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Crônica de minuto #58

“sem título”, 2013 – Simone Huck
“sem título”, 2013 – Simone Huck

Aconteceu que ontem foi meu aniversário. E também o funeral do marido da minha amiga. Entre comemorar meu nascimento e lamentar a morte alheia, eu não sabia se ficava alegre ou triste. Na dúvida, fui os dois. A mim, chegavam as mensagens virtuais de parabéns. A ela, num desolador tête-à-tête, as de pêsames. Em todas, um brinde aos polos da existência – mais conectados, simultâneos e implacáveis do que se imagina.

Ele pedira para ser cremado. Sem velório, sem delongas. No crematório, a sala da cerimônia, ou sala da despedida, é uma espécie de arena. No centro, quem vai; ao redor, em circulares bancos cor de cinza-dor, quem fica. Pareceu-me aquele programa de entrevistas da TV, o Roda-Viva. No centro, sempre um pobre sabatinado; em volta, impiedosos inquisidores e suas mortíferas questões. Na despedida de ontem, as perguntas dos que (desta vez) ficaram eram feitas em silêncio. E ninguém sabia as respostas.

Para Dinah.

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Feliz aniversário (atrasado) para o blog

Era uma vez um blog chamado Fio da meada. Igual filho, ele teve outros nomes antes de nascer: Máquina de escrever e Superbacana. Varal também estava na lista, mas já tinha mãe. O FDM estreou, tímido, em 11 de abril de 2009, com uma crônica sobre a internet:

De lá para cá, em dois anos de vida, muitas letras rolaram. E hoje o FDM tem números, leitores e amigos para dar e vender. Quer dizer, os leitores e amigos eu não dou, nem vendo. No máximo, eu os “empresto” para outros blogs bacanas, assim como outros blogs bacanas emprestam os seus para mim.

O WordPress, plataforma onde o FDM mora, me dá, todos os dias, informações interessantes sobre a audiência do blog. Vou compartilhar com vocês um resumo desses dois anos, até hoje (12/04/2011):

  • 184 crônicas, 25 crônicas de minuto, 12 cartas, 12 minicontos e 9 poesias publicadas
  • 2.711 comentários de leitores (respondidos, na maioria)
  • 144.260 acessos, do Brasil e exterior
  • 5.000 acessos por mês

Tirando os leitores que visitam o blog intencionalmente, algumas pessoas chegam até ele porque pesquisam, nos sites de busca, palavras-chave ou termos, que trazem o FDM dentre os resultados. As 10 palavras ou termos mais utilizados são:

Taí uma coisa que sempre me diverte. De vez em quando o Google manda para cá coisas assim (exatamente como as pessoas digitaram):

como fingir que esta passando mal

como desencardir meias

feitiço para voltar atras no tempo

“não gosto dos meus pés”

faxineiro invisível

vou montar um buffet com um parquinho em fortaleza e gostaria de ideias

sabonete atrativo chora nos meus pés

cinderela feia sem sapato

nome das irmãs gemeas q fazem um clipe juntas q o cenario é todo branco e uma enrola a outra com um

onde comprar uma engrenagem planetaria cronica de nylon

apelidos para o penis por ordem alfabética

oque é uma ceita bacanica

Os 10 sites que mais trouxeram leitores para o FDM (o qual eu agradeço e esclareço: tem muitos outros que também já são meus velhos conhecidos, mas não daria para publicar todos):

Nesses dois anos, depois de darem uma passadinha pelo FDM, os leitores clicaram nos sites do meu blogroll e continuaram navegando. Os 10 mais acessados:

Os 10 posts (ou páginas) mais visitados do FDM nesses dois anos:

E os 10 posts (ou páginas) menos visitados:

Não me lembro quem são esses “deleted”. Mas devem ter sido avisos do blog ou outras coisas, e não textos.

De 2009 para cá, o FDM mudou de carinha algumas vezes:

Algumas nem foram ao ar, eram apenas ensaios:

As tags mais comuns nos textos do FDM:

Os 10 posts mais comentados:

Os 10 menos comentados:

E os nunca comentados:

Às vezes, estou crente que um post vai fazer sucesso, e ele não faz. Nesses casos, apesar de conhecer bem meus leitores e saber o que eles gostam (penso eu), fico com um baita ponto de interrogação na cabeça.

