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Melissices

melissa

Todas as meninas tinham. Eu não. Acordava e ia dormir sonhando com o dia em que eu teria a minha. Custou, mas ganhei. E então fui para a escola, altiva e radiante, de Melissa nos pés.

Desfilei-as quanto pude, para que todos notassem a novidade. Passada a euforia, as sandálias de plástico transparente (“fumê” era o nome da cor) se tornaram fiéis companheiras. Em casa, na escola, nos passeios. Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Não me recordo direito que fim tiveram, se ficaram pequenas ou se arrebentaram. Eram de tiras, fechadas atrás e na frente.

Quando surgiu, no finalzinho dos anos 70, não havia esse mar de cores e modelos de hoje, loja própria, nada disso. Era um só, objeto de desejo de dez entre dez garotas. Somente há pouco descobri que se chama “aranha”. Talvez porque o desenho das tiras lembrasse um artrópode. Podia ser usada no inverno ou no verão, com ou sem meia; o chulé era o mesmo.

Melissa, ao lado das Havaianas, é patrimônio histórico e afetivo brasileiro. Calçada por mulheres de oito meses (agora tem para bebê) a oitenta anos. Homem também usa. Democráticas, transitam por todos os ambientes sem fazer feio. São cult e cheiram deliciosamente. Está certo que, se não são recicladas depois, é um problemão para o meio ambiente. Nada é perfeito.

Nina, a caçula, gosta de Melissa. Quando a gente passa em frente a uma loja, ela fica ouriçada. Também fico. Cada uma com suas motivações. Ela, talvez porque ache os modelos bonitos, simplesmente. A isso eu acrescento a indelével carga memorial. Ela gosta de cheirar suas Melissas. Eu também. Será genético?

Ontem eu estava de Melissa. Sapatilhas da edição especial d’O Pequeno Príncipe. Dei-me conta de que, desde a primeira, tive tantas ao longo das últimas quatro décadas! Com salto, sem salto, aberta, fechada, de amarrar, de abotoar. Até tênis. Uma vez, quase comprei um par de botas, de cano longo. Desisti quando imaginei o suadouro a que me submeteria, mesmo em dias invernais. Fora o peso extra nos pés – embora Melissa valha quanto pese. Se tudo der certo, serei dessas vovozinhas sacudidas, de bengala e Melissa, dirigindo um Fusca.

Melissa e eu crescemos juntas. É parte da minha biografia. Sou, seguramente, uma das clientes mais antigas. Ah, se essa fidelidade fosse premiada. A relação é tal, que usá-la hoje causa em mim praticamente as mesmas reações de quase quarenta anos atrás, como sair da loja com aquele sorrisinho bobo. Ela ainda me dá prazer, alegria e satisfação. Chulé também.

Se, como diz a canção, as flores de plástico não morrem, as lembranças feitas dele também não.

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Os Crocs novos do meu pai

Meu pai só anda de Crocs.

Depois que descobriu o calçado que não o deixa escorregar nem em chão de ladrilho ensaboado, Seu Tonico nunca mais quis saber de outra coisa. Dia e noite, noite e dia. Primavera, verão, outono e inverno. Casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos? Crocs. E, apesar de ter outros exemplares, há o eleito.

Teoricamente indestrutíveis, os Crocs do velho Tonico contrariaram as previsões e ficaram mais gastos que pneu careca. Andou levando uns tombos, nada bom para quem tem oitenta e três anos. “Vamos comprar outro, pai?”. Declinou o convite o quanto pode; não era necessário, os deles estavam “tão novos”.

Foi difícil convencê-lo. Aliás, anda difícil convencê-lo de muitas coisas, ultimamente. De atualizar a dentadura, de afrouxar o cinto (um medo inexplicável de que as calças desabem). Na velhice, ou se convence de tudo, ou se convence de nada. Nada importa, tudo importa ou importa de um jeito diferente do senso comum.

Meu pai foi sapateiro na juventude. Primeiro emprego quando chegou a São Paulo, anos cinquenta. Alguém lhe arrumara trabalho em uma fábrica – Calçados São José, ele nunca esqueceu. Assim como ainda se lembra dos termos que envolvem seu feitio: cabedal, balancim, cambrê. Ganhasse hoje um pedaço de couro e solados de borracha, talvez confeccionasse os próprios chinelos. (Que seriam inúteis, ele não usa chinelos. Só Crocs.)

