Os sonhos envelhecem

sapatos

Meu sonho, na infância, não era ir à Disney com a Stella Barros.

Não que não gostasse do Mickey e sua turma; os gibis e desenhos que passavam na TV bastavam.

O sonho era comprar sapatos na Romão Magazine. Loja comum, popular, de bairro – mas só descobri isso muitos números de sapato depois. A Romão era a minha Louboutin. Ficava no 4974 da avenida Celso Garcia, no bairro do Tatuapé. Ou Belém, nunca soube exatamente onde começa um e termina o outro.

Nunca soube, também, por que nunca comprávamos sapatos lá. Jamais perguntei, é verdade. Tinha receio de deixar minha mãe chateada, a resposta poderia ser “É caro” – ainda que fosse loja comum, popular, de bairro. A incompreensão e a conformação também se confundiam na minha cabecinha. Nunca soube exatamente onde começava uma e terminava a outra.

Cheguei a ir à loja, acompanhando uma amiga prestes a ganhar sapatos novos. Era passeio de admiração, apenas. Como se as vitrines abrigassem obras de arte. E os sapatos fossem um tipo de obra aberta; eu até podia tocá-los e experimentá-los e andar com eles pelo tapetinho. Mas não podia levar nada para casa.

Nina cismou que quer uma roupa de uma tal loja. Achei tudo meio caro, desconversei, disse que ia pensar. Ela voltou ao assunto, outro dia. Será essa loja candidata a ser uma “Romão” da infância dela? Ter alguns pares de sonhos não-realizados, no final das contas, pode ser bom. Pedagógico. Boas memórias também são feitas deles.

E ser freguesa da Romão é não-memória, quimera antiga, não mais realizável. Ficou pequena. Primeiro, porque a loja não existe mais em seu endereço original, o que tiraria 99,9% da graça. Fica em um dos shoppings centers da região, entre os vários erguidos no pedaço enquanto meus pés cresciam e foram conhecer outros chãos. Segundo, porque hoje, depois de passear com o Google Street View pela velha Celso Garcia e ver o nada que sobrou da loja, resolvi entrar no site deles. Nenhum modelo, nem mesmo o logotipo representando o (para mim) lendário pezinho amarelo e preto, despertaram sequer uma fagulha do fascínio daqueles tempos.

Os sonhos envelhecem, sim. Preciso dar um jeito de dizer isso para aqueles mineiros.

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6 comentários sobre “Os sonhos envelhecem

  1. Adorei a sua crônica!!! Me fez voltar no tempo quando eu tinha festas de quinze anos para ir… Minha mãe e eu andávamos pelo centro de Campinas olhando vitrines e tirando modelos para essas festas! Minha mãe comprava vários tecidos e costurava as roupas! Mas meu sonho ainda era poder comprar um vestido na loja chique é cheia de brilhos do shopping Iguatemi.
    Nem lembro o nome dá loja.
    Outro episódio era o sapato dá Limonaide… Fui obrigada a comprar imitação!!!!

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  2. Eu também nunca tive um sapato da Romão… Assim como também nunca tive um All Star, sonho de adolescência que nunca concretizei. Quando sonhava, não podia comprar. Quando pude comprar, esse desejo já não existia mais em mim… Os sonhos envelhecem, se perdem no tempo, transformam-se em outros ou, simplesmente, tornam-se excelentes crônicas. Bjs

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  3. Talvez os sonhos envelheçam… Mas lembrar deles de vez em quando remoça a gente!

    (Estarei com o Lô esta noite. É sério. Se quiser, transmito a ele o teu recado. Me avise por algum inbox)

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  4. Lindo texto, dá pra sentir o que você está passando, lindo mesmo, mas discordo com a sua frase, os sonhos se afastam, nós crescemos e nos afastamos deles, tanto é verdade que quando você escreveu essa bela crônica , resgatou todos os sentimentos, nós afastamos os sonhos, mas eles estão todos alí. pelo menos os sentmemntos que os sonhos geram, e é isso que importa né?Bj

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  5. “Os sonhos envelhecem, sim. Preciso dar um jeito de dizer isso para aqueles mineiros.”
    Você é ótima. Se eles não descobriram ainda, você tem a obrigação de contar.
    Beijo!

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