Através do blog, conheci um tanto de gente bonita, com quem converso sempre por e-mail e pelo Facebook. De algumas pessoas, tive o prazer de ouvir a voz por telefone. Com outras, já almocei, tomei ou sempre tomo um café. Outras, nada disso: um abraço daqueles e dez minutos de prosa. Teve até quem passou um final de semana inteirinho aqui em casa, ô delícia! Leitores que viraram amigos de verdade, aos quais eu agradecerei eternamente pelo carinho, pela leitura, pelas palavras. A todos, um aviso necessário: não sou (só) essa pessoa doce que se pensa. O FDM é meu lado A.

Parabéns, Fio da meada. Muitas felicidades. E muitos anos de vida. Saravá!

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Fontes: WordPress.com

O mundo é uma bola

Arte: Marc Palm/Flickr.com

Fui comprar uma bola, o filho da amiga fazia aniversário. Entrei na loja de brinquedos, dessas grandes, e procurei. Nada. Pedi ajuda ao vendedor de uniforme cor de laranja. Laranjas, como as bolas, também são redondas.

– Por favor, onde ficam as bolas?

Embora não tenha sido intencional, peguei o vendedor no pulo. Bolas também pulam. Melhor dizendo: quicam. Ele disfarçou, olhou para o teto. Olhei também, será que estavam ali? O moço falou baixinho, revelando o insuspeitável:

– Não tem.

– Está em falta?

– Não. É que a gente ‘não trabalha’ com bolas. Temos só algumas, ali na seção para bebês…

Ele se referia às bolas de silicone, macias e coloridas. Que todo mundo dá de presente aos pequeninos, ainda sem dentes, para se esbaldarem na fase oral. Bebês também gostam de chupar e morder laranjas. Mas mães não as dão sempre para suas crias brincarem. Apesar de pobres em vitamina C, as bolas de plástico têm vantagens: não fazem sujeira.

– Não, essas não… Bola de jogar, sabe?

Peguei-me explicando o que é uma bola. A minha cabeça, parecida com uma e que, por conta dos sete buracos, às vezes murcha, tinha é ficado zonza com a resposta do vendedor. Que não deu bola ao assunto e tratou de encerrar o papo:

– Sei. Mas não temos – disse. O ocupado vendedor, então, foi atender outros clientes. Que não procuravam por bolas.

Pensei ser brincadeira, mas não era. A loja não tinha bola – o mais básico dos brinquedos, a diversão inicial – para vender. Era como se eu fosse à feira e não encontrasse laranja em banca alguma. “Não trabalhamos com laranjas”, o feirante explicaria. Ou então, à loja de lingerie, e não houvesse um sutiãzinho sequer nas prateleiras. Quem quisesse, e esse foi o recado do vendedor-laranja, bem treinado para a função, que escolhesse outro brinquedo. Opções não faltavam. Todas, no entanto, embaladas de certa mesmice. Ou seria sem-gracice? Nada disso, e eu estava redondamente enganada. A loja fervia. Mas ninguém estava atrás da bola. Quem fez gol?

Por fim, encontrei, numa loja que não era de brinquedos, a bola que viraria um nas mãos e pés do aniversariante-mirim. Mais tarde, na festa, teve conversa de mesa (redonda?) entre meia-dúzia de pais. O assunto? O caso da bola. Todos percebem como os brinquedos e a relação das crianças com eles mudaram, e o quanto de nós mesmos há nisso. Poucos, porém, topam virar o jogo. Cartão vermelho para quem?

Nosso planeta, sabe-se de longa data, não é chato. É redondo. Chata é a loja, que não tinha bola.

Prazo de validade

Ilustração: Elizabeth/Flickr.com

Passou o requeijão no pão nu, com cuidado para não avançar a fronteira da casca. Moça meticulosa. Apresentou o açúcar ao café e, com ajuda da colherinha, os dois iniciaram uma dança no interior da xícara. No dia sem pressa, levou a fatia à boca e distraiu-se com a paisagem da mesa. Tomou um susto que lhe congelou a garganta. Buscou os óculos, “Cadê meus óculos?!”. Estava escrito no rótulo do requeijão: ele venceria no dia do seu aniversário. Teve certeza, aquilo era um sinal. Só não sabia de quê.

Pouco mais de quarenta dias. Era o que restava ao requeijão, condenado ao sair da fábrica. Era o que faltava para ela comemorar mais um ano da sua saída, não da fábrica, mas do ventre. Que não deixa de ser uma fábrica. E se, escondida no corpo, embalagem da alma, estivesse tatuada a data de seu fim, tal como no copo? Olhou os pulsos, os tornozelos. Apanhou dois espelhos e conferiu a nuca, sempre encoberta pela longa cabeleira. Nada. “Melhor assim”, pensou.