Por conta da antiga profissão, meu pai não é freguês comum e costuma dar uma aula de sapataria aos vendedores. No dia de ganhar os Crocs novos, ele pôs a vendedora doida. Não deixou a mocinha ajudá-lo a calçar, pois ela não estava fazendo aquilo direito.  Explicou a engenharia da peça, discorreu sobre como se escolhe um calçado novo, a distância correta entre o fim do dedão e o limite do sapato. Experimentou vários modelos, deu voltinha na loja, analisou e deu o veredito: “Gostei deste”. A equipe da loja, compadecida, respirou aliviada.

“Já vai com ele, pai!”. E, para não correr o risco de ele voltar a usar os Crocs gastos, eu e meu irmão inventamos que a loja dava cinquenta por cento de desconto se ele deixasse o par velho para reciclagem. A vendedora entrou na onda e também tentou persuadi-lo. Não funcionou: ou ele levava seus amados Crocs para casa, ou nada feito.

Como pais rendidos diante da birra de seu rebento (porque toda história se inverte, um dia), cedemos: “Tá bom, pai. Leva.” E lá foi ele, feliz da vida, carregando seus velhos e fiéis companheiros nos braços, os novos companheiros nos pés. Que ninguém chegasse perto da sua sacola; Seu Tonico rosnava.

Desde aquele dia, os Crocs novos estão no armário, ao lado dos velhos. Não saem de lá nem para buscar o jornal. Acabou pegando emprestado de alguém outros Crocs, usados, feiosos. E é com esses que ele agora vai pra cima e pra baixo: casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos. Se lhe perguntam onde os arrumou, ele diz que ganhou. E mostra, orgulhoso, o solado antiderrapante.

Quem derrapa sou eu, na paciência.

Mas meu pai está feliz. Então eu também vou ficar.

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Nota: para quem quiser saber mais de Seu Tonico: https://fiodameada.wordpress.com/2014/04/25/meu-pai/

Sem pé, nem cabeça

Ilustração: Kenny Cole/Flickr.com

Não entendia como tanta gente perdia o sapato ao atravessar a rua. Menos ainda, como é que alguém poderia deixá-lo para trás. A pessoa não voltava para apanhá-lo, passado o carro e o susto. Ia para o trabalho ou para a escola assim, com um pé faltando. Faria o quê, depois, com um só? Sapatos não sobrevivem no ímpar, perdem a serventia. Ou nem todos.

Todo dia, em seu caminho, via um modelo diferente abandonado no meio-fio. Tênis, sandália, sapatilha, bota, chinelo. De homem, mulher, criança. Escaparam dos pés na travessia arriscada, “Olha o ônibus!”. Desde então, ficaram órfãos do irmão. Largados ao Deus-dará. Às vezes, virados para baixo, em claro prenúncio de mais azar por vir.

Rua não tem departamento de achados e perdidos. Sendo assim, o catador de papéis recolhia os pés avulsos que apareciam. Quem sabe, qualquer hora,  não toparia com os pares? O pessoal da limpeza, já acostumado, nem interferia. Para não levar bronca. Enquanto isso, ele aproveitava o que dava para uso próprio. Mocassim marrom no pé esquerdo, bege no direito, qual o problema? Sua única exigência era que calçassem o respectivo pé – um mínimo de dignidade, por favor. Ressentia-se por não poder usar os tênis lançados nos fios da rede elétrica. “Um desperdício, brincadeira de mau gosto”, rosnava, enquanto dispunha os pés solitários em seu carrinho, com esmero de vitrinista.

Certa vez, achou um sapatinho lilás de bebê-menina. Torceu para encontrar o par, assim guardaria para a netinha que nasceria no mês seguinte. Não encontrou. Mesmo assim, lavou-o com cuidado e costurou as florzinhas azuis de pano, quase despregadas, castigadas pelo vento e pela chuva. Na maternidade, serviu de enfeite de porta, anunciando a chegada da pequena Beatriz.

Só não pôde visitá-la. Foi barrado na portaria pelo segurança que o olhou atravessado. “Onde já se viu uma coisa dessas, meu senhor? Um sapato diferente do outro!”