A corda

pular corda
arte: Charlotte Voake

Um dia, ganhei do meu avô uma corda de pular. Não dessas de brinquedo, comuns. Corda de verdade. Seu Paschoal comprara na casa de materiais de construção. Compridona, cinco metros. Eu a levava, enrolada numa sacola, para a escola. E a brincadeira na hora do recreio estava garantida. Ninguém tinha igual. Cinco metros, meu bem.

Eu era boa de pular corda. As amigas, uma em cada ponta, começavam bem devagar e iam aumentando a velocidade. A modalidade mais rápida de todas se chamava foguinho, e não era para qualquer um – nem para quem pulava, nem para quem batia. Aprendi a entrar e sair com a corda em movimento, pensa que é fácil? Requer tanto cálculo quanto matemática, só que de outro tipo. Em matemática eu não era boa, não. Mas dava meus pulinhos.

E aquela corda virou, assim, uma espécie de unidade de medida, minha referência mental para tudo. Se eu queria calcular tamanho ou distância, bastava pensar nela. O Corcel do meu pai, que nós inventamos de pintar em casa e ficou bem feio? Uma corda de comprimento. Da sala até a cozinha? Uma corda e meia. O pinheiro da vila, plantado quando meu irmão entrou na faculdade? Ficou com duas cordas de altura, antes de ser cruelmente derrubado. Depois era só converter em metros, a unidade padrão aceita mundialmente pelos homens sérios que não entendem nada de pular corda.

Aliás, ainda se pula corda? As crianças aqui do pedaço, não. Meus filhos nem têm uma – falha nossa. Dá tristeza pensar que, um dia, isso se torne coisa do passado. Feito latim, a língua morta. A gente sabe que existe, topa com ela de vez em quando, mas não usa para nada. O que foi feito do passa-anel, da uma-na-mula, do telefone-sem-fio, da cabra-cega, do corre-cotia, da amarelinha, do esconde-esconde? Sumiram dos páteos das escolas, das ruas, são brincadeiras mortas. A vida seria mais interessante se as brincadeiras legais de ontem andassem juntas com as brincadeiras legais de hoje. Pois cabem todas numa infância. Ou, quem sabe, isso é papo furado de quem já passou dos cinquenta, de gente que ainda fala papo furado. E sobre isso eu poderia falar horas. É só me dar corda.

Ontem me peguei tentando calcular uma distância no meu quintal. Recorri, sem perceber, à velha corda. Lembrei do Vô Paschoal que, se ainda vivesse neste planeta, faria 110 anos. Tentei medir o tamanho da súbita (quase doída) saudade que me deu dele. Não houve corda suficiente.

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6 comentários sobre “A corda

  1. Belíssimo texto, Silmara. Trouxe-me lembranças de meu avô os carrinhos de rolimã que fazia para meus irmãos e eu os tomava “emprestados”. Ah, quantas recordações!! Amei!! bjs

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  2. Que maravilha entrar nesse seu baú de memórias, Silmara. Que também é meu. Seu Paschoal não imaginava que estava semeando tantos metros de lembranças incríveis em você.
    Por aqui ainda se compra corda de sisal, que é mais pesada e melhor pra pular do que as muitas de nylon pula-corda que se vê hoje em dia.
    Que tal inventar o dia de “Mergulho no Baú” com as crianças? Seria o dia semanal sem internet. Poderia ter também corrida do saco…corrida Com ovo na colher… e por aí vai…

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  3. Ah, dear, do vô Paschoal não me lembrei, mas de muitas brincadeiras da infância!! Delícia de crônica brincante! Pular corda ‘foguinho’ era quase minha especialidade, sabia? E também saiba que só o latim é morto, porque pular corda vira e mexe alguém se lembra e põe a brincadeira na roda. No Carnaval mesmo – acredite!!! – estávamos voltando do Cordão Cheiroso (aqui pertinho de casa) e tinha pessoas fantasiadas pulando corda, q tal? Entrei na brincadeira e acertei só 1 pulo. Outros tempos! E isso não é papo furado. beijos da nossa infância.

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