Daquela desapressada manhã em diante, passou a ter uma pressa incomum. Urgências diversas para todas as coisas, como atender os pacientes no consultório, beijar o noivo, passear com os cães. E o medo, insólito, de expirar no dia do parabéns? E se sua vida também fosse assim, breve? Nem sempre as respostas vêm assim, tão expressas como nas embalagens. Ainda bem.

Dias depois, duas torradas assistiram ao fim do requeijão, antes mesmo da data fatal. Seu aniversário chegou, e com ele, a descoberta: vida, assim como amor, felicidade e saudade, não têm prazo de validade. Eles duram conforme o estoque.

Feliz aniversário. Ou nem tanto

Ilustração: Juan & Diego/Flickr.com

Pior que fazer aniversário em 24 ou 25 de dezembro, é fazer no dia 26. Se no primeiro caso já se corre certo risco de ser esquecido, no segundo é batata. Quem nasce no Natal pode ter a sorte de ouvir “Parabéns a você” junto à “Noite feliz” – com coro puxado só pelos parentes de primeiro grau. E olhe lá. Quem nasce no dia 26 está fadado a não ter festa, nem presente. Porque a festança foi há algumas horas. Sobram pouca energia, disposição e champanhe para o dia 26. O que sobra é comida. Requentado ou ‘transformado’, o resto do peru vira o prato principal do almoço do aniversariante. Para complicar, 26 de dezembro está a apenas cinco dias de outra festa, o réveillon. Nesse intervalo insípido, o nascido nesse dia tem duas opções: acostumar-se a passar seu aniversário em branco ou conformar-se em antecipá-lo e dividi-lo com outro aniversariante. Muito mais famoso.

Em 2009, 26 de dezembro caiu num sábado. E sábado logo após o Natal não é dia de fazer ou se preocupar com muita coisa. Exceto se a roupa branca para o ano novo está em ordem. Já eu, nesse dia, saí de casa com uma missão: encontrar um chapéu florido para minha filha. Pedido feito junto ao primeiro abraço do dia, ela ainda de pijama, olhinhos semiabertos de sono e preguiça. Como é que eu poderia lhe negar? Na busca, parei em frente a uma vitrine. Recostada junto a ela, uma moça de cabelos longos. Muito brava. Braços cruzados, telefone encaixado entre cabeça e ombro. Alternando entre a tristeza e a cólera, ela colocava seu interlocutor – namorado, suspeitei – na parede: por que não poderiam se encontrar naquela hora? Então não almoçariam juntos? Ela estava morrendo de fome. Bufou, fez muxoxo, olhou desesperançosa para o céu, afastou por um instante o telefone do ouvido para não ouvir a ladainha do lado de lá. Encerrou a conversa, irritada: “Mas hoje é meu aniversário!”. Mais que fome de comida, a moça tinha fome de comemorar seu nascimento como fazem as pessoas de seis de abril, dezenove de agosto, trinta de outubro.

Eu imagino como você se sente, moça. Tanto dia para nascer. Aposto como você nutre uma simpatia inconsciente pelo parto cesáreo. E uma antipatia gratuita pelo Papai Noel. Confesse aqui para mim: seu namorado estava lavando o carro, não estava? Sábado é dia de lavar carro.

Encontrei um chapeuzinho bem bonito, com delicadas florzinhas cor de rosa e lilás. Não serviu, ficou pequeno. E não deu vontade de ir trocá-lo. Deu foi pena de você, moça dos cabelos compridos. Sei não. Mas acho que, no fim, você levou um chapéu do seu namorado. Sem direito a flores.

Quinze mil dias

Hoje é meu 42º aniversário. Tentei me lembrar dos quarenta e um aniversários que já fiz e, surpresa: não me recordo de quase nenhum. Dos primeiros anos é compreensível, quem é que se lembra de alguma coisa com um ano de idade. Mas fui buscando na memória os que se seguiram, e nada.

