bolhas doloridíssimas. Minha mãe tinha lá suas panaceias para essas horas e, quando a dor passava, eu gostava quando ela – que nenhum pediatra me ouça – as furava com agulha de costura e linha. Era meio nojento quando vazavam. Depois vinha a fase de descascar; uma coceira dos diabos, mas a despelação era divertida. Não existia protetor solar naquela época, só bronzeador – um veneno para minha tez de Branca de Neve. Fui uma criança sardenta, não por acaso.

Certa vez, meu pai estacionou em uma rua próximo à orla. Passamos a manhã na praia e, na hora do almoço, voltamos ao carro. Surpresa: o Fusca havia sido arrombado. Lembro-me da expressão preocupada dos meus pais, contando os trocados que haviam sobrado, n’algum cantinho que passara despercebido pelo ladrão. O frango assado estava garantido.

Então, num belo dia, meus pais compraram a venda. Como o batente era de segunda a segunda, foi o fim dos passeios a Santos.

Tanta coisa mudou. O advento do protetor solar com fator 50 cancelou, definitivamente, as queimaduras e as bolhas. Não moro mais a setenta quilômetros da praia, não entro num Fusca há décadas (suspiro). Na Estrada Velha, agora, só gente e bicicleta. Cubatão, vejam só, deixou para trás o estigma de “Vale da Morte”. O sanduíche da minha mãe é só saudade. Meus filhos não sabem o que é andar de carro sem cinto de segurança, mal conhecem Santos, tampouco o prazer de uma legítima farofagem. E, apesar da minha pouca disposição atual para a dupla mar & areia, minhas lembranças daquele tempo continuam ensolaradas. Arrisco dizer que foram as farofas mais bem temperadas da minha vida.

Caneta

A professora Genoveva Lé anunciou: “Hoje vocês vão usar caneta para fazer a lição.” Terceiro ano do primário, só dava lápis nos livros e cadernos. A caneta, portanto, representava um upgrade na minha vida escolar.

Fiquei secretamente eufórica. Estava, oficialmente, autorizada a usar a ferramenta de escrita dos adultos – como se meus rabiscos à caneta, em casa, não contassem. Olhei ao redor, os colegas também se sentiam assim? Não importava. Então pronto, eu já era grande. Isso bastava. Quando bateu o sinal da saída e eu cruzei o portão, devo ter descido a rua com expressão igual à da garota do comercial do primeiro sutiã.

A primeira lição à caneta é uma espécie de primeiro sutiã.

Sobre a máquina de costura da minha mãe, onde eu fazia o dever de casa (uma Singer com gabinete, quando fechava virava uma mesa), ajeitei caderno, livro, lápis e borracha para apoio moral, e a Bic azul. E se eu errasse?

O lápis era o cara legal, condescendente com meus erros. A caneta bancava a impiedosa. Com ela, sem o recurso do “branquinho”, que também estava proibido, era como gravar na pedra. Manejá-la demandava certeza. E alguma autoconfiança.

A professora ensinara a fazer tracinhos verticais, paralelos e levemente inclinados sobre a palavra errada, escrevendo a certa em seguida. O que era desvantajoso, pois revelava o erro. Se escrevesse ‘giboia’, ou confundisse um tempo verbal, ela ficaria sabendo. Para disfarçar, o jeito era encher de tracinhos, até que o erro se tornasse ilegível. Quem preferisse, poderia fazer a lição a lápis, e depois passar a caneta por cima. O que levava duas vezes mais tempo e não me parecia um bom negócio.

Nos dias seguintes, quando havia ditado ou problemas de matemática, a turma, na dúvida, perguntava com qual, lápis ou caneta, era para fazer. Crescer, às vezes, carece de confirmação.

Logo depois, fomos liberados para usar as borrachas bicolores, que prometiam resolver o problema das palavras riscadas, enfeiando a lição. A parte vermelha apagava lápis, e a azul, tinta esferográfica. Foi minha primeira decepção como consumidora. Além de não apagar direito, borrava o papel e, às vezes, o rasgava. Mas o importante é que eu havia sido promovida na hierarquia estudantil, deixando para trás o universo das criancinhas dos primeiro e segundo ano. Eu já tinha nove anos, oras.

Depois da caneta azul, pudemos introduzir a verde e a preta. Vermelha não, que essa era reservada à professora. Uma paleta bastante restrita, comparada ao arco-íris infinito das Stabilos de agora.

Hoje, quando digito no smartphone ou no notebook, é como se eu escrevesse a lápis o tempo todo. Escrevo, apago, reescrevo. Tenho à disposição uma borracha mágica, invisível e eficaz, que nunca acaba. E o melhor: não deixo rastro. Isso quando não sou corrigida automaticamente – o que pode ser tanto o céu como o inferno, mas essa é outra história.

Tecnologias à parte, a verdade é que as canetas seguirão registrando o mundo. E sempre haverá uma garotinha secretamente eufórica usando uma pela primeira vez.

Mãos ao alto

Como havia vinte e cinco anos que eu não era assaltada, a vida achou que estava na hora de quebrar esse jejum.

Estacionei na rua, para quê pagar estacionamento, não é mesmo?, fui fazer o que eu tinha que fazer, voltei, abri a porta do carro, entrei, ajeitei a bolsa no banco, afivelei o cinto de segurança, apanhei o celular, conectei-o ao carregador, estava mais tranquila que um buda em feriado prolongado, o homem encostou o carão na janela do passageiro, por um segundo achei que fosse pedir informação, ele abriu facilmente a porta, entrou, sentou-se ao meu lado, praticamente sobre minha bolsa, que, aliás, é nova, mandou eu ficar quietinha e não fazer nada, que era para passar o celular, obedeci direitinho, que eu não sou besta de reagir, entreguei meu aparelho com mil e quinhentas fotografias que não estavam salvas na nuvem, dos últimos aniversários dos meninos, das viagens, dos gatos, então ele quis dinheiro, eu pedi licença para pegar a bolsa sob seu bumbum, abri a carteira, tinha quarenta contos, ele reclamou, “Só isso?”, pensei, “É agora que morro e vão rir da minha calcinha de bolinhas no IML”, que ousadia, a minha, andar com essa miséria!, mas ele foi bacana, Síndrome de Estocolmo, versão campineira, catou meus trocados, guardou o celular no bolso da calça, confesso que não sei se ele estava armado; eu que não ia perguntar, o homem desceu do carro, e antes de fechar a porta e ir embora tranquilamente, ainda ordenou que eu continuasse quietinha, claro, sim, senhor.

Quando pequena, eu desenhava bastante. Um dia, não sei por que cargas d’água resolvi desenhar uma cena de assalto. Nela, um homem empunhava sua arma, anunciando o assalto à vítima. No balãozinho, escrevi com letra caprichada a fala do meliante: “Monzoalto!”. Para mim, pequena alfabetizanda atenta à oralidade, era assim que se escrevia “Mãos ao alto”. Acho até que escrevi com S, o que, nesse caso, seria completamente incorreto, todo mundo sabe que seria com Z.

Naquela tarde ensolarada de segunda-feira, o homem não disse “Mãos ao alto”, tampouco “Monzoalto”. Não se usa mais. Agora é o rude “Fica quieto(a) e não faz nada” ou o vago “Perdeu, perdeu!”. Considero “Mãos ao alto”, no entanto, bem mais elegante e educado.

Voltei para casa, fiz B.O. pela internet, chorei, passou. Dias depois, celular novo, contatos restaurados, dados recuperados, inclusive algumas fotografias. Já o meu desenho de criança… ah, esse está arquivado, permanentemente, na memória. Que é minha grande nuvem particular. Essa, meu chapa, ninguém tasca.

Vergonha e orgulho

Cerimônia de formatura do ginásio, a 8ª A se despediria da escola. Paróquia São Pedro Apóstolo, na Mooca, 1981. Avisei meus pais, “Vai ser tal dia, tal hora”. Eu sabia que dificilmente eles compareceriam.

Por muito tempo, meus pais tiveram uma venda. Eu tinha seis anos quando eles compraram o ponto. Com a caçula na escola, ficaria mais fácil tocar o negócio. E meus avós tomariam conta dos três netos.

A rotina no pequeno armazém de secos e molhados era puxada. Segunda a segunda, sem direito a férias. O expediente começava antes de o sol raiar, quando inventaram de vender pão e leite fresco, e se estendia até a noite, com a homarada entornando seus cinzanos no balcão. Treze horas por dia pesando arroz e feijão para as donas de casa do bairro, fatiando queijo e presunto, moendo um quarto de café, contando dois cruzeiros de bala Juquinha para freguês-mirim que chegava cheio de moedinhas.

No dia da cerimônia, arrumei-me e fui. Espalhados nos compridos bancos de madeira, os fiéis pais, mães e parentes dos meus colegas de classe. Eu já estava razoavelmente acostumada a não ter meus pais nos eventos escolares, por causa dos horários da venda. Nas reuniões com os professores, meus irmãos faziam as vezes de responsáveis. Eles, que também eram tão novos.

Foi quando, perto do fim da cerimônia, avistei Seu Tonico e Dona Angelina atrás de um dos pilares, espichando o olhar para me localizar em meio aos colegas organizados em frente ao altar, para as últimas palavras do padre. Se conseguiram me ver, não sei. Mas eu os vi bem.

Em nada se pareciam com os demais presentes, tão arrumados. As mães com vestidos bonitos, penteados, unhas feitas, brincos, colares. Os pais de camisa passada, sapatos engraxados.

Sem tempo de passar em casa antes, os dois foram do jeito que estavam: com as roupas do batente e vestidos do cansaço de quem estava em pé desde as seis da matina, pesando cebolas e servindo pinga.

Ainda que eu tenha ficado contente ao vê-los – fecharam a venda mais cedo! –, senti-me encolher feito a Alice, depois de beber do vidro sobre a mesa, no país das maravilhas. Desejei sumir, me enfiar no confessionário. Precisava admitir a quem ali dentro estivesse (ou a ninguém, melhor ainda) que senti, sim, um fio de vergonha.

De quantos quilos de batata era feito meu vestido branco? Quantas doses de conhaque pagaram meus sapatos novos? Quanto pesariam, na velha balança Filizola vermelha, os livros e cadernos que me levaram até ali?

Quando a cerimônia terminou, fui ao encontro deles. Meu coração fatiado feito presunto. Ao abraçá-los, pude sentir o indelével cheiro do pó de café, invadindo a casa de Deus. Agora, todos os fiados do mundo cabiam no sorriso deles quando mostrei o canudo vermelho.

Então a vergonha, talvez por obra dos santos de plantão, transmutou-se em orgulho. “Pai e mãe, ouro de mina”, alguém já disse. E contar esta história hoje quita, de certa forma, a antiga pendência com o confessionário.

Formatura Sil Gallicho 8a A 1981 com Rosemeire de Lucca e Simone Cristina Augusto Rosa
eu (direita), arquivo pessoal

Mãos cruzadas

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arte: Kenyon Cox

Se me deito de costas e, instintivamente, cruzo as mãos sobre o peito, trato rapidinho de mudar. Que essa é, sempre foi e será posição de quem partiu desta para melhor, esticou as canelas, bateu as botas.

O manual dos bons modos dos mortos – que só é lido pelos vivos – diz que defunto que se preze deve permanecer assim em seu derradeiro leito. Quem será que inventou isso?

Só sei que disfarço, desentrelaço os dedos, ponho a mão no travesseiro, me viro de lado. Qualquer coisa que desfaça em mim a pose mortis. Vai que Dona Morte está pelo bairro, resolve aparecer e não confere direito. É risco que não se pode correr.

Quando criança eu ia (obrigada) aos velórios dos parentes, e ao me despedir deles no caixão (de novo, obrigada) meu olhar se demorava nos dedos entrelaçados sob o véu, num tom funesto de azul-frio com cinza-pedra. Minha avó. Meu avô. Minha bisavó (queriam que eu a beijasse; fugi). Que coisa, de minha mãe não me lembro. Não me lembro, aliás, de nada dela no dia em que foi cremada. Apenas que eu vestia, e isso me recordo bem, um macacão de popeline lilás costurado por mim, sob suas doces e pacientes instruções.

Até hoje, não gosto de ver ninguém dormindo, nem cochilando, de barriga para cima e mãos cruzadas no peito. Como se essa postura não pudesse pertencer ao mundo dos vivos. E justo essa posição vem ser das mais confortáveis. Quando o corpo repousa plenamente na horizontal, cabeça e mente alinhadas. Cotovelos apoiados, uma mão abraça a outra, quase em prece. (Será por isso?)

Se vou dar beijo de boa noite nos meus filhos e, por acaso, estão assim… Não chego a tentar mudar; vão perguntar o porquê. E não quero perpetuar a crendice. Resignada, sigo para minha cama, repetindo: “Deixa de ser besta, Silmara”.

Porque eu sou mesmo muito besta. Paciência.

A rua

“Street”, Lea Vervoort

As casas perfeitas eram sempre de frente para a rua. Onde, da calçada, já se entrava na garagem, e da garagem, na sala. Nessa sala, idealmente, a janela tomava a parede frontal toda, nada de janelica. E dela se podia ver o movimento lá fora: quem vinha pela calçada, quem passava de moto, de carro, os vendedores de tudo, os ônibus, os vizinhos. Glória, então, se fosse sobrado: além da escada, que eu considerava chique, o quarto da frente, sobre a sala, virava camarote.

Não fui criança de desejar viver em mansões, palacetes, nada disso. Modesta, bastava-me um sobrado geminado de frente para a rua – típico da Mooca, meu universo natal e então única referência arquitetônica – e eu estaria realizada.

Quis o destino, esse fanfarrão de marca maior, que eu fosse viver em uma pequena vila, de onde não se via absolutamente nada da rua, nem uma nesga de calçada. Ainda se fosse a casa 4, da Dona Antonia, que era a última e única alinhada ao corredor de entrada da vila. Mas não: a vida colocou-me justo na casa 1, a do canto, a mais distante de tudo e de todos. Quando o moço do biju passava com sua matraca, teleq-teleq-teleq, era preciso sair correndo para alcançá-lo já quase na esquina, pois nem sempre ele adentrava a vila para oferecer seu quitute. Quem morava de frente para a rua não passava esse apuro.

Suspirava quando ia à casa das amigas. Em frente às suas salas, seus quartos, suas garagens, se dava a adorável e mágica dinâmica da rua. Como elas deviam ser felizes! Era como pertencer à grande festa cotidiana, fazer parte do filme urbano, viver, enfim. Na vila, eu me sentia fora do cenário, do enredo, do baile.

Não que detestasse a vida na vila; ela acabava sendo uma extensão do nosso diminuto quintal, onde se podia brincar à vontade, andar de bicicleta e skate, sentar no chão e ficar conversando até tardão.

O problema surgiu à medida em que a adolescência chegava. A rua era o cosmos onde circulavam os amigos, os inimigos, os paqueras. E, da janela da nossa sala, eu não avistava nada, além do tanque onde meus avós lavavam roupa. Do quarto dos meus pais, que dava para a vila, só os fundos das casas da frente. E alguns telhados do quarteirão, com eventuais gatos zanzando. Pouco, para minha sede juvenil de acontecimentos (e pertencimento).

Movida pela quimera da moradia ideal, punha-me a desenhar, obsessivamente, casas imaginárias sob medida para a minha felicidade. Caprichava na planta, me dedicava às fachadas. Talvez tenha escolhido Técnico em Edificações no segundo grau por conta disso. Ainda bem que a opção mostrou-se, a tempo, puro delírio.

Mudei-me da vila já adulta. Outros lares vieram, e a vista para a rua nunca mais foi requisito. Os sonhos envelhecem.

Há anos moro em um condomínio horizontal, que nada mais é que uma vila grande. Retornei às origens, por deliberada vontade. Nossa casa é uma das últimas, escolhida a dedo. Quanto mais longe da rua, dos barulhos, dos ônibus, das fumaças, das buzinas, das motos, dos escapamentos adulterados, melhor. Não que tenha deixado de gostar da rua; agora, eu decido quando quero vê-la. Passei a apreciar, sem sofrimento algum, o silêncio e o sossego. A melhor coisa de se ver ao acordar, descobri, não é a rua. É um bem-te-vi carregando um galhinho no bico.

Sinto falta, porém, do moço do biju. Em compensação, tem o sorveteiro. Aos sábados, ele passa na rua de trás, anunciando no alto-falante sabores de creme e de frutas. Que eu nunca comprei.

Ailili-ailou

Minha mãe adorava a canção “Hi-Lili, Hi-Lo”. Aquela, do filme. Cantarolava do seu jeito, ailili, ailili, ailou. Não sei se ela assistiu ao clássico de 1953, nem se compreendia a letra. A melodia a encantava, e isso bastava.

Dona Angelina nasceu nos anos 30. Sua playlist era feita, basicamente, de composições suaves, ternas, doces. Como ela. Quando, na vitrola, a agulha acordava um Led Zeppelin nervoso, sacudindo a pequena vila em que morávamos, invariavelmente ela ironizava: “Isso é música?”.

Mais ou menos o que eu disse à Nina, sua neta, quando me apareceu cantando um tal MC Kevinho. “Ai, mãe. Você não sabe de nada. Só ouve música velha”. O que não é totalmente inverdade, mas argumentar com adolescente, às vezes, é monologar em um deserto.

Nos anos 70, quando estreou a novela Estúpido Cupido, reproduzindo os anos 60, eu quis, fervorosamente, o LP com a trilha sonora. Velhas canções, tão novas para mim. Lembro-me do dia em que, finalmente, meus pais chegaram em casa com ele. (Ou será que nesse dia ganhamos só o compacto, com a canção-título e “Banho de Lua” no lado B? Minha memória é meio riscada.) Desta vez, consenso na vitrola: ao reviver seus dias de glória, aquela trilha foi capaz de unir duas gerações.

O que a avó de minha filha ouviria hoje? Que toadas a embalariam? Talvez, ela ainda pedisse para tocar – não mais na fita K7, mas no Spotify – uma de suas preferidas: “Valsa para uma menininha”, de Toquinho e Vinicius:

Menininha do meu coração

Eu só quero você

A três palmos do chão

Essa eu cantei tanto para a Nina, quando era bebê. Primeiro, porque também gosto. Segundo, era um jeito de reinventar a presença da minha mãe; ela não conheceu nenhum neto. Por fim, eu queria acostumar seus miniouvidos à boa música. Porém, ao contrário dos versos, nunca desejei congelar em três palmos a menininha do meu coração. Quero-a gigante, do tamanho do mundo. Como a mãe de sua mãe também gostaria. E como tem sido.

Mas poxa vida. MC Kevinho?

As piscinas

Dos meus sonhos de adolescente, ser sócia do Juventus foi dos mais acalentados. Afinal, todas as minhas amigas eram. A Mooca inteira, aliás, era sócia do clube. Menos a gente.

A carteirinha de sócio representava uma espécie de credencial para o olimpo mooquense. Passaporte para o paraíso. Pura ostentação. Imaginava-me passando com ela pelas catracas, desfrutando aquelas piscinas imensas com um milhão de amigos nos finais de semana, voltando para casa só à tarde, bronzeadíssima. Coisa de rico.

Porém, a realidade era outra. Segunda-feira, na escola, os que haviam se encontrado por lá engatavam conversas acerca dos babados piscínicos, dos quais eu não participara. “Te vi no Juventus!” era a senha para que eu me sentisse aquaticamente excluída.

O Atlético Juventus é o clube de futebol queridão da Mooca. Nunca dei bola para jogo; em esportes, pratico o ateísmo. Jamais pisei no antológico estádio da rua Javari – mas já provei o igualmente memorável cannoli do Seu Antonio, o que me livra da fogueira da inquisição. Só as piscinas (na sede social, em outro endereço do bairro) me interessavam. A felicidade, meu bem, era líquida e cheirava a cloro.

O título custava uma fortuna. Mensalidade, idem. Eu nem pedia aos meus pais, sabedora da resposta. Secretamente, afogava minhas tristezas no chuveiro e tratava de fazer outra coisa nos sábados, domingos e feriados.

Apesar disso, frequentei o clube, nos eventos abertos ao público. Fui das matinês de Carnaval regadas a lança-perfume aos shows do Roupa Nova e Fábio Jr., quando este era um jovem galã. Não que fosse fã. Mas o que a gente não faz para pertencer ao bando? As piscinas, no entanto, continuavam proibidíssimas para não-sócios. Não eram para o meu bico.

Eis que cresço e viro adulta. Minha irmã, mais velha que eu, decidiu que o Juventus agora cabia no orçamento. Ela, que também viveu a angústia de ter cem por cento dos amigos donos da carteirinha encantada. Lá fomos nós, finalmente, debutar nas piscinas.

Como nativa do bairro, vos digo: meu, que chatice!

Deus ajuda quem cedo madruga, e isso vale para as piscinas dos clubes. Quem chegava depois das dez – como nós – tinha que se contentar em torrar nas arquibancadas perto da piscina olímpica, muito mais quentes e disputadas a tapa com outros banhistas. Além disso, nem sombra dos amigos do passado. Onde foram parar todos?

Aos poucos, deixei de frequentar. Sonho vivido com atraso, às vezes, não tem mais efeito. Meu clube hoje é a rua.

Eis que cresço um pouco mais. Nossa caçula vive pedindo para ficarmos sócios de algum clube. Ela tem a idade que eu tinha, quando desejava a mesma coisa. Costumo enrolar, tenho preguiça, invento falta de tempo, deixo escapar o desinteresse.

Sei que não é justo agir assim. Ou tomo uma atitude ou, se a história se repete, já sei a primeira coisa que ela fará quando crescer.

Chico Churrasco

Senhoras e senhores, esta é a história do Chico Churrasco. Que pode ser uma história sobre gratidão. Ou só mais uma história de gato, mesmo.

Era comum termos muitos gatos em casa. Um é pouco, dois também. A gente ia logo tendo seis, sete. Tudo deve ter começado com minha mãe. Diz que Dona Angelina, gateira que só, viu um garoto na rua com uma gatinha branca, muito bonita. Ofereceu-lhe figurinhas em troca da bichana. O menino topou e Branquinha, um olho azul e outro verde, viveu feliz conosco por anos. Desde então, nunca mais fomos uma família “desgatada”. Sempre aparecia alguém doando gatinho – quem resistia? A maioria, no entanto, vinha (ainda vem) da rua. Andarilhos abandonados e resgatados em geral. Uns na iminência de atropelamento, outros retirados do motor de carro, e assim por diante.

Certa vez, apareceu em nosso telhado um gatinho preto, bastante machucado. Mancava e miava, como se pedisse ajuda. Uma das patas dianteiras tinha um grave ferimento, em carne viva. Seu pelo parecia chamuscado. Concluímos que alguém havia ateado fogo nele. Por maldade ou ignorância, ou as duas coisas juntas. Ainda mais preto. Batizamos na hora: Chico. Chico Churrasco.

O problema: já tínhamos muitos gatos “próprios”. Decidimos cuidar dele no próprio telhado. A escadinha que levava à casa de meus avós, nos fundos, também dava acesso fácil ao telhado. Era só por o pé perto do vitrô da cozinha, apoiar as mãos nas paredes, dar impulso e zás! Eu gostava de subir no telhado, era um dos passatempos de criança sem internet, celular, TV a cabo, Netflix. Aprendera o jeito certo de pisar nas telhas, para não quebrar. De vez em quando, quebrava. Do telhado, novas paisagens do bairro, que as janelas não ofereciam. (Ali, eu também me arriscava em inúteis sessões de bronzeamento, mas essa é outra história.)

Providenciamos uma caixinha forrada para o Chico, em local protegido da chuva. Nem cachorro, nem gente ruim, o incomodariam. Eu e minha irmã nos revezávamos para levar comida e água. Os tempos eram de vacas magras e não tinha como ficar levando bicho em veterinário. Remédio, só caseiro. Éramos, muitas vezes, bem-sucedidos. Em outras, nem tanto. Shazan que o diga. Nosso pequinês, que ganhara o nome em homenagem ao seriado Shazan, Xerife & Cia, teve sarna. Alguém disse que enxofre era bom. Então, dá-lhe banho de enxofre. Além de não curá-lo, o pobrezinho vivia com um esquisito tom amarelo-esverdeado. Se os cães merecem o céu, Shazan certamente ganhou uma confortável almofada bem ao lado da poltrona de Deus.

No início, Chico mal saía de sua caixinha. No entanto, erguia a cabecinha e miava de satisfação, quando aparecíamos.

Valendo-se do adiantamento das sete vidas que lhe foram concedidas, milagrosamente, ele foi se recuperando. Comida, amor e tempo foram seu tratamento. Cheguei a pensar que ele perderia a pata. Nada. Ficou manco, é verdade. E gato liga pra isso?

Curado, Chico ganhou o mundo novamente. Mas vinha sempre nos visitar. Para dar um alô, filar a boia e ganhar afagos. Entendia que não poderia ficar de vez, para dormir na nossa cama, ver TV na sala com a gente. Talvez nem quisesse. Como diz a canção: gatos já nascem pobres, porém, livres.

Após um longo intervalo sem aparecer, eis que Chico Churrasco surge no telhado. Desta vez, não estava só. Ao seu lado, uma gata e dois (ou três?) filhotes. Conclusão: ele viera nos apresentar sua família. Deve ter-lhes dito: “Vamos lá na vila, quero que vocês conheçam uns humanos bacanas.”

Depois dessa visita, não lembro de tê-los visto mais.

E assim termina a história do Chico Churrasco, um gato grato. Porque a maldade não tem fim. Ainda bem que o amor também não.

A tônica do Tonico

agua tonica

Em nove, de dez vezes que meu pai vai a um restaurante, ele pede água tônica. Limão espremido e gelo completam o ritual. Embora, ultimamente, venha deixando o gelo; reclama que tem lhe feito mal à garganta. O refrigerante, ao lado do molho de pimenta, é dos seus hábitos mais antigos. Seu nome bem que podia ser Tonico da Tônica.

