Cicatriz

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Não tenho muitas cicatrizes. Minha coleção é pequena, não soma dez centímetros: uma no dedo da mão, outra próxima à boca e as duas cesáreas, fundidas numa só – por conta da habilidade da Dra. Clara. Costumava admirar pessoas que exibem várias, todas com histórias de bravura ou fatalidade. Imbecilidade, às vezes. Todo corpo é um livro ilustrado.

A do dedo. Na venda dos meus pais tinha uma máquina de cortar frios. Eu era pirralha, mas considerava-me apta a manejá-la. Afinal, estava muito a fim de um sanduíche de presunto. Daquelas antigas, a gente girava a manivela e a roda-lâmina-gigante, afiadíssima, ia fatiando tudo pela frente. Inclusive meu dedo. Com o sangue jorrando e sob leve desespero, corri pedir socorro para minha mãe, que atendia uma freguesa. Voa para a farmácia, põe sulfa, dá ponto falso. A venda não existe mais, passei a não gostar de presunto e minha mãe agora atende a freguesia celestial. Mas a cicatriz, quarenta anos depois, permanece. No médio direito, e é com ele que eu vou digitar o ponto final deste parágrafo.

A da boca. Eu passeava com minha cachorra pelo bairro, quando avistei um gatinho na calçada. Gatos são fofinhos, certo? Certo, mas não quando se veem a um metro de distância de um cão, ainda que manso e na guia. Fui mexer com o bichano, de unhas tão afiadas quanto a lâmina que cortava os frios. Ganhei um pequeno talho acima dos lábios. Voa para a farmácia, põe sulfa, dá ponto falso. A vida, parece, é feita de replays.

Se a cicatriz do dedo foi adquirida na bravura, e a da boca, na imbecilidade, a da cesárea foi por amor. Ontem, antes de entrar no banho, fiquei olhando a minha. Um risquinho. E pensar que dele saíram, em tempos diferentes, duas pessoas; uma que estava na sala jogando Fifa e a outra na cozinha, fazendo brigadeiro de leite Ninho. Antigamente, a marca da cirurgia ia de ponta a ponta na barriga da mulher. Dra. Clara me tranquilizava, “Nem vai aparecer, com biquíni”. Levei tempo para me dar conta da bobagem contida nisso. Eu não queria escondê-la. Não seria normal exibi-la com o mesmo orgulho que mostro às pessoas a foto da cria, não mais na carteira, mas no celular? As cicatrizes da cesárea precisam sair do armário.

Cicatriz, bonita ou não, alegre ou não, é o registro de uma história. Um tipo de documento, único, que só a gente tem. Feito RG.

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5 comentários sobre “Cicatriz

  1. Sou cheia de cicatrizes, por cirurgias, por microcirurgias, imbecilidade e as mais comuns: as garras felinas mais afiadas que as lâminas que cortam frios.
    São as tatuagens (e Deus sabe como amo enfeitar meu corpo) que a gente não planejou, desenhou nem esperou orçamento. Também as amo!

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  2. Um texto lindo que faz a gente perceber a importância do olhar sobre as coisas: o que para um pode ser horrivel; para o outro é história de vida escrita no corpo. Lendo sobre as suas cicatrizes, lembrei das minhas…e de como olho pra elas. Grata a você por expressar tão lindamente o seu pensar e por inspirar o nosso. Super beijo!

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  3. Um texto lindo que faz a gente perceber a importância do olhar sobre as coisas: o que para um pode ser horrivel; para o outro é história de vida escrita no corpo. Lendo sobre as suas, lembrei das minhas…e de como olho pra elas. Grata a você por expressar tão lindamente o seu pensar e por inspirar o nosso. Super beijo!

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  4. Também tenho poucas. Minhas cesáreas foram 3 e embora uma sobre a outra, a cicatriz não ficou legal. Mas não dá pra mostrar, deixá-la a vista, mesmo que “so um risquinho”. rs Só numa praia de nudismo. rs Beijo, Silmara.

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