Com dois anos lembro-me de um episódio.  E recordo dele com precisão. Estávamos em Santos. Eu, na beira do mar, brincando. Virei-me de costas para o imenso oceano, talvez para acenar ou mostrar alguma coisa para meus pais, que estavam na areia, um pouco afastados de mim. Foi quando uma pequena onda, um verdadeiro tsunami para alguém com pouco mais de meio metro de altura, me derrubou. Fui saber que isso acontecera quando eu tinha essa idade porque mais tarde descrevi a cena a alguém, que se lembrou. Mas do meu aniversário, nenhuma recordação.

E como terá sido meu terceiro aniversário? Lembro-me de uma cena de quando eu tinha três anos, durante a Copa do Mundo de 70. Porquê ela me marcou, eu não sei. Pelo futebol é que não foi. Lembro de minha mãe fazendo pipoca no fogão, eu ao seu lado. Quando ela terminou, passou a pipoca para uma vasilha, fechou a porta que ficava ao lado do fogão e que dava para o quintal, e ternamente me chamou, Vamos? Na sala, meu pai e meus irmãos (acho) já estavam em frente à TV para assistir ao jogo, que eu não lembro se era a final ou não. E do dia do meu aniversário, mais ou menos um mês antes dos jogos, não há meio de eu me lembrar.

Dos meus cinco anos, trago viva na memória a lembrança de andar em meu triciclo (batizado de “Crondiana”, não sei de onde tirei esse nome) no pequeno quintal de nossa casa. Incrível como um corredor de menos de vinte metros de comprimento e menos de dois de largura pode nos dar tanta alegria. Eu me lembro de ir pedalando até o final dele, fazer a meia-volta, ir até a outra ponta, fazer nova meia-volta e repetir o trajeto dezenas de vezes. Sozinha. Feliz da vida. Ganhei o triciclo com essa idade, mas não me lembro se foi presente de Natal ou de aniversário. Lembro-me até de uma calça vermelha que eu não tirava, de tergal e botões, que era dessa época. Mas do dia em que fiz cinco anos, nada sei.

Ainda os cinco anos. Foi nesse ano, 1972, que Vila Sésamo estreou no Brasil. Recordo de irmos todos para o quarto de minha mãe, onde ficava nossa TV, para assistir ao primeiro programa. Sentei-me no chão, ao lado da cama de meus pais, e encantei-me com aqueles personagens em preto-e-branco. Lembro-me de ter imitado o Garibaldo por muito tempo, usando as duas mãos para fazer de conta que eu tinha um bico igual ao dele. Cismei de falar através do tal bico, o que deixava minha mãe bastante irritada. Agora, do dia em que fiz aniversário, não há lembrança alguma.

Do primeiro dia de aula no pré-primário, com seis anos, eu me lembro como se fosse hoje. O aceno de minha mãe ao se despedir de mim na porta da sala, a bolsa vermelha de pano com meus materiais, bordada com meu nome, o sorriso gorducho e carinhoso de Tia Neide, acolhendo todas aquelas crianças que pisavam em uma escola pela primeira vez. (A maioria das crianças ia à escola com seis anos, e não seis meses, o que me faz ficar nostálgica à beça – para usar uma expressão bem setentinha.)

Dessa mesma época, tenho na ponta da língua a placa do velho Fusca cor de pérola que meu pai tinha: BG-7542. Mas nenhuma recordação de nenhum aniversário. Mesmo que não houvesse festas, porque as vacas sempre foram magras lá em casa, teimo em achar que eu deveria me recordar de alguma coisa, um presente, um bolo feito com carinho pela minha mãe. Sinto uma falta danada de não ter essas memórias.

A primeira lembrança de um aniversário aparece quando fiz quinze anos. Meus amigos do colégio fizeram uma ‘vaquinha’ e me deram um ursinho da Lionella, branco e rosa. Ele existe até hoje, é um jovem urso de vinte e sete anos. Está na casa de meu pai, e cada vez que vejo meus filhos brincando com ele, tenho a certeza de que este mundo é mesmo muito interessante.

Dos aniversários mais recentes, as lembranças existem, claro. Mas eu sempre as confundo, e acabo precisando das pessoas para me situar. A paellada que fizemos aqui em casa com todo mundo foi em 2006 ou 2007? Passo por desmemoriada, mas a verdade é que a minha memória funciona muito bem para algumas coisas, e para outras não. E nunca consegui compreender seus critérios. As lembranças gostam de brincar comigo, numa espécie de esconde-esconde. Tampo os olhos, conto até dez, e lá vou eu atrás delas. Mas elas vão mudando de esconderijo, e por vezes, para minha tristeza, desistem da brincadeira e vão-se embora para sempre.