O lagarto que não me deixa trabalhar

Fiz como sempre: abri notebook, conectei celular e caixinha de som, apanhei caderno de anotações, caneta, café. Ajeitei meu canto de trabalho, transposto para a mesa de jantar, por causa da pandemia. Assim o marido, em home office, usa a mesa do escritório. Particularmente, apreciei a mudança. Agora fico em frente à janela maior que dá para o quintal e vejo mais coisas.

Vejo, por exemplo, o pequeno lagarto que vem e vai pelo muro, alheio ao perigo da cerca elétrica. Não sei se é sempre o mesmo, ou se é uma família. Lagartos são tão iguais. Eles devem dizer o mesmo de nós: “Humanos são tão iguais”.

Meu muro é seu caminho de todo dia. Sempre ligeiro, o lagarto tem pressa, feito o coelho da Alice (mas não sei se este aqui usa relógio). Calculo vinte centímetros, no máximo, da cabeça à cauda. Atento, ele estanca ao menor ruído ou movimento ao redor, pescocinho erguido. Esses lagartos têm visão e audição apuradíssimas. Não à toa, estão neste planeta há milhões de anos.

Enquanto o pequeno dinossauro está na área, não consigo trabalhar. Não por medo, pelo contrário. É que em vez de tocar o ofício, distraio-me. Que espécie é essa? Eu, que não sou entendida em répteis, chamo tudo de lagarto, calango. Há vários por aqui. Nesse quesito, meu quintal, talvez pela quantidade de plantas, é lembrança viva da era mesozoica. Será que este mesmo lugar, onde hoje é minha casa, e que já foi fazenda, foi habitado pelos seus ancestrais grandalhões?

A miniatura de crocodilo ensaia escalar um galho do pingo d’ouro que resvala no muro e a gata, enrodilhada no sofá, percebe. Gatos, assim como os lagartos, também têm visão e audição apuradíssimas. Ela levanta e, estática, se põe a observá-lo. Gatos são mestres em ficar imóveis, seria divertidíssimo brincar de estátua com eles. Mas gatos só fazem as coisas quando eles querem. Lentamente, ela avança alguns passos, sem ruído, graças às patas acolchoadas. Quando chega à janela, o lagarto sente sua presença e também fica imóvel. Ficar imóvel, portanto, é estratégia dupla: boa para caçar e também para não ser caçado.

Enquanto a gata fita o lagarto e o lagarto finge que não está ali, mimetizando com as plantas, retorno à tela do Word. Reescrevo um parágrafo inteiro, salvo. Desvio o olhar para o muro, lagarto sumiu. A gata voltou ao sofá; desistiu de caçar, muito calor. Não tenho visão tão boa quanto a deles, mas estico os olhos até o limite do muro para localizá-lo. Nada. Agora quero ver aonde ele foi; levanto e vou até o quintal. Lá está a lagartixona, perto do mamoeiro da vizinha. Lagartos comem mamão?

Será o mesmo que entrou na sala, dia desses? Voltei do supermercado e encontrei os três gatos alinhados em frente à máquina de costura, fitando alguma coisa sob o móvel. Quando é assim, já sei. Algum bicho entrou e acabou encurralado. Batata: era um lagarto-bebê. Devia ser filho desse que está zanzando no muro. Operação de resgate bem-sucedida e o pobrezinho rastejou em desabalada carreira – sempre gostei dessa expressão, desabalada carreira – para o quintal, a salvo dos bichanos. Disse nem obrigado, o escamosinho.

O lagarto ficou meditando sob o mamoeiro, volto ao meu posto. Café acabou, busco mais na cozinha. Reviso mais alguns parágrafos, mas o final não me parece bom, vou precisar mexer. Perco o fio da meada, e o lagarto é o culpado. Estou atrasada, preciso entregar o texto (que não é sobre a Reptilia) para a editora hoje e ainda tenho que fazer o almoço. Porque não posso, simplesmente, levar minha família ao mamoeiro.

Li que os lagartos conseguem recompor seus rabos completamente, caso o percam por aí, n’algum embate. No processo, que pode levar meses, eles ativam mais de trezentos genes. Já pensou se a medicina descobre com eles como podemos regenerar, não um rabo, mas um braço ou perna perdida?

Respeitem os lagartos, meu.

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