A lata diz que é feita de quinino. Que diabos é quinino, menino?

With a little help from my friend Google, aprendo: é uma substância que se tira da casca da árvore cinchona, que nunca vi. Um pó branco, tecnicamente batizado de hidrocloreto de quinina. Como esse título não faria o menor sucesso, pelo contrário, resolveram chamá-la simplesmente de água tônica de quinino. Mais bonito e poético. Perguntar qual a sílaba tônica de tônica é mais ou menos como perguntar qual é o doce mais doce que o doce de batata doce.

Gramática e trocadilho à parte, a água tônica deve funcionar como uma espécie de tônico da longevidade. Seu Tonico acaba de completar oitenta e sete anos, nos trinques. Um dos médicos que o acompanha brinca que ele está tão bem, que podemos vendê-lo. Ele acha graça.

O garçom traz o pedido à mesa, meu pai faz uma piadinha qualquer. O garçom entra na onda (ou não), e todos riem (ou não). Ele quebra o lacre, plec, e a vira no copo. Do encontro do amargo da bebida com o azedo do limão dá-se a química da felicidade do meu pai, traduzida no primeiro gole e o quase onomatopeico “Aaah” de prazer.

Falando em química, na tabela periódica, oitenta e sete é o número atômico do Frâncio. O sobrenome do meu pai é Franco. Uma coincidência dessa, bicho.

O slogan impresso na latinha afirma: “o amargo transforma”. O quê em quê, nunca soube ao certo. Mas desconfio. Olho meu pai partindo o quiabo ao meio e juntando-o, metodicamente, ao arroz e feijão. O rosto enrugado de mundo, os cabelos branquinhos, a indefectível boina. Meu pai soube transformar sua vida. Viúvo aos cinquenta e cinco, era do tipo que não se servia sozinho à mesa – tarefa exclusiva de minha mãe. Quando ela se foi, inventou sua autonomia e entendeu-se com a solidão. Amargura? Se sentiu, metamorfoseou-a em poesias e músicas dedicadas à Dona Angelina. Apropriou-se da casa e suas domesticidades, aprendeu a cozinhar e a preparar suas gororobas. (Algumas tornaram-se lendárias: sua vitamina matinal, por exemplo, costumava levar leite, óleo, ovo, banana, mandioquinha, beterraba, vinho, Sonho de Valsa e o que mais estivesse dando sopa na pia, tudo no liquidificador. Praticamente um suco atômico.)

Com a poção acre-doce no copo, meu pai acessa a memória que lhe resta e se põe, com genuíno entusiasmo, a contar causos. Os mesmos de sempre, de novo e de novo. O pisão que levou da vaca Beleza, quando era criança. O orgulho dos dons oratórios e literários do meu avô. O primeiro emprego quando chegou a São Paulo, na fábrica de sapatos, aos dezesseis anos. O dia em que conheceu minha mãe, em pleno Finados. Sua saudade é líquida. Eu, que antes me chateava, aprendi a ouvi-los como se fosse a primeira vez.

Bendito quinino. Transformou até a mim.

O baleiro

baleiro

Da venda dos meus pais, não é da balança Filizola vermelha ou do cheiro do café moído na hora que eu mais me lembro. Nem da máquina de cortar frios que quase decepou meu dedo. É do baleiro.

Eu tinha seis anos quando meus pais resolveram empreender e compraram o ponto. Fiquei triste porque minha mãe não ficaria mais em casa o dia todo comigo, e sim pesando arroz, feijão e batata para a freguesia do bairro, com meu pai ao lado, servindo Velho Barreiro aos homens do pedaço. Em compensação, quando eu fosse na venda, poderia comer doces à vontade e, no meu entendimento, de graça.

Roda, roda,

Roda baleiro, atenção

Quando o baleiro parar

Ponha a mão

De vidro, três (ou dois?) andares, o baleiro estava sempre abastecido. Bala Juquinha, 7 Belo, bala de goma, delicados e caramelos, numa profusão de cores e sabores, tão ao alcance das minhas pequenas mãos. “Só mais uma, mãe”. Eu queria morar naquele baleiro.

Havia também uma vitrine de madeira com portinhas de correr, espécie de portal para outra dimensão, feita de glicose. Maria-mole, pé-de-moleque, doce de batata-doce, chiclete Ping Pong e suas tatuagens fajutas, chocolate de guarda-chuvinha, Dadinho, paçoca Amor. Eu não sabia por onde começar.

Pegue a bala mais gostosa do planeta

Não deixe que a sorte se intrometa

Por dezoito anos, o baleiro fez parte do negócio de secos e molhados da família. Girando feito planeta, ora num sentido, ora noutro. Mas o sentido não estava na boca? Já grande, suas balas não me encantavam mais. Continuavam, no entanto, fazendo a alegria das novas gerações de fregueses-mirins.

Quando meu pai se desfez da venda, anos depois de enviuvar e cansado de tocar o barco sozinho, alguém perguntou, E o baleiro?”. Ninguém quis. Uma velharia, candidata a estorvo.

Perguntei aos irmãos esta semana, “Que foi feito dele?”. Não se lembram. Eu deveria tê-lo guardado, nem que fosse no porão. O arrependimento tem gosto acre.

Vi um para vender, dia desses. Novinho em folha, réplica dos originais. Prestei atenção em suas tampas, tão perfeitas e lustrosas. Não havia nelas nenhum amassadinho, ou qualquer outra cicatriz deixada pelo uso. Que graça tem um baleiro sem história?

Queria tanto uma bala Juquinha agora.

A sesta do meu avô

gato na poltrona
arte: Angie Rozelaar

Todo dia ele fazia tudo sempre igual: almoçava, escovava os dentes, se ajeitava na poltrona da sala e tirava um cochilo. Sentado, sempre. Por meia hora, meu avô se desconectava deste mundo – em um tempo onde desconectar-se tinha outra acepção – e fazia seus minipasseios astrais. Fizesse chuva ou sol, a sesta era sagrada. A vida inteira, até Deus convocá-lo.

Mas sentado, vô? Que jeito de fazer sesta. Por que não se deitava na cama de uma vez, fechava as cortinas, afofava o travesseiro? Oras, porque o sono na horizontal é reservado à noite, depois de um dia cheio de afazeres. Ele nunca disse isso, mas eu sabia. Em sua filosofia, cochilar deitado seria outra coisa, completamente distinta. Cheiraria a vadiagem, palavra não encontrada no léxico do Seu Paschoal.

Semana passada, resolvi imitá-lo. Se o hábito o fez completar noventa e sete primaveras inteirão, e alguns anos antes de partir ele subia no telhado para fazer reparos com a desenvoltura de um garoto, por certo essa é a receita da longevidade. Após o almoço, levei os meninos à aula de inglês, voltei, escovei os dentes. Sentei-me na poltrona da sala, seguindo à risca o modo de fazer. Fechei os olhos. Pronto.

Meu avô tinha um despertador interno que não o deixava passar de trinta minutos. Eu não vim equipada com tão útil dispositivo. Levantei-me, apanhei o celular na mesa de jantar, configurei o alarme para o mesmo tempo. Voltei à posição inicial. “Pensando bem, é pouco. Dez minutos só para pegar no sono”. Ajustei para quarenta. Agora vai. A cabeça pendeu um pouco para a frente, segurei. Como relaxar assim? Reclinei a poltrona um tantinho só, descaracterizando levemente o ritual original. Lembrei-me que ele cruzava os braços, talvez isso proporcionasse alguma firmeza extra. Poltrona um tiquinho reclinada, braços cruzados, despertador ajustado, cerrei os olhos, vamos lá. Já havia perdido tempo. Paciência.

Morfeu enfim acenou-me, com uma piscadela safada. Mal retribuí o flerte, o celular tocou. Não era o alarme. Consultório da dentista, para confirmar horário. Meu avô, que só viu telefone em casa aos setenta e cinco anos, nunca fora interrompido em sua soneca por conta de uma ligação. Até porque, não ouviria. A surdez pode ser uma bênção.

Postura retomada, poltrona um tantinho reclinada, braços cruzados, pestanas grudadas. Àquela altura, me restavam parcos vinte minutos. Bufei feito Vô Paschoal quando o Palestra tomava gol. Mexi de novo na porcaria do alarme e espalhei-me no sofá, feito geleia no pão. Dormi divinamente até a hora de ir buscar os meninos no inglês, sepultando de vez a esperança de viver até os noventa e sete.

 

Museu

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Não me tornei museóloga por pouco.

Quando era criança, inventei de montar um museu. Com o tema para a curadoria da primeira exposição em mente, saí catando coisas – aparentemente aleatórias – pela casa. Uns chumaços de algodão, um pente velho, uma moldura de espelho, sem o espelho (daqueles cor de laranja, que vendiam nas feiras) e o que mais estivesse dando sopa.

Nossa casa na vila tinha um pequeno quintal na lateral. Quintal é sempre território de imaginar. Foi ali que instalei meu museu de coisas. Distribuí, com rigor técnico, as peças da exposição ao lado do tanque, na prateleira onde meu avô guardava a cândida e onde mais considerei adequado.

Cuidei, também, de garantir ao público as informações necessárias. Escrevi num papelzinho do que se tratava cada item do precioso acervo.

E, assim, fui identificando os objetos de altíssima relevância histórica e cultural para o país: “algodão do travesseiro de Pedro Álvares Cabral”, “pente de José Bonifácio”, “moldura do espelho da princesa Isabel”. Não lembro de todos os objetos do inventário imaginário. Só sei que deu uma curiosa exposição. Temporária, porém; no dia seguinte tudo teria que sair de lá, minha avó tinha que lavar roupa.

A única visitante foi minha irmã. Eu fui sua guia. Disse ela que estava tudo muito bonito. Nada como ter alguém para reconhecer nosso talento. Pena que não há, na família, um registro sequer. Tirar fotografia naquela época não era algo corriqueiro, como hoje. Só em eventos especiais. Tinha que ter a máquina fotográfica, filme (12, 24 ou 36 poses), dinheiro para mandar revelar e paciência de aguardar. Levava quase uma semana para voltarem do laboratório. E não dava para editar nada. Compartilhar com alguém, só entregando em mãos ou pelos Correios.

Quis o destino que, mais tarde, já na faculdade, meu primeiro emprego fosse em um… museu. Museu Paulista. Museu do Ipiranga, para os chegados. Eu era estagiária de comunicação visual. Fui alocada na sala da numismática, em uma das torres laterais (a direita, para quem olha o prédio de frente), e para chegar até ela era preciso – acredite se quiser – cruzar uma parte pelo telhado, já que não havia acesso direto por escada, nem elevador. Havia um caminhozinho partindo da torre central, devidamente protegido por uma pequena grade para que ninguém rolasse telhado abaixo. Só complicava em dia de chuva.

Primeiro job: uma exposição entitulada “Ser negro hoje”, comemorativa do centenário da abolição da escravatura nesta Pindorama. Era 1988 e eu tinha 21 anos. Ali, tudo novidade para mim: trabalhar, ter salário, o tema abordado em si. Em minha jovem vida, nunca havia parado para atinar, pra valer, sobre. Piada de preto era normal. Eu ria. Dei minha contribuição, desenhando em madeira, à mão livre, a silhueta de vários bonecos em tamanho natural, representando negros e brancos. O chefe ficou bem satisfeito.

Lembrei da minha pequena exposição no quintal. Se a filha de Dom Pedro II tivesse um espelho com moldura cor de laranja, que teria visto refletido nele no dia em que assinou a Lei Áurea?

Ainda bem que trago um museu de histórias, sons e imagens dentro da cabeça (levemente falho, às vezes). A vida tem essa mania de ligar tudo o tempo todo, por um fio compridíssimo e invisível chamado memória.

Melissices

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Todas as meninas tinham. Eu não. Acordava e ia dormir sonhando com o dia em que eu teria a minha. Custou, mas ganhei. E então fui para a escola, altiva e radiante, de Melissa nos pés.

Desfilei-as quanto pude, para que todos notassem a novidade. Passada a euforia, as sandálias de plástico transparente (“fumê” era o nome da cor) se tornaram fiéis companheiras. Em casa, na escola, nos passeios. Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Não me recordo direito que fim tiveram, se ficaram pequenas ou se arrebentaram. Eram de tiras, fechadas atrás e na frente.

Quando surgiu, no finalzinho dos anos 70, não havia esse mar de cores e modelos de hoje, loja própria, nada disso. Era um só, objeto de desejo de dez entre dez garotas. Somente há pouco descobri que se chama “aranha”. Talvez porque o desenho das tiras lembrasse um artrópode. Podia ser usada no inverno ou no verão, com ou sem meia; o chulé era o mesmo.

Melissa, ao lado das Havaianas, é patrimônio histórico e afetivo brasileiro. Calçada por mulheres de oito meses (agora tem para bebê) a oitenta anos. Homem também usa. Democráticas, transitam por todos os ambientes sem fazer feio. São cult e cheiram deliciosamente. Está certo que, se não são recicladas depois, é um problemão para o meio ambiente. Nada é perfeito.

Nina, a caçula, gosta de Melissa. Quando a gente passa em frente a uma loja, ela fica ouriçada. Também fico. Cada uma com suas motivações. Ela, talvez porque ache os modelos bonitos, simplesmente. A isso eu acrescento a indelével carga memorial. Ela gosta de cheirar suas Melissas. Eu também. Será genético?

Ontem eu estava de Melissa. Sapatilhas da edição especial d’O Pequeno Príncipe. Dei-me conta de que, desde a primeira, tive tantas ao longo das últimas quatro décadas! Com salto, sem salto, aberta, fechada, de amarrar, de abotoar. Até tênis. Uma vez, quase comprei um par de botas, de cano longo. Desisti quando imaginei o suadouro a que me submeteria, mesmo em dias invernais. Fora o peso extra nos pés – embora Melissa valha quanto pese. Se tudo der certo, serei dessas vovozinhas sacudidas, de bengala e Melissa, dirigindo um Fusca.

Melissa e eu crescemos juntas. É parte da minha biografia. Sou, seguramente, uma das clientes mais antigas. Ah, se essa fidelidade fosse premiada. A relação é tal, que usá-la hoje causa em mim praticamente as mesmas reações de quase quarenta anos atrás, como sair da loja com aquele sorrisinho bobo. Ela ainda me dá prazer, alegria e satisfação. Chulé também.

Se, como diz a canção, as flores de plástico não morrem, as lembranças feitas dele também não.

Lactobacilos

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Arte: Peter Chan

A mulher do Yakult passava toda semana. Entrava na vila empurrando seu carrinho refrigerado e tocava a campainha nas quatro casas. Não vendiam a bebida nos supermercados, ainda. Só de porta em porta. Da janela do quarto da frente eu via, não sem algum desapontamento, minha avó no portão: “Hoje não!”.

Era raro termos Yakult em casa. Para ter o resultado prometido – intestino nos trinques – diziam que tinha que tomar um por dia. Éramos em três, ficaria caro pra chuchu. Mas eu adorava aquele leite fermentado geladinho, meio doce, meio azedo, que deixava a língua da gente nojentamente esbranquiçada. Lia no frasco: lactobacilos vivos. Viajava na ideia de estar tomando um troço cheio de bichinhos se mexendo lá dentro.

Só crianças ricas tomavam Yakult todo dia, eu pensava. Felizes das casas onde a vendedora era recebida com “Hoje sim!”.

A garrafinha era (ainda é) tão pequena. Nunca entendi o motivo. Por que não faziam maiores, do tamanho do guaraná? Diziam que soltava o intestino, se a gente tomasse muito de uma vez. Lorota, descobri anos depois.

Um dia, abri a geladeira e lá estavam eles. Uns cinco! É que, com o tempo, a invenção do senhor Minoru Shirota foi ficando relativamente barata e a gente já podia tê-la com alguma frequência. Não tive dúvida: tomei todos de uma vez. O que era para ser dividido entre eu e meus irmãos, foi devorado em minutos. Oh néctar dos deuses!

Não tardou, fui descoberta. Neguei o quanto pude – ainda nego, aliás. Mas a verdade é que não houve efeito colateral. Não passei mal. Aquela história de piriri era pura fake news.

Quando a Nina e o Luca eram menores, eu costumava comprar Yakult. Não das folclóricas vendedoras ambulantes, que nunca mais vi pelas ruas. Eles gostavam quando eu furava a tampinha, fazendo uma espécie de chuveirinho. Depois, enjoaram e não comprei mais. Não tem muito tempo, Nina lembrou e pediu para trazer. Hoje outras marcas fazem o probiótico. Nem cogitei trazer o do concorrente, fidelidade afetiva é coisa séria. Passei pela gôndola repleta e apanhei o kit com seis, reeditando o “Hoje sim!”. Cheguei em casa, retirei o plástico, lavei as garrafinhas, arranjei-as caprichosamente na porta da geladeira. Por um segundo, encantei-me com a visão, exatamente como no dia em que cometi o crime lácteo. Eram os bichinhos das minhas lembranças, vivíssimos da silva.

Memórias de uma ditadura militar

bandeira brasil pb

As praias do Brasil ensolaradas

Lá lá lá lá

O chão onde o país se elevou

Lá lá lá lá

A mão de Deus abençoou

Mulher que nasce aqui

Tem muito mais amor

Eu botava o disco na vitrola e ia para o quintal, brincar no balanço. Um compacto com “Eu te amo, meu Brasil”, d’Os Incríveis. Decorei a letra e cantava bem alto, enquanto ganhava impulso no balanço e via, atrás de mim, o quintal de ponta-cabeça. Era começo dos anos 70, Brasil tricampeão.

Pouco depois, em 1973, entrei na escola. Uma vez por semana cantávamos o Hino Nacional e hasteávamos a bandeira. Nada contra o Joaquim Osório ou o Francisco Manuel, tampouco contra o símbolo augusto da paz. É que eu preferia ir brincar no pátio com meus amigos. Achava normais, porém, os rituais cívicos. Assim como soavam normalíssimos os versos ufanistas de Dom e Ravel na canção.

Já no ginásio, aula de Educação Moral e Cívica. Muitos tinham medo do Professor Vadim. Eu tinha. Ele era baixo e andava com dificuldade, tinha uma perna mais curta que a outra e usava um calçado estranho. Não era por isso que eu o temia. Austero, não me lembro de um sorriso seu. Mas lembro do livro que copiávamos no caderno com letra bonita, fruto das aulas de caligrafia, lições sobre amor à pátria e de como deve funcionar um país. E, nas entrelinhas que eu ainda não podia ler, o que um brasileiro de bem não devia fazer, dizer ou pensar. Achava normal ter aulas de Educação Moral e Cívica. Assim como hastear bandeira fazendo continência, feito mini-soldados, cantar hino com a mão sobre o coração, brincar no balanço ouvindo “As tardes do Brasil são mais douradas, Mulatas brotam cheias de calor, A mão de Deus abençoou, Eu vou ficar aqui, porque existe amor”.

Na mesma vitrola também rolava Chico Buarque. Achava “Cálice” linda. Mas, aos doze anos, talvez considerasse apenas uma letra meio maluca que falava do Deus bíblico e do Deus mitológico Baco, com aquele negócio dos vinhos. Mais tarde, entendi a genialidade do Chico. Mas achava normal que ele, assim como outros, precisassem, para poder cantar os horrores que sabiam, disfarçar suas letras para driblar a censura que vigorava na ditadura militar. A normalidade pode ser um perigo.

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo

Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo

Ninguém segura a juventude do Brasil

Enquanto eu fazia coro com Os Incríveis no balanço do quintal, em junho de 1972, a um quilômetro e meio da nossa casa, uma moça chamada Ana Maria almoçava no restaurante Varela, também na Mooca, com mais três companheiros da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Eram guerrilheiros, se opunham ao regime militar. Diz que o dono a reconheceu em um cartaz do governo que caçava “gente subversiva”, e resolveu chamar a Polícia. Ao saírem dali, foram mortos. Apenas um escapou. Eu, que passava sempre em frente ao restaurante, nunca imaginei. Só soube da história muitos anos depois, já grande. Desta vez, não achei normal. Nem Dona Anadyr e Seu Mário Henrique, os pais de Ana Maria Nacinovic. Para eles, era mentira o verso final da canção. Sim, conseguiram segurar a juventude de sua filha. E de tantos outros.

Meu primeiro amor. Ou segundo

ilustração: Lubi

Fragmentos de memória: meados dos anos 1970, São Paulo, Teatro Municipal, Irene Ravache, calça Levi’s, menino loiro.

Pronto. Agora é costurar tudo e montar a colcha que cobre a história do meu primeiro amor. Ou segundo.

Tirando, claro, as dezenas de namorados inventados da minha infância e que constaram de uma lista, redigida pela irmã mais velha, que incluía o moço que aplicava injeção na farmácia, o Sérgio Chapelin e o goleiro Leão.

Era a primeira vez que eu ia ao Teatro Municipal. Tinha nove ou dez anos, as cadeiras ainda eram forradas com veludo verde. Não há qualquer chance de eu me lembrar do que assisti. De certezas, somente três: era algo com a Irene Ravache, eu usava uma adorada calça Levi’s bege, e havia um menino loiro e lindo do outro lado do foyer.

Bati os olhos nele – que devia ter a minha idade e também estava com os pais – e não desgrudei mais. Se ele, de lá, me via, não sei. Desconhecia aquele meu sentimento, embora já suspeitasse do que se tratava. Apaixonar-se é grudar nos olhos uma fotografia da pessoa amada.

Foi assim o espetáculo inteiro. Quando acabou, fiquei triste porque não iria mais vê-lo. Como seria seu nome? Sua voz? Ia bem em matemática? Seria bacana ir à sorveteria com ele depois das aulas, de mãos dadas. Será que usava Levi’s?

Não contei a ninguém o que senti. Só guardei a imagem do menino bonito. Tão bem guardada, que ei-la aqui. E o leitor que me desculpe pela decepção. Pois não se trata de uma história de amor típica, com começo, meio e fim distribuídos em uma linha do tempo recheada de acontecimentos e emoções e conversas de amor e beijos escondidos. A história do meu primeiro amor (ou segundo) é só isto mesmo.

Naquela época, dadas a pouca idade e limitações mundanas, seria praticamente impossível tornar a vê-lo. Hoje, bastaria um apelo na internet (se meus pais deixassem, o que duvido). “Alguém sabe quem é este garoto?” encabeçaria o post esperançoso, com uma foto feita pelo celular em zoom precário. Daria o serviço – dia, hora e local – e imediatamente se formaria na tudosfera uma corrente engajada de compartilhamentos, dedicada a encontrar meu pequeno príncipe encantado. Já vi isso nas notícias. O amor é a melhor hashtag.

Em meus devaneios, às vezes, me ponho a imaginar por onde andará o garotinho do foyer do Teatro Municipal. O que se tornou, de quê gosta de falar, se ainda é loiro. Em quem votará nas eleições. É devaneio desinteressado, registro – eu que não quero treta no meu casamento. Daqueles ingênuos, que brotam no meio de um dia atarefado como um sopro de leveza. É respeito (ou asas) às lembranças que compõem minha biografia.

E, diferente das minhas certezas, pode ser que eu tenha misturado os fragmentos, costurando-os errado. Como se eu houvesse pego um frame daqui e outro dali, do imenso emaranhado de cenas arquivadas em minha mente, cuja lógica nem sempre respeita tempo e espaço, sujeito e predicado. E se me apaixonei pelo menino loiro no cinema, e não no teatro, quando fomos minha mãe, minha irmã e eu assistir a “Uma janela para o céu”? E se no dia do teatro eu estava, não com minha Levi’s, mas a vermelha de tergal, de botões? Acho chique quem tem memória linear e precisa, como se os fatos estivessem todos registrados em diários oficiais.

Eu não. Confesso que, às vezes, vou colando memórias umas às outras. Não ligo. Que foram vividas, foram. O importante é se ficou bonito.

Fiscal do Sarney

Havia me esquecido. Já fui fiscal do Sarney.

Meados de 1980. O vice de Tancredo Neves implantara no país o Plano Cruzado, convocando a nação para trabalhar na fabulosa empreitada de vencer a hiperinflação. A tarefa de todo cidadão era fiscalizar os preços, então congelados, nos supermercados. Também fazia parte do job description pedir nota fiscal de tudo.

Eu tinha 19 anos. Um dia, fui à avícola na rua de cima, “Uma dúzia de ovos, por favor”. Na hora de pagar, com meu crachá invisível de fiscal sênior, pedi a nota. O mocinho, que já tinha um ar abobalhado, ficou ainda mais.

– Nota fiscal?

– É.

Ele coçou a cabeça, olhou o horizonte. Mentira, não dava para ver o horizonte dali, só um teco de céu. Mirou o teto, os frangos resignadamente engaiolados no ambiente ao lado, aguardando a hora de serem degolados, e lascou:

– Pra ovo não se dá nota fiscal.

Ele não imaginava que, ao inventar nova e descabida regra tributária, despertaria a fúria da titã baixinha e sardenta à sua frente. Como assim, não tinha nota fiscal pra ovo? Na TV, o presidente falou pra gente pedir nota fiscal de tudo, tudinho. Com as mãos na cintura e meu nariz arrebitado, bati o pé e exigi o documento. Já via o quarteirão bloqueado por carros da polícia, helicópteros sobrevoando o pacato bairro da Mooca, os jornais me entrevistando, o abobalhado sendo algemado, os frangos aplaudindo.

A contragosto, o moço foi lá dentro. Minutos depois, voltou com o talão empoeirado, típico dos objetos sem muito uso. Catou a Bic e foi preenchendo meu nome, meu endereço, “Você mora aqui pertinho”. Discriminou a mercadoria, colocou a data e o valor. Fez ainda, com a caneta, um risco de cima a baixo, inutilizando as demais linhas em branco. Sempre achei bonito fazer isso nos papéis. Para evitar fraudes, aprendera. Quem é que fraudaria nota fiscal de doze ovos?

