Street view

street view
ilustração: Zansky

Na quarentena, sem poder saracotear, dei para passear de carro. Não no meu. No do Google. Do meu sofá, abro o Street View e lá vou eu. Sigo pelas ruas (quase) como se estivesse nelas. Dobro a esquina, faço o retorno e, feito a Calcanhoto, presto atenção em cores que não sei o nome. Não é a mesma coisa, mas andar no carro do Google tem suas vantagens. Posso parar, de repente, e ninguém buzina atrás. Posso dar o zoom que meus olhos não são capazes. Andar na contramão à la volonté. Nem gasto combustível. E o melhor: posso ficar um tempão na frente de algum lugar, só olhando, sem levantar suspeitas.

Como ontem. Em um clique, fui parar na rua onde nasci, a cento e quatorze quilômetros do meu sofá. Outra vantagem: pensou, está lá. Não deixa de ser uma espécie de teletransporte. Meu Deus, o futuro chegou e eu nem percebi.

Estacionei em frente à pequena vila onde morei por trinta e três anos. Sua entrada não era tão feiosa como agora. Ou sempre foi e nunca me dei conta. Uma entre tantas vilas da Mooca. Quatro casas geminadas, a nossa era a 1. As câmeras do Google não alcançam lá dentro, mas lembrei-me dos vizinhos da minha infância. Não deixa de ser um misto de teletransporte com máquina do tempo. O passado do futuro chegou, Bello.

Na casa 2 morou, por pouco tempo, a Rosana. Alguns anos mais velha que eu, éramos amigas. Um dia, ela chegou toda feliz, havia comprado o LP do Ruy Maurity. Sem antes falar com a mãe, porém. Apanhou feio, ouvi tudo.

Na 3, a Elizabeth. Moça doce e bonita, que costumava levar uns safanões do marido. Fiquei triste quando eles se mudaram. Tempos depois, a encontramos no Mappin. Quis perguntar do marido brucutu, achei melhor não. Também viveram ali o Marcos, meu quase-amigo, e sua mãe Julieta. Ela morreu em casa, o velório foi na sala e eu achei estranhíssimo.

Dona Antonia e Seu Manoel na casa 4. Os únicos na vila que tinham telefone, cujo número ainda me recordo: 92-6405. O cachorro Lulu, que mancava de uma pata. Contavam que alguém jogara água fervendo no pobrezinho, que zanzava livremente no bairro.

Ainda com os olhos emprestados do Google, vi as três casas da frente, que davam fundos para a vila.

A da Dona Amália, mãe da Tunheta – apelido ruim para Antonieta. Garota diferente, tinha dificuldade na fala e sofria bullying, antes mesmo de isso se chamar bullying. Ela gostava do meu irmão. Embora dissessem que também gostava do Osmar, outro vizinho. Nunca foi correspondida.

A do Seu Inácio e da Marilisa. Ela e minha mãe eram muito amigas, num tempo em que vizinhas conversavam pelo muro. Uma vez, eu estava doentinha e o caçula dela foi me visitar, levando um presente. Um bichinho recortado em espuma. Eu tinha cinco anos, ele também.

Por fim, a do Tenente. Certa vez, minha irmã estava com os amigos na porta da vila, colada à casa dele. Não se sabe qual sua motivação, mas ele veio mostrar para a turma um LP do Kansas, que acabou morando na nossa vitrola por muito tempo. Até hoje, ouvir “Carry on wayward son” tem mais ou menos o mesmo efeito do Street view.

Aboletada no banco da frente do carro do Google, fui observadora invisível de um bairro inerte. Surpreendi-me mais uma vez com a feiúra e sem-graceza da entrada da vila. Não vi ninguém aparecer n’alguma janela, para eu dar um alô. Melhor assim, não conheço mais ninguém.

“Podemos ir embora?”, pedi ao motorista do Google. Igualmente invisível, o silente cúmplice de meu passeio virtual-memorial.

Um clique e estou de volta ao sofá. Entre saudade e lembrança, a dúvida. Afinal, a Tunheta gostava do meu irmão ou do Osmar?

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