Crônica de minuto #62

A casa de meu sogro está à venda. Aos poucos, ela foi se esvaziando. No rateio do espólio afetivo os quadros em talagarça e as tapeçarias de Dona Jacy, os bibelôs, os LPs, os livros disto e daquilo foram ganhando novos donos e donas. Menos o anjo de ferro. Acabou ficando encostado no quintal, ninguém sabia o que fazer com ele.

Falta-lhe uma asa. É anjo deficiente.

Asas sempre vêm aos pares. É só ver as aves, os aviões. Menos xícara, que funciona bem com uma só.

Passei por ele, ao lado de outros cacarecos. Tristonho e aparentemente conformado com seu provável destino, a reciclagem. Fiquei com dó, catei. Avisei a cunhada, “Ó, está comigo”.

Agora ele vai morar no sítio. Já fez amizade com o São Francisco ao seu lado, sobre a lareira, que não fica lhe enchendo de perguntas, querendo saber o que aconteceu com a outra asa. Para ele, isso não importa. Santos são inclusivos por natureza. Anjo deficiente tem prioridade na fila para falar com Deus? Santo Antonio tem, está sempre com criança no colo.

Se alguém vir uma asa de anjo perdida, é favor contatar a família.

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