Quando eu era criança, uma vizinha da rua, Dona Adélia, criava galinhas e vendia os ovos. Meus irmãos iam sempre lá, buscar uns pra nós. Vez ou outra alguém aparecia em casa com uma galinha viva, também. Eu tentava adotar a bichinha, sem sucesso. Então, no quintal, com impressionante naturalidade (ou prazer) minha avó pegava a pobrezinha e crec, destroncava-lhe o pescoço. Eu não queria ver, mas acabava vendo. Emudecia e fugia para o quarto, sonegando meu choro.

Saí da avícola com meus ovos, vitoriosa e empoderada. Cheguei em casa, senti-me meio idiota. Joguei a nota fiscal fora e fui fazer bolo de chocolate. A receita da minha mãe levava três ovos.

Quem nasceu primeiro, a lembrança ou a saudade?

Melhoral infantil

Uma vez por mês meu pai chegava em casa, à noite, com uma caixa enorme. Está bem, não era enorme. Só grande. Nela, a compra da farmácia. Esse dia era uma alegria só. Não que eu fosse uma hipocondríaca-mirim. É que na caixa, em meio a esparadrapo, mertiolate, algodão, latas de leite em pó e remédios, lá estava ele: Melhoral infantil. O comprimidinho cor de rosa.

Meio doce, meio azedinho. Eu gostava de comê-lo feito bala. No entanto, Dona Angelina, mãe zelosa, não o liberava assim fácil. Valia, então, inventar alguma enfermidade. Dor de barriga ou cabeça. Se o teatro fosse convincente, ganhava um. Se não, o negócio era partir para a traquinagem acetilsalicílica: pegar escondido. E o Melhoral infantil virava sobremesa proibida.

Fascínio semelhante tinham o Cebion e o Biotônico Fontoura, que também vinham na caixa. Com o primeiro, nada de dissolver na água, como mandava a bula. Chupava-o feito Drops Dulcora. Eu devia exalar vitamina C pelos poros, gripe nenhuma me pegava. O segundo prometia abrir o apetite das crianças e, por isso, era aliado das mães preocupadas com rebentos que não queriam comer. Não era nosso caso. O fortificante tinha álcool na fórmula e deixava a criançada meio zonza se a dose recomendada fosse extrapolada – e aí é que estava a graça.

Volta para 2018.

Hoje foi dia de levar os remédios para meu pai. A lista é grande e inclui comprimidos que resolvem de pressão alta a gastrite, garantindo ao Seu Tonico uma boa velhice. Enquanto dava meu CPF para a moça na farmácia, avistei na gôndola self-service: Melhoral infantil. A embalagem mudou, a cor rosa permaneceu. Um clássico da farmacopeia. Peguei uma cartela e adicionei-a à cestinha. Senti meu rosto corar. Ou será que ficou da cor do comprimido? Apoiada no balcão, refletida no espelho da seção de maquiagem, vi a garotinha que fui, pilhada na travessura. Como se estivesse pegando às escondidas o comprimido no armário da cozinha, que chamávamos de “farmacinha”. Paguei e separei o Melhoral, guardando-o na bolsa.

Cheguei à casa do Seu Tonico não com caixa, mas sacola de plástico cheia de coisas. É a minha vez de abastecer seu armário, mensalmente, com a compra da farmácia. A vida é mestra em inverter os papéis. Virei mãe do meu pai.

Mais tarde, em casa, tirei a cartela da bolsa. Seis comprimidos. Que festa! Abri um, coloquei-o devagar na boca. Deixei que dissolvesse um pouco, fechei os olhos, pronta para a viagem ao passado. Que gosto horrível! Nem sombra do Melhoral infantil que conheci. Mudaram a receita, por certo. Remédio para os pequenos tem esse problema. Se é gostoso, dá vontade de comer feito doce. Se é ruim, a criança só toma amarrada.

Cuspi o comprimido, já de um rosa desbotado. Mal não me fará. Será que tem efeito colateral? Um pouquinho de saudade, talvez. Logo passa.

Trégua

Julieta, lembrei. Julieta era o nome dela. A vizinha da casa 3, que morrera em seu quarto. Marcos, o único filho. Um garoto da minha idade, sete anos.

Eu batia boca com ele sempre que podia. Não que fôssemos inimigos, brincávamos juntos. Mas não perdíamos a oportunidade de provocar. Ele dizia algo, eu rebatia, ele soltava outra e assim exercitávamos nossa retórica – com sofisticação intelectual no nível de “Nunca viu, cara de pavio?” e “Você não é de nada, só come marmelada”. O objetivo era ver quem daria a palavra final, a resposta lacradora que calaria o outro. Lembro vividamente de uma vez que ele falou: “Você tem resposta pra tudo”. Fiquei em dúvida se era elogio ou não.

Câncer, disseram. Julieta era jovem, miúda, morena, pintas no rosto. Educadíssima. No dia em que ela morreu, fiquei consternada. Como um garoto de sete anos iria viver sem a mãe? Pai já não devia ter, nunca o vira por ali. Quando minha mãe morreu eu tinha vinte; tempo que já me calçara de certa força e autonomia para enfrentar a vida. Além disso, eu contava com pai, irmãos mais velhos, avós. Mas e o Marcos, que estava no primeiro ano e usava franjinha?

O velório foi na sala. O cômodo onde os dois assistiam TV à noite, juntos, agora exibia outro programa. Eu não fui. E tive que lidar com a ideia de haver um defunto a duas casas da minha. Antes da Julieta, eu não tinha notícia de alguém na vizinhança que houvesse batido as botas em casa. Morria-se em hospital, na rua, longe. Não em casa, lugar de viver.

O portãozinho ficou aberto, um entra-e-sai dos poucos parentes. O Marcos ficou zanzando na vila. Chutando pedrinhas pelo chão, cabisbaixo. Da janela do quarto dos meus pais, eu o observava. Ele via que eu o via. Naquele dia, porém, não tive vontade, nem coragem, de provocá-lo. Como se a morte requeresse trégua entre nós. Era preciso alguma paz. Tampouco fui conversar com meu amigo. Saber se gostaria de comer biscoito champagne com Nescau, ouvir o LP dos Carpenters. Nada. O silêncio foi a trégua.

Logo ele se mudou. Comentaram que fora morar com os tios. Não me despedi. Perdi, então, meu parceiro de embates verbais. A casa 3 ficou vazia por um tempo. Depois, chegaram novos inquilinos. Pensei em avisá-los sobre eventuais problemas com almas penadas, mas desisti. Por via das dúvidas, levei anos para entrar ali de novo.

Mães que morrem conseguem, de algum jeito, cuidar dos filhos? Por que eu tinha sorte de ter minha mãe e ele não? Por que médicos não conseguiam curar tudo? Por que gente viva não vê gente morta?

Fiz-me muitas perguntas, na época. E o Marcos estava enganado. Eu não tinha tantas respostas assim.

Verde-prússia

verde prússia 2

De todos os meus lápis de cor, o favorito era o verde-prússia. Não fazia, porém, ideia do que era Prússia. Aprendi o nome e repetia, feito autômata. Só sabia que era o tom mais lindo do mundo para colorir meus desenhos.

No papel, em verde-prússia – ou verde-da-prússia, como alguns falavam – eu tingia a pipa que o menino empinava, a água da piscina que sonhava ter em casa, os olhos da moça que eu queria ser. Um dos primeiros lápis a acabar, o que mais visitava o apontador. Era preciso economizar, portanto. Aquele verde tão especial só vinha na caixa com 24 cores, e não era sempre que eu ganhava uma. Geralmente, usava a de 12 mesmo, com apenas duas variações: claro e escuro. Fosse a de 6, paciência, só o escuro. A unidade da felicidade era a dúzia, meu bem.

Na geografia da humanidade, aprendi depois nas aulas de História, a Prússia foi uma poderosa nação que ficava na costa sudeste do mar Báltico. Através dos séculos, foi um tal de invadir aqui e conquistar ali, num forrobodó complicado que deu origem à Alemanha. Deixou de existir em 1932, ano em que meu pai nasceu.

Na geografia das cores, o verde-prússia se localiza ao norte da minha infância, na fronteira com o azul. Há, aliás, o azul-da-prússia, que ganhou esse nome por ser a cor dos uniformes do exército prussiano, e é deveras diferente do verde-prússia, que nunca descobri por que foi batizado assim. O assunto rende e geralmente causa polêmica nas conversas. Discutir azuis e verdes é mais ou menos como discutir política.

De vez em quando, alguém aparecia na sala de aula com caixa não de 24, mas 36 lápis de cor. Pura ostentação. A vida daquela pessoa deveria ser perfeita, pensava. Um quarto só para si, roupas novas sempre que quisesse, mãe em casa o dia inteiro, pêssego em calda de sobremesa no almoço e no jantar. A grama do vizinho é sempre mais verde-prússia.

Hoje, os lápis de cor não são mais tão caros. Ainda trazem o verde-prússia na paleta, sei porque reparo quando vou comprar o material escolar dos meus filhos. Eles não usam esse nome, é verdade. E tenho dúvida se saberiam apontar, no globo, onde ficava o reino de Guilherme II.

Lembrei dos meus desenhos de criança, os cadernos, os trabalhos ilustrados à mão. Não guardei nenhum. Sumiram do mapa, feito a Prússia. Que cor tem um lamento?

1983

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ilustração: Jessica Lopez

“Vende-se – ano 83”. Olhei o Gol à minha frente, tão velho e desbotado. Trinta e cinco anos nas rodas, meu chapa. E, pelo jeito, muitos quilômetros de histórias. Todo valente pela avenida, disputando seu lugar com os irmãos mais novos. Deve ter visto de tudo por esses caminhos de meu Deus. Carregado tantas gentes diferentes.

Onde eu estava em 1983?

O sinal abriu, engatei minha retrospectiva particular.

Quando aquele Gol era novinho em folha, eu tinha 16 anos. Usava cabelos até a cintura, morava na casa 1 da vila. Pesava quarenta e poucos quilos e não gostava das minhas pernas, finas e branquelas. Short e minissaia, por autodecreto, não passavam nem perto do guarda-roupa.

De aniversário, ganhei a Carolina. A cachorra mais linda e doce do mundo. Grandona e folgada, quantas noites a deixei dormindo na minha cama e fui para o sofá. Para não atrapalhá-la. E também porque ela roncava. Ê Caró…

Foi o ano em que, após longa espera, instalaram nosso telefone. Plano de expansão da Telesp, vinte e quatro meses pagando o carnê. Eu era a única da turma que não tinha. Para nunca esquecer: 948-3443. Dona Antonia (a vizinha da casa 4 que quebrava nosso galho quando precisávamos ligar para alguém, ou se um parente precisasse dar notícia importante, geralmente de morte, cujo número era 92-6405) respirou aliviada.

Segundo ano do colegial técnico em Edificações, no Liceu de Artes e Ofícios. Queria arquitetura, como a irmã. De casa, na Mooca, até a Luz, ônibus e metrô. E seiscentos metros de caminhada pela rua Jorge Miranda, em meio às bostas dos cavalos do 2º Batalhão de Choque. Levantava-me tão cedo que, não raro, aportava na escola com a blusa do avesso, ou uma meia de cada pé. O importante era a régua T chegar intacta. Fazia bolo para vender na hora do intervalo. Hoje, quase não faço bolo para meus filhos.

Segundo ano de tratamento da minha mãe. Eu a acompanhava, o hospital era ao lado da Santa Casa. Dia de quimioterapia era o pior. Dona Angelina ficava um trapo. Em frangalhos também, meu coração. Sofrimento deveria ser contável e divisível. “Me dá metade do seu enjoo, dois terços das suas dores”, lhe diria.

Não me lembro de ter ficado doente em 1983. Igualmente, não tive namorado. Mas saracoteava à beça. Saía com os mocinhos e, de vez em quando, mentia, dizendo que tinha 17. E também dei trabalho ao anjo da guarda: andava na moto dos amigos sem capacete.

Escrevi poesias. Aprendi a tocar violão. Passei tardes inteiras ouvindo Vinicius de Moraes e Rick Wakeman. Costurei um macacão azul-céu de popeline para mim.

Em 1983, tinha ideia fixa com o ano 2000, tão distante e irreal. Gostava de pensar onde eu estaria. Em minha prospectiva, imaginava que, caso o mundo não acabasse no Réveillon, aos 32 anos eu haveria de estar casada e teria dois filhos. Manteria os cabelos longos e projetaria casas e prédios maravilhosos. Nessa última parte, errei feio.

Quanto deve estar custando o Golzinho?

O maestro e o gato

siamês 1

Nos anos setenta, costumávamos ir à casa dos meus tios no bairro de Santa Cecília. Eles moravam (ainda moram) em um prédio na Alameda Barros, perto da avenida Angélica. Quando íamos visitá-los, eu gostava de cruzar o corredor e ir ao apartamento do vizinho, no mesmo andar. Eles tinham um gato.

Ali vivia o maestro Portinho. Minha tia falava dele com orgulho, dizia que era famoso e coisa e tal. Eu não estava nem um pouco interessada. Ia lá por causa do gato, mesmo. Bug era um siamês lindo, grandão, bonachão e vesgo. Passava um bom tempo brincando com ele, até minha tia me chamar de volta. Eu tinha seis, sete (oito?) anos.

Não era um apartamento comum. Três unidades, transformadas em uma só. Ficou um apartamentão. A decoração, coisa fina. Um piano, talvez? Vários sofás na sala – para mim, enorme. Sempre aboletado em um deles, o Bug. Eu, bem comportada, sentava-me ao seu lado e punha-me a afofá-lo. Lembro-me de alguém vir perguntar se eu queria um suco, uma água. Eu não queria nada. Só brincar com o grandão do Bug.

O maestro Portinho também era grandão. Muito alto, simpático. Se troquei três palavras com ele, foi muito. Não fazia ideia de quem eu estava diante. O dono do Bug foi um dos principais personagens da época dourada das big bands brasileiras, animando bailes e programas de rádio e TV. Produziu trilhas para novelas e, fora as obras que compôs, assinou arranjos para meio mundo. Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cely Campello, Vanusa, a turma inteira da Jovem Guarda. As gravadoras só queriam saber do dono do Bug.

Um dia, eis que o apartamento do maestro, no décimo sétimo andar, pega fogo. Meu primo conta que uma bituca de cigarro fora atirada do apartamento de cima e caiu justo onde? Na cortina de um dos quartos. O estrago foi grande. Suficiente para o Bug, sem ter como escapar, morrer asfixiado. Fiquei desolada com a notícia.

Logo arrumaram outro gato. O nome? Bug. Em homenagem ao antecessor. Também um siamês. Igualmente lindo, nem tão grande, nem tão bonachão. Vesgo, talvez? Fui conhecê-lo. Ele não me parecia tão dócil quanto o velho Bug. Influenciada pelo nome, esperava que ele fosse cópia integral do outro. Claro que não era. Então aprendi o que eu já desconfiava: gato não é tudo igual.

As visitas aos meus tios rarearam, não sei que fim levou o segundo Bug. Do maestro, sei: morreu em 1997. Seu legado para a música brasileira é imenso e valioso. Coisa linda, ser maestro. Uma pessoa que entende absolutamente tudo de música. Uma espécie de Deus do som. Gato também é uma espécie de Deus. Ou será que Deus é uma espécie de gato?

São quase dez da noite, estou me preparando para dormir. Sobre a cama, espio o Beto cochilando. É nosso siamês lindo, grandão, bonachão. Vesgo. Gosta de música, o bichano. Com ele que danço, de vez em quando (os outros detestam). Se é que esse negócio de reencarnação também vale para os bichos, gosto de fantasiar que o Beto é meu amigo Bug, do qual não pude me despedir. Pendência que ele tratou de resolver, aparecendo em nossa casa, numa tarde quente de fevereiro. Onze anos atrás.

Tem um cigarro?

cigarro

Eu já quis ser fumante. Fiz força, dediquei-me com afinco. Irmão fumante, irmã idem. Tínhamos cinzeiros espalhados pela casa. Como é que eu, a caçula adolescente, ia querer ficar de fora do maravilhoso mundo da nicotina?

As propagandas da época, assim como as novelas, bem que tentaram me transformar em adicta. Nada mais cool que segurar um cigarro entre o médio e o indicador, soltando longas baforadas de um jeito meio blasé, enquanto engatava um papo cabeça com alguém. De preferência, sobre filosofia. O importante era ter charme.

Experimentei várias marcas, investi até nos mentolados – sempre escondido. O cigarro, no entanto, não me quis. Um relacionamento que nunca daria certo, eu deveria saber.

Se fumante é quem fuma, e ex-fumante é quem fumou e não fuma mais, alguém que desejou ser fumante e fracassou é ex-quase-fumante? Não há adjetivo para o meu caso. Nem explicação. Nunca aprendi a tragar, ardia a garganta. Trago direitinho, no entanto, as lembranças na cabeça.

Depois do colégio, eu e a amiga de pequenas, médias e grandes aventuras tomávamos o metrô na Luz e desembarcávamos no Jabaquara, onde ficava a garagem dos trens. Era lá mesmo que, escondidas, cometíamos o crime. Engasgando aqui e ali, rindo e tecendo considerações sobre o universo. Depois, metrô de volta e cada uma para sua casa, preocupadas em sumir com o cheiro que nos empesteara. Pastilha de hortelã e perfume. Não durou muito, o passatempo. Comecei a achar a coisa meio sem graça.

Mais tarde, eu precisava me enturmar na tribo dos bem-nascidos da FAAP, e a maioria fumava. Mas não queria dar bandeira, comprando cigarros perto de casa. Descia do ônibus na Praça da Sé e, antes de tomar o Cardoso de Almeida, elétrico que me deixaria na porta da faculdade, eu parava em um boteco perto do Páteo do Colégio e comprava meu maço. Que chegaria ao final da semana praticamente intacto. Eu me esquecia dele.

Comecei a trabalhar, agora os cigarros do pessoal eram outros. Tentei também. Queria expandir a consciência, ver coelhinhos azuis dançando ula-ula. E nada.

Então, desisti. Cigarrinho, só de chocolate da Pan.

Que não fazem mais.

Eu (não) uso óculos

Levei meu pai ao oftalmologista – “olhista”, como ele gosta de dizer. Aos oitenta e seis, a visão do Seu Tonico anda precária. Resiste aos óculos com receita, bom mesmo é o self-service da farmácia, com modelos prontos. Apanha na vitrine e vai testando, “Esse está ruim”, “Agora melhorou um pouquinho”, “Ah, esse está bom”. Leva ao caixa, paga e vai embora. Feliz da vida, enxergando vários palmos diante do nariz.

Quando eu tinha sete anos, usei óculos. Astigmatismo. Minha primeira grande provação, depois da botinha ortopédica. Não gostava da ideia, nem do modelo, tampouco do que via no espelho. Naquela época, a gente chamava oftalmologista de oculista. Só depois fui aprender: um é o médico que cuida dos olhos. Outro é a pessoa que faz os óculos. Não sei se nós confundíamos os dois, afinal oculista é mais fácil de pronunciar, ou se nossos óculos eram, de fato, prescritos e feitos pelo tal do oculista (o que nem pode). Só sei que fomos a uma ótica e saí de lá dividida: contente porque conseguiria ler a cartilha Caminho Suave numa boa, mas angustiada, antevendo os apelidos na escola.

O Banana, por conta das sardas, ganharia dos colegas um complemento fofo: Quatro-Olhos. Fiquei sendo Banana-Quatro-Olhos. Eles achavam aquilo engraçado. Eu não via, nem com óculos, graça alguma.

Dia desses, postei nas redes sociais um achado: minha foto do primeiro ano, com os ditos cujos. Rendeu imediata comparação com a Chiquinha, do Chaves. É preciso admitir que a semelhança procede. Infelizmente, no dia da fotografia não havia ninguém para dar uma ajeitadinha em mim antes do clique, nem uma penteada de leve nos cabelos. Resultado: o mal ajambramento e os malditos óculos eternizaram-se. Na época, rabisquei, de propósito, a fotografia. Inventei-me dentes e flor na camisa. Customizei a infelicidade, dando-lhe ares bufônicos para, talvez, sobreviver à desgraça.

O astigmatismo cedo foi embora, aposentei por conta própria os óculos. Adulta, fui brindada com leve miopia. Quando me perguntam se uso óculos, digo que não. Em seguida, lembro que sim – os de sol têm pouco mais de meio grau, iguais aos que ficam na bolsa, para o caso de uma rodovia à noite. Deve ser uma espécie de negação.

Há algum tempo, Nina cismou que queria usar óculos. Sem indicação para tal, quase me convenceu a mandar fazer uns sem grau, como se fosse um acessório, uma tiara. Diante das consecutivas negativas, fez birra, chorou, ficou infeliz. Lembrei de mim, sofrendo justamente pelo contrário: ter que usar o trambolho. Das inúmeras vezes que os “esqueci” sob a carteira, na sala de aula. Do sumiço que dei na peça, quando concluí que não precisava mais deles. Cada um com seu drama. No final, tudo depende de como você vê as coisas.

Hoje, quando olho a fatídica foto do primeiro ano, rio e tenho vontade de abraçar a menininha que fui. E, parafraseando a raposinha d’O Pequeno Príncipe, diria ao pé do meu ouvido: “Sabia que só se vê bem com o coração, e que você fica linda de óculos?”.

silmara gallicho 1o ano 1974

Mistura

Tudo que não era arroz e feijão, a gente chamava de mistura. Geralmente, carne. “O que tem de mistura?”, eu perguntava, já abrindo as panelas sobre o fogão. Verduras e legumes também entravam na categoria. Viraram, com o tempo, acompanhamento.

Como se diz a alguém, “Que Deus te acompanhe”, também deve-se falar para a dupla gastronômica mais brasileira que há: “Que o purê de batata te acompanhe”. Afinal, se está com purê de batata, está com Deus.

Cresci com os adultos mandando a gente ir comprar mistura. Lá ia eu no açougue buscar uns bifes, ou na avícola, pegar umas coxas de frango. Para os bifes, havia um martelo especial. Diferente dos martelos do meu avô, o da minha mãe era quadradinho, com pontas achatadas. Para amaciar a carne, diziam. Eu gostava de brincar com ele. Sumiu, nas mudanças.

Não digo que sempre achei esse termo – mistura – curioso, porque jamais deitei pensamento sobre. Fez parte do meu vocabulário desde sempre, é dessas palavras que a gente só reproduz, não questiona. Não, até agora. A mistura é mistura de quê? No Google, leio que o nome remonta ao tempo dos escravos. Nas refeições, eles recebiam um naco de carne que, de tão pouco, era misturado ao arroz, feijão e farinha de todo santo dia. Veio a abolição, o nome ficou. Toda cozinha tem um pé na senzala.

Apesar de amante do bom e velho feijão com arroz, hoje a mistura é o melhor do meu prato. Abobrinha empanada. Shimeji na manteiga. Quiabo refogadinho no alho. Suflê de espinafre. Salada toda coloridona. Por trás de um grande prato há sempre uma grande mistura. Pronto: mistura é a mistura de coisa boa com coisa gostosa.

Quando foi que deixamos de falar mistura? Deve ter sido quando paramos de dizer engrossar (um molho, por exemplo) e adotamos o reduzir. Ou quando substituímos o combinar pelo harmonizar.

Ontem fui pensar no almoço e a palavra saiu assim, sem querer: o que teríamos de mistura? Ri sozinha. Sem acompanhamento.

Lembrei das velhas panelas lá de casa. Fechei os olhos, abri as tampas. Servi-me de saudade. Memória com nostalgia é a melhor mistura que tem.

O nome da minha mãe

Ilustração: Juliana Cassab

De criança, eu não achava o nome da minha mãe bonito. Angelina. Achava-o levemente feio, sonoramente estranho. O problema, acredito, era o ina, que lembrava aspirina, vaselina, gelatina.

Certo dia, na escola, um menino perguntou o nome dela. Com vergonha, inventei, “É Angela”. Senti-me mal com aquilo, então emendei: “Mas todo mundo chama de Angelina”. Como se, sendo apelido e espécie de diminutivo, a coisa amenizasse.

Angela era bem mais lindo. Uma proparoxítona forte e, ao mesmo tempo, doce. O lance direto com o universo angelical. Além disso, tinha a Angela Maria, baita cantora. A Angela Ro Ro. Não havia naquela época, que eu soubesse, nenhuma Angelina importante ou famosa. Personagem da História, atriz de novela, nada. A Angelina Jolie era apenas uma bebê beiçuda.

Jamais contei o episódio da escola para minha mãe. Talvez ela achasse graça, talvez não. Para que correr o risco? Esta é a primeira vez que escrevo sobre. Se existe a internet dos mundos e a conexão for boa, ela vai ler. Talvez ache graça, talvez não. Agora eu corro, confiante, o risco.

Levou tempo para eu simpatizar com o nome. No colégio, já não lhe inventava nomes. O som, An-ge-li-na, começou, inclusive, a me agradar. Gosto é gosto, e ele muda. Passei a apreciá-lo. Tanto que o incluí na lista de nomes para minha filha. “Que tal Angelina, pra homenagear a avó?”, propus, no quinto mês de gravidez. Não houve adesão. Não que achassem feio. Acabei – coisas da vida – sugerindo Nina. Que ganhou. Então, “ina” não consistia mais em problema? Eu, definitivamente, estava em paz com o nome dela. De algum modo, sei que ela sabe. Na vila dos anjos também se comemora o Dia das Mães?

Pudesse, reencontraria o garoto da escola e explicaria tudo.

Gol!

futebol 1

Vivo perdendo gol do meu filho.

Em vez de prestar atenção ao jogo, distraio-me com a formiga aparentemente desnorteada que escala meu sapato, a nuvem em forma de cachorro, o pacote vazio de Ruffles que o vento leva pra cá e pra lá.

Quando vejo, já foi. Tenho déficit de atenção esportiva. E não há tratamento – graças a Deus.

É domingo, estou em pé desde as seis e dirigi cinquenta quilômetros. Aboleto-me na arquibancada; sou apenas um holograma de mim, que fiquei na cama. Não entendo nada do que fazem em campo. Demoro a descobrir de que lado o time dele faz gol. Aliás, mal o identifico, ao longe. Tento pela chuteira. Ele veio com a verde-limão ou a laranja?

