O escorredor e a zona de conforto

Depois de vinte anos de bons préstimos, julguei ser hora de substituí-lo. Suas hastes metálicas, já carcomidas pelo tempo, seu espaço útil aquém do necessário, seu visual demodê, enfim, haviam dado o que tinham que dar. Então, comprei um escorredor de pratos novinho da silva.

Design moderno, preto-chique, bonitão. Até porta-copos acoplado tem – o que me agradou sobremaneira, pois assim teria mais espaço na bancada para preparar o almoço, picar os vegetais, fatiar o pão. O velho, desprovido do item, me obrigava a ter um porta-copos avulso, de plástico feioso, atravancando a pia em dia de muita louça.

O velho, no entanto, é praticamente da família. Um agregado, quase parente, sempre ajuda na lida, é de boas. Não fala mal de ninguém. Fica lá, na dele. Apesar disso, depois de uma vida nos servindo, enviado à reciclagem foi.

Engana-se quem pensa que escorredor de pratos é tudo igual. Cada um tem sua personalidade, seu modo de ser e de estar, de ver a vida e a louça. E ocorre que o novo ser que passou a habitar minha cozinha e compartilhar da minha intimidade, embora repleto de virtudes, me incomodou.

O tal porta-copos, por exemplo. Tão valorizado até então, revelou-se estar – de acordo com a geografia da minha pia – do lado errado. Se boto ali os copos para escorrer, dificulta-me o acesso ao andar térreo do escorredor. Tenho que esticar o braço assiiim, ó. Tem mais: o engenheiro que projetou as hastes para os copos nunca lavou um. Impossível dispor copos lavados lado a lado. Que fiz? Com jeito, dei uma entortadinha nelas. Minha Nossa Senhora do Design chora. E a Santa Gambiarra sorri.

Se o leitor pensa que o problema seria resolvido se eu, simplesmente, invertesse a posição do escorredor, enganou-se. Se assim eu o fizer, os pratos lavados ficarão de costas para mim, mirando a parede. Onde já se viu? Então, dos males, o menor. Eu estico o braço, vai. Escorredor bom é aquele que pode ser colocado à direita, à esquerda, de frente, de lado. Como o velho.

Para restabelecer a harmonia na pia, já o troquei, sim, de lugar. Mexi nos satélites naturais da pia, como o lixinho, o porta-detergente. Cogitei trocar o filtro d’água de lugar, mover o fogão embutido. Nada. O feng-shui da bancada continua descalibrado. Será por isso que engordei?

Já o velho escorredor… ah, esse sabia de todas as manhas das minhas louças. Conhecia cada xícara pelo nome, sabia se alguma faca estava sem fio só pelo seu som ao cair na cuba. Já pegara a forma das minhas panelas, fazia mimetismo com o mármore da pia, me aconselhava a pegar leve na Nutella.

Vinte anos, bicho. Mais velho que meu filho, que tem dezessete. Está em casa antes mesmo que eu e seu pai nos conhecêssemos. Quis retorná-lo ao seu posto, e dar o novo escorredor de presente a alguém. Lembrei que fora para a reciclagem. Tarde demais. Feliz de quem o pegou.

O velho escorredor de pratos representa o sabido, o conhecido, o previsível, o fácil, o confortável. Zero trabalho.

O novo escorredor é o desconhecido. O estranho no ninho. O que altera a paz da pia. O que bota minhas sinapses pra dançar o tchá-tchá-tchá. O que ri da minha parvoíce. O que revira meus padrões, solidamente construídos ao longo de meio século.

O novo escorredor de pratos me tira da zona de conforto como o sorvete de pequi, quando o experimentei. Tão mais simples pedir de chocolate, Silmara. O velho sabor parceiro, sem surpresas, mas bom e prazeroso. O de pequi alvoroçou as papilas, tocou sirene no cérebro, ativou a careta. E agora tem um sorvete de pequi, de design moderno, me encarando na pia, enquanto lavo os pratos do almoço. Se seremos amigos, um dia, o tempo dirá. Até lá, muita água há de rolar. Digo, escorrer.

Quer comentar?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s