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A rua

“Street”, Lea Vervoort

As casas perfeitas eram sempre de frente para a rua. Onde, da calçada, já se entrava na garagem, e da garagem, na sala. Nessa sala, idealmente, a janela tomava a parede frontal toda, nada de janelica. E dela se podia ver o movimento lá fora: quem vinha pela calçada, quem passava de moto, de carro, os vendedores de tudo, os ônibus, os vizinhos. Glória, então, se fosse sobrado: além da escada, que eu considerava chique, o quarto da frente, sobre a sala, virava camarote.

Não fui criança de desejar viver em mansões, palacetes, nada disso. Modesta, bastava-me um sobrado geminado de frente para a rua – típico da Mooca, meu universo natal e então única referência arquitetônica – e eu estaria realizada.

Quis o destino, esse fanfarrão de marca maior, que eu fosse viver em uma pequena vila, de onde não se via absolutamente nada da rua, nem uma nesga de calçada. Ainda se fosse a casa 4, da Dona Antonia, que era a última e única alinhada ao corredor de entrada da vila. Mas não: a vida colocou-me justo na casa 1, a do canto, a mais distante de tudo e de todos. Quando o moço do biju passava com sua matraca, teleq-teleq-teleq, era preciso sair correndo para alcançá-lo já quase na esquina, pois nem sempre ele adentrava a vila para oferecer seu quitute. Quem morava de frente para a rua não passava esse apuro.

Suspirava quando ia à casa das amigas. Em frente às suas salas, seus quartos, suas garagens, se dava a adorável e mágica dinâmica da rua. Como elas deviam ser felizes! Era como pertencer à grande festa cotidiana, fazer parte do filme urbano, viver, enfim. Na vila, eu me sentia fora do cenário, do enredo, do baile.

Não que detestasse a vida na vila; ela acabava sendo uma extensão do nosso diminuto quintal, onde se podia brincar à vontade, andar de bicicleta e skate, sentar no chão e ficar conversando até tardão.

O problema surgiu à medida em que a adolescência chegava. A rua era o cosmos onde circulavam os amigos, os inimigos, os paqueras. E, da janela da nossa sala, eu não avistava nada, além do tanque onde meus avós lavavam roupa. Do quarto dos meus pais, que dava para a vila, só os fundos das casas da frente. E alguns telhados do quarteirão, com eventuais gatos zanzando. Pouco, para minha sede juvenil de acontecimentos (e pertencimento).

Movida pela quimera da moradia ideal, punha-me a desenhar, obsessivamente, casas imaginárias sob medida para a minha felicidade. Caprichava na planta, me dedicava às fachadas. Talvez tenha escolhido Técnico em Edificações no segundo grau por conta disso. Ainda bem que a opção mostrou-se, a tempo, puro delírio.

Mudei-me da vila já adulta. Outros lares vieram, e a vista para a rua nunca mais foi requisito. Os sonhos envelhecem.

Há anos moro em um condomínio horizontal, que nada mais é que uma vila grande. Retornei às origens, por deliberada vontade. Nossa casa é uma das últimas, escolhida a dedo. Quanto mais longe da rua, dos barulhos, dos ônibus, das fumaças, das buzinas, das motos, dos escapamentos adulterados, melhor. Não que tenha deixado de gostar da rua; agora, eu decido quando quero vê-la. Passei a apreciar, sem sofrimento algum, o silêncio e o sossego. A melhor coisa de se ver ao acordar, descobri, não é a rua. É um bem-te-vi carregando um galhinho no bico.

Sinto falta, porém, do moço do biju. Em compensação, tem o sorveteiro. Aos sábados, ele passa na rua de trás, anunciando no alto-falante sabores de creme e de frutas. Que eu nunca comprei.

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O terno

Seu Carlos vende biju no Balão da Bela Vista, um cruzamento importante de Campinas. Mas seu Carlos não é um vendedor de biju qualquer: ele trabalha de terno e gravata. Ele é um homem de negócios, e o negócio dele é o biju. Sua loja é a imensidão do cruzamento. Por ali passa tudo: gente rica, gente pobre, homem, mulher, criança. Se contarmos quantas pessoas passam por ali, por minuto, não tem para ninguém: não há ponto-de-venda no mundo mais bem localizado. Nem vitrine melhor: não tem começo, nem fim, ela é onde seu Carlos passar. Nem todo mundo que passa por ali está disposto a comprar alguma coisa, é verdade. Mas quem é que não repara no seu Carlos? Quem é que não é atraído pela surpresa do seu terno bem cortado?

O terno do seu Carlos desconcerta o mundo à sua volta, porque inventa um novo significado para o dress-code pobre e triste das corporações: ele não está na rua a caminho do escritório. Ali já é seu escritório. Nas ruas, o terno – inventado para padronizar, endurecer e esconder tudo, reunindo nos escritórios os que são da mesma tribo, de preferência falando e pensando igual – acaba sendo o grande elemento da distinção. Escancarando o quanto precisamos de padrões para poder viver, e aí a vida fica um tanto pobre. Ficamos surpresos com o terno do seu Carlos ali, no sinal. Porque, no fundo, temos a ideia de que quem trabalha na informalidade das ruas não precisa se apresentar bem para seus clientes.

Mas o biju. Feito de água, farinha de trigo e açúcar. Gosto nostálgico da boa infância na velha vila da Mooca. São Paulo, anos setenta. De repente, ouvia-se ao longe, na rua, o homem do biju chegando. Achava linda aquela mistura de matraca com pandeiro, o som era inconfundível. Nunca reparei direito no instrumento, mas devia ser coisa das mais simples e improvisadas. O homem (era sempre um homem, nunca vi mulher vendendo biju) começava devagarzinho, ritmado, teleque… teleque… teleque… e de repente o som crescia, tectectectectectec! Eu pedia dinheiro para minha mãe e saía correndo para alcançá-lo. Nunca mais vi um desses.

Diziam que era um cabo de vassoura que dava a forma ao biju. Eu achava a coisa meio nojenta, mas comia assim mesmo. Eu pensava que, de certo, eles lavavam o cabo da vassoura antes. E pronto. Fiquei sabendo que existe uma máquina que faz o biju ficar com aquele formato de canudo. O que, evidentemente, não tem a menor graça, já que o charme do biju é o seu artesanato, sua impureza, sua venda informal, sem nome de fabricante, nem prazo de validade, nem informação nutricional. Sem nos deixar saber se contém glúten ou gordura trans.

Sinto falta quando seu Carlos não está lá. O Balão da Bela Vista fica menos interessante.