Flagro um pedaço de conversa ao lado, o marido de não-sei-quem não pagou pensão e passou a noite no xilindró. Não pagar pensão é falta grave. O pacote de Ruffles agora foi parar na torcida rival, alguém se anima e o chuta de volta. Se tem uma coisa que une todo mundo é batata frita.

Perco novo lance, sei porque a torcida solta “Uuuh”.

Futebol não é minha praia. Praia também não é minha praia. Tem areia, água salgada, que aflição.

Vinte minutos de bola rolando, finjo compreender as jogadas. Resolvo ir à lanchonete. Sou a única a pedir café. Em pé desde as seis, lembram?

Volto ao meu posto e descubro que, enquanto eu tomava café e borboletava no Facebook, meu lateral-esquerdo favorito fez gol. Não dou uma dentro.

Posso não ser a mãe-torcedora ideal. Mas divirto-me vendo pais e mães com síndrome de técnico. Que ficam, da arquibancada, berrando instruções aos seus minineymars, com a mesma naturalidade com que os mandam arrumar a cama, escovar os dentes ou fazer a lição. O caso das mães, geralmente, é mais grave. “Tem que descer mais, Pedro Henrique!”, “Vai na bola, Lourenço Augusto!”. Chamam pelo nome inteiro. Nem o técnico sabe de quem se trata. Eu não faço isso. Primeiro, porque não daria uma orientação que prestasse. Segundo, atrapalha o time, é mico dos grandes. Se as torcidas organizadas têm regras a seguir, torcidas de genitores precisam de um capítulo extra.

Não fui alfabetizada nos esportes. Tinha ojeriza às aulas de educação física, no ginásio. Em parte, pela ideia do exercício em si; em parte pelo uniforme pavoroso a que éramos submetidas (shortinho bufante vermelho, minissaia branca plissada por cima) e em parte pela professora, que dava aulas maquiada e ensinava vôlei fazendo a turma ler em voz alta as regras, a partir de um livro. Sentávamos em roda e nos revezávamos. Deve ser por isso que peguei gosto pelos livros e não pelos esportes.

Na TV, pulo, sem dó, todos os canais que cobrem o assunto. Pudesse, os eliminaria. Tenho apenas um par de tênis – todo mundo precisa ter, na vida, um par de tênis e uma caderneta de poupança, para eventual necessidade. Peguei da caçula, ficou pequeno para ela. É um número maior do que eu calço, fato irrelevante. Eu que não gasto com essas coisas.

Na volta do jogo, no carro, torço para que Luca não pergunte “Você viu aquele gol que eu fiz?”. Na qualidade de mãe, não poderei mentir. A inquisição fatal vem e eu respondo. Ele fica chateado por dois segundos, balança a cabeça e ri. Sei que está tudo bem quando ele emenda, “O que a gente vai almoçar?”.

Sianinha

sianinha

A amiga comentou, quase en passant: no texto digitado aparecera a “sianinha” embaixo de uma palavra. O risquinho vermelho, sinalizando que a grafia estava incorreta. Mão na roda para escritores distraídos ou erráticos.

Parece uma sianinha, mesmo. Aquele fitilho ondulado usado nas costuras. Achei delicado, o apelido.

Minha mãe costurava. Cresci em meio a coisas enfeitadas com sianinhas de todas as cores. Algumas tão fininhas. Toalhas, roupas, lençóis, aventais. Além de alerta para imprecisões da língua, a sianinha ortográfica acabou cumprindo outro papel: ativadora de memórias.

Fui parar na sala da nossa velha casa, sentei-me no sofá de courvin marrom, o LP da novela Selva de Pedra (primeira versão) na vitrola. Minha avó lavando roupa no tanque, meu avô encerando a casa na enceradeira tão grande que sentávamos em cima dela e íamos junto, minha mãe ora na cozinha, ora em seus tricôs, crochês, costuras. Tão caprichosa, sempre.

Havia um bazar de aviamentos no quarteirão. Era a garagem de um sobradinho geminado, transformada em loja. Sempre íamos, minha irmã e eu, buscar alguma coisa que ela pedia. Até hoje gosto dessas lojas, quero comprar tudo e fazer tudo. Nunca compro nada e nunca faço nada. Sou só uma teoria descosturada.

Enquanto escrevo, várias sianinhas aparecem. O corretor não reconheceu a palavra courvin. É courvin mesmo, meu bem.

Corretor ortográfico é uma espécie de professor. Lembrei da Maria Olívia, minha professora no primeiro e segundo ano. Com delicadeza, ela sublinhava a lição – sem fazer sinhaninha – com caneta vermelha, ensinando que jiboia era com jota e não com gê. Anos depois, batizei uma gatinha com seu nome. Seria bonito dizer que foi em sua homenagem, mas não foi. Por gosto, mesmo. Maria Olívia, a gata, fora abandonada pela mãe, que dera cria no carro do vizinho. Um dia cheguei em casa e ela havia ido embora, levando todos os filhotes, menos ela. Era a mais fraquinha, sempre doente. Gostaria de reencontrar Maria Olívia, a professora. Maria Olívia gata também, se esse negócio de reencarnação também valer para os bichos.

Eu gostava de brincar com as linhas, agulhas, rendas, botões e sianinhas da minha mãe. Dona Angelina sempre deixava. Não havia nada que ela não nos deixasse brincar, aliás. Observava a arquitetura das minicurvas da sianinha, pareciam cabelo anelado de boneca. Ficava imaginando como é que faziam aquilo tão perfeitamente.

(O calçadão de Copacabana, repare, é uma sianinha gigante.)

A amiga que falei se chama Iana. Rima com quê? Siana. Que nem sei se existe, talvez sianinha seja palavra nascida no diminutivo. Igual carinho. Só sei que a vida não dá ponto sem nó.

Vou revisar este texto e ver se tem outras sianinhas para corrigir (ou não). Quem sabe eu me recorde de mais alguma coisa no meio do caminho. Quando escrevo, não uso apenas um editor de texto. Uso um editor de lembranças também.

Se as sianinhas enfeitam os panos, as memórias enfeitam toda a existência.

Para Iana Ferreira

Gorda

comida

Quando minha avó soube que tinha diabetes, Doutor Fuad foi logo avisando: ela teria que mudar a alimentação. Algumas coisas ficariam de fora do seu cardápio, forever and ever.

E ela passou a comer a mesma comida todos os dias. Arroz sem tempero com carne cozida idem, pão sem glúten – ela falava “glút” – com Becel, laranja de sobremesa. Não sei se levou a sério demais as orientações, se entendeu tudo errado, ou os dois juntos. Com raríssimas exceções, e sempre seguindo o mesmo modo-sem-graça de fazer, de segunda a segunda, incluindo feriados, lá estava a mesma gororoba no prato da dona Josephina.

Cresci achando que diabéticos só podiam comer aquilo. Que droga de vida, pensava. Ficava penalizada ao ver minha avó recusar um biscoitinho, um quitute diferente, ainda que sem açúcar. “Não posso”, sentenciava.

Então minha amiga, aos quinze anos, teve diabetes. E agora, o que seria dela?, lamentei. Só poderia comer arroz, carne cozida, pão sem glúten com Becel e laranja o resto da vida.

Belo dia, fui à sua casa e ela estava almoçando. Tomei um susto quando vi seu prato. Que variedade de cores, sabores, texturas, cheiros. Depois, vi que o café da manhã e o jantar também eram assim. Os pais dela estavam doidos, deduzi.

Não estavam.

Fora minha avó, e mais ninguém, que decretara que sua comida, a partir do diagnóstico, seria a mais insossa possível. Falta de criatividade ou equivocada resignação? Sim, há diabetes e diabetes. Mas nunca conheci um diabético que seguisse dieta tão miserável quanto a da minha avó. Definitivamente, não precisava ter sido assim.

Confesso que já fiz, e ainda faço, muita dieta. Só que de ideias. Vou cozinhando verdades únicas, servindo-me de pensamentos estreitos e acabo me satisfazendo com um caldo ralo de vida. Adoeço.

Faço terapia. Psicólogo é uma espécie de nutricionista. Agora ando incluindo mais opções no meu cardápio mental. Tenho comido ideias novas, bem temperadinhas.

Quero ser gorda. Gorda de mundo.

Mortadela

O dindim para o lanche da escola tinha destino certo: sanduíche de mortadela e guaraná Caçulinha para acompanhar. Na minha tabela nutricional particular, não havia culpa, nem preocupação. Só alegria saturada.

A receita: pãozinho cortado ao meio, duas fatias – para justificar o preço camarada – de mortadela. Frio ou na chapa, dependendo do dia. Da escola, é a minha lembrança nota dez.

A mortadela divide opiniões gastronômicas e sanitárias. Posso afirmar, no entanto, que o sanduba de mortadela da cantina foi a síntese condimentada da primeira fase de minha vida escolar. Deveria constar em meu histórico acadêmico, ao lado das notas de geografia e matemática. Apesar de não botar a iguaria na boca há décadas, é dele que me lembro mais, tanto tempo depois. Das matérias, nem tanto. Quer dizer, nunca esqueci o que são, num verbo, radical e desinência. Achava linda essa palavra, desinência.

Vanderlei e Marli. O casal simpatia que tocava a cantina da escola, seu ganha-pão-francês. Como a dupla conseguia atender todos no breve recreio, era um mistério. Dava o sinal e um enxame de crianças famintas se aboletava no pequeno balcão. Que mané fila única, o quê. Éramos alunos selvagemente civilizados. Ou civilizadamente selvagens. Se eu fechar os olhos, posso vê-los na minha frente, entregando o troco que eu nem conferia e enfiava nos bolsos do avental branco.

(Parêntesis: espécie de jaleco, o avental era a alternativa prática e detestável ao tradicional uniforme. Ia-se com qualquer roupa por baixo. Charme zero, tornando impossível desfilar a Levi’s ou a US Top novinha em folha. O meu vivia rabiscado de caneta e encardido, o chão era uma extensão natural dos bancos. No fim do ano, os colegas o assinavam, como lembrança para a eternidade. A eternidade dos meus não durava muito e logo eles iam para o lixo.)

A distância entre os hábitos alimentares de uma geração e outra é quase abissal. Ninguém se preocupava com glúten, lactose. Teor de sódio e prazo de validade não passavam pela nossa cabeça. E sobrevivemos. Mudamos muito no quesito comida. Recebo reclamações constantes dos meus filhos, por não fazer batata frita. Belchior estava enganado: não somos e nem vivemos como nossos pais.

Quando terminei o ginásio e precisei me mudar de escola, foi do sanduíche de mortadela que mais senti falta. Na nova não tinha. Eram as frustrações da vida se apresentando, fatia por fatia.

Nunca mais entrei na velha escola. Os amigos daquela época, nunca mais encontrei. O Vanderlei e a Marli? Nunca mais os vi.

Parece que toda saudade vem com um “nunca mais” dentro.

Álbum de figurinhas

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Luca está colecionando o álbum da Copa do Mundo. O avô ficou sabendo e reforçou o caixa do rapazinho. Agora, a banca de jornal perto da escola virou parada obrigatória. Ele conta: serão 32 seleções, 700 figurinhas. Pra que tanto futebol, meu Deus?

O único álbum que colecionei foi Galeria Disney, nos anos 70. Nele desfilaram quase todos os personagens que fundaram a minha infância (muitos nem da Disney eram). Tio Patinhas, Bela Adormecida, Branca de Neve, Donald, Peter Pan, Wendy e os meninos perdidos da Terra do Nunca. Matinhos e Duquesa dos Aristogatas, Professor Ludovico, João Bafo-de-Onça, Sininho (que eu me recuso a chamar de Tinker Bell). Pateta, Clara Bela, Bambi, Dumbo. Madame Min e Maga Patalójika, as bruxas descoladas. E tantos outros.

Levei meses para completá-lo, o orçamento era curto. Meus amigos também. A gente conseguia uns pacotinhos por semana e olhe lá. Para ter direito a figurinhas extras, só tirando ótimo na prova (prêmio) ou ficando doente (consolo na hora de tomar injeção). Fora isso, o negócio era juntar um dinheirinho aqui, outro ali, economizar no lanche e caprichar no escambo, trocando as repetidas.

Montar álbum era – deveria continuar sendo – exercício de paciência. E aquela figurinha rara, que nunca saía? Definição de frustração: desejar o Urso Puf (rebatizado para Pooh, efeito da globalização) e vir o Mogli, que eu já tinha três. Resignação: semana que vem, quem sabe?

Álbuns são importantes. Com eles, temos o que amamos sempre à mão. Contemplação ou pura forma de controle?

Enquanto Luca vai colando fragmentos da seleção da Tunísia, da República dos Camarões, da Suécia, eu também sigo, diariamente, colando figurinhas no meu álbum particular. Aquele, iniciado no dia em que nasci e em constante formação.

Em recordações autocolantes, vou construindo minha própria galeria de personagens importantes: antigos professores, amigos de ontem, de hoje e os que nunca mais vi. Vizinhos (os legais e os esquisitos também), todos os chefes que tive. Pai, mãe, irmãos, primos, tias e avós. A centena de bichos que já viveram comigo ou passaram pela minha vida. Meu fiel companheiro. E os filhos que, tal as figurinhas, também vieram em pacotinhos fechados; só fui sabê-los depois que abri. São minhas figurinhas carimbadas.

Ontem Luca quis me testar no jogo do bafo. Eu era razoavelmente boa nisso, quando criança. Na hora do recreio virava um tanto. Sentamos, eu e ele, no chão da sala. Que fiasco: não só não virei uma sequer, como fiquei com a mão em frangalhos. Perdi as manhas. Ele deu uma gostosa risada de deboche. Pronto: mais uma figurinha no meu infinito álbum de memórias.

O quadro

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No quarto dos meus pais havia um quadro de Jesus Cristo. Minha irmã conta que foi ideia do nosso avô. Provavelmente, para que Ele abençoasse o casal e a família. Ou para lembrar Seu Tonico e Dona Angelina que o filho de Deus estava vendo tudo, tudinho.

O quadro era grande e trazia um Jesus bonitão, loiro dos olhos claros, barba meio hipster. A moldura dourada tinha uma cordinha atrás para pendurar no prego, deixando-o levemente pendente para frente. O que talvez causasse ao Senhor certo constrangimento, de vez em quando.

De qualquer forma, minha mãe devia ter altos papos com o Jesus emoldurado. Contava-lhe dos filhos, das encomendas de tricô, dos apertos financeiros, as fofocas na família. Será que contou a ele quando ficou doente? Para nós, os filhos, não.

Foi nessa cama que nasceu, de parto normalíssimo, meu irmão mais velho. Ter Cristo assistindo ao vivo e em cores, abençoando tudo de pertinho, quem não haveria de querer? No entanto, comigo, a caçula, e minha irmã do meio, meus pais resolveram não arriscar, então nascemos no hospital. No meu caso, fez toda diferença: só estou neste planeta graças ao fórceps.

E a ideia do quadro só pode mesmo ter sido do meu avô. Ele mantinha um exército de santos em seu quarto, dispostos em um oratório ao lado do guarda-roupa. Eu tinha medo da santaiada, evitava entrar lá sozinha. Como se eu adentrasse uma festa sacra, e secreta, para qual eu nunca era convidada. Era nesse quarto também que meu irmão, o afilhado de Cristo por tabela, quando criança costumava ver freiras enfileiradas caminhando e sumindo através das paredes. Coisa que minha mãe tratou logo de resolver na Federação Espírita.

O Jesus Cristo loiro e cabeludão morou com a gente por muito tempo. Sua imagem estava incorporada ao quarto, à casa, à minha infância, adolescência, juventude. Tipo um parente. Lembro-me com exatidão de suas mãos, tão serenas, apesar das marcas da crucificação. Que sina, a dele; pregado na cruz, pregado nas paredes.

Quando minha mãe morreu, reconfiguramos os dormitórios e o quadro foi embora. Não sei que fim levou. Se o demos para alguém, ou se acabou indo para o lixo, de tão velho. É pecado jogar fora um quadro de Jesus, ainda que desbotado e carcomido pelas traças? E será que traças que moram em um quadro santificado, quando morrem também ganham o reino de Deus, fazem upgrade evolutivo e retornam à Terra como peixes?

Na nossa cozinha havia outro quadro, menor, da Santa Ceia. Vá lá: cozinha, comida, ceia. Mas deixar Cristo sobre a cama do casal? Que ideia, vô.

O gato preto

gato preto

Naquela manhã eu jogava conversa fora com os amigos nos jardins do Liceu (aula vaga ou intervalo?) quando o vi, através das grades do muro, passar pela calçada.

Tanta gente circulava pela rua Cantareira. E fui botar reparo no homem estranho, mal-ajambrado, de olhos vidrados e andar amalandrado. Na verdade, não foi nele que grudei os olhos. Foi no gato.

O homem trazia um gato preto ao colo. Levava-o junto ao peito, segurando-o firme pelas patas. O olhar do bichano era tão vidrado quanto o do homem, as orelhas estrategicamente abaixadas, para trás. Então eu, intuitivamente, soube. Ele, o gato, estava em perigo. Não pertencia àquele homem. Fora capturado. E, pelo jeito, estava prestes a virar tamborim. Ou despacho na encruzilhada.

Ninguém percebeu. Exceto eu, que nada fiz. E lá se foram, o gato e seu algoz. Pude ouvir seus miados, graves e agônicos. Os gatos sabem.

Eu quis fazer algo. Mas os alunos não podiam sair, sem autorização dos pais, antes do fim das aulas. Qual minha justificativa? “O homem vai dar cabo do gato, pelamor, abre esse portão!”. Dramático demais. Ninguém daria crédito à adolescente riponga que estaria, claro, a fim de cabular aula. Vamos supor que eu saísse e fosse atrás do homem. Aos quinze anos eu já falava com estranhos na rua, mas não com tão estranhos. “Moço, aonde você vai levar esse gato?”. E vamos imaginar que, depois do conversê, ele topasse me entregar o felino. O que eu faria com ele? Na escola é que ele não poderia ficar. Levá-lo comigo? Metrô e ônibus até em casa. Que já tinha tantos gatos.

E se eu estivesse redondamente enganada, e fossem apenas um gatinho fujão e seu dono, homem de bom coração, que saíra em seu resgate? Ou uma alma caridosa, recolhendo das ruas o peludinho abandonado, para lhe dar um lar? Pronto.

Não consegui, no entanto, enganar minha intuição. Ninguém consegue, aliás.

Sem dispor de argumento razoável para sair da escola, tampouco para ir ter com o homem, me conformei. Mentira, não me conformei coisa nenhuma. Tanto que guardo a sombria história até hoje, numa caixinha preta feito o gato, em uma das prateleiras da memória. De tempos em tempos o gatinho mia e tenta escapulir dela, arranhando algum pensamento.

E, se a conto hoje, tantos anos depois, é para purgar, numa espécie de acordo de paz comigo mesma. Naquela manhã, eu nada poderia fazer. Se é que havia algo a ser feito. Quem sabe, o pretinho estava com sorte e conseguiu fugir, nos quarenta e cinco do segundo tempo. Para o azar do homem estranho.

Bengala

bengala

Não se comprava pãozinho. Em casa, só bengala. Precisei explicar aos meninos do que se trata, porque hoje se fala baguete. “Mas bengala não é aquilo que os velhinhos usam?” Não, meus queridos. Bengala era o pão comunitário, que dava para todos. E a da minha infância era generosa, com jeitão de mãe que alimenta o mundo inteiro. Não era magrela, feito as francesas.

A padaria ficava na rua de cima. Eu gostava de ir com minha irmã. A calçada não era lá essas coisas. Então, invariavelmente, eu levava algum tombo. Chegava em casa ou chorando, ou de joelho ralado, ou no colo da minha irmã. Às vezes, as três coisas juntas.

Lembro do meu avô chegando em casa com a bengala, parcialmente embrulhada, embaixo do braço. E era a coisa mais normal. Vê lá se hoje alguém põe uma baguete no sovaco e fica por isso mesmo.

Quando foi que demitimos a bengala do cardápio brasileiro e contratamos a estrangeira baguete? A bengala é patrimônio da panificação nacional. Deveria estar na base da pirâmide alimentar. É pão amassado por Deus. O Pai Nosso merecia, aliás, revisão: a bengala nossa de cada dia nos dai hoje. Bengala é cult.

Quando o assunto aparece nas rodinhas, tem sempre um doido varrido que resolve discorrer sobre as diferenças entre bengala e baguete: o formato, a textura, a casca, a receita, as origens. Tudo para explicar o inexplicável.

Da bengala, tinha quem gostasse do bico. E havia também quem insistisse na infame piada-rima: pra ficar rico. Sempre deixei o bico para os outros. Vivo a consequência.

Quando eu era criança, a gente fazia pão de frigideira. Consistia em fatias da bengala com manteiga dos dois lados, levadas ao fogo até ficarem douradinhas. Outro dia, no mercado, pedi: “Quero uma bengala”. E a mocinha, fingindo confirmar: “A baguete?. Não dei o braço a torcer: “Isso, a bengala”. Quando a gente tem cinquenta anos fica, geralmente, ranzinza. Cheguei em casa e fui tentar reviver a iguaria. Busquei na memória a largura exata da fatia, tentei reproduzir a quantidade da manteiga, apanhei a panela mais parecida com a da minha mãe, calculei a altura da chama, o tempo. Evidentemente, não ficou a mesma coisa. Praga da mocinha lá.

A corda

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arte: Charlotte Voake

Um dia, ganhei do meu avô uma corda de pular. Não dessas de brinquedo, comuns. Corda de verdade. Seu Paschoal comprara na casa de materiais de construção. Compridona, cinco metros. Eu a levava, enrolada numa sacola, para a escola. E a brincadeira na hora do recreio estava garantida. Ninguém tinha igual. Cinco metros, meu bem.

Eu era boa de pular corda. As amigas, uma em cada ponta, começavam bem devagar e iam aumentando a velocidade. A modalidade mais rápida de todas se chamava foguinho, e não era para qualquer um – nem para quem pulava, nem para quem batia. Aprendi a entrar e sair com a corda em movimento, pensa que é fácil? Requer tanto cálculo quanto matemática, só que de outro tipo. Em matemática eu não era boa, não. Mas dava meus pulinhos.

E aquela corda virou, assim, uma espécie de unidade de medida, minha referência mental para tudo. Se eu queria calcular tamanho ou distância, bastava pensar nela. O Corcel do meu pai, que nós inventamos de pintar em casa e ficou bem feio? Uma corda de comprimento. Da sala até a cozinha? Uma corda e meia. O pinheiro da vila, plantado quando meu irmão entrou na faculdade? Ficou com duas cordas de altura, antes de ser cruelmente derrubado. Depois era só converter em metros, a unidade padrão aceita mundialmente pelos homens sérios que não entendem nada de pular corda, nem de pinheiros.

Aliás, ainda se pula corda? As crianças aqui do pedaço, não. Meus filhos nem têm uma – falha nossa. Dá tristeza pensar que, um dia, isso se torne coisa do passado. Feito latim, a língua morta. A gente sabe que existe, topa com ela de vez em quando, mas não usa para nada. O que foi feito do passa-anel, da uma-na-mula, do telefone-sem-fio, da cabra-cega, do corre-cotia, da amarelinha, do esconde-esconde? Sumiram dos páteos das escolas, das ruas, são brincadeiras mortas. A vida seria mais interessante se as brincadeiras legais de ontem andassem juntas com as brincadeiras legais de hoje. Pois cabem todas numa infância. Ou, quem sabe, isso é papo furado de quem já passou dos cinquenta, de gente que ainda fala papo furado. E sobre isso eu poderia falar horas. É só me dar corda.

Ontem me peguei tentando calcular uma distância no meu quintal. Recorri, sem perceber, à velha corda. Lembrei do Vô Paschoal que, se ainda vivesse neste planeta, faria 110 anos. Tentei medir o tamanho da súbita (quase doída) saudade que me deu dele. Não houve corda suficiente.

Besourada

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— O que você fez no Carnaval?

— Desvirei besouros.

No sítio, à noitinha, a varanda vira um besouródromo. Como não têm um bom plano de voo, esses bichinhos errantes se lançam no ar como dá. E, às vezes, não dá. Esborracham-se nas paredes, nas janelas venezianas. Não é fácil ter exoesqueleto.

Quando vou ver estão no chão, as perninhas pro ar. Feito baratas – certamente há parentesco entre eles – tontas. Debatem-se à espera do milagre. Alguns alcançam a graça da desviração. Outros, não.

Compadecida, entro em cena. Com um galhinho do pé de romã, vou desvirando um por um. Aconselho-os a não voarem próximo às paredes. Eles não me ouvem, sequer agradecem. Onde ficam os ouvidos do besouro?

Na escola, li O Escaravelho do Diabo. Por obrigação, ia ter prova. Esqueci o enredo, mas sei que não tem samba. Recorro ao Google. Enquanto desviro mais um, dos grandes, sinto o arrepio que vai de ponta a ponta do meu endoesqueleto: será que também morrerei amanhã com uma espada cravada no coração? As vítimas do assassino em série, na história, recebem uma misteriosa correspondência contendo um besouro. São ruivas e sardentas. Sardenta eu sou. Os cabelos deram uma desbotada depois que tingi. Estou salva? Se o assassino for exigente e só escolher legítimos vermelhos, sim.

Na primeira noite, desvirei uns dez. Manhã seguinte, tristeza: muitos chegaram depois que fui dormir e, quedados, não conseguiram se desvirar. Consumidos pelo cansaço, os foliões alados pereceram antes do raiar do dia. À noite, lá estavam outros desfilando seu voo incerto pela varanda, vários já de pernas pro ar. Pacientemente, fui desvirando todos. Na verdade, estou interferindo na seleção natural, desequilibrando o sistema, causando uma besourada. Que bicho tem coragem de comer um besouro? Só os de mandíbulas (e garganta) corajosas.

Vendo os besouros, lembrei dos nossos Fuscas. Meu pai teve dois, quando eu era criança. Um cor de pérola, chegamos a farofar em Santos várias vezes com ele. Inexplicavelmente, recordo sua placa: BG-7542. Informação sem qualquer serventia. O outro era azul, transformado em táxi. Seu Tonico trabalhou durante anos, como se dizia, “na praça”. Esse não tinha o banco direito da frente, e para fechar a porta quando o passageiro entrava havia uma cordinha que ia do freio de mão até o puxador da porta. Eu gostava da cordinha. Por vezes fiz escândalo, queria ir junto nas corridas. Ele e minha mãe explicavam que não podia, onde já se viu, o que os passageiros iriam pensar. Isso se algum passageiro fizesse sinal, pois logo veriam uma cabecinha atrás e concluiriam que o carro estava ocupado. Eu prometia ficar bem abaixadinha. Quando se é criança, nada é impossível. Besouros são, do ponto de vista aerodinâmico, bichos impossíveis.

E quando me perguntam o que fiz no Carnaval, digo, basicamente, que desvirei besouros. O Bloco dos Encouraçados Voadores só saía à noite. Eu ficava de prontidão com o galhinho de romã, sentindo-me a rainha da bateria dos coleópteros.

Cada um com sua fantasia.

Reveiôn

foto: Simone Huck

Contabilizo, com o que inicia nas próximas horas, meu 51º ano novo. Sou dona, portanto, de cinco décadas de anos velhos.

Anos passados merecem respeito. Lembra? “Respeite os mais velhos”. Apesar disso, nem sempre cuidamos bem dos nossos velhos. E eles têm muito a ensinar. Ano velho também dá no couro, tem gás, pode ser útil. Não precisa se aposentar e ficar o dia inteiro de pijama (embora ficar o dia inteiro de pijama seja a quinta-essência). O fato é que ano velho não merece o adeus da velha canção, em contraponto à (incerta) felicidade do que está por vir.

O reveiôn a gente passava em casa, tinha comida especial e roupa bonita. Alguém estourava o champanhe barato e o ano novo estava oficialmente inaugurado. Depois da meia noite, os amigos da minha irmã, mais velha que eu, passavam em casa, para de lá irem às casas de outros amigos, formando uma comitiva em homenagem ao ano estreante. Se o Natal era em família, Ano-Novo deveria ser entre amigos. Eu não via a hora de ser grande para fazer o mesmo. Cresci e isso não aconteceu. As vontades mudaram, os amigos envelheceram. Alguns morreram novos, permanecendo assim nas lembranças. A morte congela a idade. Quem morre jovem se divorcia do tempo e não envelhece nunca.

Confundia-me ao escrever Réveillon. Errava o lugar do acento, dobra o L ou não? Certeza, só a de que mais cinco meses e seria meu aniversário. Aniversário é o ano novo da gente.

Aprendi depois que réveillon é uma palavra francesa, derivada do verbo réveiller, que significa despertar, acordar, no sentido simbólico. O que não deixa de ser interessante; no réveillon a gente não tem hora para dormir.

Tem gente que desfila, com pompa e orgulho, sua galeria de anos velhos pelas fotografias da estante. Há quem os coloque no asilo da memória. E só os visite – que ironia – uma vez por ano. Ou nem isso.

O reveiôn da minha infância não se parece em nada com o Réveillon da minha adultice, exceto pela similaridade calendárica. Aquele, sem L e sem sotaque estrangeiro, perdeu-se em algum ano velho e eu não consigo mais encontrar.

A gente tem saudade de ano velho, não de ano novo. Ano velho é porto seguro. É colo familiar, cheiro sabido, música conhecida. Ano novo é incógnita, palpite, candidato a ser feliz.

Com quantos anos velhos se faz um ano novo?

A promessa

cabelo

Prometi à Nina deixar meus cabelos crescerem.

Logo eu. Que, apesar de ser lembrada como cabeluda pela turma da escola, não uso nem um fio abaixo do queixo desde que ela nasceu, há onze anos. Eu, que sou devota de São Joãozinho. Eu, que tenho quimeras antigas com a máquina dois.

O limite negociado foi o ombro.

Tem gente que promete, em nome de nobre causa, não comer chocolate. Subir de joelhos intermináveis escadarias. Cortar – veja só – os cabelos. Eu não. Eu prometo deixá-los crescer um quarto de metro. Cada um com a sua provação.

De criança, minha avó penteava meus cabelos para eu ir à aula. Contrariada, subia no bidê para facilitar o trabalho dela. Que tinha mão pesada, puxava com força (e algum mau humor) minhas extensas e quase sempre embaraçadas madeixas. Não havia esses condicionadores bons de agora. Nem os ruins a gente tinha, era xampu e olhe lá. Eis que surge, para nossa salvação, o Neutrox. Creme amarelo, inovador e relativamente barato que dissolvia nós como que por encanto. Um dia, hipnotizada pelo seu aroma adocicado, não resisti. Comi.

No caso da minha promessa, a nobre causa não foi motivo de doença, nem de milagre solicitado, tampouco de graça alcançada. “Mãe, deixa o cabelo crescer um pouquinho só?” – foi o (reiterado) pedido da caçula. Lasquei-me. Como negar? Desde então, tenho recorrido às faixas, lenços, tiaras e adereços que me façam enfrentar a (longa) temporada com algum ânimo.

Exibi imensa cabeleira até os vinte e cinco. Cultivada quase por acaso, em um misto de esquecimento de cortar com ideal de beleza. Acreditava que era assim que tinham que ser os cabelos de uma mulher, feito verdade irrefutável (não é). Fui dessas de aterrorizar o cabeleireiro, caso o infeliz cruzasse a fronteira do “só as pontinhas”. Como se minha vida não fosse funcionar de outra forma. Os cabelos eram longos, mas as ideias eram curtas.

Todos os dias me olho no espelho ao acordar, na esperança de que alguma mágica tenha se dado durante a madrugada e meus fios tenham adquirido o DNA do bambu. Cogito negociar com a Nina, quebrar a promessa. Trocá-la por um brinquedo novo, quem sabe? Mas aí lembro de seus desenhos, quando era pequenininha. Neles, sempre fui representada com arquetípico cabelão. Desisto da negociação, respiro fundo e sigo em frente. Tanta coisa que ela me pede e eu, por incompetência ou falta de vontade, deixo de atendê-la. Ser mãe é carregar uma eterna e cabeluda culpa sobre os ombros.

Ano que vem faço cinquenta e um, a idade da minha mãe quando morreu. Dona Angelina perdeu todos os cabelos na quimioterapia. Pensei em uma homenagem póstuma, raspando os meus. “Vê? Também estou carequinha da silva”, direi-lhe em pensamento. Estarei três décadas atrasada, é verdade. Mas ela há de entender. Mães são atemporais. Além disso, comprida mesmo é minha saudade. Dá até para fazer trança.

O amolador

foto: arquivo pessoal

Ontem vi o amolador de facas. Daqueles que andam com suas bicicletinhas pelas ruas.

Poderia jurar que eles não existiam mais. Que estavam extintos, feito o rinoceronte negro. Que haviam sucumbido à obsolescência programada, “Compre facas novas!”. Que tinham, enfim, ficado na Mooca da minha infância.

Como o que de tempos em tempos adentrava a vila pedalando sua bicicleta mágica, tocando a inconfundível melodia na flauta pan, avisando as freguesas que ele estava no pedaço. Meu avô, às vezes minha avó, atentos às mensagens sonoras do bairro, desciam as escadas trazendo os utensílios que precisavam de um trato. Uma faca embotada, alguma tesoura cega, um alicate de unha. Então a bicicleta, tal um Transformer, virava a geringonça de afiar. As rodas ficavam suspensas numa espécie de cavalete e, ao pedalar em falso, o esmeril girava. O ritmo era importantíssimo: nada de corrida, que aquilo não era aula de spinning. Devagar, ele ia pedalando e afiando, afiando e pedalando, parando de vez em quando para conferir se já estava bom. Eu achava engraçado o nome da profissão, “amolador”. Amolar, para mim, era incomodar. Tinha um garoto na escola que me amolava. Puxava meu cabelo, inventava apelido. Ninguém sabia onde o amolador das facas morava, nem mesmo seu nome. A gente só sabia que ele aparecia de vez em quando. Um senhorzinho acima de qualquer suspeita. Deveria ser o avô querido de alguém, um tio zeloso, um pai de família. Pode ser também que não tivesse ninguém e vivesse sozinho. Sabia que o rinoceronte é um dos animais mais solitários do mundo?

A freguesa apareceu no portão. Ela traz a faca de cortar bife. Ele examina o fio, faz muxoxo. É, não está boa, não. Hora de o Transformer entrar em ação. Pena, cheguei tarde; não sei se ele anunciou sua chegada no quarteirão, como fazia o amolador do meu passado. Que não incomodava ninguém.

Na minha rua não passa afiador. Nem de faca, nem de alicate, nem de tesoura. Nunca mandei, aliás, afiar minhas facas. Existe amolador de alegria? A minha bem que anda precisando. Às vezes, sinto-me como o amolador: pedalo, pedalo, e não saio do lugar.

A freguesa avalia o resultado, faz sinal de aprovação com a cabeça. De longe, ela se parece com minha avó. Minha avó tinha facas bem afiadas. Língua também.

E eu pensando que os amoladores ambulantes haviam ficado na Mooca da minha infância. Vai ver, o de ontem é um deles. Veio pedalando, no tempo e no espaço. Levou quarenta anos. Finalmente chegou.

Lição de empatia

cesto lixo

Depois da aula, eu e uns amigos tivemos a brilhante, a estupenda, a fabulosa – só que não – ideia de virar o cesto de lixo que ficava na sala de aula, dentro da sala. Por que, nunca soube. Quando se tem nove anos, nem tudo carece fazer sentido.

Só que a mãe da Gislaine era faxineira na nossa escola.

Ela, claro, não participou da brincadeira sem graça. Quando viu aquilo, sentiu um misto de tristeza e raiva: “Poxa, gente. É a minha mãe que vai ter que limpar isso, vocês sabiam?”.

Gislaine usava óculos grossos, meio “fundo de garrafa”, como se dizia. Gostava dela. Quando chamou nossa atenção, fiquei desenxabida. A ideia não era chatear a sua mãe. Então, pensei grande: uma coisa era ela recolher o lixo naturalmente produzido nas salas, aquele que se acumula no final do período, papéis amassados, rascunhos de lição, restos de lápis apontados. Era o trabalho dela. Outra coisa, completamente diferente, era recolher um lixo intencional, jogado ali de propósito, quase na maldade (ainda que não fôssemos maus).

Mais tarde, pensei maior: a gente não deveria ter feito aquilo. Não porque se tratava de alguém com uma espécie de vínculo conosco que limparia a sujeirada. Uma pessoa teria que fazê-lo. E eu não gostaria de estar no lugar da mãe da minha amiga, ou de quem quer que fosse encarregado da tarefa.

Empatia também se aprende na escola. E nem precisa de livro.

Saudade da Gislaine.

Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

A aula

telefone 3

Gostava de ouvi-lo ensinar como funcionava o telefone. Eu sentadinha à mesa da cozinha, maravilhada com meu pai explicando coisas sobre voz, eletricidade e cabos. Suas mãos iam simulando, sobre a toalha estendida (a xadrezinha?), o caminho que a chamada percorria para ir de uma ponta à outra. Eu ficava maravilhada com a tecnologia e com meu pai, que sabia tanta coisa (ainda que não soubesse tanto assim). Cheguei a pedir-lhe várias vezes para repetir a “aula”.

Ontem liguei para ele. Seu Tonico não é, mas estava especialmente surdo. Pediu notícias das crianças, dei, não sei se ele ouviu; só soltou um Aaah. Contou-me que havia varrido todas as folhas secas pela manhã. Perguntei-lhe se havia almoçado direitinho. Ele continuou falando da varrição. Lembrei-me da velhinha surda d’A Praça é Nossa, aquele programa de TV. E ri. O script agora é outro.

Enquanto ele discorria sobre a trabalheira que as folhas lhe deram, lembrei-me da aula do passado. Meu pai ensinou-me sobre algo que, hoje, tem dificuldade para usar. Na nossa breve conversa, o meio era a mensagem.

E agora, quando o visito, sou eu que ensino a ele como funciona uma ligação pela internet. Apanho o celular na bolsa e ligamos para minha irmã, sua filha do meio, que mora em outro país. Ele tem telefone, mas não acerta ligar para ela, muitos números. E não adianta colocar o numerão na memória do aparelho. A memória que não funciona bem é a dele. Vou demonstrando a mágica da chamada. Mas não tem mais a mesa da cozinha, nem a cozinha. Nem as toalhas. Mas tem ele, feito criança, maravilhado com a tecnologia e comigo, que sei tanta coisa (ainda que não saiba tanto assim). E, assim que minha irmã atende, ele passa a falar muito alto no aparelho, como se fazia antigamente. Eu que não vou ensiná-lo que não precisa mais.

Manhatã

manhattan

Passei horas vendo fotos antigas dos meninos. Ele e ela são novos, mas já têm fotos antigas. O tempo é democrático.

Para além dos penteados que há muito eles não usam, reparei bem nas suas roupas. Ativada pelas imagens, lembrei-me de todas, todinhas. Vestidos, bermudas, camisetas, casacos, gorros que viraram apenas registro fotográfico e memorial. É a desvantagem do ser crescente – as roupas se vão, sempre – , contrapondo à vantagem do ser crescido: mantenho comigo algumas peças de quase vinte anos atrás.

Na lembração, abri o imenso armário da memória, revirei velhas gavetas da infância e me vi diante das minhas próprias roupas tamanho 10.

A camiseta com estampa de pequenos polvos, um clássico da Hering. A bata de lastex com alcinhas que amarravam no ombro. Outra bata, de algodão verde-água (usada na primeira vez que fui ao Teatro Municipal e me apaixonei pelo garoto loirinho que estava com seus pais no foyer, mas essa é outra história). O jeans US Top que raramente ia para o tanque, eu não queria que desbotasse. O vestido longo azul-marinho de micro-bolinhas brancas e alguns babados, comprado com sacrifício na loja da Rosinha e que esteve presente em vários casórios da família, até ficar curto.

Remexi mais alguns cabides imaginários e lá estava ela. Aquela camiseta. Tão simples, de malha. Regata? A inscrição na frente: Manhattan. Que eu ainda não sabia exatamente o que era. Eu a adorava, isso eu sei. A camiseta do Manhatã. Ma-nha-tan, e não Man-rá-tan. Se não estou delirando, ela tinha desenho de uns prédios e um macaco. King Kong?

Na brandura dos meus nove anos, não fazia questão de decifrar a ilustração. Também não me recordo de alguém ter ensinado, “Manhattan é um distrito de Nova York”. Isso não tinha a menor importância. Eu só gostava dela, assim, despretensiosamente. Talvez, pelo macaco. Jamais questionei o fato de levar no peito mensagem de coisa tão distante do meu mundo.

Adulta, visitei Manhattan, digo, Manhatã. Gostaria de poder narrar um fabuloso insight associando o passeio e a velha camiseta. Falhei miseravelmente. Na época, esqueci de me lembrar dela. Ela, que me acompanhou nos passeios, e também ficou em casa comigo em meus nada-fazeres. Ela, que quando ficou pequena ou puída demais, foi embora, como todas as outras. Ela, que não tenho um registro sequer. Ela, que permanece vestindo minhas memórias com sua doce trama de algodão e saudade.

Encerrei a sessão de fotografias recém-antigas. Meus filhos cresceram, em tamanho e em vida. As roupas que decoram os cliques foram, há tempos, agasalhar outras histórias. Mas continuam guardadas em nossos armários digitais. Até que as traças do esquecimento, impiedosas, as devorem.

Estrogonofe

fogão

Sempre tinha estrogonofe de frango no bandejão do jornal. Eu gostava só do creme. E do champignon.

Quando chegava minha vez, eu deitava a concha no réchaud bem devagar, aguardando o caldo enchê-la e cuidando para que não viessem junto os pedaços de carne. Em seguida, pinçava cirurgicamente alguns cogumelos. Na mais santa paz, sem pressa, para eventual desespero dos colegas atrás de mim.

As moças do restaurante ficavam por ali, ajeitando a comida remexida pelas pessoas, repondo o que acabava, explicando o recheio do capelete. Garantindo, enfim, o bom andamento da sagrada refeição, antes do retorno de todos à labuta.

Bastaram, no entanto, algumas vezes para a moça branquinha de touca idem me flagrar na estranha operação. Veio perguntar. Respondi.

Dali para frente, quando era dia de estrogonofe e ela me avistava na fila, já acenava. E corria para dentro da cozinha. Logo reaparecia no salão, trazendo no rosto um sorriso e nas mãos um prato só com o creme. Muitos champignons extras, certamente colocados na hora. Tudo salpicado de cheiro verde, de modo a ficar bonito. Aquilo era para mim. Eu só completava com arroz, batata palha e ia me esbaldar com meu almoço exclusivo.

É claro que sempre lhe disse “obrigada!” pela gentileza. Não sei, porém, se cheguei a agradecê-la a contento. Porque esse é o tipo da coisa que se deve agradecer grandemente. Registrar, enfatizar. Era o caso de chamá-la num canto e dizer o quanto eu me sentia especial com sua atitude (por mais simples que soasse), ou de elogiá-la para sua chefe. Perdi a chance. E jamais saberei por onde anda a moça alva. Só queria agradecer direito, vinte anos depois. Gratidão retroativa nem sempre é possível, tampouco surte o mesmo efeito. Gratidão deveria ser disciplina obrigatória já na pré-escola.

Era pequena, a moça. Delicada, falava baixo, os gestos humildes. Olhos claros, talvez? Nunca soube a cor de seus cabelos. A touca asséptica escondia sua identidade. Questões da vigilância sanitária. Talvez ela não fizesse ideia de que realizava, em meio a arrozes e feijões e talheres e azulejos brancos feito sua touca, o que muita empresa, com seus múltiplos recursos e ferramentas e aparatos tecnológicos, não é capaz de fazer. Naquele refeitório, eu era uma “cliente” absolutamente feliz e satisfeita. Inclusive nos dias em que não tinha estrogonofe.

Ontem lembrei-me dela mais uma vez, enquanto fatiava champignons e abria a caixinha de creme de leite.

Certos alimentos, dizem, são bons para a memória. Estrogonofe faz bem para a minha.

O sapato cinza

salto alto

Desde sempre, Nina é doida por um certo par de sapatos meus. O cinza, de salto alto, largas tiras de camurça. Coisa de mulher, não de criança. Ela, de pequena, sonhava com o dia em que iria usá-los. Prometi que os guardaria, seriam dela quando crescesse. E, como os uso pouco, estariam conservados para a nova dona. Uma espécie de herança, de mulher para mulher.

Enquanto esperava o tempo fazer seu trabalho, ela brincou de desfilar com eles pela casa, tal aquelas cenas dos comerciais e anúncios de revista. Pezinhos número vinte e sete perdidos na imensidão do trinta e cinco, arrastando o sapatão para lá e para cá. Fazia pose, mirava no espelho sua silhueta torta, necessária ao equilíbrio anti-natural.

Embora não me recorde com precisão, devo ter brincado com os sapatos da minha mãe. Fingindo a mulher que nem brotara, em clássico exercício de feminilidade. Mas diverti-me muito, disso me lembro bem, com suas jóias e bijuterias. Dona Angelina, bastião do desapego, não ligava se íamos para o quintal com seu anel de rubi. Aliás, também não se importava de promovermos chás das bonecas com suas delicadas xícaras de porcelana. E minha vontade de ser mulher grande ia além: um dia, inventei de sair de casa usando Modess. Eu devia ter oito anos. Nos anos 70, não tinha esses absorventes fininhos, eficazes e ultradiscretos de hoje. O volume extra na calça não me pareceu muito confortável, voltei para casa e joguei fora. Sem contar as bolas de meia no sutiã surrupiado da irmã mais velha, inventando os peitos que ainda demorariam para aparecer. Eu não via a hora de, enfim, ser grande. Entendo a Nina.

– Você está guardando os sapatos pra mim, né mãe? – ela checava, de tempos em tempos. Sua alegria morava no meu sim.

Não por muito tempo, no entanto.

Grandona, Nina, aos dez, já calça dois números a mais que eu. Cedo, ainda, para o almejado sapato cinza. Partiu meu coração sua decepção, quando se deu conta. Por um tempo, ela continuou brincando com eles. Os dedinhos, espremidos, denunciavam o não-cabimento. Aos poucos, desistiu. Uma experiência importante a compor sua fundamental coleção de frustrações, rumo à maturidade.

Hoje, ela se contenta em elogiar quando eu os coloco – mesmo sabendo que eles jamais a acompanharão em seus passeios. São seus sapatos, sem nunca terem sido. Ela questiona por que não saio com eles todos os dias, afinal, tão bonitos. Logo eu, filha! Que, apesar de ter ido para a maternidade tê-la – e seu irmão – com plataformas altíssimas, para desespero da Dra. Clara, hoje fujo de todo salto que ultrapasse a medida de quatro dedos da mão.

Envelhecer é, entre outras sabedorias, não considerar mais um suprassumo usar Modess (ou qualquer de suas variantes), nem sutiã (ah, a liberdade que os peitos pequenos conferem), tampouco saltos que desafiam a gravidade e o bom senso.

Num futuro próximo, Nina terá seus próprios saltos. Seus próprios absorventes e sutiãs. Sua própria mulherice, enfim. E as lembranças das brincadeiras com o velho sapato cinza também ficarão pequenas. Mas continuarão a servir no coração – dela e meu.

Doris Day, a gata

gato

Fui dar uma volta pelo centro de São Paulo, aproveitei para revisitar velhos lugares. Não os tradicionais, como Praça da Sé, mas os meus cartões postais particulares.

Como a esquina onde ficava a Loja Piter, atrás do Teatro Municipal, e eu, adolescente duranga, cheguei a flertar com uma calça baggy verde-limão. Que nunca foi minha.

E a loja na galeria da Barão de Itapetininga que vendia imensos, encantadores e utópicos relógios carrilhões; eu gostava de passar ali em hora cheia, só para ouvi-los. O tempo, não à toa, é o pai da música.

E a banca de jornal, ao lado do metrô Anhangabaú, que nem estava no roteiro. Aquela banca. A mesma onde, em seis de abril de 1990, ao sair da estação a caminho do trabalho (o falecido Diário Popular), avistei um trapinho peludo e mirrado tentando, em vão, caminhar entre as pessoas. Tantos sapatos apressados! Lembrei do momento em que recolhi aquela gatinha-filhote do chão e coloquei-a no meu colo. Ela, exausta, se aninhou. E, para meu completo e irreversível sucumbimento de amor, adormeceu.

Uma voz dizia, “Pensa, Silmara, pensa”. Levar a gatinha? Já havia tantos em casa. E levá-la para onde, às oito da manhã? Deixá-la ali, para ser pisoteada? Fui ter com o dono da banca:

— Essa gatinha é sua?

— Não… – ele respondeu, desinteressado – Apareceu aí.

A voz: “Pensa, Silmara, pensa”.

— O senhor pode cuidar dela até às 18h? É a hora que saio do trabalho, passo para buscá-la. (claro que não conjuguei assim, tão perfeito)

— Ela vai ficar por aí; depois você busca, então.

Foi a forma abreviada e educada de ele dizer: “Mocinha, eu não estou nem ligando para esse bicho nojento, não vou cuidar dela coisa nenhuma, tenho mais o que fazer. Se ela estiver aqui quando você voltar, ótimo.”.

“Pensa, Silmara. Mas pensa rápido. Quer chegar atrasada?”

Abri minha mochila com estampa de florzinhas e enfiei a gata nela. Com o cuidado de deixar uma frestinha para ela respirar.

Cheguei ao jornal, tomei o elevador. Torcendo para que o fato de minha mochila se mexer sozinha não chamasse muito a atenção. Ao menos, até chegar ao quinto andar ela não miou, nem fez xixi nas minhas coisas. Ao chegar na sala, mostrei a novidade aos colegas, não sem antes garantir que eles não contariam a ninguém.

E a manhã no departamento de marketing foi assim: cuti-cuti pra cá, cuti-cuti pra lá, um desceu na lanchonete e comprou misto-quente para a mini-bichana, outro trouxe leite. Trabalhar que era bom, necas.

Na hora do almoço, a fim de evitar dissabores caso o chefe, lá na outra sala, resolvesse encrespar com a presença felina, levei-a para a casa do Daniel, meu namorado, que morava por ali. Durante a manhã, sondei quem poderia ficar com ela. A Paula, que fazia aniversário naquele dia, topou. Um combinado que logo se desfez, posto que eu estava irremediavelmente apaixonada pela Doris Day – nome que dei àquele trapinho peludo e mirrado. Se foi por causa da atriz, não me lembro. Só sei que aquela mini-diva preta-e-branca era minha e ninguém tascava.

Doris, a miúda, foi um dos bichinhos mais doces que já habitaram a casa 1 da pequena vila da Mooca. Tinha um dedinho defeituoso – certamente, culpa dos sapatos apressados – e uma vez deu cria embaixo da geladeira. Só fomos localizar os natimortos dias depois.

Quando me casei (não com o Daniel) e fui morar longe, ela continuou vivendo feliz da vida com meu pai. E, numa manhã de dois mil e quatro, recebi um telefonema. Doris fora encontrada agonizando, no portão. Nunca soubemos o que aconteceu. Levada às pressas ao veterinário, não sobreviveu. E não cheguei a tempo de me despedir. Não rolaram mais seis vidas para que eu o fizesse. Ou rolaram, ou ainda estão rolando, e eu que não sei.

E se o dono da banca ainda fosse o mesmo? E se eu prestasse atenção e visse, por ali, um frajolinha perdido? E se eu tivesse me casado com o namorado? E se a Paula tivesse ficado com a Doris? Tem lembrança que surge recheada de pergunta inútil, mas que é feito gato: é só a gente passar a mão, que logo começa a ronronar dentro da gente.

O disco

vinil

A vizinha veio mostrar, toda feliz. Comprara o LP do Ruy Maurity, que tinha o hit Nem Ouro, Nem Prata. De chumbo eram os anos 70, mas a gente não sabia disso. Subimos correndo a escada da sua casa, pegada à nossa. Ela aumentou o volume no máximo que a vitrolinha ordinária permitia. O chiado da agulha. Em seguida, a batida:

Eu vi chover, eu vi relampear

Mas mesmo assim o céu estava azul

Sabíamos a letra de cor. A felicidade era feita de vinil, meu bem.

Eu tinha nove anos; ela, uns treze. Ficamos amigas assim que se mudaram, ela e a mãe, para a vila. Rosana, seu nome.

Ouvimos a faixa à exaustão, nem quisemos saber do resto. E sua mãe chegou. Costumeiramente simpática e sorridente, naquele dia ela escalou, visivelmente cansada, o lance de escadas. Cumprimentou-me. Rosana abaixou o volume, beijou-a. Achei que era hora de voltar para minha casa, ainda tinha lição para fazer.

Mal terminara de descer os degraus, a música parou. Ouvi tapas e gritos. A Rosana estava apanhando. Pelo tom da briga, entendi. Quem mandara comprar disco? Onde já se viu gastar, sem autorização, o ouro suado, a prata rara?

Desacelerei o passo, enrolando para chegar ao meu portão, a menos de cinco metros dali. O ouvido em pé, o coração apenado. Quis voltar lá, defender minha amiga. Mais gritos, mais tapas. Melhor não. Fechei rápido meu portão, subi as escadas e sumi quintal adentro.

Ontem a música, tão esquecida quanto minhas vizinhas, tocou na rádio. A lembrança surgiu num átimo, e ficou girando na minha cabeça feito disco riscado. Por onde elas andariam?

Nunca apanhei. Quer dizer, já tomei (ao menos) um grande tapa. E já tive que devolver uma coisa que comprara sem permissão. Nunca levei surra, no entanto. Nem quando desenhei com canetinha na parede da sala. Ou quando tomei todos os Yakults de uma vez e jurei que não tinha sido eu. As infrações da minha infância estavam sujeitas a um código penal bem mais camarada.

Não me recordo dos dias que se seguiram. Se fui procurar a Rosana para saber se estava tudo bem. Se sua mãe ficou brava por muito tempo. Se tornamos a ouvir o disco, pivô da sova. Tempos depois, elas se mudaram dali. A vida na casa 1 era assistir vizinhos chegando, vizinhos partindo. E a gente ficando. Isso dá música.

Só sei que naquele dia choveu e relampeou feio na casa 2. Mas mesmo assim o céu na nossa pequena vila estava azul. Fui fazer minha lição. Que a Rosana havia, por torto método, aprendido a dela.

Três não é demais

orelha

Nina quis saber por que tenho três furos na orelha direita e só um na esquerda. Então a história, guardada em um buraquinho da minha memória, saiu para passear.

Naquele dia, voltei da escola decidida. Na manhã seguinte, os colegas me veriam com furos extras nas orelhas. Um eu já tinha. Os originais, feitos quando eu era bebezinha.

Certifiquei-me de que estavam todos ocupados em casa e rumei ao quarto da minha mãe. Afinal, para que recorrer à farmácia, gastar dinheiro, se agulha e um pouco de álcool bastariam? Eu era rústica e não sabia.

O álcool foi fácil. Peguei o que a gente usava na limpeza da casa – crente de que ele exterminaria qualquer bactéria mais atrevida. A agulha veio direto da caixinha de costura da Dona Angelina.

O plano: dois novos furos, um em cada orelha. Comecei pela direita. Providenciei a assepsia, ensaiei, respirei fundo. Segurei firme a agulha, mirei e pá.

A dor, completamente fora do meu script particular, não foi proporcional à profundidade que o artefato atingiu. A agulha entalou. Já não podia retirá-la facilmente, mas ela também não atravessara o lóbulo. Olhei-me no espelho. Tão pouco juízo para quinze anos. Se alguém entrasse no quarto, diria que estava em uma sessão de acupuntura, andava com enxaqueca. Desculpa furada?

Nina, a caçula, ouvia tudo com atenção. Ela, que nem bem chegara ao mundo, também teve suas mini-orelhas furadas. A madrinha assumiu a missão afetiva de acompanhá-la no rito ancestral. Apesar da bravura dos tempos idos, eu não reunia condições de ver meu próprio rebento sendo espetado.

Segurei o choro e empurrei a agulha um tiquinho mais, piorando significativamente a situação. Sangue, dor e agulha entalada. Perguntei à Silmara do espelho onde é que ela havia se metido. Não houve resposta. Pedir ajuda? Vô Paschoal, no quintal, viria em socorro da neta, não sem esbravejar com bom sotaque italianado. Sempre que ficava muito bravo ou muito alegre, as origens do velho torcedor do Palestra ressurgiam. Correr para a farmácia do Archimedes? Levaria um polido sermão do polido farmacêutico, “Sua mãe sabe disso, mocinha?”. Lançar tendência com a agulha, antecipando a moda do piercing? Ou migrar para o país do espelho, feito Alice? As dúvidas da minha adolescência não foram tão clássicas.

Comecei, então era preciso terminar. Foi quando me lembrei que, nas farmácias, a coisa era pá-pum. A pessoa piscava e já estava de brinco. Decidida, prendi a respiração e Deus – que usa um brinquinho maneiro, reparem – tomou conta do resto. Encerrei a furação, certa de que não havia absolutamente nada estranho em se ter dois brincos numa orelha e um na outra.

Evidentemente, infeccionou. Bronca, pomada, curativo. E os brincos tiraram férias por um bom tempo.

Taurinos são conhecidos pela teimosia. Se um furo em cada orelha era pouco, dois também, e três não seriam demais. Assim que o segundo furo artesanal cicatrizou, fiz nova investida. Não a fim de regularizar a situação da orelha esquerda, com apenas um furo, mas para conquistar o terceiro na direita. Que dois é para os fracos.

Escolada, utilizei o mesmo expediente da primeira vez, com o infalível método do pá-pum. Evidentemente, infeccionou também. Bronca, pomada, curativo. E, de novo, férias para os penduricalhos.

Mais tarde, fui ler sobre auriculoterapia. Soube que as orelhas têm meridianos por onde circulam energias, e uma mal planejada intervenção nelas pode causar uma série de problemas. Deve ser por isso que eu tenho uma série de problemas.

Sendo assim, por saúde e certa preguiça, acabei desistindo de estabelecer a simetria nas orelhas. E gostei assim.

Por isso que eu tenho três furos na orelha direita e só um na esquerda, Nina.

Eu, panfleteira

jeans

Omiti de meus empregadores, ao longo da vida, importante experiência profissional. E só agora me dei conta. Não está no curriculum vitae, nem na minha página do LinkedIn. Eu mesma já a havia apagado de meu portfólio mental de realizações. Lembrei dia desses, quando uma garota veio entregar folhetos no semáforo.

Desci o vidro. Apanhei o papel, novos apartamentos na cidade. Deitei os olhos sobre ela, enquanto o sinal não abria. Cabelos longos, pretos, magrela – “pau de virar tripa”, diria minha avó. Vi-me nela, trinta e cinco anos atrás. Sim, eu já fiz panfletagem nas ruas de São Paulo.

A amiga do colégio, parceira de pequenas, médias e grandes aventuras, arrumara um bico para nós duas. A gente não queria umas roupinhas novas? Trabalho para depois das aulas no Liceu, à tarde. Coisa tranquila. Ou nem tanto.

Apresentamo-nos na data e hora combinadas, munidas de tênis confortáveis. Sobre os planos da minha amiga não sei, mas eu tinha um objetivo claramente definido: queria comprar uma calça Levi’s.

O serviço era, basicamente, espalhar folhetos pelo bairro. Casas, carros estacionados, padarias, lojas. Um por vez. Sim, senhor. Não pode jogar no chão. Sim, senhor. Nenhum folheto sobrando no final do dia. Sim, senhor.

Primeiro quarteirão. Quilos de folhetos nos braços. O bairro de Santana, de ônibus, parecia mais plano. Mas eu estava radiante. Inserida no mercado de trabalho, ganhando meu próprio dinheiro com o suor do rosto que, literalmente, começava a brotar. A Levi’s esperava por mim.

Com disciplina militar aliada ao esmero feminino, seguíamos caprichosamente depositando os folhetos nas caixinhas de correspondência das residências, nos para-brisas.

Segundo quarteirão. Os folhetos pareciam ter se multiplicado, em peso e tamanho. De quê eram, jamais me lembrarei. Deixando o capricho de lado, passamos a enfiá-los, do jeito que dava, nas grades dos portões e sob os limpadores dos carros.

A timidez nos levou à primeira não-conformidade na execução da tarefa: com vergonha de adentrar as padarias e lojas para deixar os folhetos, fizemos breve reunião de equipe na calçada e resolvemos eliminar essa etapa do roteiro. O que nos fez andar mais. Quis desistir. Mas tinha a Levi’s.

Terceiro quarteirão, ladeira acima. Descobrimos que se fossem dois folhetos por para-brisa, terminaríamos antes. Quem perceberia?

Quarto, quinto, sexto quarteirão. Os folhetos não acabavam. Ganhavam vida em nossos braços. Agora eram cinco em cada portão, dez em cada para-brisa. Sétimo, oitavo, nono, décimo. Pra quê portão? Era só atirar os folhetos nas garagens, os moradores veriam do mesmo jeito.

Exaustas, dobramos a esquina e avistamos um cesto de lixo. Bastou um olhar entre nós. Anjos empoleirados nos muros ao longo da rua, todos vestidos com Levi’s, trombeteavam o final do expediente.

Dia seguinte, fomos acertar o pagamento pelo dia anterior e rescindimos unilateralmente o contrato de trabalho. Minha alegação: aos dezesseis anos, não tinha perfil para a função. Não estava alinhada com a filosofia da empresa. Queria novos desafios, sobretudo que não me fizessem andar tanto. A Levi’s ficou para depois.

Cinco anos depois daquela tarde de panfletagem, já na faculdade, consegui um estágio remunerado. Que fiz com o primeiro salário? Torrei num jeans.

A garota do sinal ofereceu seu folheto ao motorista do carro azul, que recusou com gentil aceno. Determinada, investiu no carro de trás, que também declinou. Sorrindo, fez nova tentativa com o táxi ao lado, que aceitou. A persistência é uma calça velha, azul e desbotada.

Que cor?

esmalte

Nunca antes na história deste país houve tanta cor de esmalte.

Na manicure moderninha os vidrinhos ficam expostos em prateleiras embutidas na parede. Organizados por cor, formam uma hipnotizante escala Pantone e causam-me palpitações. A felicidade tem secagem ultra-rápida, meu bem.

Mamãe quase não fazia as unhas. Além da grana curta para ir ao salão e da absoluta falta de tempo, o trabalho na venda não colaborava. Moer meio quilo de café, fatiar cem gramas de mortadela, pesar um quarto de feijão, lavar dúzias de copos do bar. Mãos que não paravam nem por um minuto. Pra quê enfeitá-las, se não durariam até os fregueses do dia seguinte?

Quando dava, dona Angelina gostava de usar um tal Zazá, espécie de lilás. Às vezes, ia de Misturinha, de tom vago, indefinido. Tudo clarinho, sempre. Nunca a vi com Rebu, o sanguinolento. Lembro da pequena vitrine sobre o balcão na farmácia do Archimedes, achava lindo aqueles vidrinhos todos enfileirados. Mas criança não pintava as unhas, tirante as brincadeiras.

Faço as minhas toda semana, no salão. Um exagero, de acordo com o marido. Incompetência para a automanicure, na minha avaliação. De vez em quando, levo meus próprios esmaltes, compulsivamente colecionados a cada ida à farmácia ou ao supermercado. Assim compenso, eu sei, os flertes proibidos da infância. Guardo-os em uma caixa, e me divirto escolhendo o tom da vez.

A gente deveria poder guardar as mães em vidrinhos, também.

Enquanto lixa minhas unhas, a manicure quer saber: “Que cor você vai passar?”. Como desta vez não trouxe nenhum do meu acervo particular, avalio o círculo cromático disponível e ensaio pedir um que se chama Café, de marrom fechado e profundo. Para relembrar as vezes em que minha mãe chegava em casa à noite, depois do trabalho. Ela me abraçava e eu sentia o cheiro das suas mãos, impregnadas de pó. E cansaço.

Mudo de ideia e, ajeitando minha mão direita sobre a toalhinha branca, anuncio: “Cor de saudade”.

Mande lembranças

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arte: Rodvaz

Quando Fulano pediu a Beltrano que mandasse lembranças a Cicrano, Beltrano não sabia a quais, exatamente, Fulano se referia. Ninguém sabe essas coisas.

Seria a do último Natal que passaram em família, antes de o patriarca endoidar e resolver botar as pedras no bolso do casaco, e cujo resto da história só se soube no dia seguinte, quando Joca, o cachorro, latiu feito besta na beira do rio?

Ou, quem sabe, a lembrança dos tempos em que eram, os dois, irmãos inseparáveis, feito unha e carne, feijão e arroz? Um na pele do Homem Aranha e outro na do Batman, roubando os doces da mesa antes dos parabéns na festinha da prima.

Ou, então, aquela de quando, morando no velho casarão, brigaram feiamente por causa da gata de um que papou, feliz da vida, os canários do outro?

“Mande lembranças a Cicrano, quando o encontrar”. Pode ser que Fulano quisesse apenas lembrá-lo de que ele jamais o perdoara pelas botas – legítimas Stetson de bico quadrado e salto carrapeta que ele comprara com o salário de dois meses como empacotador no mercadinho – surrupiadas para ir ao baile do caubói da cidade, e nunca devolvidas, e que na ocasião Cicrano acabou beijando Mariana, o grande amor de Fulano. Por beijá-la ele até poderia perdoá-lo; pelas botas, jamais.

Beltrano ainda fala com os dois. É a ponte familiar, carcomida pelo tempo e que ninguém se atreve a atravessá-la. Beltrano, o portador de boas e más novas. O verbo de ligação. O irmão do meio, literalmente. Nunca mais se reuniram, os três. E não foi por causa de gatos, nem botas, nem gatos de botas.

Muitos mandam lembranças a alguém apenas para lembrar que ainda existem. Espécie de lembrete, “Ei, estou aqui”. Outros vivem mandando lembranças a esmo. Como frase vazia, a completar uma despedida banal. Por falta do que dizer. Para preencher de algum som o ar, vazio de assunto. Que pecado. Lembranças não deveriam ser enviadas em vão, eis um bom mandamento. O décimo-primeiro, quem sabe.

A química de Chico

átomo

Aos 15, eu vivia zerando nas provas de química. Passei de ano por encanto. Ao final de um semestre, fizemos amigo-secreto na classe. Quem me tirou? O professor de química. Ganhei dele Almanaque, do Chico Buarque. “Então, ele não me odeia”, concluí. Ouvi o LP até furar, decorei todas as letras. Decorar a tabela periódica, que era bom, nada.

Na mesma escola, em uma aula de português, dissecamos a letra de Construção. Eu, que até então me limitava a achar interessantes aqueles versos terminando em proparoxítonas, naquele dia descobri que havia neles muito mais. Elemento poesia combinado com elemento social. Química de Chico.

Aprendi que, na vida, a música é mais necessária que a química. A quem a gente recorre, nos encontros com os amigos, quando se está apaixonado, quando se está na fossa, na corridinha no parque, nas longas viagens de avião? Aos metais, não-metais e actinóides é que não. Nunca encontrei oportunidade para aplicar nenhuma fórmula química. Sei a da água, porque é famosa. A música? Uso e abuso.

A química, verdade seja dita, é onipresente. A cada vez que faço um bolo ela está lá, toda exibida. Não preciso, porém, saber os detalhes que fazem o quitute crescer fofo e cheiroso. Só devo tirá-lo do forno na hora certa, e comê-lo ainda quentinho, com café recém-coado. Ouvindo música, de preferência.

Ao lembrar das histórias, dia desses, preocupei-me. Que professor, hoje, dá disco do Chico a um aluno seu (mesmo que ele vá mal na matéria)? Está certo que nem se usa mais dar disco. Porque não se consome mais música como no meu tempo do colégio. Lembrei: a capa de Almanaque é um calendário. Calendário é uma espécie de tabela periódica. Teria sido uma indireta do meu professor?

Ontem, na volta da escola, a Nina contou que estão ensaiando A Banda. Sacou de seu caderno a letra, e veio o caminho todo cantarolando. Nina, pequena mulher em construção, quis saber quantos anos o Chico Buarque tem. “Acabou de completar setenta e três” – respondi. O número atômico do Tântalo.

Pela janela do carro, vi a tarde ensolarada do quase morno inverno desta cidade. E sorri, aliviada.

Cicatriz

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Não tenho muitas cicatrizes. Minha coleção é pequena, não soma dez centímetros: uma no dedo da mão, outra próxima à boca e as duas cesáreas, fundidas numa só – por conta da habilidade da Dra. Clara. Costumava admirar pessoas que exibem várias, todas com histórias de bravura ou fatalidade. Imbecilidade, às vezes. Todo corpo é um livro ilustrado.

A do dedo. Na venda dos meus pais tinha uma máquina de cortar frios. Eu era pirralha, mas considerava-me apta a manejá-la. Afinal, estava muito a fim de um sanduíche de presunto. Daquelas antigas, a gente girava a manivela e a roda-lâmina-gigante, afiadíssima, ia fatiando tudo pela frente. Inclusive meu dedo. Com o sangue jorrando e sob leve desespero, corri pedir socorro para minha mãe, que atendia uma freguesa. Voa para a farmácia, põe sulfa, dá ponto falso. A venda não existe mais, passei a não gostar de presunto e minha mãe agora atende a freguesia celestial. Mas a cicatriz, quarenta anos depois, permanece. No médio direito, e é com ele que eu vou digitar o ponto final deste parágrafo.

A da boca. Eu passeava com minha cachorra pelo bairro, quando avistei um gatinho na calçada. Gatos são fofinhos, certo? Certo, mas não quando se veem a um metro de distância de um cão, ainda que manso e na guia. Fui mexer com o bichano, de unhas tão afiadas quanto a lâmina que cortava os frios. Ganhei um pequeno talho acima dos lábios. Voa para a farmácia, põe sulfa, dá ponto falso. A vida, parece, é feita de replays.

Se a cicatriz do dedo foi adquirida na bravura, e a da boca, na imbecilidade, a da cesárea foi por amor. Ontem, antes de entrar no banho, fiquei olhando a minha. Um risquinho. E pensar que dele saíram, em tempos diferentes, duas pessoas; uma que estava na sala jogando Fifa e a outra na cozinha, fazendo brigadeiro de leite Ninho. Antigamente, a marca da cirurgia ia de ponta a ponta na barriga da mulher. Dra. Clara me tranquilizava, “Nem vai aparecer, com biquíni”. Levei tempo para me dar conta da bobagem contida nisso. Eu não queria escondê-la. Não seria normal exibi-la com o mesmo orgulho que mostro às pessoas a foto da cria, não mais na carteira, mas no celular? As cicatrizes da cesárea precisam sair do armário.

Cicatriz, bonita ou não, alegre ou não, é o registro de uma história. Um tipo de documento, único, que só a gente tem. Feito RG.

Plano de expansão

telefone

Os vizinhos da casa 4 tinham telefone. Eu achava que eram ricos, os únicos da vila a terem um. Dona Antonia não se incomodava que passássemos aos nossos familiares o seu número – que, num desses mistérios insondáveis da mente, sei até hoje: 92-6405. Para o caso de um parente precisar comunicar, por exemplo, que alguém havia batido as botas.

Dona Antonia (imagino) cozinhando feijão para o almoço. O telefone toca, ela atende, Espere aí que vou chamar. Ela desliga o fogo, tira o avental, desce as escadas, toca a campainha do vizinho e avisa, Telefone para Fulano. Fulano, que assistia TV, a desliga; desce suas escadas, sobe as da Dona Antonia, entra na sala, Alô?. Um processo que podia levar cinco, dez minutos. Era bom que fosse coisa importante.

Apesar de eu ter reforçado às amigas que aquele era um telefone apenas para re-ca-dos, um dia a Adriana ligou. Pediu para falar comigo. Lá fui eu. Ela só queria bater papo. Eu fiquei desenxabida, em pé ao lado da mesinha, respondendo por monossílabos, bem baixinho. Tratei de abreviar o conversê e fui para casa, morta de vergonha. Dona Antonia, no entanto, nunca reclamava.

Telefone de recados, coisa mais antiga. Era comum alguém informar seu contato assim. Até em curriculum vitae. Significava que a pessoa não possuía telefone, mas contava com alguém para lhe prestar esse favorzinho.

Nossa casa só conheceu telefone na década de 80. Passei a infância e parte da adolescência me comunicando por sinal de fumaça. Eu tinha dezesseis anos e me recordo do técnico terminar a instalação e anotar a sequência mágica num papelzinho, para que não esquecêssemos: 948-3443. De fato, não esqueci. Quem disse que não sou boa com os números?

Foi meu irmão que o comprou, pelo plano de expansão da Telesp. Um carnê com intermináveis prestações. O interessado adquiria a linha e esperava, sentado, até dois anos (vinte e quatro meses; setecentos e trinta dias; dezessete mil, quinhentas e vinte horas) para que o telefone fosse instalado. Eu sonhava com o dia em que conversaria com meus amigos do sofá da sala. Fui várias vezes à Telesp, no Belém, fazer o pagamento. Tinha fila. Um ônibus para ir, outro para voltar. Quem, hoje, se sujeitaria a isso? Não se compra mais telefone desse jeito. É ir à loja (toda esquina tem uma) e sair falando. Aliás, falar ao telefone é coisa secundária, periférica, expressão arcaica. Ninguém pode dizer que o mundo não evoluiu. Quando ouço alguém falar que antigamente a vida era melhor, eu lembro do plano de expansão da Telesp. Telefone é coisa que marca a vida da gente. Até o ET precisou de um pra voltar pra casa.

Desde meu primeiro celular já tive vários números, mas o ringtone é sempre o mesmo: o bom e velho triiiimmm. Por razões de nostalgia assumida. Em casa já há mais aparelhos que seres vivos – contando os gatos. Cada um tem o seu (exceto os gatos), e os que vão sendo substituídos acabam nas gavetas, as crianças pegam para brincar. E ainda tem o fixo.

Quem diria. Dona Antonia, que morreu antes de o smartphone nascer, poderia finalmente cozinhar seu feijão sossegada. Nunca mais tive notícias deles. Também perdi a Adriana de vista, gostaria que ela soubesse que já posso conversar à vontade. Ganhei de aniversário, embora não precisasse, um aparelho novo – as gavetas estão cheias. Nunca mais decorei, em minha memória analógica, os números de ninguém. Nem dos filhos. Quem é que liga pra isso?

No mais, recordações à parte, tenho me dedicado aos meus próprios planos de expansão. Tenho um carnê com intermináveis ideias para quitar, o vencimento é todo santo dia. Atraso algumas, adianto outras. Mas vou dando meu recado.

Please don’t go

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arte: Jess Wilson

A Sara, professora de inglês meio maluquinha, colocou suas coisas sobre a mesa e começou a escrever no quadro-negro a letra de uma canção. A 6ª B foi ao delírio: era Please Don’t Go. Agora poderíamos cantar direito o hit do KC and The Sunshine Band, e mais, saber do que se tratava. O que, aliás, foi bem decepcionante – não fosse pela melodia que grudava na cabeça feito a cola Tenaz que a gente comprava na papelaria do Seu Remo.

Copiei no caderno a letra, com letra bonita. Tenho uma fagulha de lembrança, inventada ou real, que a Sara levou um tocador de fita K7 no dia, pra turma ouvir e cantar junto. Corajosa, a Sara.

Foi assim que aprendi inglês. Ouvindo música. Também costumávamos ganhar, de vez em quando, uns folhetinhos simplórios com letras traduzidas, um oferecimento da Fisk, a escola de idiomas do pedaço. De graça, o folheto era bem disputado. Uma sorte, cair nas nossas mãos. O negócio era torcer para vir com músicas que a gente gostava. Geralmente vinha, eles eram razoavelmente antenados com os top hits.

Certa vez ganhei um com a letra de Follow You, Follow Me, do Genesis. A letra era fácil, decorei rapidinho. Não tem uma vez que eu não me lembre dos folhetinhos, cada vez que a ouço. Na verdade, acho que essa música me segue. Conto pro Phil Collins ou não?

Hoje qualquer pessoa, num clique, encontra a letra de qualquer música e pode traduzi-la para qualquer idioma. Please don’t go em quirguistanês ou birmanês? Se preferir iorubá, tem. Esloveno? Tem também. E rapidinho: apenas 0,4 segundos. O Google Tradutor tem um milhão de Saras dentro dele.

Meus filhos nasceram na era da abundância de informação, a um toque de distância do que desejarem saber. Podem ouvir todas as músicas que quiserem, saber as letras, as traduções, assistir aos videoclipes, ouvir um sem-número de versões. Não precisam esperar o professor de inglês colocar na lousa, tampouco alguém lhes arrumar um folhetinho. Talvez, justamente por isso, não se interessem. Vivo sugerindo que procurem as letras das canções que gostam, mas eles nem tchum. “Depois, mãe”. O mundo facilita demais para eles. C’est la vie. Ou, em bom zulu: lokho ukuphila.

Tenho um buscador de lembranças embutido na cabeça. Bem mais rápido que o do Google. Uso-o à beça, nem preciso de Wi-Fi. Uso meu HD, mesmo (às vezes, ele me prega peças, fazer o quê). Não carece sequer traduzi-las. Estão todas no idioma universal da saudade. E posso ficar tranquila, não preciso nem pedir por favor. Elas nunca, nunca não se vão.

Paralelas

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Não uma, nem duas; o negócio era agasalho de três listras. E tinha que ser da Adidas. Se tivesse o ziperzinho na barra da calça, então, era a glória nas aulas de educação física. As três retas, paralelas e mágicas, se encontravam no infinito do meu desejo adolescente. Habitavam o imaginário da escola inteira, do bairro, quiçá do planeta.

A matemática, exata e implacável, teoriza: três é mais que dois, que é mais que um. Três listras na roupa, portanto, era mais legal, mais bonito, mais tudo. Como as estrelas dos hotéis; quanto maior a constelação, melhor. Se algum colega aparecia tri-listrado, presente de aniversário ou coisa do tipo, logo se formava discreto burburinho, com breves notas de invejinha. A felicidade é ímpar.

O problema é que agasalho da Adidas era caro pra chuchu. Tive que me contentar com um genérico. Duas listras e só. Paciência.

Certa vez, uma colega apareceu na aula com um agasalho simplório, apenas uma listra nas mangas do blusão e na calça. A situação daquela família, concluí imediatamente, não deveria ser lá muito boa. Cheguei a ficar levemente compadecida, quis dividir meu lanche com ela.

Minha mãe não entendia o que tornava a terceira listra tão valiosa. Como se fosse espécie de terceiro olho, terceira margem do rio, terceiro segredo de Fátima. Eu não sabia explicar. Tal paixão cega, a minha pelo logotríplice também não se explicava.

Ontem saí com meu filho, ele está precisando de chuteiras. Quer uma da Adidas. Enquanto o vendedor mostrava os modelos e enaltecia a tecnologia do sistema de amortecimento, era para as três listras o meu olhar. As paralelas do meu passado, me reencontrando no infinito do presente.

Descobri que reparo nas listras dos outros. Se for agasalho esportivo, como os da Adidas, não tem jeito: conto quantas tem. Inconscientemente. Estabeleço, na hora, fugaz avaliação das pessoas com base na quantidade de listras que exibem – tal fiz com a colega da listra solitária. Com quem divido meu lanche, agora?

Meu filho não está nem aí com as listras da Adidas. Outros elementos na chuteira nova o encantam. Por exemplo, o craque que usa uma igual. Seus desejos são outros, diferentes dos meus, quando tinha sua idade. E, embora sigamos lado a lado, pode ser que eles se encontrem no finito das nossas vidas.

Qual é a música?

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Minha cidade tem mais de um milhão de habitantes. É dona de respeitável PIB e do principal polo de tecnologia da América Latina. Está bem na foto quando o assunto é IDH, e algumas das nossas melhores universidades estão aqui. É metrópole pra ninguém botar defeito, meu chapa.

E sabe da maior? A emissora de rádio da prefeitura (que toca cada musicão, de vez em quando) é dessas onde as pessoas ligam para pedir música. Os locutores vivem distribuindo beijos e abraços aos ouvintes, carinhosamente chamados de amigos. O João da loja de pneus, a Maria da lanchonete, o Zeca do supermercado – ninguém fica sem sua música.

Em tempos de You Tube e Spotify, onde qualquer um pode ouvir o que quiser e na hora que quiser, pedir música na rádio é um ato de bravura, a desafiar o império do streaming. Os ouvintes da rádio da prefeitura de Campinas são os heróis da resistência.

Nunca pedi música para rádio nenhuma. Nem dediquei, pelas ondas do rádio, canção a alguém. Tampouco tive uma dedicada a mim, fosse por AM ou FM. Nada feito pela internet, nesse sentido, entra no levantamento. Há um vácuo em minha biografia afetivo-musical.

Nasci e vivi por mais de três décadas em São Paulo. Lembro de, lá pelos anos 80, chegar da escola às seis da tarde e ir correndo ligar o rádio. Queria ouvir As Quinze Mais Pedidas. Houve uma época em que Swingue Menina, do A Cor do Som, ficou em primeiro lugar. Eu ia à loucura na pequena sala da casa da vila da rua Natal. Mas não ajudava a decidir o ranking. A gente não tinha telefone.

Hoje tenho. Aliás, em casa há mais telefones que pessoas, num contrassenso digno de nota (musical?). Bem que eu podia acertar as contas com o passado. Não saberia, no entanto, que música pedir.

Swingue Menina, talvez.

Os sonhos envelhecem

sapatos

Meu sonho, na infância, não era ir à Disney com a Stella Barros.

Não que não gostasse do Mickey e sua turma; os gibis e desenhos que passavam na TV bastavam.

O sonho era comprar sapatos na Romão Magazine. Loja comum, popular, de bairro – mas só descobri isso muitos números de sapato depois. A Romão era a minha Louboutin. Ficava no 4974 da avenida Celso Garcia, no bairro do Tatuapé. Ou Belém, nunca soube exatamente onde começa um e termina o outro.

Nunca soube, também, por que nunca comprávamos sapatos lá. Jamais perguntei, é verdade. Tinha receio de deixar minha mãe chateada, a resposta poderia ser “É caro” – ainda que fosse loja comum, popular, de bairro. A incompreensão e a conformação também se confundiam na minha cabecinha. Nunca soube exatamente onde começava uma e terminava a outra.

Cheguei a ir à loja, acompanhando uma amiga prestes a ganhar sapatos novos. Era passeio de admiração, apenas. Como se as vitrines abrigassem obras de arte. E os sapatos fossem um tipo de obra aberta; eu até podia tocá-los e experimentá-los e andar com eles pelo tapetinho. Mas não podia levar nada para casa.

Nina cismou que quer uma roupa de uma tal loja. Achei tudo meio caro, desconversei, disse que ia pensar. Ela voltou ao assunto, outro dia. Será essa loja candidata a ser uma “Romão” da infância dela? Ter alguns pares de sonhos não-realizados, no final das contas, pode ser bom. Pedagógico. Boas memórias também são feitas deles.

E ser freguesa da Romão é não-memória, quimera antiga, não mais realizável. Ficou pequena. Primeiro, porque a loja não existe mais em seu endereço original, o que tiraria 99,9% da graça. Fica em um dos shoppings centers da região, entre os vários erguidos no pedaço enquanto meus pés cresciam e foram conhecer outros chãos. Segundo, porque hoje, depois de passear com o Google Street View pela velha Celso Garcia e ver o nada que sobrou da loja, resolvi entrar no site deles. Nenhum modelo, nem mesmo o logotipo representando o (para mim) lendário pezinho amarelo e preto, despertaram sequer uma fagulha do fascínio daqueles tempos.

Os sonhos envelhecem, sim. Preciso dar um jeito de dizer isso para aqueles mineiros.

De comidas e ausências

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“presença”, 2014 – Simone Huck

Tinha que ser nhoque de batata, aquele domingo. Igual ao que minha mãe fazia. Não haveria, porém, a menor graça em comprar pronto. Ir no mercado, pegar pacotinho na prateleira refrigerada, código de barra, data de validade, informação nutricional, CPF na nota, obrigada, eu que agradeço, bom dia, pra você também, próximo.

Não cheguei a aprender a receita com dona Angelina, então tive que me virar com a internet. A internet é uma mãe.

Tablet na bancada, ingredientes alinhados, linha de montagem planejada. Cadê a vasilha? Que vasilha? Para fazer a massa. Ah. Não tenho. Quer dizer, tenho. Mas quando vou fazer alguma coisa diferente nela, esparramo tudo para fora. É uma vasilha boa, mas às vezes é pequena, apertada.

Na rua de baixo tem um mercadinho. Vendinha de bairro. Uma alternativa à complicação dos hipermercados: não preciso parar no G2, não pego tíquete de estacionamento e, portanto, não preciso validá-lo no caixa; não ando oito corredores para pegar o que quero (mesmo sabendo onde fica o que quero). Está certo que na vendinha só tem um tipo de manteiga, dois de xampu e três de macarrão. Mas tudo na vida tem um preço. E o do mercadinho costuma ser mais em conta.

Calcei os sapatos, fui e voltei com uma bacia verde de plástico. Grandona, espaçosa. A felicidade custa três e noventa, meu bem.

Chamei a Nina, ela queria ajudar. Seguimos o passo a passo da receita, fantasiei secretamente que era minha mãe ensinando. E que ela estava encarapitada no armário, invisível, feito os anjos dos filmes, rindo do meu cabelo enfarinhado e admirando a neta que não conheceu.

Enquanto misturava os ingredientes, reparei que preciso de uma vida maior, também. A minha é boa, mas às vezes é pequena, apertada. Quando penso em fazer alguma coisa diferente, esparramo tudo para fora. Acabo reproduzindo apenas as velhas receitas de viver que nela cabem, ao mesmo tempo em que vou inventando desculpas para não arrumar logo uma vasilha-vida maior.

Saquei o macete da massa – dona Angelina que soprou, lá do topo do armário –, que é não amassar demais, nem usar força. Não se sova massa de nhoque, não compreendo como isso não é ensinado no Fundamental. Caso contrário, sempre se precisará de mais e mais farinha, e a gororoba será incomível. O principal ingrediente de um bom nhoque, aprendi, não é batata. É delicadeza.

Fizemos as “cobrinhas” com a massa, como eu chamava quando era criança. Fomos cortando com a faca, igual minha mãe fazia, e enfarinhando para não grudarem. Nina e eu comemos um montão, crus mesmo. Do mesmo jeito que eu comia quando tinha a idade dela. Senti-me numa reprise de um domingo qualquer da década de 70 na velha casa da Mooca, só que com outros personagens. Se a vida se repete, que seja na base do nhoque.

Ficou igualzinho ao da dona Angelina. Tão bom, que desconfio que ela veio acertar o ponto da massa, bem naquela hora que eu atendi a campainha e a Nina foi colocar um elástico nos longos cabelos castanhos. Ajeitei a mesa, as cadeiras e chamei todos.

Pena que ela não apareceu para almoçar com a gente.

Verde-água

sutiã

Noite de Natal. Todos foram dormir, menos eu. Fiquei na cama, admirando meu presente. Um sutiã de “menina moça”, como se dizia. Verde-água, a cor. Minha mãe achou que estava na hora e que eu ficaria feliz. Feliz eu fiquei, mas não era hora. Demorei a usá-lo. Não havia necessidade. E, ainda que, tinha a vergonha. Não é fácil ter onze anos.

Fecho os olhos, posso vê-lo na minha frente. Uma miniatura dos sutiãs da minha mãe, tão maiores. Quando escolheu o meu modelo na loja, Dona Angelina não imaginava os dramas que ainda viveria com os próprios peitos.

Na escola, eu observava as meninas de treze, já iniciadas nas curvas e, portanto, nos sutiãs. Fora da curva, eu só tinha retas. Pensava, “Quando eu tiver treze, então”. Os treze chegaram, as curvas não. Otimista, concluía: “É com quinze”. E assim os anos se passaram, tangenciando minha frustração. Embora até hoje não exiba fartura de curvas, aos poucos elas se instalaram. Eu que não estava madura. Estava verde. Verde-água?

Primeira boneca Suzy, primeiro par de botas, primeiro relógio. Tem presentes que ficam eternizados na lembrança. Embora não me recorde com precisão quando ganhei cada um. A gente deveria ter um memorial de datas importantes, válido para outras coisas, também. A primeira vez que comi nhoque, por exemplo. Ou o dia em que, criança, ainda, ouvi o disco do Renaissance e achei a voz da Annie Haslam a coisa mais linda deste mundo. Quando foi que um gato ronronou no meu colo pela primeira vez? E a primeira mordida de cachorro? O primeiro (blargh!) beijo. Queria as datas exatas, dia, mês e ano. Para quê, exatamente, não sei.

Depois que minha mãe operou, passou a usar um sutiã com bojo recheado de minúsculas sementinhas para disfarçar a ausência de uma das mamas. Ela mesma o confeccionara, até que ficou bom. Anos depois, ela morreu. Se é verdade que o primeiro sutiã a gente não esquece, o último também não.

Que terá sido feito do meu, o verde-água? Ficou pequeno e, como sou a caçula, deve ter ido parar no lixo. Ou foi habitar o armário de outra garota, também estreante na adolescência. Num mundo circular, o tempo todo há sempre algo começando.

Dia desses, olhei minha gaveta. Está na hora de renovar meus sutiãs. Apesar de não ter fascinação pela peça; já desejei aposentá-la. O custo-benefício, no entanto, tem valido a pena e eu sigo firme o lema “uso-quando-quero”. Notei também que a Nina logo, logo vai usar. Quem sabe ela não ganha um bem bacana? Verde-água, para perpetuar a tradição que acabei de inventar. Próximo Natal, talvez.

Fantasia de gato

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ilustração: Jeff Haynie

Eu tinha doze anos. Costumava ir com meu pai buscar minha irmã na casa da amiga dela, à noite, depois do colégio.

É verdade que não íamos só meu pai e eu. Led, um frajolão digno de desenho animado, ia junto. Até que ele gostava de passear de carro. Se não gostava, disfarçava bem. Gato é bom na arte do disfarce.

Então íamos eu, meu pai e o gato fantasiado. É, fantasiado. Com tempo livre de sobra, eu inventava adereços para o bichano, especialmente para recepcionar minha irmã. Um dia, ele surgia com enormes óculos recortados em papelão. No outro, em um colete colorido feito com tecido, fitas e o que mais estivesse dando sopa na caixinha de costura da minha mãe. Se as pessoas se fantasiam de gato, eu tinha um gato fantasiado de gente.

Às vezes, confesso que notava alguma resistência dele em topar a brincadeira. Noutras, parecia até gostar. Talvez apenas se resignasse. Gato também é bom nisso. Mas só quando não tem outro jeito. Sabedoria felina.

Minha irmã jura que houve um dia em que ele foi de bailarino. Não me lembro. Só sei que para o Led era carnaval o ano inteiro – ao menos durante o período letivo. Logo ele, que ganhara esse nome em homenagem a uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. (Originalmente, por impulso, escrevi a ‘maior banda’. Mas assim que digitei ‘tempos’, já havia achado uma injustiça com as outras. Corrigido está.)

À tarde, quando voltava das minhas aulas, eu me dedicava a criar as fantasias. Era raro repeti-las. Os amigos da minha irmã, que também ficavam por ali, na casa da amiga, aguardavam ansiosos a chegada do carnavalesco peludo. “Como será que seu gato vem hoje?”.

Minha irmã terminou o colégio, a carona noturna acabou. Acabou também a brincadeira. E o pequeno folião nunca mais vestiu fantasia. Alguns anos depois, ele se foi. Uma pena não termos registrado nem uma das produções. Tirar fotografia, naquela época, era só de vez em quando, nos casamentos, aniversários, viagens. Comprar o filme, bater as fotos, mandar o filme revelar na Fotobom (ficava a dois quarteirões de casa e o dono era um japonês simpático), buscar na outra semana. Como sobrevivemos à espera, quase uma eternidade, para ver como havia ficado uma foto?

O Led fantasiado seria, fácil, fácil, um gato-celebridade do Instagram. Antigamente, rede social era só a família, a parentada, os amigos da rua e da escola. E ele tinha mais de dez seguidores! Nós de casa (menos minha avó, que não gostava de gato) e os amigos da minha irmã. Hoje? Um milhão, estimo. A admiração ficou hiperbólica. Seu avesso também.

Temos, agora, um imenso inventário imagético virtual de tudo. Teremos, no futuro, mais e melhores lembranças do que hoje? Será a nostalgia mais rica quando, daqui vinte anos, nos depararmos com imagens do aqui e agora, das besteirinhas do dia-a-dia que a gente vai clicando a esmo?

Como será a saudade no futuro, com um presente hiper-registrado?

Tenho saudade dos gatos que viveram comigo desde que cheguei a este mundo. Foram tantos, tantos.

Vou construindo mentalmente meu vasto inventário gatístico, e boto na vitrola a melhor trilha para um carnaval: Black Dog, do Zeppelin. Só para provocar o cat que dorme na cadeira ao meu lado. Que não é o Led, mas bem pode ser, por conta das idas e vindas das almas ronronantes neste planeta. Não dizem que os gatos sempre sabem voltar para casa?

Tempo rei

ampulheta

Foi mais de uma vez: na volta do cursinho pré-vestibular, no ônibus que me levava até a Praça da Sé, costumava tocar “Tempo Rei”. Aquela, do Gil.

Às vezes, eu não tomava esse ônibus, e sim o metrô na estação Vergueiro, próxima ao cursinho. Um ia sob o chão, o outro, sobre. Dependia, portanto, do meu estado de espírito no dia. No metrô não tinha musiquinha ambiente, no ônibus tinha. E quase sempre tocava “Tempo Rei” durante o trajeto. Achava interessante a coincidência.

Foi bem mais de uma vez. Não fosse, eu não lembraria disso hoje, trinta anos depois. É que tocou “Tempo Rei” na rádio, enquanto eu fazia panquecas para o almoço.

Eu estava sempre cansada, por ter me levantado antes das seis e absorvido mais conteúdo escolar do que poderia dar conta. Carregando as apostilas abarrotadas de informações que, acreditava, me fariam entrar na USP, eu escolhia um assento perto da janela e sonhava com o almoço me esperando em casa. Quando minha mãe estava bem, às vezes tinha panquecas.

No ônibus, entre um bocejo e outro, eu acompanhava o Gil.

“Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”, eu pedia, em especial, para aquela parte dos logaritmos e exponenciais que costumava cair no vestibular. Nunca gostei dos números, nem eles de mim.

“Não se iludam, não me iludo”. A USP não era para qualquer um. E eu era, para todos os efeitos, qualquer uma. Não entrei. Só quarenta e um pontos na primeira fase da Fuvest. O tempo mostrou-me que isso, na verdade, não tinha tanta importância assim.

No percurso até a Praça da Sé, nada de Pães de Açúcar ou Corcovados. No ponto final, porém, uma respeitável – e um pouco esverdeada – Catedral da Sé. São Paulo nasceu ali. O meu marco zero foi na maternidade da Beneficência Portuguesa, no Paraíso. Perto do cursinho, aliás. O tempo é também rei do espaço, transformando as velhas formas do viver: levou-me para estudar, depois de grande, tão perto de onde nasci.

Da Sé eu ainda tomava outra condução até em casa. Um ônibus elétrico, que passava pela Mooca. Nesse, não tinha som ambiente. Ficávamos somente eu e meu pensamento, mesmo fundamento singular. E, claro, as apostilas pesando no colo. Tanta química. Para quê, ó Pai? Quase sempre, os cabos do ônibus escapavam dos fios elétricos suspensos no ar. O motorista parava onde fosse. Quem viesse atrás, paciência. O cobrador descia sem pressa, ajeitava os cabos, voltava ao seu posto, o motorista tocava em frente. Quando chovia eu ficava com pena do cobrador.

“Tudo permanecerá do jeito que tem sido” parece ser a máxima dessas três décadas: o cursinho ainda funciona no mesmo endereço. A estação Vergueiro do metrô, idem. Ainda há a linha de ônibus que tocava Gilberto Gil (se mantém a música ambiente, não sei). Praça da Sé e Catedral, claro, incólumes. Fucei o street view do Google e pasmei: o elétrico que me deixava a dois quarteirões de casa resiste no mesmo ponto e a linha sequer mudou o número.

Na minha vida, no entanto, não foi bem assim. Nesses trinta anos, que é tempo pra chuchu, pouca coisa permaneceu. Ninguém mais mora na nossa velha casa, exceto os fantasmas. Eu saí de São Paulo. Não vivo mais do meu diploma de bacharel em comunicação social. Não ando mais de ônibus, nem de metrô. Não tenho mais cabelos até a cintura, nem ilusões acerca do universo: “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. Não sei onde estão meus amigos do cursinho. Minha mãe não faz mais panquecas. E minhas ideias, no geral, são como os cabos do velho ônibus elétrico: às vezes, saem do lugar. Quando isso acontece, lá vou eu, sob sol ou chuva, ajeitá-las novamente. Ao menos, tentar.

Se o tempo é rei, a valentia é rainha.

Piolho

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A aula mal havia começado e a diretora entrou na sala, anunciando: a professora iria olhar a cabeça de todo mundo. Piolho. A turma se remexeu nas carteiras, o burburinho começou. Congelei, a cabeça começou a coçar. E se eu estivesse com piolho? Seria denunciada, ali, na frente de trinta crianças?

A professora chamou um por um à sua mesa. Os minutos se transformando em horas. O sofrimento da espera era maior do que qualquer véspera de prova de matemática. Em pé, ela vistoriava as cabeças com ajuda de dois lápis, separando as melenas. E o nojo de colocar as mãos naquelas cabecinhas, sabe-se lá como eram cuidadas em casa?

Chamou a Angélica. Menina estudiosa, obediente, sempre tirava notas boas. Não tinha perfil de piolhenta. Naquele dia ela estava de banho recém-tomado, os cabelos ainda úmidos, cheirando a xampu. A professora, baseada no asseio evidente, nem prosseguiu com a inspeção e a liberou.

Minha vez. O coração pulsava forte no peito e reverberava na garganta, seca por completo; eu deveria estar vermelha como um tomate. Não era estudiosa feito a Angélica. A professora cutucou-me o couro cabeludo por completo. Mandou-me sentar. “Próximo!” – chamou. Salva, enfim.

Alguns anos depois, reclamei que a cabeça estava coçando. Mostrei à minha mãe: bingo.

Com os meninos a solução era simples: raspavam o cabelo e pronto. Mas eu tinha cabelos até a cintura, e eles eram inegociáveis. Livrar-me dos piolhos foi tarefa excruciante. Passei o dia sentada em uma cadeira no quintal, toalha nos ombros, os cabelos lambrecados de veneno fedido. Foi minha avó que, armada de pente-fino e paciência, deu início à catação, só concluída ao entardecer. A piolhada, zonza, caía sobre a toalha. Problema mesmo eram as lêndeas. Resistentes até a uma hecatombe. Era preciso puxá-las uma a uma dos fios, com as pontas dos dedos. A posterior dor de cabeça era inevitável. E eu fedi a veneno por um bom tempo.

Meus filhos pegaram piolho, uma vez. Como minha avó, bisavó deles, armei-me de pente-fino, paciência, amor e uma TV, e dispus-me à faxina capilar. Nada como três décadas de avanços tecnológicos: bastou usar neles um xampu, nem tão fedido. As lêndeas, no entanto, permanecem indestrutíveis e demandaram o método artesanal. Mas em vez da cadeira-castigo no quintal, eles assistiram desenho durante a operação. Tudo evolui.

A cada lêndea aniquilada eu lembrei dos meus piolhos do passado, e me senti primitivamente humana. Então a vida é isso. Somos os mesmos, desde sempre. Podemos ficar modernos, inventar a internet e carros que dirigem sozinhos. Cuidar uns dos outros – em ordem descendente – ainda é o ato mais ancestral de todos, justamente o que nos garante no planeta. Toda espécie bem sucedida passa pelo pente-fino do bom zelo. E não importa para onde o mundo caminhe. Sempre haverá uma mãe catando piolho nos seus filhos.

Memórias olímpicas

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E era levemente careca, lembrei disso agora. Dona Yara, a professora de educação física da escola, tinha cabelos ralos. Antiesportista no layout, andava maquiada, os parcos cabelos presos num coque com laquê. Suas aulas eram monótonas e de pedagogia duvidosa: com frequência, sentávamos em círculo e um livro com as regras do vôlei era lido em voz alta pelos alunos, em revezamento. Bocejos eram inevitáveis. Mas o que pegava mesmo era o laquê.

Se vieram dali minha apatia pelos esportes e meu desinteresse nas olimpíadas, não sei. Só sei que fugi o quanto pude das aulas de educação física ao longo da vida escolar.

Usei de meios ilícitos para escapar das quadras ao escrever em minha própria caderneta recomendações expressas para que eu fosse dispensada dos exercícios, assinando i-gual-zi-nho ao meu pai. Às vezes, funcionava.

Assim como quem entra para o mundo do crime através dos delitos leves e logo já está praticando os hediondos, no colegial, atual ensino médio, rendi-me à falsidade ideológica. Comprei um atestado médico. Valia tudo para me livrar das aulas de vôlei, agora 100% práticas.

Eu tinha quinze anos e vi que as coisas não seriam fáceis. Para começar, eram dez voltas correndo ao redor da quadra. Depois da aula, determinada a resolver a parada, tomei o metrô e desci na Praça da Sé. Rumei à ladeira Porto Geral e caminhei até o Parque Dom Pedro II. Sobre a portinhola que levava a uma longa e estreita escadaria, a placa mal feita: “Médico”. Sem nome do doutor, sem CRM, sem especialidade. O cenário ideal para o crime perfeito.

O médico, um homem esquálido, sacou o receituário. “Vou colocar aqui que você sofre de lombalgia. Não tem erro”. Eu não sabia o que era lombalgia, dei-me por satisfeita. Qualquer coisa que me poupasse do horroroso shortinho azul de helanca do uniforme. Paguei, desci a longa e estreita escadaria e tomei o ônibus para casa. No trajeto, abri o envelope e abri também um sorriso. O médico acrescentara um adjetivo poderoso à minha lombalgia: “crônica”. Aquilo deveria ser suficientemente grave para eu ser mantida longe dos exercícios para sempre.

Dia seguinte entreguei, orgulhosa, o atestado na secretaria da escola. Reforcei junto à mocinha, que apertava os olhos para compreender a letra, “É crônica”. Vinte e quatro horas depois, quando eu já fazia planos para as três aulas vagas que teria na semana, o recado. A coordenadora queria ter um dedo de prosa comigo. Seria a prova de química, que eu havia zerado?

– Você tem algum problema de saúde, Silmara?

Rapidamente, associei o motivo da inquisição:

– Sim, tenho lombalgia. Crônica! – confirmei. Eu continuava sem saber o que aquilo significava (a doença e a falsidade ideológica).

Seguiram-se os piores momentos de minha temporada de Liceu de Artes e Ofícios. Pilhada em flagrante, tive crise aguda de arrependimento. “Se você tivesse esse tipo de lombalgia, Silmara, mal conseguiria andar!” – esbravejava a coordenadora. O agravante “crônica”, portanto, de nada valera. Ao contrário; complicara minha situação. Eu já era suficientemente conhecida da coordenadora, que presenciara minha agilidade pelos pátios. Não adiantaria explicar minha antipatia pelo esforço físico, minha ojeriza ao shortinho azul de helanca, nada.

Foi o fim das minhas idealizadas aulas vagas. Rendi-me ao shortinho. Nem pude ir reclamar no consultório.

Só fui ter sossego na faculdade, onde vi-me com autonomia para decidir sobre minha vida, meu corpo, minhas vontades. Uma injustiça crianças de nove anos não terem esse direito.

De lá para cá, motivada por súbitos desejos de bom condicionamento cardíaco, tonicidade muscular, capacidade aeróbica e barriga sarada, entrei em inúmeras academias de ginástica. Com os mesmos súbitos desejos, abandonei inúmeras academias de ginástica. Possuo um único par de tênis esportivos, adquiridos há doze anos em um de meus devaneios pós-parto, quando acreditei que somente a ginástica impediria que as pessoas perguntassem se eu, parida há seis meses, estava grávida. Recentemente, resolvi substituí-los, começaria nas caminhadas. Fui ao shopping, achei alto o investimento e retornei não com tênis novos, mas com novos óculos de sol – pelo mesmo preço, muito mais bonitos e úteis. Os tênis arqueológicos foram para o sapateiro. Bastou uma colinha, estão novos. Guardados.

Assumi, sem culpa, o sedentarismo como característica de minha personalidade, marca indelével de meu DNA. Não sei jogar nada, nem truco, nem Pokémon Go. Não fez parte dos meus sonhos ser ginasta olímpica, nem quando assistia a Nadia Comaneci voando graciosamente nas barras assimétricas. Não vibrei ao saber que o SporTV está com dezesseis canais em HD à disposição da olimpíada doméstica. Atestei para mim mesma que esporte não é comigo e pronto. De crônica, só minha escrevinhação. De olímpica, só minha nostalgia.

Mas em ano de olimpíada as memórias esportivas – ou nem tanto – vêm à tona. Faz tempo que não visito minhas velhas escolas. Nunca mais fui ao centro de São Paulo, há muito o Parque Dom Pedro II virou uma área feia e decadente. Terá o esquálido doutor se aposentado?

Assistirei a alguns jogos pela TV. Quem sabe, em um dos telões, verei flagrada n’alguma arquibancada dona Yara e seus bisnetos, agitando uma bandeira verde e amarela?

 

Para o Glauco Marques.

Crônica de minuto #60

engraxate

Uma vontade da infância: ter meus sapatos lustrados por um engraxate, na Praça d­­­­­­­­a Sé.

Ele me chamaria de chefia e, enquanto fumaria um cigarro, daria um trato nos meus pisantes. Eu folhearia o jornal. Pessoas importantes leem jornais e têm sapatos engraxados, pensava.

Nunca via, sentada nas cadeironas de madeira, uma mulher sendo atendida. Também nunca me perguntei por que. Cresci, ficou sendo uma espécie de vontade não-autorizada. Talvez eu não achasse aquilo adequado para mulheres. E a vontade, perdendo o lustro, feneceu.

Quantas vontades se sepultam, em nome da adequação? Quais, de fato, mereceriam esse fim?

Nunca mais passei pela Praça da Sé. Desconfio que não existam mais engraxates por lá. Sumiram, assim como somem as vontades desautorizadas.

Se a minha mãe tivesse Facebook

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Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

Fiado

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Na minha rua tinha uma lojinha. Lojinha de bugigangas, bijuterias, tranqueiras em geral. Ficava entre minha casa e a escola, que era na esquina. A vendedora se chamava Jane. Moça de cabelos castanhos, lisos e compridos. Uma simpatia.

Quase sempre, na volta da escola, eu parava na lojinha da Jane para flertar com os anéis, as pulseiras, os colares, as presilhas. Universo colorido e cheio de charme para uma garota de seus oito ou nove anos. Ficamos amiguinhas. Trocávamos meia dúzia de palavras, eu me despedia e ia para casa com meus cadernos e livros e lancheira.

Um dia, Jane sugeriu que eu levasse o anel de pedrinha vermelha. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Respondi que não podia, não levara dinheiro. A Jane, que além de simpática era esperta, ali, naquele dia e naquela hora, apresentou-me ao maravilhoso mundo do cartão de crédito. “Pode levar, depois você paga”.

Desci a rua feliz da vida, o acessório novo reluzindo no dedo. Praticamente um rubi raro.

A alegria não durou nada. Ao me ver radiante, dedo enfeitado, Sílvio, meu irmão mais velho, fazendo as vezes de pai, quis saber a origem. Contei.

Se a Jane me introduzira ao universo do fiado, agora o Sílvio pregava o sermão da educação financeira. Eu não podia sair por aí comprando as coisas, quem havia deixado? No “pendura”, ainda por cima.

Menos de cinco minutos depois eu estava na lojinha da Jane. “Vim devolver.”

“O Sílvio bem podia namorar a Jane, que é gatinha. Tudo ficaria bem e o anel, garantido” – pensei, enquanto assistia a Jane devolver o anel à vitrine. Voltei tristonha. Os cem metros que separavam a lojinha de casa foram os mais longos da minha infância. Acho que, quando abri o portão, eu já era dois anos mais velha.

Se você pensa que conto esta história para mostrar a importância de ensinar às crianças como lidar com o dinheiro, eu lamento. Errou de texto. Nem todo ensinamento dado a uma criança será, necessariamente, carregado pela vida. Uns sim, outros não; a linha que os separa é fina e frágil como as correntinhas ordinárias que a Jane vendia.

Conto porque comprei um anel, dia desses, e paguei no cartão de crédito. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Compra por impulso, sem necessidade, facilitada pelo fiado moderno. Enquanto lia “processando” na maquininha, o espectro da Jane, com seus cabelos castanhos, lisos e compridos, surgiu do outro lado do balcão. Vi minha rua, a lojinha que deu lugar, depois, à tinturaria dos japoneses. Vi os meus cadernos e a velha escola. Saudade é uma fatura eternamente a ser paga.

Só não vi o anel de pedrinha vermelha, meu por breves minutos; perdeu-se no sumidouro da memória. Era bonito, ao menos? Talvez. Bonito mesmo era o cabelo da Jane.

DNA

dna

 

Nem só de cor dos olhos ou formato de nariz vive uma herança genética. Há num DNA muito mais dos antepassados do que se pode, cientificamente, mapear.

Eu era criança (nove, dez anos?) quando ouvi no rádio sobre um concurso de redação. As melhores ganhariam um prêmio. Fiz a minha, caprichei na letra e na história. Mandei pelos Correios, direitinho. E esperei, confiante, meu nome ser anunciado no programa.

Semanas depois, chegou uma cartinha. Eu não ganhara o prêmio; minha redação era bonita, mas não tanto. Porém, havia um brinde, um prêmio de consolação para os participantes. Bastava retirar no endereço tal, tal dia. Pedi para meu avô me levar, era longe.

Lá fomos, de ônibus, buscar meu presente. Meu avô conhecia todas as ruas do mundo.

Chegando ao lugar, procura, procura, que número é mesmo? E eu repetia, afinal, havia decorado o endereço. No outro quarteirão, talvez? Às vezes, a numeração é quebrada. Nada. Foi quando meu avô resolveu perguntar:

– Mas não é rua Cachoeira?

– Não, vô. Rua João Cachoeira.

Uma fica na zona leste de São Paulo, no bairro Catumbi. A outra, zona sul, Itaim Bibi. Qualquer rima será apenas mera coincidência. Nem toda queda d’água vem com nome próprio.

Quando se deu conta de que estávamos no endereço errado, ele não escondeu a raiva, o desânimo, a preguiça, o ódio, a ira, a fúria, a cólera. Vô Paschoal, filho de italianos e torcedor do Palestra, bufou bonito. Bufada impaciente, os lábios apertados e os olhos revirados como quem buscava o céu e, ao mesmo tempo, mandava concurso, redação, prêmio e, eventualmente, eu ao inferno.

Da nossa casa, na Mooca, até o Catumbi deve ter levado bem quarenta minutos. Do Catumbi até o Itaim Bibi, no mínimo, mais uma hora. E ainda teríamos a volta. O dia do meu avô fora para o beleléu. Bufada, portanto, plenamente justificada.

Algumas conduções depois, e agora na cachoeira certa, achamos o local. Era uma loja de roupas. Meu avô nos identificou e em poucos minutos eu estava com meu prêmio de consolação em mãos. Um pequeno estojo escolar feito em jeans – a confecção era patrocinadora do concurso. Simples, o fecho era um botãozinho de pressão. Cabia meia dúzia de canetas. Lembro-me bem da etiqueta: Buzzy. Mas não tenho certeza dos dois zês. Voltamos para casa em silêncio, só quebrado por outras bufadas silenciosas que se seguiram durante o trajeto. E eu com meu novo estojinho no colo. Que foi usado por vários anos. Uma forma, talvez, de fazer valer a pena a trabalheira que meu avô tivera.

Lembrei da história porque, dia desses, as crianças aprontaram alguma – sem envolver logradouros, nem itinerários – e eu me flagrei bufando i-gual-zi-nho ao vô Paschoal. Eu, bisneta de italianos e torcedora de time nenhum, bufei bonito. Bufada impaciente, os lábios apertados e os olhos revirados como se buscasse o céu e, ao mesmo tempo, mandasse a cria ao inferno.

Vi, num lampejo, o velho rádio que ficava na cozinha, vi o estojinho ordinário de jeans com botãozinho de pressão, vi os ônibus, vi João, vi cachoeira, vi a decepção no rosto do meu avô. (Só não vi a redação; daria meu reino para poder lê-la, hoje.)

Se quando eu chegar ao céu, que é onde meu avô mora desde 4 de fevereiro de 2005, ele ainda quiser tirar essa história a limpo, serei irredutível: “Eu disse João Cachoeira, vô. Você que entendeu só Cachoeira”. Bufaremos juntos – e rindo, espero.

Porque nem só da cor dos olhos ou formato de nariz vive uma herança biológica. É também no código genético de um bufar, ou de uma saudade, que se reconhece os seus.

As mangas

Foto: Simon D

Quando minha mãe era internada, e isso acontecia com alguma frequência, eu a visitava à tarde. Sempre levava uma coisinha para ela comer. Ela gostava de manga, quase nunca serviam no hospital. Eu sabia por que. Manga é uma delícia, mas dá trabalho. Podia imaginar as reuniões semanais da equipe com a nutricionista, discutindo o cardápio dos pacientes: “Manga, não”.

Tenho colossais apreço e preguiça de manga. Quantas vezes, no café da manhã, olho para ela, olho para a banana, torno a olhar para ela, e lhe digo: “Sorry, baby”.

Eu preparava a manga em cubinhos cortados à perfeição, ajeitava-os num pote de plástico e, não sem reclamar um tanto, pegava um ônibus e um metrô até o hospital. Cumpria minha missão filial, muitas vezes, cansada pelas aulas da manhã. Ela comia com a melhor boca do mundo, e eu ficava com remorso.

Papar uma banana é simples, rápido. Já a manga envolve processo sofisticado, requer habilidade, tempo, fé, determinação: pegar pratinho e faca. Descascar. Cortar. Travar luta inglória em busca do melhor aproveitamento da fruta, posto que a polpa ao redor do caroço é algo ingerenciável. Lavar as mãos e, só então, desfrutá-la. Comer manga no pé, se lambuzando, é delírio romântico. Só vale para quem está em férias no sítio e tem estoque extra de fio dental. Banana não; é pá-pum.

Quando meus filhos pedem manga, a velha preguiça me invade. Por que não escolhem os morangos, as uvas, essas frutas que nasceram prontas para a degustação? Banana, por que não? Respiro e, não sem reclamar um tanto, cumpro minha missão maternal. Preparo-a em cubinhos, cortados à perfeição. Quando os vejo, com a melhor boca do mundo, fico com remorso.

Há um caule invisível (porém encorpado) ligando culpa e amor.

No ano em que minha mãe morreu passou na TV uma novela, “O direito de amar”. Ela gostava de assistir. A música de abertura era “Iluminados”, do Ivan Lins. A letra diz assim: “O amor tem feito coisas, Que até mesmo Deus duvida, Já curou desenganados…”

O amor não curou a minha mãe. Mas ela comeu as mangas que pode. Só não deu tempo de ela ver o final da novela.

Não vou de bike

Bicicletas de Parati/RJ, arquivo pessoal
Bicicletas de Parati/RJ, arquivo pessoal

Não tenho relação de amor com as bicicletas.

Elas não povoam minhas memórias com recordações do tipo “a primeira vez que andei sem rodinhas”. Nunca escrevi bilhetinho “Cadê minha Caloi?” para meus pais. Reajo com indiferença às campanhas que pedem ao cidadão para deixar o carro em casa e ir de bicicleta; não estão falando comigo.

Sei que, por conta disso, falta à minha formação humana um componente essencial. Não pedalo, logo, não existo.

Se até ETs andam de bicicleta e emocionam gerações, deve mesmo ser uma coisa muito legal. Pena que não descobrirei isso nesta vida. (Embora tenha chorado – e chore sempre – naquela cena do filme.)

Quando criança, tive um triciclo. Apesar de substantivo masculino, cismei que era menina e batizei-a de Crondiana, por razões que minha própria razão desconhece. Brinquei bastante com ela pela vila onde morávamos, grande o bastante (aos meus olhos infantis) para minhas supostas manobras radicais. Eu gostava, mas não amava. Não sei que fim levou Crondiana.

A paixão humana (quase uma obsessão) pelo icônico meio de transporte rende. É música (repare o tanto de letra falando de bicicleta), museu próprio, plataforma de governo em metrópoles mundo afora, estilo de gol. Estampa de camiseta nem se fala. Tem doido que viaja por uma dúzia de países só em cima da magrela. Tem doido que mata (ou morre) por causa de uma.

Depois da Crondiana, tive poucas bicicletas. Duas ou três. Nem nome ganharam, pereceram encostadas nos quintais. E, contrariando o dito popular, eu esqueci, sim, como se anda.

A verdade é: nunca aprendi a andar direito. Se Deus escreve certo por linhas tortas, quando o assunto é bicicleta eu ando torto até por linhas certas. Intermináveis aclives, aterrorizantes declives, trechos acidentados? Oh suplício. Nem vinte e uma marchas ajudam um corpo preguiçoso e, por natureza, sem talento para equilíbrio.

Saber andar de bicicleta – e fazê-lo regularmente – é o passe para a socialização em algumas tribos urbanas, que sequer aceitam analfabetos ciclísticos. Apenas ser a favor das ciclovias não basta. O não-adepto acaba excluído das conversas, dos passeios, sofre bullying.

É confessar que não pedalo, que não tenho “bike”, e logo se forma uma rodinha em torno de mim, a estranha. Determinados a investigar desde como foi minha infância até minha orientação política os algozes podem, em casos extremos, obrigar-me a demonstrar minhas inabilidades ali mesmo. Fugir – a pé, de carro ou ônibus – é a única solução.

Não vou de bike e zéfini.

A casa morta

fotos: arquivo pessoal

No último dia do ano passado fui lá.

Fui buscar a velha Lanofix. Fingi que ia só para isso. Mentira. Fui para ver a casa morta. A casa onde nasci e cresci. Fechada há sete anos, desde que o último de seus sete habitantes se mudou de lá. Três deles não precisam mais de casa: meu avô, minha avó, minha mãe. A tríade que, em parte, me justifica.

A casa número 1 da pequena vila na Mooca está à venda. Ninguém quer comprar. Pudera. Quem quer uma casa morta? Morreu de solidão, depois que todos nós saímos. O reboco de algumas paredes cedeu. Sua pintura está descascada. A casa morta não tem mais pele. Nem carne. É apenas um esqueleto sem ânima. Ossos sustentando, sem vontade, um punhado de coisas importantes, além da Lanofix, inexplicavelmente largadas para trás: o carrinho de mão do meu avô, a enceradeira tão grande que nós “passeávamos” nela em dia de faxina. Meu violão, comprado no Mappin em três prestações. Os santos, hoje carcomidos, no quarto dos meus avós. No chão da sala ainda está o antigo telefone, daqueles de tecla. Penso que ele pode tocar a qualquer momento. Não sei se eu o atenderia.

Lanofix era a máquina de tricô da minha mãe. Ela fazia roupas de bebê para vender. Até a ‘ajudei’, quando criança, arruinando uma encomenda inteira. Depois de grande, aprendi a usá-la direitinho e fiz várias roupas para mim. Acabou esquecida em um dos armários. E no último dia do ano passado foi dia de buscá-la. Visitar a casa vazia foi como exumar as lembranças e reencontrar meus fantasmas de lã.

Tive algum medo de entrar na velha casa desdentada, de puro osso. Medo de ver coisas esquisitas, gente flutuando. Dizia para mim mesma: “A Lanofix, Silmara. É só trazer a Lanofix e pronto”. Funcionou, pois não vi nada, nem ninguém. Todos os fantasmas haviam saído. Houve uma hora, no entanto – é preciso contar, ainda que ninguém acredite – , em que eu já estava fora da casa e uma porta rangeu lá dentro. Não ventava e as janelas estavam fechadas. Eram eles, voltando.

No quarteirão, antes feito de casas, agora se vê um monte de edifícios. Do meio da vila, que no passado já teve um jardim com limoeiro, seringueira e pé de mexerica, antes de dar espaço aos carros dos moradores das quatro casinhas geminadas, eu digo aos pálidos prédios erguidos ao redor: “Vocês não sabem de nada”. Não sabem que foi nessa casa, em 1957, que meus pais fizeram sua festa de casamento, no quintal. (Vejo as fotos e custo a crer que coube tanta gente ali. Hoje, nele, mal cabemos minhas memórias e eu.) Não sabem que foi no quarto da frente que meu irmão nasceu, dois anos depois. Não sabem que nessa vila organizei, numa tarde qualquer dos anos 70, a festa de batizado para nosso gato Tommy (que ganhou esse nome em homenagem ao musical – nada como ter irmãos roqueiros), e um bocado de gente compareceu. Não sabem, aliás, dos amados bichinhos de estimação, entre cães, gatos e passarinhos, enterrados nela (inclusive o Tommy). Não sabem que naquela casa ganhei meu primeiro sutiã, e que ali minha mãe chorou o seio tomado pelo câncer. Prédios bobos, não sabem nada de nada.

E eu não sei mais usar a Lanofix. Mesmo assim, a trouxe comigo para minha casa viva. Está abrigada em sua elegante caixa verde. Talvez eu consiga, na internet, o manual dela. Talvez a opere, na intuição, e consiga tricotar alguma roupa nela novamente. Talvez eu ligue os pontos que faltam na trama da minha história. Talvez.

Jardim da infância

arte: Julie
arte: Julie

Não é o diretor, a pessoa mais importante de uma escola. É o jardineiro.

Um diretor cuida de alunos. Um jardineiro cuida de plantas. Todo aluno é uma espécie de planta.

Seu Clóvis era o diretor. Sisudo, austero e formal, como exigia o personagem. Sempre de terno cinza. De poucas aparições. Às vezes, surgia de surpresa durante a aula, tínhamos de ficar em pé. Eu tinha medo dele.

Seu Teodoro era o jardineiro. Amável, calado e introspectivo, como exigia o personagem. Sempre de macacão azul-marinho. Podia ser visto quase todos os dias entre as roseiras ou podando os pinheiros. Eu não tinha medo dele.

O que aprendi nos nove anos que passei ali, do pré-primário ao ginásio, o que absorvi das ciências e das geografias, o que sofri com as matemáticas e o que viajei com as letras foi definido, de certa forma, pelo Seu Clóvis.

Seu Teodoro não me ensinou nada.

É dele, no entanto, que me lembro quando passo em frente à velha escola estadual de primeiro grau. Seus pinheiros, ladeando a escola inteira, ainda estão lá. Não me parecem mais tão felizes como eram sob seus cuidados. Ou eu que prefiro pensar assim. A nostalgia é uma lembrança com photoshop.

Procuro o Seu Clóvis no Google. Encontro várias referências, memórias de ex-alunos – de amor e ódio – espalhadas nas comunidades virtuais e em páginas antigas do Diário Oficial.

De Seu Teodoro não se encontra nada. Ninguém parece se lembrar dele, quarenta anos depois. Exceto a garotinha sardenta que morava a um quarteirão dali. Se vivo, ele seria do tipo que não acessa internet, não tem email, nem smartphone. As plantas são a única, fundamental e melhor rede social para um jardineiro. Nem tudo precisa estar no Google para ser importante.

O nome Clóvis significa “guerreiro célebre”. Teodoro, “presente de Deus”. Nada é por acaso.

Da rua, não se vê mais o jardim do velho Teodoro através das compridas grades de ferro. Porque não tem mais grade. É tudo muro, agora. Sinal dos tempos. Só se avista, da rua, os pinheiros da cintura pra cima. Seu Teodoro certamente não aprovaria a tristonha intervenção arquitetônica que escondeu do bairro o seu jardim e, por tabela, suas crianças de uniforme.

Nunca soube o nome, nem o rosto, nem nada, dos outros jardineiros que assumiram suas plantas depois que ele foi embora. Nem nas escolas onde estudei depois. Deve ser por isso, e somente por isso, que chamam essa época de jardim da infância.

A Copa do meu mundo

Arte: Juliana Alia
Arte: Juliana Alia

Fecho os olhos com força: eu, três anos recém-completos. Minha mãe estourando pipoca na panela. Do meu ponto de vista, o fogão é mais alto que eu. Ela desliga o fogo, transfere a pipoca para uma vasilha, pulveriza o sal, encosta a porta que dá para o quintal e me chama, “Vamos?”. Para a sala, nos juntar aos outros. A partida vai começar. Ou já começou. Ou está no meio. No fim. Não importa.

Copa de 70, México.

Não sei se a pipoca antológica foi no dia do primeiro jogo, quatro gols em cima da Tchecoslováquia. Ou se foi quando fizemos um a zero contra a Inglaterra. Ou no dia dos três a dois na Romênia. Pode ser que tenha sido quando o Peru perdeu da gente por quatro a dois, ou quando vencemos o Uruguai por três a um. Quem sabe, foi no dia da épica final: quatro a um na mais-que-bela Itália, e a Jules Rimet era nossa.

Só sei que é na cozinha que moram as melhores lembranças.

Hoje o Brasil enfrenta o México. Não tem Pelé, nem Jairzinho, nem Gerson, nem Tostão, nem Rivelino. Tem outros. E tem pipoca, também. Pipoca é quando o milho faz gol.

Eu tinha uma Susi Mexicana. Susi é a irmã brasileira da Barbie, nascida no final dos anos sessenta, e já falecida. Ela vinha com uma roupa típica e tinha o pescoço mais longo que das outras Susis. Cresci achando que todas as mexicanas eram pescoçudas. Nunca fui ao México. Mas li que havia pipoca nas pirâmides astecas, há quatro mil anos.

Esta é a décima segunda copa da minha vida. Há sete sou órfã da pipoca materna. E o mundo é tão redondo que hoje, n’alguma cozinha deste país, haverá uma menina de três anos aguardando sua mãe terminar a pipoca, não mais de panela, mas de microondas. Ela vai transferi-la para uma vasilha, pulverizar o sal, encostar a porta da cozinha que dá para o quintal e chamá-la, “Vamos?”. Ela irá. Tem sempre uma partida começando.

Os estranhos

“Silêncio”, Paris, 2014 – Simone Huck

 

Eu tenho.

Você também.

Todo mundo tem.

No álbum de fotografias daquela viagem a Paris. Ou Foz do Iguaçu. No registro, feito pelo garçom mal-humorado, da turma reunida na pizzaria, ano passado. Na foto tirada pelo celular na festa junina do seu filho.

Lá estão eles: os estranhos.

Os desconhecidos que participam das suas fotografias e são adicionados às suas recordações. Pessoas que você não sabe e nunca saberá quem são. Um exército de incógnitas humanas marcando presença na sua intimidade. Coadjuvantes do acaso. Interferências imagéticas eternizadas no enredo da sua vida. Gente que habitou o mesmo cenário que você, no instante da imortalização de um fato.

É quase impossível evitá-los, vêm junto com o clique.

O casal que também curtia a lua de mel e algum frio sob o Arco do Triunfo. Ou Usina de Itaipu. A criança irrequieta, e por isso ‘borrada’, na mesa ao lado da sua, na pizzaria. Os padrinhos da parceira do seu filho, em pleno momento tietagem depois da dança de quadrilha.

Quem é essa gente toda? Que histórias de vida têm, o que faziam ali, onde estão agora?

A mulher gorda e incompleta no canto esquerdo daquela foto do seu ex, no parque. Ventava naquele dia, o cabelo dele desalinhou. Um ano depois, o namoro também.

A turma atrás de você na fila da montanha-russa. Pelos traços e cor dos cabelos, ao menos dois são irmãos. Será que você também está no álbum deles? Seus cabelos, talvez.

O homem só, de costas, na escadaria da igreja escolhida por você para plano de fundo da última foto do último dia das suas férias. Que ano, mesmo?

E todos os fragmentos de corpos e objetos, cabeças, pés, mãos, bolsas. Centenas de recortes de vidas mescladas, por um átimo, à sua. Para sempre.

No instante congelado, há quem estabeleça afeto com o estranho de suas recordações. O amigo confessou que, em seus sonhos mais secretos, ainda nutre esperança de reencontrar a moça de cabelos vermelhos cujo rosto ele só sabe os olhos. Verdes? Acidentalmente, ele a registrou comprando postais, no por-do-sol mais lindo que já houve. Piazza Catullo, Riva Del Garda, Itália, outono de 1997 – para o caso de alguém ter alguma informação.